Encostado nas paredes da cozinha escutando a mais brilhante e perfeita sinfonia a ser tocada por nós, seres humanos lúcidos e pensantes, louças e talheres gritando ao bater na pia de inox, liquidificador mostrando toda sua potência por um molho aioli, água versus boiling point, um lindo bife entrando no ferro quente criando a reação de Maillard que todo cozinheiro que brinca com fogo gosta, a sineta tocando incessantemente. Um belo dia de trabalho, nos disseram.
Engolindo a ultima colherada do primeiro prato de comida do dia, as 19h da noite de uma sexta feira interminável, quando ela, ríspida como uma rosa e debochada como meu pai, ao falar que trabalhar com comida só da dinheiro ao seu patrão. Ela entra na cozinha e fala:
- É impressionante a incapacidade de vocês, em pleno fim de semana, uma sexta feira cheia. Por que não temos bolinho de baroa? - ela me pergunta.
- Não foi feito o pedido essa semana, avisei que precisaríamos, temos damasco e brie, mas não chegou a baroa junto com o resto de hortifruti está no seu whatsapp, eu te comuniquei - respondi, calmo e firme.
Ela saiu afundando o chão e batendo a porta do escritório, erro dela, ponto pra mim. Na real, ponto pra ninguém, horrível trabalhar com o que não se tem, simplesmente, não trabalha.
Ouço alguém na boqueta cantar um pedido que havia acabado de sair da recém trocada impressora, o salão lançou o bendito bolinho de batata baroa com queijo brie e geleia de damasco. Porém, mais cedo, fui bem categórico dizendo que não teríamos esse produto hoje e como, geralmente, o pessoal do atendimento precisa de visualizar algo desenhado ou escrito, desenhei e escrevi na parede branca manchada que servia única e exclusivamente para isso, ao lado da soltura dos pratos.
- Como vou saber que bolinho de batata é o bolinho de batata baroa? - Jorge disse.
- Temos outro bolinho de batata além do único? - perguntei.
Ele com cara de ponto de interrogação demorou 10 segundos para entender, mais 10 minutos para cancelar e 15 minutos para voltar na mesa do cliente levando outra entrada. E ainda assim levando seus 50 reais de gorjeta, por seu carisma e bom papo.
O primeiro estresse com salão no turno da noite era Jorge, um cara legal, bom de conversa e de cama, mas bem burrinho, encantador na medida do possível. O corpão de pai de familha, que me deixava louco todo dia querendo entender o motivo de um macho como aquele não estar casado e trancafiado num porão pra ninguém mais poder cobiçar.
Demorou um pouco, pois não sou nada sociável, mas assim que comecei a me enturmar com a galera do trabalho, ele viu a tão sonhada chance de poder me atrair aos seus gracejos.
Ele meio bebado num final de expediente em que bebíamos algumas cervejas, me chamou ao vestiário e me pediu um beijo, sem mais, nem menos. A carne caiu no prato do carnívoro dessa vez, eu não neguei fogo, dali fomos pra um motel da vida, fizemos algumas brincadeiras gostosas e perigosas, mas hoje vejo que não vai passar disso, acho até melhor, pois preservar nossa grande amizade é a melhor opção. O cara é legal demais. Isso é uma ótima qualidade.
Na cozinha, nossa pequena família do turno da noite, todos nós entramos às 17h até as 00h que é nossa saída, num exponencial polo gastronômico que crescia juntamente com o bairro proeminente.
Ivo era o chef da cozinha, tinha um horário intermediario, ele largava, eu assumia a boqueta.
Ele ao ver o que havia acontecido nada fez e nada irá fazer, não acho que por falta de interesse, mas ele não tá dando mais a mínima, quer ser mandado embora. Isso não é segredo pra ninguém.
Somos 5 na cozinha do turno da noite, Ivo, Chayana, Beto, Kaua e eu. Kaua era o pia, o mais novo da galera, até pq ninguém para nessa função, e o mais novo também, pois deveria ter uns 22 anos e não poderia falar em mulher com o Beto, que já ficava inquieto com a pica tremendo.
Beto, eu e Chay, na soltura de pratos e Ivo na boqueta.
Um fato que gostaria de compartilhar com vocês que não são do ramo, masterchef só parece realidade nos momentos de prova em equipe, quando tudo parece que vai dar errado, aquilo é de verdade… Realmente não sei o motivo de estar tão empenhado em trabalhar em cozinha, quase tudo te gera dor de cabeça e estresse, com certeza estressa.
- Hoje vai rolar bolinho? É aniversário da Jhulinha, a gente poderia bater um parabéns pra ela no final do expediente. - Chay me pergunta.
- Cara, acho que ainda temos bolo congelado do café da manhã, podemos sim, mas pergunta ao Ivo, isso precisa ser aprovado por ele. - eu falo.
- Mas você é quem faz os bolo, você que deveria decidir e ela merece muito - Kaua solta rindo.
- Não funciona assim, gente. Além do mais, seu safado, sei bem o por que desse empenho todo em querer agilizar uma comemoração pra ela. Te aquieta que ela é novinha tbm, mas tem muito juízo e namora. - adverti.
Eu super gostaria de celebrar o aniversário da Jhulia, nossa recepcionista, foi a primeira a me acolher nesse lugar e já tá fazendo um ano desde que entrei.
As 21h, salão lotado com fila lá fora, comandeira fazendo cortina de pedidos, trigésimo nono prato a ser tirado por mim, uma dor no pé que só um nimesulida ou diclofenaco me ajudaria no fim da noite e ainda faltavam 2h para saideira da cozinha.
- Cadu, solta só esse meio galeto ao molho de tamarindo e depois preciso que fique na praça das sobremesas, pois temos muitas aqui pra sair. - Ivo cantou.
- Sim, chef. Vou lá pra dentro, me passa pelo rádio, por favor - dei graças ao universo, pois tínhamos uma espécie de mini câmara fria onde finalizávamos as sobremesas, um lugar fresco era o que eu precisava.
Sou responsável pelas sobremesas do restaurante, mas algumas coisas do cardápio quente estava na minha responsabilidade também. Essa semana temos no menu, uma banoffe na massa folhada com creme de cumaru e mel brasileiro. estupendo.
Fábio era um dos sócios do restaurante, chegou bebado na cozinha varado de fome depois de ter ido assistir o jogo de futebol com os amigos, tão ricos quanto… cumprimentando todos, veio falar comigo, três tapas pesados nas costas me fizeram respirar fundo e olhar para Ivo, nada fez, nada irá fazer. Era uma pessoa boa, porém precisava existir limites.
Pedi 5 minutos para desacelerar e fui na rua, eu não fumo diariamente, mas estava no meu terceiro cigarro já, bastou eu acender o esqueiro que na minha frente começou uma briga generalizada no bar da frente. Uma dica, na noite, enquanto todos saem pra beber e se divertir, prestem atenção aos trabalhadores de bares e restaurantes ao seu redor, eles estão prestando atenção em vcs, com toda certeza.
E ali estava ele, na última mesa da calçada do bar vizinho ao nosso, sozinho, bebendo uma heineken de 600ml, um rosto expressivo, não sei explicar, pernas abertas num jeans aparentemente pesado, camisa preta e boné preto, o cara era enorme, bração, pernão, mãozona e pezão me fizeram pensar alguns pensamentos que em hipótese algumas comentaria com outra pessoa… não eram propriamente músculos, ele era grande, barriguinha marcada na camisa ligeiramente justa peitão largo e ombros marcados, tinha uma barba crescendo ali que não via um barbeiro há alguns dias, não era feia, dava até um charme, daí então me dei conta que eu prestei atenção demais, o cara tava me encarando agora, cara fechada e uma sobrancelha arqueda, tipo: “qual foi viado?”. Terminei o cigarro e entrei pra cozinha.
Haviam três semanas que eu estava para folgar num sábado do mês, ainda hoje eu vou ter que bater o pé com o Ivo e pedir para descansar amanhã, eu pensei.
Por incrível que pareça ele veio ter comigo no vestiário e me liberou para folgar nesse sábado, desde que, domingo eu pegue no primeiro horário, pois ele não estaria na parte da manhã. E todo domingo servimos café da manhã. Assenti com a cabeça que sim e falei que não havia problema algum.
Agora, outra sinfonia, a do fechamento, uma faxina geral todas as noites não é para qualquer um. Fechamento é FODA!
Fim de expediente, cozinha fechada, precisei tomar um banho, mas tive que pôr a roupa de academia de hoje pra ir embora, eu estava saindo pela porta lateral do nosso estabelecimento, onde nós recebemos toda nossa mercadoria e de onde eu estava olhando o moço com cara de poucos amigos, dessa vez ele estava em pé próximo a uma arvore fumando, ainda sozinho. Precisei andar até bem perto da árvore também, pois quase sempre pego um motoboy para ir para casa, já estava esperando alguns minutos no aplicativo procurando uma moto, nesse horário é um pouco mais difícil.
Ele deu uns passos e veio falar comigo, voz grossa, um pouco alto já, mas na maior tranquilidade me perguntou o motivo de eu estava olhando tanto para ele. Pedi desculpas, mas não expliquei, fiquei com medo, dei dois passos pro lado. Ele insistiu.
– O que achou de mim? — Ele falou ajeitando a pica e cruzando os braços na minha frente, instantaneamente fiquei vermelho.
– Desculpas, amigo, mais uma vez. — Eu disse novamente, hiper envergonhado, querendo sair daquela situação.
– Porra, responde, tô te perguntando na moral. — Ele falou ainda amistoso, enquanto tragava.
– Bem, achei você bem atraente sim. — Acabei cedendo. Eu normalmente ficaria mais desinibido, entrava na brincadeira quando encontrava algum macho tal qual esse, não deixava passar. Todavia, eu estava com medo e meu coração estava muito acelerado. Ele estava com um perfume muito bom, perfume de homem.
Ele andou mais pra perto do meu lado, veio no meu ouvido e falou bem tranquilo o que ele queria falar.
– Vi você me olhando há pouco tempo atrás, eu não como viado, mas a minha pica começou a dar sinal de vida te olhando assim — Ele teve coragem de falar isso comigo? — Pensei.
– Assim como? – Fiquei nervoso.
– O homem que não conseguir olhar pra essa tua bunda nesse shortinho de viado só pode estar cego. – Quer beber uma? – Ele perguntou
– Vou ter que deixar pra outro dia, amigo, obrigado. – Eu, sem entender nada, falei.
– Caralho, tô tomando fora até de viado? tá salgada mesmo a pista. – Ele riu um pouco constrangido.
– Tchau, amigo! boa sorte. — Ele ficou com cara de idiota e minha moto havia acabado de chegar sendo salvo pelo gongo.
Cheguei em casa, tomei outro banho, deitei pelado mesmo e apaguei.