Me Despedace - Capítulo Três

Um conto erótico de M.K. Mander
Categoria: Gay
Contém 5256 palavras
Data: 05/05/2026 00:54:02
Assuntos: Gay, Homossexual, máfia

**** TEX ****

Trim. Um toque constante, irritante e insistente. Ele se infiltrou no sonho que eu estava tendo; gemi enquanto esticava o braço, tateando o criado-mudo em busca do celular. Por instinto, atendi e pressionei o aparelho contra o ouvido.

— O quê? — resmunguei. — Bom dia. Este é o seu serviço de despertador das cinco e meia. O café da manhã será entregue em vinte minutos. Deseja mais alguma coisa?

Abri um dos olhos. Que porra está acontecendo? Ao me mexer na cama, minhas pernas roçaram em lençóis que definitivamente não eram do tipo vagabundo que eu comprava em liquidação. Tudo doía. Passei os dedos pelo cabelo e esfreguei os olhos, tentando fazer meu cérebro funcionar.

— Senhor? — Hein? Não — murmurei. Conforme olhei em volta, a noite anterior voltou como um raio. — Merda!

Desliguei enquanto a mulher perguntava se eu estava bem. Tudo o que eu conseguia pensar era no fato de estar em um quarto de hotel estranho. E na verdade mais apavorante de todas:

Eu tinha fodido com o inimigo ontem à noite.

Levei a mão para trás, toquei minha bunda e sibilei de dor. Parecia que eu ainda conseguia senti-lo dentro de mim, alargando meu rabo e me fodendo até eu entrar em um estado de estupidez total. O cheiro da colônia dele ainda pairava no ar, e eu ainda sentia a faca dele pressionada contra o meu pau, arrastando-se pela minha carne enquanto ele me encarava com aqueles olhos castanhos profundos. Havia uma pulsação em volta do meu pescoço, onde ele tinha me sufocado até eu ter certeza de que ia morrer.

Estremecendo, me forcei a sair da cama dele. Percebi que ainda estava abraçado a um travesseiro e o joguei longe, espalhando o cheiro do perfume dele pelo ar. Meu pau deu um solavanco involuntário, e eu sufoquei um gemido. A noite passada não tinha saído nada como o planejado. De alguma forma, Enzo tinha entrado na minha mente e me transformado em uma cadelinha de cabeça oca.

Esse pensamento fez meus ovos doerem.

— Porra! — explodi.

Procurei minhas roupas e lembrei que estavam penduradas no armário da entrada. Fui até lá, arranquei-as dos cabides e deixei uma pilha deles no chão antes de ir para o banheiro.

— Eu sou muito burro — resmunguei.

Acendi a luz e encarei meu reflexo. Como diabos ele tinha entrado na minha cabeça daquele jeito? Como ele soube que eu tinha decorado o código do elevador? Eu tinha um milhão de perguntas sobre Enzo, mas não conseguia pensar além do latejar constante e dolorido no meu cu.

Antes de qualquer coisa, eu precisava tirar o cheiro dele de mim. Ele persistia, infiltrando-se no meu nariz e me dando vontade de arrancá-lo da minha pele com as unhas. Liguei o chuveiro e esperei esquentar. Assim que entrei, procurei os frasquinhos de cortesia de sabonete e shampoo do hotel.

Eu não consegui informação nenhuma. Apoiei as mãos nos azulejos frios da parede e pensei no que fazer a seguir. O risco tinha valido a pena, mas a recompensa não. Mas agora que eu tinha Enzo Vitale na mira, eu sequer conseguia imaginar a ideia de desistir e me afastar dele.

Ele era meu.

Minhas mãos percorreram meu corpo, e tentei expulsar as memórias dele da cabeça. Conforme meus dedos deslizavam pelo meu buraco, eu conseguia senti-lo pressionado contra mim, o calor da respiração dele batendo na minha orelha enquanto ele me usava com a mesma maneira segura e precisa com que se portava. Parte de mim queria desvendá-lo, vê-lo perder a compostura e rir do resultado.

Saí do banho antes de me deixar levar demais por aquele buraco sem fundo. Assim que saí do box enfumaçado, minha mente se acalmou e foquei na tarefa em mãos. Vesti minhas roupas e comecei a vasculhar. Revirei cada centímetro do lugar, mas, como eu suspeitava, não havia nada. Sem fotos, sem notas, sem tecnologia para bisbilhotar. Enzo Vitale era meticuloso.

— Merda — resmunguei.

O som de batidas na porta me fez buscar minha arma, mas lembrei que a tinha deixado trancada no porta-luvas do carro. De jeito nenhum me deixariam entrar no Blu armada. Caminhei cautelosamente até a porta, com os pelos da nuca em pé.

— Serviço de quarto!

Meus ombros relaxaram um pouco. Olhei pelo olho mágico e vi um homem com um carrinho. Suspirando, segurei a maçaneta. Vê se relaxa! Está tudo bem!, eu disse a mim mesmo, mas ainda estava em alerta máximo. Lentamente, abri a porta e o homem sorriu para mim.

— Seu café da manhã, senhor — disse ele. — Deseja que eu coloque lá dentro? — Claro — murmurei, completamente sem palavras. — Mas eu não pedi nada disso. — O Sr. Vitale organizou tudo e já deixou pago — disse ele enquanto servia uma xícara de café. — Deseja algo mais?

Pisquei para ele. — O Enzo fez isso? Ele assentiu. — Tá — eu disse devagar, pegando a caneca branca e franzindo a testa. — E onde ele está agora? — Partiu — respondeu ele secamente.

Ergui uma sobrancelha. — Partiu para onde? Ele vem aqui sempre? Este lugar é dele? Ou é apenas algum lugar onde ele passa a noite de vez em quando?

O sorriso permaneceu grudado no rosto do homem, mas os olhos dele mudaram. Por um breve momento, o olhar dele percorreu o quarto como se estivesse esperando que alguém pulasse dali. Quando ele me olhou de novo, eu o encarei fixamente, esperando uma resposta.

Ele mudou o peso de um pé para o outro. — Tenho certeza de que o Sr. Vitale pode responder a quaisquer perguntas que o senhor tenha para ele.

Certo. Eu não ia conseguir porra nenhuma daquele cara. Assentindo, encarei-o até que ele saísse da suíte o mais rápido que um ser humano consegue. Balancei a cabeça, preparei meu café e olhei para o banquete deixado para mim. Eu não queria comer a porcaria que o Enzo tinha pedido, mas meu estômago roncou, deixando claro que não dava a mínima para o que eu queria.

Peguei uma torrada e fui procurar meu celular. Estava exatamente onde eu comecei, na mesa de cabeceira, como se eu o tivesse colocado ali — mas eu tinha certeza absoluta de que não tinha feito isso. O Enzo fez?

Peguei o aparelho e olhei as horas. — Puta merda. Tenho que trabalhar.

Rourke ia me matar se eu chegasse atrasado. Ignorei a leve pulsação na minha cabeça, corri até o carrinho de café e fiz um prato rápido. Dentro do elevador, pedi um Uber enquanto enfiava ovos e bacon na boca como um esfomeado. Quando as portas se abriram, uma mulher estava na frente e fez uma careta para mim. Limpei os farelos do rosto, sorri com as bochechas cheias e murmurei um pedido de desculpas enquanto passava por ela.

Deixei o prato no balcão da recepção. — Desculpe, não sei onde isso deve ficar. Se o Enzo Vitale voltar, pode dar um recado para ele? A mulher piscou. — Ahn, sim, senhor. — Na verdade, é melhor eu escrever.

Ela me passou um bloco de notas adesivas e eu escrevi uma mensagem rápida. Quando devolvi, ela arrancou o papel e o colocou em um envelope. Tive que admitir: fiquei impressionado por ela não ter lido. Eu teria lido.

— Seria apenas isso, senhor? — É. Valeu — eu disse.

Durante todo o trajeto de volta para o meu carro, não conseguia parar de pensar no Enzo. Ele era um babaca, maníaco por limpeza e esquisito, mas, caramba, eu não conseguia tirá-lo do meu cérebro. Meu pau implorava por mais uma rodada. Ele era uma criatura perigosa e selvagem que não seguia nenhuma norma social. No entanto, eu não conseguia pensar em nada além da mão dele no meu quadril e da voz dele rosnando no meu ouvido.

— Ah, sai da minha cabeça logo, porra! — Com licença? — O motorista olhou pelo retrovisor, com os olhos cerrados. — Desculpe, falando sozinho.

O homem franziu a testa. — Se você estiver drogado, vou te botar para fora do meu carro. Não vou lidar com essa merda de novo — resmungou.

Gemi internamente e me desculpei profusamente até que ele parasse de me encarar feio. Ótimo, eu estava começando a fazer as pessoas acharem que eu era louco. Talvez eu estivesse perdendo o juízo mesmo, porque de que outra forma eu teria acabado nessa situação? De perseguir Enzo Vitale a dar o rabo para ele, quando foi que eu decidi que isso era uma boa ideia?

Tira ele da cabeça. Foi a primeira e última vez que isso aconteceu.

Empurrei todos os pensamentos sobre Enzo Vitale para bem longe enquanto corria para o meu carro. O tempo estava passando e eu precisava de foco. Estacionei de qualquer jeito e entrei no meu apartamento correndo. Vesti meu uniforme, dei um carinho no meu gato, Penelope, atrás de suas orelhas perfeitas, o alimentei e saí de casa como se minha bunda estivesse pegando fogo.

Vinte minutos depois, eu estava na delegacia. Bati o ponto e me joguei no banco do passageiro da viatura, ofegante. Rourke olhou para mim com a sobrancelha escura erguida. Fechei a porta e encarei de volta.

— O quê? — perguntei. — Você está atrasado.

Gemi. — Nem começa. Tive uma noite longa. Rourke resmungou. — Estou vendo. Tem uma marca aí. — Ele apontou para o próprio pescoço com a caneta. — Bem ali.

Encarei-o horrorizado por um segundo antes de pegar meu celular e olhar meu reflexo na câmera. Ele tinha razão. Não era um chupão nem nada do tipo, mas uma linha vermelha que se destacava na minha pele. Estava exatamente onde o braço de Enzo tinha se enrolado na minha garganta — naqueles momentos sufocantes e aterrorizantes em que achei que ele ia me matar, apenas para ele me soltar e me foder com toda a força. Meu pau deu outro solavanco. Quieto, garoto.

— Onde você foi ontem à noite? — Rourke perguntou, me fazendo desligar o celular. — Eu sei que você voltou para cá depois que eu mandei você ir para casa.

— Não tinha motivo para eu ir... Ai! Seu filho da puta! — rosnei entre dentes quando o punho de Rourke bateu no meu ombro. — É, foi o que eu pensei — disse ele. — Idiota. — Ah, vai se foder — retruquei. — Eu ainda consigo fazer meu trabalho. — Até alguém agarrar seu braço do jeito errado, você se mijar de dor e acabar com uma bala na cabeça.

Rourke era um bom amigo e um ótimo parceiro, mas às vezes eu queria dar um tapa nele. Ele era tão rígido e certinho quando queria.

— Eu estou bem — enfatizei. — Sim, dói, mas eu consigo trabalhar com dor se precisar. Beleza?

Rourke resmungou e ligou o carro. Aquilo era o máximo de concordância que eu ia conseguir e eu sabia disso. Peguei meu celular, verifiquei minhas mensagens e abri um bloco de notas. Enzo Vitale. Organizado. Forte. Percebe as coisas. Louco pra cacete. Era uma boa lista, mas curta. Eu precisava de mais. Eu precisava me encontrar com o Enzo de novo.

Pensei no bilhete que deixei para ele. Foi curto, preciso e direto ao ponto. Apenas duas palavras:

Vá se foder.

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**** ENZO ****

Os sons da cidade eram abafados nos subúrbios. Era possível quase acreditar que se estava em um universo totalmente diferente. Não havia buzinas estridentes, a névoa da poluição ou luzes de neon cegantes. Em outra vida, talvez eu vivesse em um lugar tão calmo. Mas esse não tinha sido o meu destino. O ruído constante e os cheiros eram o meu lar, algo ao qual eu havia me acostumado.

Empurrei o portão dos fundos; a madeira estava pintada de preto recentemente e os arbustos ao redor haviam sido aparados há pouco tempo. Alguém tinha muito tempo livre nas mãos.

Brinquedos espalhavam-se pelo quintal: um pula-pula, um caminhão de bombeiros perto do balanço e uma pá em uma caixa de areia que tinha areia derramada ao redor. Meus olhos tremeram enquanto todo o meu foco era atraído para a areia irregular. Não era importante e, ainda assim, caminhei até a pequena caixa.

Eu precisava de algo mais para focar, algo familiar que não estivesse fora de lugar e que não instigasse minha necessidade de consertar ou despedaçar tudo. Alcancei o interior do meu casaco e as pontas dos meus dedos roçaram o metal frio da minha Staccato 9mm. Era familiaridade e perfeição.

Minha mão envolveu a arma e a puxou. O luar brilhou no topo dela; até o céu parecia hipnotizado por sua beleza. Respirei de forma compassada, lembrando passo a passo como eu a havia desmontado e limpado. Meus dedos moviam-se sobre a arma como se estivessem acompanhando minha memória.

Senti-me mais no controle a cada segundo. Desviei-me da distração e me voltei para a casa. A luz da varanda dos fundos acendeu-se no momento em que a porta se abriu.

— Só estou tirando o lixo.

O homem que eu estava lá para ver saiu de casa. Como se sentisse um predador em sua presença, ele paralisou; seu olhar varreu o quintal até que seus olhos caíram sobre mim. Não houve necessidade de me apresentar. O reconhecimento surgiu em seus olhos castanhos no instante em que os nossos se encontraram.

— Não faça isso aqui — Johnny McDowell suplicou.

Eu era um monstro, mas não era um monstro desleixado.

— Não se preocupe. Não pretendo espalhar seu sangue pelo seu gramado recém-cortado. Diga a eles que você tem que sair.

Johnny caminhou até a lixeira e jogou o saco dentro. Eu ainda mantinha minha arma em punho, mas ele não fez menção de correr. Ele sabia o que era melhor. Sua família seria usada como garantia, e Johnny não era homem de colocar os seus em perigo.

Ele caminhou de volta para a porta, com os ombros para trás, mantendo-se ereto em seus um metro e noventa e três de altura. Se quisesse, ele poderia lutar comigo e correr. No entanto, ambos sabíamos como aquilo terminaria. Eu era conhecido por derrubar homens com o dobro do meu tamanho.

Johnny abriu a porta, mantendo o corpo do lado de fora enquanto gritava para dentro.

— Estou saindo, querida.

— A esta hora da noite, Johnny? — A voz aguda dela arranhou meus tímpanos.

Guardei minha arma, não precisando mais de uma âncora para lidar com pequenos aborrecimentos.

— Não comece, Linda.

Johnny recuou e olhou por cima do ombro. Nossos olhos se encontraram brevemente antes de ele deixar a porta de tela fechar e seguir para o portão dos fundos. Passos vieram de dentro da casa suburbana antes que a porta dos fundos fosse escancarada.

— Quando você volta? — Linda gritou. Seus olhos verdes brilhantes pousaram em mim e o entendimento surgiu. Seus lábios pintados de rosa se apertaram em uma linha fina. — Os meninos...

— Linda, entre na casa agora — Johnny disparou.

Ela parecia pronta para discutir, seus olhos suplicantes nunca se desviando de mim.

— Os meninos precisam do pai.

Se ela achava que estava tocando meu coração, estava redondamente enganada. Eu nem tinha certeza se possuía um.

— Linda, entre, por favor.

Ela me encarou por mais um tempo antes de se voltar para o marido. Despedidas emocionadas eram outra coisa que eu não entendia nos humanos. Ela sabia que este dia chegaria. Mesmo que não fosse eu trazendo a morte à sua porta, seria outra coisa. Um acidente de carro, um ataque cardíaco, qualquer coisa.

— Johnny. — A voz de Linda quebrou, e Johnny olhou para mim.

Não demonstrei nada, não me importando se ele prolongaria aquilo ou se apressaria. De qualquer forma, o fim dele estava próximo e seria pelas minhas mãos.

Ele se virou, marchou até ela e a puxou com força contra si. Ele era pelo menos trinta centímetros mais alto que ela. Enquanto Johnny aparentava estar na casa dos quarenta anos, Linda ainda tinha o visual jovial de uma mulher de vinte. Eu não passava de um observador. Ela se agarrou a ele, o desespero em seus olhos enquanto ele continuava a me espiar.

Ela sussurrou para o marido, mas não significava nada. Johnny conhecia o resultado. Ele havia assinado a linha pontilhada. E eu estava lá para cobrar.

Johnny se afastou e limpou a garganta. — Entre na casa. Eu te amo.

Linda suspirou e cobriu a boca. Lágrimas rolaram por suas bochechas e desapareceram atrás de sua mão. Ela se virou e correu para dentro de casa. A porta bateu e Johnny soltou seu próprio suspiro pesado. Ele encarou a casa por mais um segundo antes de se virar e seguir em direção ao portão dos fundos.

Ele parou e olhou para mim. Eu sabia que ele faria algum tipo de exigência. Eles sempre faziam.

— Minha família fica fora disso.

— Isso depende de você — respondi com sinceridade.

Ele se virou e me encarou. Talvez, se eu fosse uma criança, seu olhar duro teria me assustado. Mas ele não passava de um homem acostumado a ter poder e que agora estava impotente.

— Vamos acabar logo com isso — disse Johnny.

Seguimos em direção ao carro dele e deslizei para o banco do passageiro. Havia um motivo para eu tê-lo escolhido primeiro entre todos os nossos informantes. Johnny tinha sido o melhor. Se não fosse pelo deslize de seu parceiro, ele ainda estaria na corporação. Eu não suspeitava que ele fosse o rato, mas Benito não aceitaria meu palpite como uma resposta definitiva.

Orientei-o sobre para onde ir. Quanto mais nos afastávamos da cidade, mais a excitação fria e eletrizante formigava sob a superfície da minha pele. Johnny não tentou puxar conversa e, por isso, eu não cortaria sua garganta apenas para assisti-lo sangrar até a morte. Eu podia ser misericordioso.

— Aqui — eu disse.

Paramos em um dos muitos prédios abandonados que possuíamos sob alguns pseudônimos. Johnny resmungou e colocou o carro em ponto morto. Seus dedos tamborilavam no volante, sem fazer menção de sair.

Não tente fugir.

— Minha família...

— Depende das suas respostas.

Johnny assentiu e saiu do carro. Fiz o mesmo, aspirando o ar estagnado da noite. As estrelas brilhavam no céu, uma visão que não estava disponível na cidade ou mesmo no subúrbio. Muita poluição luminosa.

Admirei-as por mais um segundo antes de caminhar atrás de Johnny. Meu telefone vibrou e enviei a confirmação para os meus homens. Eles estariam lá em exatamente quinze minutos. Ter um tempo definido sobre minha cabeça fazia com que toda a tensão se esvaísse do meu corpo. Havia algo em estar confinado em um quadrado organizado de tempo. Eu não passaria do limite, nem terminaria rápido demais.

— Sente-se. — Apontei para a única cadeira na sala.

Ele olhou ao redor e eu soube que seus olhos captaram alguns dos homens que já estavam lá. Eles caminhavam silenciosamente, mantendo-se fora do meu caminho.

— Eu nunca mencionei meu acordo — Johnny começou.

— Eu sei.

Seus ombros caíram quando ele se sentou na cadeira de metal. O buraco no teto estava perfeitamente posicionado sobre sua cabeça. O luar brilhava sobre ele, como se a morte estivesse ali para cumprimentar Johnny e recebê-lo na vida após a morte.

— Isso não muda o fato de você ter sido exonerado da força.

Johnny mofou. — Exonerado? Mais para demitido. Eles não conseguiram provar nada pesado contra mim, apenas alegações. Eu era um policial bom pra caralho.

— Se isso fosse verdade, eu não estaria na sua frente agora.

Os punhos de Johnny se cerraram sobre as coxas e ele desviou o olhar. Era a verdade. Por que ele agia como se o que eu disse fosse tão errado?

— Meu parceiro confessou ter ignorado alguns casos. — Johnny deu de ombros. Seu parceiro já havia sido resolvido. Arnold Keys morreu com um tiro autoinfligido na cabeça.

— Quem está investigando minha família?

Johnny deu de ombros. — Todas as forças-tarefa foram encerradas após o fiasco de dois anos atrás. Ninguém quer um banho de sangue. Muitos inocentes morreram sem justiça. — O músculo de sua mandíbula latejou enquanto ele desviava o olhar de mim.

Essa palavra tinha pouco significado nesta vida. Vingança era o que ele queria dizer. Ele era todo focado em justiça, exceto quando precisou de ajuda com o filho doente. Então, de repente, a justiça não era tão importante.

Eu odeio policiais. São o pior tipo de lixo humano. O rosto de Tex brilhou diante de mim e meu estômago se contorceu de desconforto. Talvez nem todos os policiais. Fora apenas uma noite e um brinquedo com o qual eu não voltaria a brincar. No fundo, eu esperava que isso não fosse verdade.

— O que você pode me dizer?

— Quero que minha família receba dois meses do que vocês estavam me pagando — Johnny retrucou.

— Tudo o que o seu tipo faz é tirar.

Eu poderia fazê-lo falar, mas Benito disse nada de diversão. E agora, eu poderia me perder no sangue, perdendo qualquer informação que ele pudesse ou não entregar.

— Um. — Levantei a mão, interrompendo suas negociações. — Já é generoso. A menos que esteja disposto a nos vender sua esposa, eu pararia de negociar por mais dinheiro que eles não conseguirão pagar.

Johnny calou a boca e assentiu. Ele soltou um suspiro enquanto se recostava. O raspar da cadeira contra o chão de concreto ecoou pela sala enquanto ele a empurrava para trás.

— Havia boatos sobre o novo prefeito querendo derrubar uma família do crime para ser reeleito. — Johnny balançou a cabeça. — Políticos de merda. Até onde eu sei, o chefe descartou a ideia de uma força-tarefa por enquanto.

Encarei-o, esperando ver o que mais ele tinha para mim. A pose de durão de Johnny caiu conforme os minutos passavam.

— A última batida na Bedford Ave? A dica veio de um viciado. Ele estava fritando na metanfetamina. Nós o soltamos, mas ouvi dizer que ele foi pego de novo.

— Nome — exigi.

Johnny olhou para todos os lados, menos para mim. Era como se ele pudesse sentir que seu tempo estava quase acabando. Sua perna começou a balançar.

— Eu não...

— Pense. Lembre-se, as vidas de sua família dependem da sua resposta.

Ele parou de se mover e finalmente encontrou meu olhar. A raiva brilhou em seus olhos enquanto suas sobrancelhas baixavam e seus lábios se curvavam em uma expressão carrancuda.

— Era Carter, não, Clark, talvez Carl. Começava com C.

Assenti e dois homens se aproximaram ao meu sinal. Johnny tentou pular, mas eles o seguraram. Ele tinha feito pose de corajoso apenas para se acovardar agora.

Ele era uma decepção, mas todos eram. Puxei minha Staccato XC 9mm e mirei na cabeça dele. Johnny rangeu os dentes e encontrou meu olhar; sua boca se abriu, mas nenhuma palavra pôde ser ouvida acima do estrondo da bala deixando minha arma e perfurando o ar.

Minha mão recuou levemente com o impacto e eu me estabilizei mais uma vez antes de baixá-la. A cabeça de Johnny pendeu para trás antes de rolar para frente. Olhos vazios olhavam de volta para mim.

O sangue pingava do buraco no meio de seu crânio. A gota deslizou ao redor de seu nariz fino e sobre seus lábios delgados. Era hipnotizante enquanto outras se juntavam a ela, criando seus próprios padrões em seu rosto antes de caírem em suas roupas ou no chão para serem absorvidas.

Assisti, desfrutando da paz por mais um segundo antes de prosseguir com a limpeza. Tínhamos pessoas que faziam a maior parte do trabalho, mas eu preferia garantir que nada fosse deixado para trás.

O som voltou a fluir. Foi como se uma bolha tivesse estourado e eu ouvisse os homens ao meu redor falando e se movendo.

Dispi-me de minhas roupas e limpei meu rosto, eliminando todas as evidências. Um de nossos homens entrou, segurando uma muda de roupas limpas. Eu preferia tomar um banho, mas teria que esperar. Teria que lidar com a forma como minhas roupas grudavam em minha pele escorregadia de suor e com o cheiro do armazém que emanava de mim.

— Mande para o açougueiro — eu disse enquanto vestia a calça bege.

O material não era novo e, ainda assim, roçava contra minha carne a cada toque, deixando meus dentes cerrados. Isso não está certo.

A irritação instalou-se no fundo do meu estômago, revolvendo-se repetidamente enquanto eu me forçava a ignorá-la. A camisa não era melhor, uma peça azul-clara de botões que fiz questão de colocar para dentro da calça. Recebi o sobretudo italiano de lã melton da Aosta e os óculos que costumo usar.

Tudo o que normalmente me fazia sentir calmo estava fazendo o oposto.

— Senhor? — chamou um dos homens.

Virei-me para ver o que ele precisava. Uma vozinha no fundo da minha cabeça gritava para eu arrancar minhas roupas e queimá-las. Engoli em seco audivelmente e ignorei o máximo que pude.

— A esposa está ligando.

A esposa do policial aposentado. Suspirei. Pegando o telefone, encaminhei a chamada. — Garanta que ela saiba que deve manter a boca fechada.

Ele assentiu e eu quebrei o telefone, devolvendo-o. Um milhão de formigas rastejavam por meus braços e pernas enquanto agulhas picavam minhas costas e torso. Eu precisava tirar aquelas roupas. Eu as sentia demais.

— E entregue o restante do dinheiro.

Johnny fora comprado para a cirurgia de seu filho, e os Vitales sempre cumpriam sua parte no trato. Havia uma razão pela qual ninguém nunca nos delatava. O medo sozinho não era suficiente para governar as ruas de Nova York.

O carro de Johnny seria devolvido à sua família assim que estivesse completamente limpo. Benito não corria riscos, e nem eu. Meu carro esperava por mim à beira da estrada. Embora tudo em mim gritasse para eu correr em direção a ele e me apressar, mantive meus movimentos controlados e medidos.

O trajeto foi rápido e cheguei de volta ao hotel. Eu planejava ir para casa, mas, por alguma razão, meu cérebro em chamas decidiu que o hotel seria melhor. Marchei pelas portas e as luzes brilhantes me agrediram. Estreitei os olhos, engolindo meu desconforto.

— Sr. Vitale, seu convidado deixou um bilhete para o senhor — disse a recepcionista.

Ela não questionou por que eu estava de volta tão cedo. Normalmente, quando eu encerrava o quarto, ficava fora por um mês ou dois. No entanto, mesmo que ela tivesse perguntado, eu não teria a resposta.

— Ele voltou aqui? — perguntei, forçando cada palavra. Eu não queria nada além de ficar em silêncio e desaparecer em uma área tranquila.

— Não, senhor. Não que tenhamos notado.

Encarei-a, tentando formular a pergunta. As palavras se torciam e minha língua pesava na boca, determinada a não se mover.

— Ele questionou um garçom sobre o senhor, mas nada além disso. O café da manhã foi comido pela metade antes de ele sair em um Uber — ela informou.

Afastei-me assim que peguei o bilhete, desaparecendo em direção ao elevador. Meu controle e paciência eram de um santo. No entanto, o pedaço de papel queimava contra as pontas dos meus dedos, exigindo que eu o abrisse ali mesmo. Aquilo me distraiu momentaneamente do meu desconforto, mas no momento em que o elevador tocou e abriu, corri para o meu quarto. Todo o controle se foi quando arranquei as roupas do meu corpo. Minha carne coçava e queimava ao mesmo tempo.

Tirá-las não foi o suficiente, e movi-me freneticamente para o quarto. Joguei o bilhete na cama e liguei o chuveiro. Não esperei esquentar. O frio congelante era um alívio do calor avassalador que ameaçava me consumir. Eu sabia que estava tudo na minha cabeça, mas isso não mudava nada.

Assim que saí do banho e me vesti, caminhei até a cama. O envelope ainda estava lá, me provocando. Peguei-o e abri. Um único bilhetinho flutuou sobre a cama.

Algo próximo de uma risada escapou enquanto eu balançava a cabeça. Encarei o pedaço de papel com um sorriso no rosto.

Vá se foder.

________________________________________

Enzo: Ray Lends resolvido.

Enviei a mensagem para Benito e cerrei os molares enquanto colocava meu telefone no suporte para copos.

Outra morte insatisfatória. Não era o suficiente, e senti a borda do caos se fechando sobre mim. A tensão acumulou-se entre minhas omoplatas, e a sensação de uma agulha perfurando minha carne repetidamente tornou-se cansativa. Nenhuma quantidade de leitura ou meditação estava ajudando.

Encontrei-me do outro lado da cidade, onde um certo policial novato morava. Verifiquei minhas mensagens; Tex estava trabalhando. Cinco dias desde a última vez que o vira e, estranhamente, pensar nele e na noite que tivemos acalmava o turbilhão de insanidade dentro de mim. No entanto, a memória estava ficando velha e eu precisava fazer algo a respeito logo.

Vigiá-lo era meu trabalho, mas eu me mantivera afastado. Ele era o tipo de brinquedo que eu acabaria quebrando rápido demais. Ou ficaria fixado nele, e a última coisa de que eu precisava era me tornar obcecado por um policial.

Eu sabia que não era uma boa ideia e, ainda assim, saí do carro e caminhei direto para a porta dele. O apartamento era fácil de invadir, ostentando duas fechaduras simples que não barrariam um adolescente. Por outro lado, olhando ao redor, não havia muito o que roubar. Qualquer um que entrasse ali teria que estar desesperado ou obcecado por Tex.

Um barulho de agitação chamou minha atenção e um Maine Coon laranja saiu de uma caixa que era pequena demais para ele. Eu não tinha imaginado Tex como um homem de gatos, mas vejam só, a beleza caminhou até mim e miou. Agachei-me e cocei atrás de suas orelhas, fazendo uma careta para os pelos que grudaram nos meus dedos.

Ele precisava ser escovado e banhado.

— Já que estou aqui, vamos ver o que seu dono tem andado fazendo.

Levantei-me e deixei meu olhar vagar, mas parecia que Tex vivia como um porco. Roupas jogadas por toda parte, alguns pratos na pia e uma toalha molhada no chão do banheiro.

Minha necessidade de consertar assumiu o controle. Antes que eu percebesse, estava limpando o apartamento inteiro. Para minha surpresa, não havia nada ali que indicasse que Tex era um policial. Nenhum distintivo ou arquivos espalhados. Nem mesmo suas roupas de treino da academia de polícia. Se eu não soubesse quem ele era, Tex quase passaria por um cara comum.

Quase. Aqueles olhos azuis surpreendentes brilharam em minha mente e eu me livrei do controle que ele exercia sobre mim.

Um toque cortou o momento pacífico e suspirei ao tirar o telefone do bolso. O nome de Benito brilhava na tela. Eu sabia que não tinha escolha a não ser atender.

— Onde você está, Enzo?

Dizer a ele que eu estava na casa de Tex não seria bem recebido, mas mentir para Benito também nunca terminava bem. Não respondi, escolhendo o silêncio enquanto acariciava o Maine Coon laranja recém-limpo em meu colo. O gatinho ronronou e se aconchegou mais perto.

— Preciso de você em Manhattan. Dois deles tentaram fugir — disse Benito.

Sem ver seu rosto, eu sabia que ele estava com raiva, embora meu irmão estivesse sempre com raiva. Não conseguia me lembrar de uma época em que ele não estivesse. Talvez Giancarlo lembrasse, porque eles estiveram juntos desde o início.

— Faça-os se arrependerem de terem tentado fugir.

A linha ficou muda e suspirei.

Peguei o gato. Seu corpo era longo, as patas traseiras chegavam quase aos meus joelhos.

— Comporte-se.

Coloquei-o no chão e movi-me pelo lugar. A secadora apitou e dobrei as toalhas que havia usado, mas as mantive separadas de todas as outras. Elas agora eram as toalhas do gato. Olhei ao redor mais uma vez, cogitando colocar câmeras e microfones, mas nada se comparava a ver Tex pessoalmente.

Como se soubesse que eu estava falando dele, meu telefone vibrou no bolso. Sorri com a atualização sobre Tex. Ele estava voltando para casa. Pena que eu não poderia ficar e brincar com ele esta noite. Peguei o bilhete que ele me deixou, adicionei o meu próprio e o coloquei sobre sua cama.

Talvez em outra ocasião.

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