Capítulo 5: A Primeira Noite em Que Eu Realmente Vi (ou Achei Que Vi)
Na primeira semana, eu ainda dizia para mim mesmo que estava imaginando coisas.
Mas naquela noite…
alguma coisa passou do ponto.
A gente estava parado em um posto de estrada no interior de Rondônia. Um daqueles lugares onde o silêncio parece maior do que o espaço, e os caminhões ficam alinhados como sombras adormecidas.
Eu bebi mais do que devia.
Muito mais.
Misturei whisky barato com cerveja, tentando calar um incômodo que já vinha crescendo fazia dias. Não era só cansaço.
Era sensação.
Intuição.
Coisa que a gente percebe antes de conseguir explicar.
Quando entrei na Kombi, já estava meio desequilibrado. Letícia olhou pra mim e já fez aquela expressão que eu conhecia bem — mistura de irritação com desprezo contido.
— "Sério isso, Thiago?"
Eu não respondi direito. Só deitei.
E foi aí que aconteceu.
No meio da confusão, acabei passando mal.
O cheiro veio rápido. O silêncio depois… mais rápido ainda.
Letícia levantou na hora, irritada.
— "Não dá."
A voz dela não era preocupação.
Era raiva.
— "Eu não vou dormir com você assim."
Eu tentei falar alguma coisa, mas a cabeça estava pesada demais.
Abel levantou do colchão dele, ajudou a limpar o básico, sem fazer alarde.
E então veio a decisão.
Simples. Direta. Sem espaço pra discussão.
— "Ele vai ter que dormir aqui."
Ela disse isso apontando pra cama.
— "Não tem outro lugar."
Eu ri fraco, meio perdido.
— "Tá de boa… eu fico aqui…"
— "Você fica aí mesmo."
Cortante.
Sem olhar.
E foi assim que eu fui deixado no banco da frente, meio torto, com o corpo mole e a cabeça girando… enquanto, atrás de mim, os dois se ajeitavam na cama que eu tinha construído pra nós dois.
A Kombi estava completamente fechada.
Cortinas puxadas.
Ar-condicionado ligado.
Só um filete de luz escapava por uma fresta mal encaixada, cortando o escuro em uma linha fina.
Eu fechei os olhos.
Ou tentei.
Mas não dormi.
Fiquei naquele estado estranho… meio consciente, meio apagado.
E comecei a ouvir.
Primeiro… risadas.
Baixas.
Contidas.
Diferentes.
Não eram as mesmas risadas do dia.
Eram mais soltas.
Mais leves.
Mais próximas.
— "Para com isso…"
A voz da Letícia saiu em tom de brincadeira.
— "Você que começou."
A resposta dele veio baixa, com aquele sotaque leve, arrastado.
Som de movimento na cama.
O colchão rangendo de leve.
— "Você é forte demais, Abel."
Ela disse isso rindo, como se estivesse sendo contida.
— "Você que não sabe perder."
Mais movimento.
Mais risos.
Uma espécie de “lutinha” — dá pra reconhecer o som.
Corpos se mexendo num espaço pequeno.
Proximidade.
Contato.
E eu ali…
parado.
Sem saber se abria os olhos ou se fingia que não estava ouvindo.
A cabeça pesada. O corpo lento. Mas o ouvido…
alerta.
Em algum momento, o som mudou.
As risadas diminuíram.
O silêncio voltou… mas não vazio.
Denso.
Interrompido por respirações mais próximas.
Mais controladas.
Mais baixas.
E foi aí que eu abri os olhos.
Devagar.
Sem me mover.
Só o suficiente pra enxergar.
A luz era mínima.
Só aquela linha fina entrando pela cortina.
Mas deu pra ver uma silhueta.
Letícia.
Sentada sobre a cama.
O corpo recortado no escuro.
Se movendo.
Devagar.
Num ritmo que não combinava mais com brincadeira.
Eu congelei.
Não entendi.
Ou não quis entender.
Minha mente tentou encaixar aquilo em algo lógico.
Mas não conseguiu.
E os sons…
vieram baixos.
Sussurrados.
Quase inaudíveis.
— "Fica quieta…"
A voz dele, contida.
— "Então não faz assim…"
A voz dela… diferente.
Mais baixa. Mais arrastada.
— "Você que veio…"
— "Você que deixou…"
Uma pausa.
Respiração.
— "Se ele acordar…"
— "Ele não vai."
Silêncio.
Mais movimento.
Mais ritmo.
— "Você não devia…"
— "Mas você quer…"
Outro silêncio.
Mais longo.
E então, quase inaudível:
— "Só um pouco…"
Aquilo bateu em mim como um choque.
Mas o corpo não reagiu.
Eu estava pesado demais.
Confuso demais.
Bêbado demais.
E talvez…
com medo demais.
Minha mente começou a recuar.
A procurar explicação.
A dizer que era imaginação.
Que era sonho.
Que era efeito do álcool.
Porque aceitar o que eu estava vendo…
significava acordar de verdade.
E eu não acordei.
Fechei os olhos.
De propósito.
E deixei o cansaço me puxar de volta.
Na manhã seguinte, acordei com a cabeça estourando.
O corpo dolorido.
E uma única dúvida martelando:
eu vi mesmo…
ou inventei tudo aquilo?
Letícia já estava acordada.
Sentada na beira da cama.
Com uma camisa longa.
A mesma da noite anterior.
Ela olhou pra mim.
E sorriu.
Calma.
Normal.
Como se nada tivesse acontecido.
— "Melhorou?"
Eu demorei alguns segundos pra responder.
— "Tô…"
Ela levantou, passou por mim, abriu a porta da Kombi… e a luz do dia entrou com força.
Levando embora o escuro.
Levando embora a noite.
Mas não levando a sensação.
Porque, pela primeira vez…
eu não sabia mais dizer o que era real e o que eu estava escolhendo não enxergar.