Capítulo Um
**** TEX ****
Meu coração apertou no peito enquanto meus pulmões se comprimiam. A tontura difusa que preenchia meu cérebro deixou meus dedos dormentes. Mesmo assim, mantive minha arma em punho, as costas eretas e os pés firmes. O ar frio de outubro estava carregado de uma eletricidade latente, como se tudo pudesse explodir em chamas a qualquer momento.
— Calma — Rourke murmurou ao meu lado.
— Estou calmo — retruquei entre dentes.
Ele assentiu. — Você cuida dos fundos. Eu cuido da frente.
Nos separamos sem dizer mais nada. Desviei para a esquerda, e ele subiu os degraus da entrada principal. Tínhamos perseguido o bandido por umas seis quadras antes de ele se enfiar naquela casa, mas agora tudo estava em silêncio. Silencioso demais. Não estávamos exatamente na parte nobre da cidade, mas não se ouvia um bebê chorando, uma TV ligada ou um rádio tocando. Era como se a casa inteira tivesse caído em um abismo de nada. Meu estômago revirou.
Merda. Só Deus sabe o que vamos encontrar lá dentro.
Passei agachado pelas janelas e segui pelo beco até o portão dos fundos. A coisa estava quase caindo, segurando-se por um fio, com as pontas enferrujadas espetadas para o alto. Vasculhei o quintal, meus olhos varrendo de um lado para o outro na tentativa de captar qualquer movimento sutil.
Nada.
— Porra — xinguei baixinho e estiquei o braço por cima do portão para abri-lo.
O metal raspou contra o concreto áspero. Encolhi os ombros, sentindo a tensão subir até as orelhas enquanto olhava em volta novamente, rezando para que ninguém tivesse ouvido aquilo. Como não houve movimento, forcei meu corpo pela fresta que abri. Era larga o suficiente, mas enganchou no meu uniforme como se tentasse me impedir de entrar. Ignorando a sensação de que deveria dar meia-volta, segui em frente.
Por mais que esses momentos me deixassem nervoso, eram eles que me definiam. O tesão da pele suada enquanto a adrenalina corria pelas minhas veias era melhor do que qualquer droga que eu já tivesse usado. Era mais inebriante que sexo. O medo misturado com a empolgação era a razão de eu amar meu trabalho.
Subi os degraus rachados e soltos da varanda dos fundos. Eles rangeram sob minhas botas, fazendo um barulho alto. Merda. Continuei avançando. Encostado na parede de tinta azul descascada, estiquei a mão e segurei a maçaneta de prata amassada. Respirei fundo. Assim que a girei, a porta se escancarou.
— Seu porco maldito!
Eu me abaixei no instante em que o primeiro tiro ecoou. Algo passou zunindo pelo meu rosto. Meus pés derraparam e eu me joguei na lateral da varanda, saltando o parapeito e caindo em um canteiro de mato seco e terra. Meu ombro bateu com força no chão, e uma dor intensa me atravessou, fazendo-me trincar os dentes.
— Larga a arma, Carl! — gritei. — Você só está piorando as coisas para o seu lado! Larga a porra da arma agora!
— Vai se foder!
Balancei a cabeça. Pelo visto, além de assalto à mão armada, Carl parecia desesperado para incluir tentativa de homicídio ou, no mínimo, agressão a um oficial de polícia no currículo. Ele já tinha resistido à prisão. O cara estava cavando a própria cova e provavelmente nem percebia. Eu tinha visto a porcaria que ele estava usando quando revistamos o carro dele. Aquela quantidade de cristal? Ele estava doidasso e perigoso como uma víbora agora.
Ele disparou de novo, e eu me esforcei para levantar. Meu braço esquerdo estava inútil, pendurado ao lado do corpo enquanto meu ombro e pescoço formigavam. Droga, deve ter deslocado. Encostei-me na lateral da casa e segurei o braço.
Ótimo. Eu estava lutando contra um viciado em metanfetamina armado, com um braço a menos e tentando espantar as manchas pretas da minha visão. As chances estavam uma merda.
Tudo ficou imóvel novamente, e os pelos da minha nuca se arrepiaram. Senti-me como se um predador estivesse me espreitando. Felizmente, minha arma ainda estava firme na mão direita, então esperei, com a respiração saindo em lufadas curtas enquanto focava toda a minha atenção nos sons ao redor.
Ali. Um galho quebrou e pedras se mexeram. Ele estava levando tempo, tentando contornar a esquina de mansinho. Eu tinha duas opções: correr e possivelmente levar um tiro nas costas, ou manter minha posição e tentar baleá-lo antes que ele fizesse o mesmo comigo. Quando ele apareceu na quina, escolhi a terceira opção.
Caí no chão e puxei o gatilho. O tiro dele ecoou, mirando onde eu estava segundos antes. Mas o meu já estava atravessando a perna dele. Ele soltou um grito sufocado e desabou na terra.
— Larga a porra da arma, Carl!
— Você me deu um tiro! — ele berrou. — Ai, caralho, isso dói, cara. Porra!
Eu me levantei e fui até onde ele estava sentado no chão, atordoado e segurando a perna sangrenta. O sangue já tinha encharcado o jeans e fazia uma bagunça pegajosa. Enquanto ele estava distraído, aproveitei a oportunidade para chutar a arma dele para longe.
— Estou surpreso por você conseguir sentir alguma coisa, considerando o quanto de metanfetamina tem no seu sangue.
Ele piscou para mim, confuso. — O que aconteceu?
— Mãos para trás. Agora — ordenei, mantendo a arma apontada para ele. — Rourke!
— Aqui! — meu parceiro gritou ao contornar a casa e se juntar a mim. — Ele estava com a namorada amarrada lá dentro. Ela está um trapo. — Ele me encarou. — O que houve com seu braço?
— Deslocou. Pode algemar ele?
— Merda — disse Rourke, pegando as algemas e indo até Carl. — De barriga para o chão, vamos.
Rourke imobilizou Carl rapidamente e pediu uma ambulância pelo rádio. Em seguida, mandou Carl calar a boca e tirou o próprio cinto. Trabalhando rápido, ele o apertou em volta da perna do homem.
— Você está bem, seu drama queen — Rourke disse a Carl, dando um tapinha na perna dele. — O sangramento já está diminuindo. — Rourke se levantou com um sorriso nos lábios. — Como diabos você conseguiu essa proeza? — perguntou, acenando para mim. — Você sempre escolhe o caminho de maior resistência.
— Você mandou eu fazer os fundos, babaca, lembra? — Acenti em direção a Carl. — Ele vai ficar bem?
— Vai, ele está legal.
— Vai se foder! Ele me deu um tiro!
Claramente, Carl discordava. Rourke o ignorou e examinou meu braço. Ele soltou um assobio e fez uma careta.
— Pode colocar no lugar e parar de encarar? — pedi.
— Dizem que não se deve fazer isso, sabe? O protocolo é esperar a ambulância.
Eu estava a um passo de enfiar uma das minhas botas na bunda do Rourke. Ele sabia muito bem que eu não ia ficar esperando a ambulância chegar só para eles fazerem a mesma coisa. Encarei-o até que ele cedesse.
— Tá bom, para de fazer bico, princesa. Se prepara.
Enfiei a arma no coldre e me apoiei na parede da casa. Rourke segurou meu braço com firmeza, examinando-o de perto. Fechei os olhos e esperei, me preparando. Justo quando abri a boca para gritar com meu parceiro, meu ombro estalou enquanto ele o colocava de volta no lugar.
— Ah, vai se foder! — berrei. — Seu... filho da puta...
— Eu sei — disse Rourke. — Dói pra cacete, né? — Ele foi até uma das janelas e espiou lá dentro. — A namorada ainda está lá. Vou entrar e interrogá-la assim que eles chegarem.
O som distante das sirenes se aproximava rápido. Girei meu ombro, fazendo uma careta para a dor latejante que restou. Estava bem melhor, mas com certeza ia inchar e incomodar mais tarde. Isso era um problema para o "eu" do futuro.
— Eu vou ficar e...
— Você não vai fazer porra nenhuma — Rourke interrompeu. — O reforço está chegando e eu dou conta de um interrogatório simples. Vai para casa. Não é como se você tivesse planos para hoje à noite, de qualquer forma.
— Eu estou bem — argumentei.
— Vai. Para. Casa. Não me obrigue a falar com a Sargento.
Fuzilei-o com o olhar. — Você é um merdinha.
— Também te amo — provocou ele, acenando para os paramédicos que vinham correndo pelo beco. — Dá o fora daqui.
Resmungando, me dei por vencido. Por mais que eu quisesse ficar, tinha que admitir que a parte divertida tinha acabado. Agora vinham as perguntas, a papelada e a burocracia de merda. Embora eu não amasse isso, marcar presença e fazer tudo certo era a melhor forma de continuar sendo notada. E eu precisava ser notado se quisesse chegar a detetive.
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— O Rourke não disse que você ia para casa?
Levantei os olhos do computador e encarei minha Sargento. Rourke ainda estava na rua, mas eu tinha voltado direto para a delegacia. Eu estava a caminho de casa, mas senti aquele aperto na barriga, a vontade de voltar e ver o que mais eu poderia fazer no dia. Meu turno tecnicamente não tinha acabado, e meu braço estava bem. Eu queria trabalhar.
— Eu ia, mas me sinto bem — respondi, levantando-me e seguindo-a até sua mesa. Ela soltou uma pilha de pastas e suspirou. — O que é tudo isso?
— Hein? — Ela olhou para mim como se estivesse me vendo pela primeira vez e franziu a testa. — Ah, algo em que estou trabalhando para o chefe. Você colocou tudo no seu registro de atividades?
Assenti. — Primeira coisa que fiz quando voltei. — Peguei um arquivo. — Esses aqui são antigos. O que você está investigando?
— A família Vitale, de novo. O chefe quer uma grande prisão. Derrubar uma família do crime? Não existe nada maior que isso.
Assobiei. — Caramba, ninguém consegue nada relevante contra eles há uns vinte anos.
— Pois é, esse é o problema — murmurou ela.
— Aposto que se alguém descobrisse o que está rolando com eles, provavelmente viraria detetive bem mais rápido... — deixei a frase no ar.
A Sargento White me encarou antes de estreitar os olhos. — Essa conversa de novo não. Você virou policial há apenas dois anos. Por que está tentando correr tanto?
— Nós dois sabemos que eu quero o distintivo de detetive.
— Sim, mas você chega lá ralando muito e fazendo o trabalho básico — disse ela, arrancando o arquivo das minhas mãos. — Não pegando atalhos. Não quero ver você metendo o nariz nisso aqui. Vá trabalhar.
— Mas...
— Não quero ouvir, Caster — cortou ela. — Foque no que está na sua frente.
Que se dane. Eu já estava no cargo há dois anos. Nessa mesma época, meu pai já era detetive e acumulava condecorações. Ele era aclamado como o melhor dos melhores, e eu tinha ficado na sua sombra, sendo apenas uma fração do homem que ele foi.
— Sargento White? Na minha sala — o chefe chamou.
Ela suspirou. — Já volto. — Ela juntou as pastas e as jogou no arquivo antes de fechá-lo.
Assenti e a observei sair. Assim que a porta da sala se fechou, minhas mãos se moveram antes mesmo do meu cérebro processar. Eu tinha travado a gaveta do arquivo com a perna bem na hora que ela empurrou. Como imaginei, não trancou como ela pensava. Puxei a gaveta e vasculhei o conteúdo. Peguei uma das pastas, escaneei as informações e passei para a próxima.
A família Vitale era como uma história de terror para policiais novatos. Uma antiga família do crime que comandava Nova York; o que eles faziam era nada menos que chocante. Armas, drogas, prostituição; o que você imaginar, eles faziam.
Folheei as páginas e parei. Um dos clubes conhecidos deles não ficava longe de onde eu morava. Olhei para o relógio na parede oposta e um sorriso surgiu nos meus lábios. Ok, eu provavelmente não encontraria nada. Mas valia a pena dar uma conferida, não valia?
Olhando em volta para garantir que ninguém estava vendo, tirei uma foto da página e enfiei o celular de volta no bolso. Fechei a gaveta e voltei para a minha mesa.
Parece que eu tenho planos, afinal.
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Dois – ENZO
A sensação suave do papel contra as polpas dos meus dedos enquanto eu virava a página era tão calmante para a alma quanto um bisturi deslizando lentamente através da carne quente. As palavras eram uma poesia belíssima que cantava para a minha alma em cada linha; um pedaço do autor que jamais poderia ser tomado de volta.
— O que está lendo agora, Enzo? — Giancarlo perguntou, efetivamente estourando a bolha ao meu redor.
Ele sabia como arruinar um momento perfeitamente pacífico. Eu já deveria estar acostumado, trabalhando com meus meios-irmãos há tanto tempo. O senso de espaço pessoal de Giancarlo precisava de ajustes.
Tentei me concentrar no livro mais uma vez para me cercar pelo mundo da ficção, mas não tive sorte. Uma sombra se projetou sobre as páginas, obscurecendo a poesia pura que eu estivera lendo. Um suspiro pesado escapou do meu peito.
— Deixa eu ve... — Giancarlo tentou arrebatar meu livro.
Não toque nas minhas coisas. Uma agitação se instalou no fundo do meu estômago e evaporou com a mesma rapidez. Apegar-se a qualquer coisa era quase impossível para mim.
No instante em que os dedos dele chegaram a centímetros do livro, eu já estava com uma faca em punho, pressionando-a firmemente contra o seu pulso exposto. Ele paralisou quando nossos olhares se cruzaram. Um movimento errado e ele estaria decorando o escritório do nosso irmão mais velho com tons de vermelho. E, depois do último incidente, duvido que Giancarlo quisesse pagar por outra reforma.
— Isso é mesmo necessário? — Giancarlo perguntou por entre os dentes cerrados.
Respirar é necessário? Pisquei lentamente para ele antes de retrair a faca e guardá-la de volta no bolso oculto.
— Por que você tem que amolar ele, Gin? — Benito entrou no escritório com passos largos, e eu prontamente fechei o livro.
— Eu estava entediado.
— Não me faça mandar você de volta para o hospital. Basta uma ligação — disse Benito enquanto se sentava.
Os papéis em sua mesa de mogno estavam organizados com precisão. No momento em que a mão dele os tocou, reprimi o impulso de meter uma bala em sua cabeça. Benito movia as coisas de lugar, arruinando a organização perfeita que eu havia criado.
Desviei o olhar daquela perfeição arruinada e encarei o olhar duro do meu irmão de frente. Ele sabia o que eu estava pensando. Olhei para o lado e me levantei, aproximando-me da mesa agora que ele estava ali. O Blues que filtrava pelos alto-falantes de Benito foi reduzido, e o baque suave da boate abaixo de nós podia ser ouvido através das paredes.
— Você pode ir para casa e ter o seu sossego assim que verificar algumas coisas — disse Benito.
— Tudo bem. — Não adiantava discutir. Eu acabaria fazendo de qualquer forma.
— Eu também posso ir para casa, certo? — Gin perguntou.
Benito sequer levantou os olhos da papelada ao responder. — Não, você tem andado relaxado, e eu não vou limpar a sua merda.
— Nem eu. — Balancei a cabeça para o meu irmão enquanto ele jogava os braços para o alto.
Ele agia como uma criança nos dias bons. Ainda assim, Giancarlo era o segundo depois de Benito em nossa família.
— Enzo, houve duas batidas policiais nos meus armazéns recentemente. Descubra quem está vazando a informação. — Benito passou duas pastas amarelas, e eu as peguei.
Ele fazia tudo do jeito difícil, tornando quase impossível para os policiais rastrearem nossos movimentos ou sequer nos incriminarem. Abri a pasta; quatro rostos de policiais e seus endereços estavam nos papéis. Analisei cada um, gravando-os na memória.
— Eles foram removidos recentemente da força policial. Parece que tiveram um dia de faxina. Cuide disso — disse Benito.
Ele nunca gostou de pontas soltas. Algo próximo da excitação enviou pequenas faíscas dançando pelas pontas dos meus dedos. Eu logo colocaria as mãos em um bisturi ou, melhor ainda, em uma serra desta vez. Meus ombros relaxaram ao imaginar o que eu faria com meu próximo projeto.
— Não prolongue, Enzo. Quero um serviço limpo. — As palavras de Benito cortaram minha excitação momentânea como uma faca de carne serrilhada atravessando uma mão.
— Considere feito. — Havia beleza em uma morte limpa. Ainda assim, não era nada comparado ao caos em que eu me permitia mergulhar quando estava livre de ordens alheias.
— Gin, preciso de você naquela reunião com a ACTI em desenvolvimento.
— Eu fico com as reuniões chatas?
Benito olhou para cima. — Não comece, nós dois sabemos que seu talento é melhor aproveitado lá. — Ele passou o cartão da empresa. — Resolva isso. Eu os quero, não importa o custo.
Uma batida na porta interrompeu qualquer conversa sobre planos. Um de nossos homens entrou e trouxe um tablet. Ele o colocou sobre a mesa antes de se retirar.
— A noite nunca termina — disse Benito. Ele coçou o queixo enquanto a concentração dominava seu rosto. — Há quanto tempo ele está aqui?
— Acabou de passar pelas portas, há dez minutos.
— Quem? — Gin perguntou. Ele contornou a mesa de Benito e espiou por cima do ombro do nosso irmão mais velho. — Ele é burro ou ignorante?
— Ele fez algum movimento? — Benito perguntou.
O guarda balançou a cabeça. — Não, senhor. Ele está parado no bar agora.
Benito pousou o tablet, e a tela atraiu minha total atenção. Seu nariz fino, cabelos negros como piche, mandíbula forte e olhos azuis me prenderam ainda mais. Seu peito era impressionante, pelo que eu podia notar através das roupas. O que me ganhou de vez foi o olhar em seus olhos. Eu quis saber mais instantaneamente.
— Ele está na força há apenas dois anos, se livrar dele não deve ser difícil — disse Gin.
Meu peito apertou, e percebi minha mão se movendo em direção ao tablet antes mesmo de o pensamento se formar completamente. Eu o virei, absorvendo todas as informações dele. Tex Caster. Vinte e cinco anos de idade, um metro e oitenta e oito, oitenta quilos. Até mesmo suas notas nos testes da academia de polícia estavam lá.
— Não seria uma boa ideia. Ele é filho de um detetive aposentado. — Virei o tablet de volta e mostrei a Benito, poupando a vida de Tex por enquanto. — O pai dele foi quem derrubou a família Revello há trinta anos.
— É, mas nós não somos os Revellos — Gin argumentou.
— Exato, nós não cometemos erros imprudentes — Benito interveio, olhando entre nós. — No entanto, já cruzei com o pai dele uma vez. Deixe o policial por enquanto. Enzo, já que você apontou isso, você fica de olho nele. — Benito devolveu o tablet ao homem que esperava, e ele saiu pela porta.
— Não foda tudo, Enzo.
Assenti e guardei os arquivos no meu paletó. Eles pressionavam firmemente contra minha caixa torácica, um lembrete constante de que eu tinha alvos para cuidar.
Preparei-me para o inevitável. No momento em que abri a porta, estava pronto para a investida da música. O grave pesado martelava em meus ouvidos e ressoava pelo meu corpo até se tornar parte de mim. Meus dentes ficaram cerrados pelos primeiros cinco segundos enquanto eu me forçava a suportar aquilo.
Cada passo aumentava o volume e a sensação de vidro sendo empurrado para dentro dos meus ouvidos. A dor logo me entorpeceu de dentro para fora. Parei no momento em que cheguei ao parapeito, respirando fundo e de forma controlada. O cheiro de corpos suados, perfumes e colônias misturados e álcool entupia minhas vias aéreas.
A pista de dança estava cheia de corpos pressionados uns contra os outros, movendo-se ao ritmo da música. Um grupo de mulheres dançava em círculo. Ao lado delas, um casal se esfregava um no outro, alheios às pessoas ao redor. Era uma noite normal em um de nossos clubes, a música explodindo nos alto-falantes enquanto as pessoas perdiam todas as inibições e se lançavam de cabeça na embriaguez.
Como era simples para eles abrir mão desse controle. Um gole, e estavam dispostos a entregar suas vidas ao acaso. As pessoas nunca deixavam de me fascinar e de me dar nojo.
Um formigamento subiu pela minha espinha enquanto pontadas dançavam na lateral do meu rosto. Eu reconheceria o peso do olhar de alguém em qualquer lugar. Ao me virar, encontrei aqueles mesmos olhos azuis surpreendentes. Mesmo de longe, eu podia sentir a intensidade, o desejo e a ambição que rodopiavam neles.
Os cantos dos meus lábios se curvaram e eu sorri para ele. Os olhos dele se arregalaram. Sem dúvida, ele pensou que eu sequer prestaria atenção nele. Eu queria ver aqueles olhos lindos de perto.
Benito me encarregara de vigiá-lo. Eu poderia muito bem dar uma olhada melhor. Recuei do corrimão e desci as escadas. Ajustando os óculos no rosto, pisei no andar térreo.
As pessoas saíam do meu caminho, mesmo bêbadas. Parei no bar e uma das garotas correu até mim.
— Sim, senhor?
Eu nunca pedia bebida. Perder qualquer resquício de controle fora dos meus momentos permitidos era contra tudo o que meu irmão havia me ensinado enquanto eu crescia. Suas palavras brilharam em minha mente: "Você mantém isso trancado, e eu prometo que deixarei você se divertir, mas apenas quando eu disser. Se você não ouvir, nunca mais poderá fazer isso."
Eu tinha apenas sete anos quando minha mãe achou por bem me deixar na porta do meu pai biológico. Benito me acolheu sob sua asa e nunca, nem uma única vez, voltou atrás em sua palavra.
— Aquele cavalheiro ali, o que ele pediu? — Apontei para Tex. Ele olhava para a pista de dança enquanto bebericava seu drink, mas eu ainda sentia os olhos dele em mim.
— Um gim-tônica — disse ela, dando-me a informação instantaneamente.
— Mande outro para ele. Coloque na minha conta.
Ela assentiu, seu cabelo rosa brilhante caindo sobre o rosto enquanto mechas escapavam do rabo de cavalo. Meus dedos tremeram ao lado do corpo. O suor escorria pela minha nuca enquanto o desejo de consertá-la me envolvia como um cobertor espesso. O ar ficava mais denso a cada respiração.
Controle. Eu precisava encontrar algo para quebrar o ciclo de caos que não era meu. Pressionei meu polegar contra o dedo até que o estalo ecoasse pela minha mão. Fiz isso mais cinco vezes; cada dedo estalou com a quantidade certa de pressão. Cada um deles me trazia de volta ao chão.
— Acho que não pedi uma bebida.
Uma voz suave irrompeu sobre a música pulsante. Eu estivera tão absorto em meus pensamentos que não percebi Tex se levantando. Era por isso que eu odiava estar na boate. Tudo nela estava fora de ordem e era um lembrete constante de quão deslocado eu me sentia.
— Agora você tem uma. Considere um convite para voltar. — Girei nos calcanhares e segui para a porta. Eu faria um de meus homens vigiar Tex por enquanto. Sair era a prioridade.
Uma mão calejada e quente envolveu meu pulso. O calor viajou do ponto de contato e enviou faíscas pela minha carne. Os pelos finos da minha nuca se eriçaram, ativando meu instinto de luta ou fuga.
Eu girei, rotacionando minha mão e quebrando o aperto. Prendi ambos os pulsos de Tex em minhas mãos enquanto o prensava contra a parede ao lado da porta.
— Não toque em mim.
Os olhos de Tex eram muito mais azuis do que a foto havia capturado. Pontos de azul-bebê misturados com cobalto, fazendo seus olhos parecerem mais uma peça magnífica de vidro.
— Mas você pode me tocar? — Ele arqueou uma sobrancelha, sem resistir ao meu aperto, embora eu visse em seu rosto. Ele queria me empurrar. O músculo de sua mandíbula latejava junto com o tremor em suas mãos.
Aproximei-me, e minha barba roçou em seu rosto liso. — Eu posso fazer o que eu quiser. Se isso for um problema, sugiro que fique bem longe de mim.
Ele tentou quebrar meu aperto, e eu recuei apenas o suficiente para girá-lo e batê-lo contra a parede. Tex não era apenas maior do que eu em músculos, ele também era alguns centímetros mais alto.
Eu gostava de pegar as pessoas de surpresa quando me subestimavam. Eles viam os óculos, os pelos faciais aparados e o visual nerd que tornava a caçada mais divertida. Alguém como Tex era minha presa ideal.
— Comporte-se — sussurrei alto o suficiente para ele ouvir acima da música. Apliquei pressão entre suas omoplatas, e ele soltou um gemido de dor. Tex paralisou, e sua mão direita começou a tremer.
Ah. Movi minha mão e pressionei com força. Eu me pergunto quanto ele aguenta.
O suor brotou na nuca dele enquanto ele tentava se afastar novamente. Balancei a cabeça. Eu não podia me deixar levar, especialmente não aqui. Relutantemente, retirei minha mão e observei seu braço cair. Ele levou a mão ao membro que claramente estava doendo.
A porta foi aberta para mim e saí do bar. No momento em que o ar de outubro me atingiu e um calafrio se instalou sobre minha pele agitada, acalmei-me um pouco mais. Meus ouvidos ainda latejavam com a música, irritando-me profundamente. Eu teria que encontrar um som mais agradável para abafá-la.
Um dos homens trouxe meu carro até a guia e me entregou as chaves.
— Não é um problema — disse Tex, interrompendo meus passos.
Olhei para o policial novato enquanto ele respondia ao que eu havia dito anteriormente. Eu posso fazer o que eu quiser. Se isso for um problema, sugiro que fique bem longe de mim. Suas pupilas estavam dilatadas, e a maneira como ele lambeu os lábios me deu todas as respostas de que eu precisava.
— Entre. — Deslizei para trás do volante, e apenas um segundo se passou enquanto Tex olhava para a boate e corria para o lado do passageiro.
Ele abriu a porta e pulou para dentro. Seu pé começou a balançar instantaneamente assim que ele se viu em um espaço confinado comigo. As mãos grandes de Tex repousavam sobre sua virilha. No momento em que ele percebeu para onde eu estava olhando, parou de esconder a evidência de sua excitação.
— Não vá ficar com medo agora.
Tex virou a cabeça em minha direção. — Não estou. Não me decepcione.
Algo próximo de uma risada tentou se libertar, mas eu a engoli. Este aqui vai ser divertido.
Liguei o carro e Tex colocou o cinto de segurança. Observei cada movimento dele, esperando que ele pegasse seu distintivo ou apontasse o fato de ser um policial. Empurrei os óculos no nariz antes de arrastar meu olhar para encontrar seus olhos.
— Não pergunte.
Arqueei uma única sobrancelha para ele.
— Sou um homem feito. Sim, eu sei o que estou fazendo. Este meu rosto pode parecer suave, mas eu aguento mais do que você imagina.
Ele achava que eu o deixaria escapar? Ele já havia entrado na gaiola por livre e espontânea vontade. Não haveria saída, não até que eu o libertasse.
— Palavras ousadas. Espero que não fiquem só no gogó.
— Digo o mesmo. — Tex sorriu para mim, exibindo seus dentes brancos perfeitos.
Fofo. Era como olhar para um gatinho. Dentes e garras, mas, no fim, nada mais do que uma presa.