Capítulo 1 - A casa do luto

Um conto erótico de Leandro Gomes
Categoria: Gay
Contém 2015 palavras
Data: 30/05/2026 16:12:35

Há casas que adoecem depois de uma morte. Não falo dessas casas de cidade grande, onde o barulho dos automóveis e das visitas apressadas acaba varrendo a tristeza para debaixo do tapete da sala. Falo das casas de sítio, onde o silêncio tem pernas longas e passeia pelos cômodos como um fantasma de chinelo gasto.

A casa de João Carlos adoecera havia quatro anos. Desde a morte de Mariana, pouca coisa naquela propriedade parecia viva de verdade. O fogão ainda acendia, as vacas ainda davam leite, os porcos ainda berravam cedo, os tomates ainda cresciam na terra escura dos fundos; mas havia uma espécie de cansaço agarrado às paredes, como fuligem.

João Carlos tinha 42 anos, mas envelheceu rápido depois do enterro da mulher. Não nos cabelos — que continuavam castanhos e fortes — mas no jeito. Tornou-se um homem de poucas palavras, poucos risos e nenhuma paciência. Trabalhava como quem devia dinheiro a Deus e ao mundo. Saía antes do sol nascer e voltava no início da noite cheirando a terra, suor e cigarro queimado.

O homem era branco, alto, cabelos castanhos e ondulados, olhos castanhos claros herdados do avô. Tinha o rosto másculo com barba, pelos no corpo e era parrudo, com uma barriguinha aparecendo. Em consonância com sua aparência, sua personalidade era de um homem severo, de rigidez quase militar, bastante reservado e também de poucos amigos.

Desde que ficou viúvo, João Carlos não teve outro relacionamento duradouro. Pretendentes não lhe faltavam, o que faltava era a vontade dele em se casar novamente. Teve apenas um encontro rápido com uma mulher, Ana Maria, durante uma festa junina na cidade. Ela estava perdidamente apaixonada por ele e há algum tempo tentava conquista-lo, mas ele sempre lhe dava uma desculpa. Na ocasião da festa, ela teve sua oportunidade e ele não teve como escapar já que ela se ofereceu estando ele perto de seus colegas da feira. Durante uma dança, ela colou seu corpo ao dele e lhe tocou nem tão discretamente, até deixa-lo excitado. Daí, ela o arrastou para um canto escuro onde transaram... só não foi do jeito que ela imaginou. Nas palavras dela, “faltou um pouco de entusiasmo da parte dele e nem chegou aos finalmente”.

João Carlos preferia se aliviar no modo solo e em seu quarto antes de dormir, folheando suas duas revistas pornográficas em preto e branco ou apenas usando sua imaginação. Completamente pelado em sua cama, ele acariciava seu membro veiúdo e grosso de 18 cm e passava suas mãos em seu peito peludo e seu abdômen e descarregava sempre um grande volume de esperma em seu short samba-canção, que ele usava para se limpar.

Ele amava seu único filho, Luís; disso não havia dúvidas. Mas há homens que confundem amor com dureza, e João Carlos era um desses sujeitos teimosos que acreditam que carinho demais amolece o caráter do homem. Talvez tivesse aprendido assim. Talvez não soubesse fazer diferente. Talvez certas dores deixem a pessoa meio torta por dentro.

Luís crescera naquele silêncio e naquela rigidez de um quartel: horário de levantar, de tomar o café, de cuidar dos animais e da plantação... dia e horário de ir para a feira, horário de dormir; isso pode, isso não; permissão para sair, hora de voltar... Tudo era controlado pelo pai, que ficou ainda pior na viuvez.

Aos vinte anos, Luís já tinha o corpo formado dos rapazes do interior: pernas fortes do serviço pesado, braços endurecidos de carregar caixa na feira e um jeito quieto de quem pensa demais antes de abrir a boca. Herdara os olhos azuis da mãe, e talvez também certa tristeza funda que Mariana escondia muito melhor que o filho. Sua pele era clara, cabelos castanhos e lisos. Era um rapaz bonito; mas não sabia. Ou pior: suspeitava e tinha vergonha da própria suspeita.

Naquela época, seus desejos estavam à flor da pele. Perdoe-me o termo, leitor, mas no interior de Minas, em 1984, ninguém dizia “descoberta sexual”. Diziam que o rapaz estava com “fogo no corpo”. E Luís estava ardendo igual forno de padaria. Tudo o excitava: o cheiro de suor dos homens na feira, as gargalhadas graves dos peões, os braços fortes descarregando caminhão, os pelos no peito, o cheiro de fumo misturado com sabonete barato. Até certas mãos masculinas segurando garrafas de cerveja lhe davam pensamentos lascivos.

Mas ele sentia culpa. Não culpa religiosa; essa ele já aprendera a ignorar um pouco. Era uma culpa mais triste: a sensação de ser errado sozinho.

O jovem ainda era virgem. Nunca sequer beijara ninguém. Conhecia o desejo pela imaginação, pelas duas únicas revistas pornográficas em preto e branco do pai que via escondido e pelas noites em que se trancava no banheiro pequeno do corredor ou no próprio quarto para aliviar o corpo se masturbando em silêncio, respirando baixo para o pai não ouvir. Vez ou outra, arriscava-se também a se masturbar no curral, quando percebia que estava só, ou no meio do mato quando levava as poucas vacas para o pasto.

O que mais gostava era se despir por completo e usar dois travesseiros na cama, um sobre o outro, para introduzir seu membro entre eles fazendo movimentos pélvicos como se estivesse no ato sexual. Na hora do gozo, tirava o pênis rapidamente e ejaculava no abdômen e ficava ali sentindo o cheiro de seu esperma.

Luís fazia isso pensando nos homens da cidade. No filho do açougueiro da feira. No taxista moreno que sempre anda com a camisa aberta e que certa vez lhe piscou o olho e sorriu para ele enquanto comprava abóbora. E também no único contato íntimo que teve com outro rapaz meses antes, ao qual ele mantinha vívido na memória.

Esse fato aconteceu durante uma manhã de sábado na feira. Um rapaz dois anos mais velho começou a puxar conversa enquanto Luís descarregava caixas de tomate. Era Augusto, um sujeito moreno, forte, queimado de sol, dono daquele tipo de sorriso safado que certos homens carregam como se fosse cigarro preso no canto da boca. Augusto era de São Paulo e estava passando um tempo na casa dos tios que também trabalhavam na feira e ali os ajudava.

Quando Luís saiu para levar as compras da sra. Bernadete, Augusto o seguiu pelo caminho falando de safadeza o tempo inteiro. Comentou das mulheres da cidade, das safadezas que ele gostaria de fazer com elas e de como queria dar-lhes “uma surra de rola”... depois baixou a voz e tirou do bolso algumas páginas de uma revista de mulher pelada e as mostrou para o jovem, dizendo coisas que fizeram Luís se arrepiar todo e perder o rumo do pensamento. Não era a primeira vez que Augusto fazia isso. Há mais de dois meses, desde que tinha vindo de São Paulo, ele vinha flertando com Luís. Além das conversas picantes, tinha olhares, toques no ombro, mão que esbarrava “sem querer” nas nádegas de Luís, sorrisos insinuantes... Mas naquele dia, Augusto investiu pesado, pois não queria deixar escapar a oportunidade, afinal, já estava com data marcada para retornar para casa.

Após mostrar rapidamente as páginas da revista, ele exibiu discretamente o volume do pênis duro marcado no short curto, e perguntou se Luís não queria ver a revista toda com ele no beco atrás da casa dos tios.

Luís ficou calado por um instante cogitando rejeitar o convite, mas sua boca deu voz ao seu desejo. Ele foi tremendo por dentro, mas foi. Assim que passaram pelo portãozinho enferrujado, foram direto para o beco onde poderiam ficar escondido caso alguém chegasse. Augusto então se encostou na parede e, sem pudor algum, tirou pela perna do short o membro completamente ereto, olhando para Luís como quem já sabia a resposta antes da pergunta. Luís sentiu o corpo inteiro incendiar ao ver o mastro de 18 cm envergado, robusto, de glande em tom mais claro que a haste e brilhante, pulsando como se estivesse lhe chamando. Era a primeira vez que ele via de perto a ferramenta de outro homem dura daquele jeito.

Luís ficou receoso, mas tomado de tesão, segurou no mastro com firmeza e expôs a glande, puxando a pele para trás. Seu coração batia tão forte que quase se podia ouvi-lo. Sentiu uma excitação como nunca antes que o deixou com a sensação de que estava em um sonho. De repente, Augusto o agarrou e o virou de costas. Então, abaixou as calças de Luís, revelando seu traseiro coberto de pelos finos que mais pareciam penugem e se encostou nele. Quando sentiu o mastro quente tocar suas nádegas, Luís tremeu e soltou um gemido que não conseguiu conter. A ferramenta de Augusto, medindo 19 cm, estava dura desde o início da conversa com o rapaz, e agora já expelia o líquido transparente e viscoso, o pré-gozo, tamanha era a sua excitação. Enquanto Augusto pressionava seu corpo contra o dele, masturbava o jovem e beijava seu pescoço por trás. Luís fechou os olhos e se entregou ao prazer de sentir outro homem esfregar o mastro entre suas nádegas e cutucar seu ânus virgem com o pau lambuzado de saliva.

Em menos de dois minutos, Luís descarregava seus jatos fortes de esperma contra a parede do beco, seu corpo tremendo e suas pernas ficando sem forças enquanto uma onda de calor o queimava por inteiro. Augusto o segurou ainda com mais força e começou a gozar em seu traseiro, deixando os pelos da região todos lambuzados com seu sêmen espesso.

Passada a onda de tesão, veio o medo. Medo de alguém aparecer. Medo do pai descobrir. Medo de si mesmo. Então, Luís passou a mão nas nádegas e limpou o gozo, esfregando em seguida as mãos na calça. Sem dizer nada, saiu correndo dali de volta ao trabalho.

No dia seguinte, o paulistano foi atrás dele, tentando convencê-lo a repetirem o ato e prometendo sexo oral. Luís, porém, disse que não podia, que não queria e que isso não era certo... mas era tudo mentira, pois ele queria muito repetir o que fizeram e ir além. Entretanto, deixou seu medo falar mais alto e nunca mais viu o rapaz, que voltou para São Paulo dois dias depois. Desde então, não teve outro contato íntimo com alguém.

O que lhe restava era a lembrança daquele olhar e daquele sorriso, do beco estreito que foi palco do prazer mais intenso que sentira na vida, da sensação de ter um pênis ereto e quente encostando em seu corpo e de uma mão lhe masturbando.

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Em uma terça-feira de outubro, fazia calor demais até para respirar direito. Luís terminava de colher os pés de alface e estava perto do galpão quando ouviu o barulho da caminhonete do pai chegando. João Carlos desceu, sério como sempre, tirou o chapéu e limpou a testa molhada.

— Amanhã de tarde chega um homem pra ajudar aqui no sítio com as vaca.

Luís continuou o que fazia.

— Quem?

— Um amigo antigo.

João acendeu um cigarro.

— É o Gerson. Trabalhou comigo faz muitos anos.

O pai disse aquilo sem emoção nenhuma, mas houve uma coisa estranha — uma pausa curta demais para parecer acaso e longa demais para passar despercebida. Luís notou. Não entendeu por quê, mas notou.

João tragou o cigarro olhando para o horizonte seco do pasto.

— Home bom de serviço. Peão dos bom!

Ele tirou a bota de cano curto e colocou perto da porta do lado de fora, e continuou.

—Amanhã cê arruma o quarto aqui de fora antes de levar as vaca pro pasto. Ele vai dormir lá.

— Sim, senhor. Pode deixar.

E foi curioso: naquela noite, sem motivo aparente, Luís demorou mais que o normal antes de dormir. Ficou na janela escutando os grilos do lado de fora, o rádio baixo vindo do quarto do pai e o vento morno passando soprando em seu rosto. Ali mesmo começou a se masturbar, pela terceira vez naquele dia. Porém, desistiu. Deitou-se na cama e ficou ali pensando na vida, olhando para o teto, sem saber ainda que certas pessoas chegam devagar na vida da gente apenas para destruir o pouco sossego que havia sobrado.

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