Acordei com alguém batendo à porta do meu quarto. Quando abro-a, vejo Rodolpho parado na minha frente com um sorriso.
— Bom dia, Bianca. Dormiu bem?
— Ah, até que dormi, sim — disse, um pouco sonolenta. — Você quer falar comigo sobre alguma coisa?
— Sim, sim. Eu deixei o café da manhã preparado lá na cozinha, é só você se servir — disse ele.
— Obrigada. Você vai sair?
— Vou sim. Vou me encontrar com aquele amigo que eu te falei ontem. Vou ver se ele consegue consertar a sua pulseira.
— Mesmo? Obrigada, Rodolpho...É...eu posso ir com você? Não quero ficar sozinha aqui com o Mauz.
— Entendo. Bem, então eu espero você tomar café, e daí nós vamos juntos pra lá — disse ele, com aquele sorriso meigo... bem...meigo e estranho, pois ele continua sendo um cachorro.
— Tá certo. Vou lá na cozinha e já volto.
Entrei na cozinha e percebi que Mauz estava lá. Ele estava deitado e dormindo. Ele era um humano bonito, porém muito selvagem. Mauz até parecia um humano normal quando estava tendo sua soneca de beleza.
Caminhei até a pia da cozinha e peguei um copo, e enchi ele de suco, era de manga, meu preferido. Cortei algumas fatias de pão e passei nelas um negócio que parecia geleia...pelo menos tinha cheiro de geleia. Sentei em uma cadeira de madeira e aproveitei meu café da manhã. Mauz se mexeu, e ficou de barriga pra cima, deu para notar que sua parte intima estava dando algum sinal de vida. Ele devia estar sonhando com algo erótico, pensei.
Terminado de tomar meu café da manhã, fui ao encontro de Rodolpho.
— Está pronta, Bia?
— Estou sim.
— Só uma coisa. Lá fora, você precisará andar que nem uma humana normal do meu mundo...
— Andar de quatro e não falar nada, certo?
— Isso mesmo — disse Rodolpho. — Você aprende rápido.
— Para mim, isso é um pouco humilhante, sabe... ficar de quatro, nua, essas coisas.
— Eu entendo. Também acharia estranho se eu fosse para um outro mundo e tivesse que andar de quatro e nu — disse ele.
Se ele soubesse que no meu mundo os cachorros andam de quatro e nus... pensei, tentando segurar a risada.
— Precisarei colocar essa guia na sua coleira, tudo bem? — disse Rodolpho.
— Precisa mesmo?
— Seria melhor. Ninguém iria desconfiar de você. Achariam que você é uma humana totalmente normal.
— Mas eu sou normal...
— No seu mundo, sim, no meu, não — disse ele, rindo.
— Está bem. Pode colocar.
Ele colocou a guia na coleira de tradução que eu estava usando. Sem essa coleira, eu não conseguiria entender nada do que esses cães falassem.
Demos um tchau para o Mauz e saímos para a rua, finalmente. Eu estava cansada de ficar presa dentro da casa do Rodolpho. Agora poderei esticar um pouco as pernas... e os braços também. Estávamos caminhando calmamente, e percebi que diversos cachorros me olhavam com brilho nos olhos. Acho que eu era a humana mais bonita que eles já viram. Um labrador caminhou em nossa direção.
— Bom dia, Rodolpho. Como você está, meu velho? Adotou uma nova humana? — perguntou o labrador.
— Bom dia, Cassius. Estou bem. Você e a Bertha estão bem? Ah, sim, adotei, sim.
— Está tudo bem com a gente. Nossa, ela é uma gracinha. Ela tem cabelos muito sedosos. Que shampoo você usa no cabelo dela? A minha, lá de casa, tá com os fios bem quebradiços. Você poderia me recomendar um creme ou shampoo para eu usar na minha?
— Ah, agradeço o elogio. Bem, não tenho o nome aqui na minha cabeça, mas depois eu te passo, está bem? — disse Rodolpho, meio perdido, pois ele nunca teve uma mulher de estimação.
— Ela também tem seios e uma bunda bem durinhas — disse ele, passando as patas dele em meu corpo. — Ela deve vir de uma ótima linhagem.
— É, acho que sim. Bem, tenho que ir. Depois nos falamos.
— Está bem. Até mais.
— Mil perdões por isso. Não pensei que ele fosse.. — disse Rodolpho, encabulado.
— Está tudo bem. Deixa pra lá. A casa de seu amigo é perto daqui? — perguntei.
— São só duas quadras. Logo a gente chega.
Depois de alguns minutos, nós chegamos na casa do amigo do Rodolpho. Ele tocou a campainha. Alguém abriu a porta, era um Shitzu, bem pequenino.
— Olá, meu velho amigo. Podemos entrar? — perguntou Rodolpho.
— Ah, Rodolpho. Pode entrar, porém a humana, você terá que deixá-la aí do lado de fora. Tenho alergia a humanos, você sabe disso.
— Bem, Bia. Fique aqui quietinha e comporte-se — disse Rodolpho.
Balancei com a cabeça em um gesto de afirmação.
Que merda, terei que ficar aqui do lado de fora. É horrível ser tratada assim. Agora fiquei com dó dos cachorros do meu mundo. Alguns são tratados de qualquer jeito. Pelo menos, o Rodolpho é gente boa...ou um bom cachorro. Ele me trata super bem.
Bem, vou deitar aqui no chão enquanto isso. Comecei a refletir sobre o que estava acontecendo nesses dias comigo. Parece que neste mundo eu sou alguém diferente, especial, todo lugar que passo, alguém me olha com um olhar especial. Na minha Terra de origem, eu era simplesmente uma mulher comum, eu não chamava a atenção de ninguém por lá... eu não chamava atenção dos homens...
Para, Bia, pensei comigo. Que pensamentos bobos são esses. Eu sou uma cientista, e estou aqui somente para investigar e descobrir mais sobre esse novo mundo. Nada mais do que isso, entendeu, Bia?
Depois de mais alguns minutos, Rodolpho saiu da casa do amigo dele. Voltamos a caminhar novamente, e Rodolpho sorria para mim enquanto voltávamos à casa dele.
Finalmente, após alguns minutos, chegamos em casa. Entrei bem animada, e comecei a falar para ele me contar tudo.
— Ele vai conseguir consertar sua pulseira — disse ele.
— Que maravilha — disse, toda eufórica.
— Só que vai demorar uma semana.
— Uma semana? Fazer o que né? — disse, enquanto a euforia deixava meu corpo.
— Bem, quer comer algo?
— Não, obrigada. Vou para o meu quarto. Vou tirar um cochilo. Estou um pouco sonolenta.
— Sem problema. Bons sonhos.
— Obrigada.