Primo, eu ainda te amo! | Capítulo 16: Ainda é tempo

Um conto erótico de Th1ago-
Categoria: Gay
Contém 3508 palavras
Data: 03/05/2026 16:14:31

E aqui estou eu, dez anos depois.

Saindo de uma igreja cheia de gente sorrindo, flores, promessa e entrando no meu apartamento como se estivesse carregando um corpo que ninguém mais vê.

Girei a chave na fechadura observando o som seco demais para um lugar que deveria ser meu.

Empurrei a porta com o ombro, sem força, e deixei que ela se fechasse sozinha atrás de mim. O silêncio me recebeu primeiro.

Não era aquele silêncio confortável que eu gostava quando precisava pensar, mas um silêncio pesado, denso, que parece ocupar espaço. Eu fico alguns segundos parado ali, ainda de terno, ainda com o cheiro da igreja preso na roupa, tentando entender como é que eu saí de um altar e cheguei aqui.

Tiro o sapato com o calcanhar, chutando de qualquer jeito para o lado. O outro vai logo depois. A gravata já me sufocava desde antes de eu sair da cerimônia, então, puxo o nó com força, como se estivesse arrancando alguma coisa de mim. Abro os primeiros botões da camisa social, sentindo o ar bater no peito, mas não alivia. Nada alivia.

Caminho até o sofá e me jogo nele sem cuidado, o corpo afundando, os olhos encarando o teto como se ele tivesse alguma resposta que eu não consegui encontrar em lugar nenhum hoje. A imagem volta sem pedir.

O arroz sendo jogado. As pessoas rindo. Ele passando na minha frente. Ele dizendo “aceito”.

Eu fecho os olhos, mas é pior. Porque aí não tem distração nenhuma.

Levanto num impulso, não penso muito. Só sei para onde estou indo.

O bar fica no canto da sala, organizado demais para o estado em que eu estou. Garrafas alinhadas, taças limpas, tudo no lugar certo. Eu abro o armário, pego a primeira garrafa de vinho que vejo e giro a tampa sem nem olhar o rótulo. Nem me dou ao trabalho de pegar uma taça. Levo direto à boca.

O primeiro gole desce rápido. Forte. Quente. E não muda nada.

Dou outro e outro e outro. Eu precisava beber para esquecer tudo aqui que tinha acontecido.

Volto para o sofá com a garrafa na mão, jogando o corpo de volta no mesmo lugar, só que agora com algo para ocupar a boca, para tentar preencher esse vazio que parece não ter fundo. Bebo como se aquilo fosse resolver, como se fosse apagar, como se fosse me dar pelo menos algumas horas sem lembrar de nada.

Não funciona, mas eu continuo.

Quando percebo, a garrafa já está vazia. Eu fico olhando para ela por um segundo, como se aquilo fosse absurdo, como se eu não lembrasse de ter bebido tudo aquilo tão rápido. Minha cabeça já começa a pesar, mas o pensamento ainda está claro demais.

É quando o meu celular vibra.

O som ecoa pela sala de um jeito irritante, insistente. Eu demoro um pouco para levantar, mas levanto. Caminho até a mesa, pego o telefone e vejo o nome na tela.

Chico.

Por um segundo, penso em não atender, mas atendo.

Coloco no viva-voz enquanto caminho de volta para o bar e deixo o celular que estava em chama de vídeo encostado em um canto.

— Já começou você a beber, né? — a voz dele sai do outro lado com aquele tom meio sério, meio preocupado, como se já me conhecesse melhor do que eu gostaria.

Eu solto um riso fraco, já abrindo outra garrafa.

— Ah, Chico… hoje não. Pelo amor de Deus. Hoje você não me cobra nada.

— Eu não tô cobrando — ele responde, mais calmo. — Só tô perguntando.

Eu encosto no balcão por um segundo antes de levar a garrafa à boca de novo.

— O dia foi… — paro no meio da frase, tentando achar uma palavra que caiba. — Foi uma merda.

Ele fica em silêncio por alguns segundos. Eu escuto o barulho de vento do lado dele, algum som distante de fazenda, talvez um portão, talvez um animal passando.

— Imagino — ele diz por fim. — Como foi o casamento?

Eu solto o ar pelo nariz, um riso sem humor nenhum.

— Bonito — respondo. — Perfeito. Do jeito que todo mundo espera.

Dou mais um gole.

— Só tinha um detalhe.

— Qual?

Eu fecho os olhos por um segundo.

— Não era eu — falei rindo — O amor da minha vida tava lá… se casando com outra pessoa.

O silêncio vem de novo. Mas esse não é pesado como o do apartamento. Esse é cheio de presença. De alguém que está ali comigo, mesmo longe.

— Alec… — ele começa, mas para. Como se estivesse escolhendo as palavras.

— Não precisa — eu corto. — Sério. Não precisa falar nada.

— Eu preciso, sim.

Eu me viro um pouco, encostando no balcão, olhando para o nada.

— Fala então.

Ele respira fundo do outro lado.

— Sabe o que eu não entendo?

Eu não respondo.

— Há dez anos atrás — ele continua — o Caíque era o amor da sua vida. E pelo que eu vi aquele dia… ele também te amava. Não era pouco. Não era confusão. Era de verdade.

Aquilo me atravessa de um jeito estranho. Porque é exatamente o que eu também lembro.

— Eu não entendo — ele continua — o que aconteceu pra vocês chegarem onde você tá hoje.

Eu fico em silêncio por alguns segundos. Levo a garrafa à boca de novo, mas dessa vez o vinho já não desce tão fácil.

— Eu também não sei — digo, baixo.

E é verdade.

— Depois daquela viagem… — continuo, tentando organizar as memórias — a gente voltou e… parecia normal. Sabe? Tipo, a gente ainda se via, ainda se falava, ainda… era a gente. Mas aí as coisas começaram a acontecer.

Passo a mão no rosto.

— Foi rápido demais. Quando eu vi, já tinha aquela história do intercâmbio. Ele conseguiu uma bolsa, faculdade fora, atleta… essas coisas que ele sempre quis.

Chico não interrompe.

— E a gente prometeu — eu digo, rindo fraco — olha que idiota… a gente prometeu que ia se manter. Que era só esperar. Eu ua fazer dezoito, poderia ir morar com ele, ficar junto de verdade.

O silêncio pesa de novo.

— Só que ele não fez.

A frase sai seca.

— Ele foi, e... sumiu.

Eu encarei a parede, como se ela pudesse devolver alguma resposta.

— Dez anos, Chico. Dez anos sem uma mensagem. Sem uma ligação. Sem nada. Bloqueado em tudo. Eu nem sabia onde ele tava direito.

Respiro fundo.

— Aí, dois anos atrás, eu descubro que ele tá namorando. E hoje… — eu rio de novo, mas dessa vez dói — hoje eu fui no casamento dele com aquela vagabunda.

Do outro lado, Chico não fala nada por alguns segundos. Eu escuto só a respiração dele.

— A última coisa que eu recebi dele — continuo — foi um convite. Um convite de casamento. E ele nem me entregou em mãos, ele simplismente colocou por de baixo da minha porta. Como se eu fosse… qualquer pessoa.

Senti minha garganta apertar.

— Mas talvez eu tenha sido apenas isso... Uma pessoa qualquer.

Mais silêncio.

— Eu vou pro Rio — Chico diz de repente.

Eu levanto o olhar.

— O quê?

— Vou aí. Não vou deixar você passar por isso sozinho, não.

— Não precisa…

— Precisa, sim — ele corta, firme. — Eu dou um jeito aqui na fazenda. Falo com meu pai, com o pessoal. Mas eu vou.

Eu fico em silêncio por alguns segundos.

— Valeu, Chico.

— Não agradece ainda — ele responde, num tom mais leve. — Eu ainda vou te encher o saco pessoalmente.

Eu solto um riso pequeno.

— Já não basta por chamada de vídeo?

— Não.

Ficamos em silêncio por mais um instante.

— Tenta não acabar com a segunda garrafa sozinho — ele diz.

Eu olho para a garrafa na minha mão.

— Sem promessas.

— Eu imaginei.

A ligação fica em silêncio por mais um segundo.

— Eu te ligo amanhã — ele diz.

— Tá.

— Fica bem.

Eu não respondo, apenas espero que ele desligue e fico encarando a tela apagada.

Alguns minutos se passaram e só sei que, quando me dei por mim, já estava de pé outra vez, o corpo meio pesado, a cabeça girando devagar, e o caminho até o bar parecia mais longo do que antes. O mundo tinha aquele leve atraso, como se tudo estivesse acontecendo meio segundo depois do que deveria. Mesmo assim, eu fui. Abri o armário, peguei outra garrafa sem nem olhar o rótulo, girei a tampa com dificuldade e soltei um suspiro que saiu mais alto do que eu pretendia.

Terceira garrafa.

Eu ri sozinho.

— Parabéns, Alec… — murmurei, levando a garrafa à boca antes mesmo de terminar a frase.

O vinho desceu rápido, sem gosto, sem prazer. Era só… hábito naquele momento. Movimento automático.

Foi quando meus olhos desviaram até a bancada da cozinha. E lá estava ele.

O convite de casamento, ele esteve lá o tempo todo. Fechado, intocado, como se estivesse me esperando.

Eu fiquei parado por alguns segundos, a garrafa ainda na mão, o olhar fixo naquele pedaço de papel que, de alguma forma, parecia maior do que todo o resto do apartamento. Dei um passo. Depois outro. A cada passo, o riso começou a nascer no fundo do meu peito, baixo, quase tímido.

E então veio, uma gargalhada. Alta, vazia, descontrolada. Eu ri sozinho no meio da cozinha, encostado na bancada, segurando a garrafa como se aquilo fosse a coisa mais absurda do mundo. Porque era.

— Eu não abri… — falei em voz alta, ainda rindo mas sentindo lágrimas escorrer em meu rosto. — Eu não abri essa merda.

Peguei o convite com a mão livre, girando ele entre os dedos. O papel ainda estava intacto, perfeito, como se o tempo não tivesse passado por ele. Como se aqueles dois anos não existissem.

— Eu nem tive coragem… — continuei, o riso diminuindo aos poucos.

Ou talvez não fosse coragem.

Talvez fosse só… não querer confirmar.

Minha mente me puxou de volta para dois meses atrás. Na fazenda dos meus pais.

Eu estava na varanda quando meus pais abriram o envelope. Eu lembro do som do papel sendo rasgado, lembro do jeito que minha mãe franziu a testa antes mesmo de terminar de ler. Lembro das letras douradas, brilhando sob a luz do fim de tarde, bonitas demais para o que significavam. Eu lembro de cada palavra sem nem ter lido diretamente. Era como se o convite gritasse o que era, sem precisar de interpretação.

“Caique e Bianca convidam...”

Eu não precisei pegar na mão, eu não precisei ler. Eu já sabia. Me lembro de tentar fingir normalidade e não deixar aquilo acabar com meu dia, mesmo que já tivesse destruído com ele.

No dia seguinte, quando voltei para casa, ele estava lá. Debaixo da porta. Deslizado para dentro como qualquer correspondência comum. Como qualquer coisa sem importância.

E eu deixei lá, afinal, não precisa ler novamente o nome deles dois estampados esfregando na minha cara que iriam se casar.

Eu voltei para o presente com o gosto do vinho amargo na boca. Olhei para o convite na minha mão, ainda fechado, ainda perfeito.

— Eu nem sei o que eu fui fazer naquele casamento… — falei baixo.

E afinal, eu não sabia mesmo, talvez eu quisesse ver com meus próprios olhos ou talvez eu quisesse sentir doer de uma vez.

Talvez eu fosse só idiota.

Respirei fundo e levei a garrafa à boca de novo. O líquido desceu mais devagar agora, pesado, arranhando a garganta.

Foi quando um impulso veio, me virei de uma vez e caminhei até o fogão. Acendi a boca com um clique seco, o fogo surgindo azul e constante, vivo. A chama dançava pequena, mas suficiente.

Eu encarei o convite na minha mão.

— Acabou — murmurei — vai ser a última vez que leio o nome de vocês.

Comecei a abrir o envelope com força demais, rasgando o papel sem cuidado. O som do rasgo ecoou na cozinha silenciosa, quase violento. Puxei o conteúdo de dentro, pronto para amassar, para jogar na chama, para ver virar cinza na minha frente.

Mas eu parei, congelado, aquilo não era o que eu esperava. O convite não tinha texto, bão tinha letras douradas e muito menos tinha nomes.

Só uma folha branca, limpa, com um QR code no centro dela..

Eu franzi a testa, a mente tentando acompanhar o que meus olhos estavam vendo.

— Que porra é essa…?

O fogo continuava aceso ao meu lado, esquecida a ideia de queimar qualquer coisa. Meu braço abaixou devagar, e por um segundo eu só fiquei ali, encarando aquele código como se ele pudesse se explicar sozinho.

Não fazia sentido, nada fazia sentido.

Apaguei o fogão num movimento automático, o clique seco cortando o silêncio de novo. O cheiro leve de gás dissipando rápido no ar.

Meu coração, que antes batia lento por causa do álcool, começou a acelerar.

Diferente, curioso, inquieto.

Eu caminhei devagar até a sala, ainda com o papel na mão, como se ele fosse mais pesado do que deveria. Me joguei no sofá outra vez, mas dessa vez não afundei. Fiquei na beira, o corpo inclinado para frente, os olhos presos naele quadrado preto e branco.

Minha cabeça girava, mas não era só o vinho, era aquilo, aquela dúvida.

Era a sensação de que, depois de dez anos… alguma coisa ainda não tinha acabado.

Olhei para a mesa de centro epeguei o celular. Passei a mão pelo rosto, respirando fundo, tentando organizar qualquer tipo de pensamento lógico antes de fazer qualquer coisa.

Minha mão tremia quando eu aproximei o celular do QR code. Não era um tremor forte, mas era constante, insistente, como se meu corpo estivesse tentando me avisar de alguma coisa que minha cabeça ainda não tinha entendido. A câmera demorou um segundo a focar, a imagem oscilando até encaixar perfeitamente naquele quadrado preto e branco. Quando finalmente leu, o celular vibrou de leve, e o link apareceu na tela.

Eu fiquei olhando, sem tocar e muito menos sem respirar direito. Era só um link. Um clique. Uma coisa simples. Mas parecia maior do que isso. Parecia… uma escolha.

Engoli seco e toquei.

A tela abriu devagar, carregando enquanto meu coração batia alto demais dentro do peito. E então apareceu.

Um vídeo, uma tela escura e um botão de play.

Eu não pensei, apenas toquei.

Os primeiros acordes começaram, suaves, conhecidos, e foi como se alguma coisa dentro de mim tivesse sido puxada com força. Eu reconheci na hora. Não precisei ver nome nenhum.

— Ana Vitória. — falei.

Minha respiração falhou completamente.

A imagem começou a rodar, mas eu mal conseguia prestar atenção, porque a letra apareceu logo abaixo, acompanhando a música, e foi ali que tudo começou a se quebrar de verdade.

A música "Ainda é tempo" começava a tocar e acho que eu simplismente segurei minha respiração durante toda música.

“Eu sei que eu demorei chegar...

Mas se você soubesse o quanto eu me arrependo…

Não tenho palavras pra justificar…

Errei a rota, saí do radar…”

Meu peito apertou de um jeito que eu não lembrava mais como era sentir.

Eu dei um passo para trás e acabei me jogando no sofá sem nem perceber. Os olhos presos na tela, como se eu estivesse sendo obrigado a assistir aquilo até o fim.

“Mas eu vejo na tua cara que ainda é tempo…

Mesmo que tudo diga não…

Ainda é tempo...

De te fazer feliz…

E me fazer feliz também…”

As lembranças vieram na minha mente, nós dois dividindo fone de ouvido, ele insistindo nessas músicas que eu fingia não gostar, mas acabava deixando tocar. Nós deitados, rindo, se encostando sem perceber. O jeito que ele falava que música tinha que ser sentida, não só ouvida. E eu revirando os olhos, mas ficando.

“De te mostrar que existe um jeito pra acontece

Me repetir em dizer e lembrar

Que é você

Que aumenta o tamanho do mundo em mim…”

Minha mão subiu até o rosto sem eu perceber, e quando toquei, já estava molhado. As lágrimas desciam sem controle, sem esforço, como se já estivessem ali há muito tempo esperando um motivo pra sair.

“Eu sei que eu demorei chegar…

Será que ainda é tempo?”

A última frase ficou ecoando, repetindo, martelando dentro da minha cabeça. "Ainda é tempo".

Eu abaixei o celular um pouco, respirando pesado, como se tivesse corrido, como se tivesse lutado contra alguma coisa invisível. Meu peito subia e descia rápido, descompassado, enquanto minha mente tentava acompanhar tudo aquilo.

Aquilo não era só uma música, aquilo era um pedido. Umpedido atrasado, desesperado.

Um pedido… dez anos atrasado.

O vídeo acabou e atela ficou preta.

E por um segundo, eu só fiquei ali, olhando para o meu próprio reflexo na tela apagada, com o rosto marcado, os olhos vermelhos, completamente desmontado.

Mas então o preto mudou e apareceu um texto. Simples e direto.

Um endereço, e logo abaixo as palavras:

“Ainda é tempo de impedir isso, eu vou estar aqui, esperando por você.”

Meu coração parou.

Eu senti o impacto no corpo inteiro, como se alguém tivesse puxado o chão debaixo de mim mais uma vez. Eu li de novo. E de novo. E de novo.

Era real, não era memória.

Depois de dez anos… ele estava me esperando. Aquilo tinha sido enviado antes do casamento.

Muito antes.

Eu senti o estômago revirar.

Minha respiração travou no meio do peito, e por um segundo eu só fiquei ali, parado, encarando o endereço na tela como se ele fosse se desfazer sozinho.

— Não… — a palavra saiu baixa, sem força. — como eu sou idiota!

Ele me chamou, ele tentou, ele me deu uma chance. E eu… não fiz nada.

Minha mente começou a correr rápido demais, puxando tudo, misturando datas, momentos, lembranças. O convite chegando. Eu ignorando. O QR code. Eu não abrindo. O tempo passando. O silêncio. O casamento acontecendo.

Eu apertei o celular com força na mão.

— Eu tive… — minha voz falhou — eu tive a chance…

O ar ficou pesado demais dentro do apartamento.

Eu levantei num impulso, tão rápido que o corpo quase não acompanhou. A cabeça girou, mas eu não parei. Meus olhos caíram na garrafa de vinho na mesa.

E, antes mesmo de pensar, eu arremessei.

O vidro explodiu no chão com um estalo alto, espalhando pedaços e vinho pela sala. O som ecoou pelas paredes, mas não foi suficiente.

Nada era suficiente.

— CARALHO! — gritei, a voz saindo rasgada.

Eu levei a mão ao cabelo, puxando com força, andando de um lado pro outro como um animal preso, sem direção, sem controle.

— EU TIVE A PORRA DA CHANCE!

Sem pensar peguei a decoração que ficava na mesa e arremessei na parede.

O som do vidro se partindo virou uma sequência, um ritmo caótico que parecia acompanhar o que estava acontecendo dentro de mim. Eu puxava o que estivesse pela frente. Garrafas, porta-retratos, qualquer coisa que pudesse fazer barulho ao se destruir.

— POR QUE EU NÃO ABRI ESSA MERDA?!

Eu chutei a mesa de centro, fazendo ela deslizar pelo chão, derrubando o resto das coisas. O som ecoou pelo apartamento inteiro, mas não tinha ninguém ali pra ouvir.

Só eu, só aquilo, só a bagunça que eu tinha me tornado.

O peito doía. A cabeça girava. A respiração vinha curta, irregular. Eu nem sabia mais se era o álcool ou o desespero.

— ELE ESPEROU! — gritei, a voz falhando. — ELE FICOU ESPERANDO!

Mais um objeto na parede, mais um estilhaço, mais barulho.

— E eu… eu não fiz nada…

A frase saiu menor dessa vez.

Eu parei por um segundo, ofegante, no meio da sala destruída. O chão estava coberto de vidro, de vinho, de pedaços de coisas que antes estavam inteiras. Meu apartamento parecia refletir exatamente o que eu estava sentindo.

Fui andando sem perceber para o corredor, foi quando eu vi. O espelho.

Eu parei na frente dele e fiquei encarando.

O cara do outro lado não parecia comigo. Olhos vermelhos, cabelo bagunçado, camisa aberta, manchada de vinho, o rosto marcado de lágrimas que eu nem lembrava de ter deixado cair.

— Olha você… — murmurei, sem humor nenhum.

Por um segundo, tudo ficou em silêncio.

E então…

Eu levantei o braço e dei um soco.

O espelho estilhaçou na hora, o som alto, seco, ecoando pelo corredor. A dor veio junto, imediata, cortante, rasgando a pele da minha mão, mas eu nem reagi. Só fiquei ali, encarando o reflexo quebrado, multiplicado em pedaços, distorcido.

O sangue começou a escorrer, lento e quente descendo pelos meus dedos.

Eu não tirei a mão, não me mexi, só fiquei olhando.

— Eu não vou mais sofrer.

Minha voz não tremia mais.

— Não por isso.

Eu olhei para os pedaços do meu reflexo.

— Ainda é tempo.

A frase saiu diferente agora.

Não como dúvida, como decisão.

Mesmo que ele tenha casado.

Mesmo que tudo tenha sido feito.

Mesmo que o mundo inteiro diga que acabou.

Eu não ia deixar acabar assim.

Olhei a chave do carro do outro lado da sala e fui até ela sem nem pensar duas vezes, peguei ela e apertei na mão.

Caminhei direto para a porta, desviando dos cacos no chão, ignorando a dor, ignorando tudo.

Abri a porta de uma vez e congelei.

Felipe estava parado ali, na minha frente.

Como se estivesse esperando, como se soubesse.

E, mais uma vez naquela noite, eu não sabia o que fazer.

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