Capítulo DOIS
"ADAM"
O lábio de Adam se contraiu em desgosto enquanto ele arrastava o cadáver ensanguentado em direção ao ralo no meio do chão. Ele achava que estava em ótima forma física até ter que carregar a última vítima de seu irmão — um estuprador de um metro e noventa e cinco e cento e trinta quilos — do carro do sujeito até o centro do abatedouro abandonado. Embora Adam fosse atlético, seu irmão... não era.
Atticus era alto e pálido, com um corpo de quem frequentava a academia e cabelos ruivos. Ele parecia o resultado do cruzamento de um mórmon com um advogado tributário de visão precária. Mesmo agora, enquanto tentavam descartar a merda que o irmão fizera, ele usava uma calça de algodão seersucker e uma camisa social branca, embora ambas estivessem cobertas de sangue.
— Sério, cara? Trabalho sujo não é a minha praia. Como as coisas saíram tanto do controle? E que porra você está vestindo? — Adam finalmente perguntou depois que conseguiram colocar o homem onde queriam.
Atticus lhe lançou um olhar irritado, usando as costas da mão para empurrar os óculos no nariz. — Eu tive um compromisso de trabalho. — Um compromisso de trabalho? — É, sabe o que é trabalho? Aquela coisa que você faz e te pagam por isso? Ah, espera. Não, você ainda vive às custas do papai.
Adam deu uma risadinha. — Você precisa superar isso. Pode até ter um diploma de medicina, mas trabalha com pesquisa. O papai paga as suas contas também. Você não conseguiria bancar aquele carro de luxo de mãe que você dirige brincando de cientista maluco no centro de pesquisa. — Vá se foder — disse Atticus, com a voz impaciente.
Após um minuto, Adam suspirou. — Qual era o seu compromisso de trabalho? Atticus animou-se um pouco. — O centro de pesquisa deu uma festa para mim porque consegui uma bolsa que vai financiar nosso programa pelos próximos cinco anos. — Parabéns. Mas não se esqueça do nosso trabalho de verdade.
Atticus ficou tenso. — Isso não é o nosso trabalho. — O que você considera que isso seja, então? Um projeto de estimação? Serviço comunitário? — Adam colocou o pé no peito do morto, agarrando o cabo da lâmina que estava cravada na cabeça do homem, puxando com toda a sua força. — Que porra é essa? A Excalibur? — Adam grunhiu, começando a suar através de sua camiseta Armani, agora arruinada. Ele lançou um olhar de nojo ao irmão. — Sério, cara. Como você conseguiu cagar tudo desse jeito?
Os olhos de Atticus saltaram por trás dos óculos, o rosto se contorcendo. — A porra da minha arma travou. Tive que improvisar. Adam olhou para ele boquiaberto. — E seu primeiro pensamento foi uma machadinha?
Atticus bufou, a voz cheia de escárnio ao dizer: — É um cutelo de carne, seu ignorante. Estávamos na cozinha dele. Era isso ou uma faca de açougueiro, e quando você tem cento e trinta quilos vindo na sua direção feito um touro, você toma uma decisão e vai até o fim. — Pois bem, agora são duas da manhã e estamos presos aqui, no cu ladrilhado de Satanás, tentando arrancar um cutelo do crânio desse fdp. — Sinto muito por ter te tirado da cocaína que você provavelmente estava cheirando na bunda de algum garoto de programa.
Adam debochou. — Cocaína? O que você é, um velho de oitenta anos? Quem diabos ainda usa cocaína? — Você não soube? Está voltando à moda. Agora tudo gira em torno da moda dos anos noventa e das drogas dos anos oitenta. A garotada de hoje... — disse August, atravessando as grossas folhas de plástico transparente que separavam uma sala da outra. Elas lembravam a Adam aquelas tiras de lava-jato automático.
Adam virou a cabeça rapidamente para encarar Atticus. Por que Adam estava ali se Atticus já tinha chamado August? Aquela era a raison d’être de August. Ele amava sangue e tripas. Ele era o faxineiro, o executor, o assassino de sangue frio com estômago de ferro. Irônico, considerando que ele parecia uma versão mais alta e aterrorizante de Harry Potter, sem os óculos. Ele era o segundo mais velho e, para Adam, o que tinha a personalidade menos magnética de todos. O nerd da família com um lado sombrio que aterrorizaria o criminoso mais endurecido.
August ergueu uma serra elétrica, exibindo um sorriso que até Adam achou perturbador. — Achei isto — disse ele, estranhamente alegre dado o ambiente. Ele apertou o gatilho e a lâmina rugiu até ele soltá-la. — É sem fio. — Ele fez uma expressão de "quem diria" que provavelmente faria a maioria das pessoas sair gritando.
Mas aquele era August. Ele se adaptara a matar com a mesma facilidade com que dominara a mecânica quântica. Ele tinha uma capacidade de compartimentar que era quase sobrenatural. Adam uma vez assistira ao irmão torturar um homem por cinco horas para, logo depois, tirar as luvas, trocar de roupa e dar uma palestra de três horas sobre aceleração de partículas em campos magnéticos.
— O que deveríamos fazer com isso? — Adam perguntou. August olhou para ele como se fosse burro. — Não temos ideia de quanto do DNA do Atticus acabou parando no nosso amigo aqui. Então, vamos esquartejá-lo, passar água sanitária, embalá-lo em pedacinhos bonitinhos e jogá-lo no rio com alguns blocos de cimento. Quando ele flutuar até a superfície, todos os vestígios de evidências já terão sumido. E assim não teremos que contar ao papai que o orgulho e alegria dele fez merda.
Atticus colocou as mãos enluvadas nos quadris cobertos pelo avental. — Sabe, não é minha culpa se eu me destaquei em tudo enquanto crescia. Talvez se todos vocês tivessem se esforçado um pouco mais, o papai pudesse ter mimado um de vocês no meu lugar.
Adam revirou os olhos, agachando-se ao lado do corpo para começar a despir o recém-falecido estuprador em série. — Ah, sim. Por favor, nos conte de novo como é difícil ser o favorito do papai. — Adam sentia um prazer perverso ao saber que o homem que se forçara sobre outros sem consentimento estava agora sendo despido e esquartejado contra a vontade. Pena que já estava morto.
— E era! — Atticus exclamou, indignado. — Ele sempre esperava que eu fosse perfeito e que garantisse que vocês também fossem, e todos vemos como isso funcionou bem.
Atticus e August olharam para Adam com aquela superioridade típica de irmãos mais velhos. — Ah, vão se foder os dois. Sinto muito por não ser médico ou um professor intelectual. Já passou pela cabeça de vocês que eu fiz um favor a todos ao nunca me aplicar de verdade? Atticus bufou. — Como assim?
Adam sorriu. — Eu faço tudo nas coxas e ainda chego ao topo. Imagine se eu usasse todo o meu potencial. Eu deixaria vocês dois comendo poeira. Sou a ovelha negra por opção. August soltou um risinho, mas Atticus parecia um peixe fora d’água, abrindo e fechando a boca antes de gaguejar: — Você é a porra de um supermodelo. O que exatamente você pretendia gabaritar, Tyra Banks? "Olhar Sexy 101"? — August lançou um olhar convencido a Atticus. — O quê? A Kendra gostava de America’s Next Top Model. Eu sei de algumas coisas.
Adam franziu o nariz ao ouvir o nome da ex-namorada de Atticus. Ela era uma porra de um pesadelo. Uma interesseira total que descera sobre a casa dos Mulvaney como uma praga, com seu exército de piranhas fazendo o melhor para fisgar os irmãos Mulvaney um por um, como se achassem que poderiam limpar o tabuleiro de uma vez.
Certamente estavam batendo na porta da família errada. Metade dos seus irmãos gostava de pau, dois deles não se importavam com gênero, e August... bem, Adam tinha quase certeza de que ele era a porra de um androide. Não conseguia imaginar o irmão enfiando o pau em nada que não exigisse pilhas.
— Olha, não estou dizendo que modelar exige a mesma habilidade que uma neurocirurgia ou emenda de genes ou qualquer porra que você faz no modo cientista maluco, mas pelo menos eu não deixei um cutelo preso na cabeça de um estuprador de cento e trinta quilos. — É um cutelo de carne — Atticus e August disseram em uníssono.
— Tanto faz. Podemos terminar logo com isso? Está quente pra cacete aqui dentro e cheira a carne podre e merda.
— Você é tão bebezão — resmungou Atticus.
— Você é tão bebezão — Adam imitou. — Ótimo. Da próxima vez, chame o Archer. Ou o Asa e o Avi. Os gêmeos assassinos estão sempre prontos para um pouco de "pica e fatia" — Adam lembrou com um grunhido, fazendo força para tirar a camisa do homem. — Uma ajudinha aqui?
Atticus suspirou e August largou seu novo brinquedo. Juntos, os três arrancaram as roupas do homem e as jogaram em um saco de incineração. August puxou a mangueira com o bocal de spray da parede. Pelo menos ainda tinham a fábrica deserta para usar em emergências. Enquanto August lavava o corpo manchado do homem, Atticus saiu e foi até a van, retornando com dois galões de água sanitária industrial, entregando máscaras e óculos de proteção antes de abrirem os produtos químicos.
Ele era um viciado em regras. Provavelmente era exagero, mas não podiam correr riscos. Se fossem pegos, a família inteira caía. A destruição mútua assegurada era a cola que mantinha aquela pequena família fodida unida.
— Da próxima vez, podemos só dar um banho de ácido na vadia? — Adam perguntou, despejando a água sanitária sobre o cadáver, com o nariz e os olhos ardendo apesar do equipamento de proteção. — Esses produtos químicos deixam rastros de compra. Além disso, lembra quando o Archer tentou isso e o barril virou? Adam estremeceu. — É, já disse tudo.
O resto do trabalho levou cerca de três horas. Quando terminaram, estavam todos cobertos de sangue e estilhaços de osso. Carregaram os pedaços agora limpos no isopor no carro de August, cobrindo tudo com uma camada de peixes. Eles se despiram das roupas ensanguentadas e se revezaram atingindo uns aos outros com jatos de água gelada da mangueira. Depois de vestirem roupas limpas, deram mais uma esfregada no local com água sanitária e a mangueira, e August mergulhou a serra elétrica em um balde de alvejante antes de fechar o lugar.
— Sabe o que fazer? — Atticus perguntou a Adam. Adam revirou os olhos. — É, eu só fiz isso umas mil vezes. — Ele pegou o telefone, passou o braço em volta do irmão e enviou a foto para Calliope.
Adam: Faz um Photoshop disso em algum bar genérico e posta nas nossas redes sociais. A resposta dela veio na velocidade da luz: É assim que você pede as coisas? Adam: Desculpe. Noite longa. Você pode fazer isso por mim, linda? Ela enviou dois emojis de beijinho e um desconfiado, seguido de: Pronto, feito.
Adam estava prestes a guardar o telefone quando viu que tinha outra mensagem. Era apenas uma palavra: Casa.
Noah. Um choque de consciência percorreu Adam. Ele dissera a ele para avisar quando chegasse em casa, e ele obedecera. O som que escapou de sua garganta foi quase um rosnado. Havia algo no fato de Noah seguir suas ordens que foi direto para o seu pau e acendeu um instinto primitivo, fazendo sua mente mergulhar na sarjeta, pensando em todas as outras coisas que ele gostaria de fazer Noah fazer para ele... e com ele.
Adam caiu no banco da frente da Land Rover de seu pai, mas não fez menção de ligar o carro, ocupado demais pensando no que acontecera entre eles poucas horas atrás. Noah fora tão fácil, tinha derretido nos braços de Adam, deixara que ele fizesse o que quisesse.
Mas Noah também estava chapado. Talvez fosse por isso que ele cedera tão facilmente, que fizera aqueles sons toda vez que suas bocas se encontravam. Que outros ruídos ele poderia arrancar de Noah se tivesse tempo? Ele ligou o motor do carro, tentado a engatar a marcha e ir procurá-lo.
Ele não fora convidado. Mas seu pau estava duro só de pensar no rosto doce de Noah e em seu corpo esguio. Havia tanto fogo compactado em uma estrutura tão pequena. Ele fora tão feroz no dia em que se conheceram e tão submisso poucas horas atrás. Ele quisera Adam, não havia como negar. E ele não achava que eram as drogas. Pelo menos, não apenas as drogas.
Aquele tipo de poder era perigoso para alguém como Adam. Ele carecia do medidor necessário para temperar seus desejos com as necessidades de Noah. Se Noah lhe desse permissão, Adam não sabia se conseguiria parar antes de levá-lo ao limite. Adam gostava de estar no controle, de assumir o comando, de forçar os outros a se dobrarem às suas vontades. Era algo que ele aceitara sobre si mesmo há muito tempo. E sempre havia alguém disposto a brincar com ele, mas desde aquela primeira noite com Noah, não houvera ninguém além de Noah.
Adam não conseguia parar de pensar nele. Não importava o que fizesse, Noah nunca estava longe de seus pensamentos. A princípio, Adam pensou que fosse a culpa. Adam despedaçara o coração de Noah para salvar a si mesmo. Mostrara a ele quem era seu pai, as coisas nojentas que ele fizera, provavelmente engatilhando memórias reprimidas que Noah não estava pronto para encarar.
Mas não era culpa — ou melhor, não era apenas culpa. Ele só queria estar perto dele. Adam passava a vida habitando a escuridão, e Noah parecia a luz. Parecia o sol no rosto de Adam. Sempre que o via, algo se desaninhava no fundo de seu peito e ele conseguia respirar... mesmo que Noah não soubesse que ele estava lá.
E esse era o problema.
Adam não entendia de limites. Quando criança, ele quebrara muitos brinquedos tentando fazê-los fazer coisas para as quais não foram feitos. Ele não queria que Noah fosse outro brinquedo quebrado. O garoto já estava tomando pílulas misteriosas e se pegando com estranhos assassinos em prédios abandonados. Quando descobriu que Adam não estava lá para matá-lo, ele parecera decepcionado.
Talvez Noah precisasse de Adam? Talvez precisasse de alguém para cuidar dele, vigiá-lo, mostrar-lhe do que era capaz. Adam bufou. Ele não poderia ser o anjo da guarda de Noah — não quando toda vez que fechava os olhos, o imaginava de joelhos, implorando para que Adam fizesse coisas cada vez mais sujas com ele.
Ele engatou a marcha, saindo do estacionamento e entrando na estrada sem um destino real em mente. Deveria ir a algum lugar, ser visto, garantir um álibi. Adam parou lentamente no sinal vermelho. Ele sentia uma coceira para virar à esquerda e ir para o The Landing Strip, o clube de striptease perto do aeroporto. Era onde Noah morava — um trailer Airstream enferrujado estacionado no pátio. Noah trabalhava lá como lavador de pratos.
Um anjo e um demônio discutiam no ombro de Adam. A esquerda o levava a Noah, que ele sabia de fato estar em casa. A direita o levava ao seu estúdio no coração da cidade. Ele precisava ir para casa. Precisava deixar Noah em paz. Ele era vulnerável; pequeno, doce e tão fodidamente maleável. Adam queria ser aquele que o faria chorar, que o faria ganir, gemer e suspirar. Talvez até aquele que o faria gritar.
Quando Noah perguntara se Adam iria machucá-lo, Adam não mentira. Se tivesse a chance, ele machucaria Noah. Era o que ele fazia. Era quem ele era. Mas Noah esmagara suas bocas apenas depois que Adam dissera que sim. Ele queria que Adam o machucasse? Ou Adam de alguma forma convencera Noah de que não era o vilão? Porra, ele esperava que Noah não pensasse, de algum jeito, que ele era uma pessoa boa.
Adam era o pior dos homens, um cara mau que fazia coisas más com pessoas más por boas razões. A balança do bem e do mal nunca voltaria para a direção certa para ele. Ele não apenas matava pessoas, ele gostava disso, e isso nunca iria mudar. O mundo precisava de pessoas como ele e seus irmãos. Seu pai os chamava de "mal necessário".
Necessário ou não, Noah merecia algo bom em sua vida, e isso nunca seria Adam. O mínimo que ele poderia fazer era ficar longe dele. Mas quando o sinal abriu, Adam virou à esquerda.
Merda.
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** NOAH **
Noah quase tinha alcançado seu trailer quando uma garrafa de cerveja estourou contra a lateral, a centímetros de sua cabeça; cerveja e estilhaços de vidro atingiram sua pele. Noah talvez tivesse se assustado, se não fossem as pílulas cor-de-rosa de Bailey. Não era a primeira vez que jogavam uma garrafa em sua cabeça; não era nem a primeira vez naquele mês. Pessoas em clubes de strip baratos costumam tomar decisões péssimas.
— Ei, seu merdinha. Não foge de mim, não.
Gary o girou e o prensou contra o trailer; sua cabeça bateu forte o suficiente para fazê-lo ver estrelinhas de desenho animado. — E aí, Gary. Qual é a boa? — Noah perguntou, com uma risadinha escapando dos lábios.
Eles deviam parecer cômicos para quem visse de fora. Gary era trinta centímetros mais alto e uns cinquenta quilos mais pesado, e sua mão rechonchuda em volta da garganta de Noah teria sido capaz de cercar todo o seu pescoço se ele não estivesse prensado contra o revestimento de metal de seu Airstream.
O estômago de Noah revirou com o fedor de suor, cerveja e mau hálito vindo de Gary, que estava a um centímetro de seu rosto. — Foi você que pegou?
Noah franziu a testa e piscou, forçando-se a se concentrar. O que havia naquelas pílulas? — Peguei o quê?
Sua cabeça foi jogada para o lado quando Gary lhe deu um tapa no rosto forte o suficiente para fazer o mundo girar. — Minha mochila. Você pegou do meu escritório?
Noah sentia que estava sorrindo, depois rindo, mas não conseguia parar. — Eu nem trabalhei hoje. Saí com amigos. Por que eu roubaria uma mochila? — Ele forçou uma expressão séria. — O que tinha nela? Era o seu senso de humor?
Mais uma vez, Gary lhe deu um tapa.
— Se continuar fazendo isso, vai ter que me pagar um jantar — Noah provocou, lambendo os dentes superiores de forma debochada, cambaleando quando Gary o soltou abruptamente.
— Seu pai era um amigo, mas você está abusando da sorte. Se eu descobrir que foi você, vou te enterrar dentro dessa lata de lixo que você chama de casa. Entendeu, porra?
Antes que Noah pudesse formular uma resposta, Gary se virou, caminhando pesadamente de volta para a entrada da boate.
Noah conseguiu entrar no Airstream, travando a fechadura frágil. Deu outra olhada rápida pela janela para garantir que Gary tinha ido embora antes de ir até o sofá de estampa floral feia na pequena sala de estar; ele removeu o assento do banco e puxou a mochila camuflada de seu esconderijo.
Gary era um idiota completo. Noah a tinha afanado na noite anterior, e ele passava tanto tempo fodendo suas dançarinas que nem tinha notado o sumiço até quase vinte e quatro horas depois. Ele sabia exatamente o que havia na mochila: uma montanha de dinheiro, todo falso; um revólver Ruger de cano curto; alguns pedaços de papel e as chaves dele.
As chaves eram o que ele queria. Ele já tinha feito moldes e os levado para Kevin, na loja de chaves, para fazer cópias. Também tinha feito uma cópia da identidade de Gary, esperando que o endereço estivesse atualizado. Em algum lugar na casa de Gary estava a chave para resolver o mistério de Noah. Um calafrio percorreu seu corpo, como se alguém tivesse acabado de caminhar sobre seu túmulo.
Ele planejava devolver a mochila ao lugar onde a encontrara, mas então Bailey e a namorada o convenceram a ir para a balada. Beber, dançar e festejar parecia uma perspectiva muito melhor do que ficar sentado em seu trailer caindo aos pedaços, obcecado por seu projeto atual. E ele não se arrependia da decisão. Se não tivesse saído, nunca teria beijado Adam, sentido as mãos dele em seu rosto ou visto aquele olhar de intensidade avassaladora que ele teve na primeira noite em que se falaram.
A noite em que ele tentou matá-lo. Aquela noite mudou tudo. De certa forma, tudo estava muito pior agora, mas algumas coisas estavam melhores também. Ele não se sentia mais culpado por não ter salvado seu pai. Agora sabia a verdade sobre o que aconteceu com ele quando criança, para o bem ou para o mal. Principalmente para o mal. Definitivamente para o mal. Talvez não tudo. Mas o suficiente.
O que ele não conseguia lembrar era melhor deixar enterrado, mas isso não significava que ele ia deixar para lá. Porque as coisas de que se lembrava... bem, eram pavorosas. Coisas de pesadelo que nenhuma criança deveria ter que suportar, e Noah não sabia de muito, mas sabia que não estava sozinho. Seu pai também não estivera sozinho.
Noah afastou esses pensamentos. Não queria pensar nisso hoje à noite. Queria pensar nos lábios de Adam nos seus e na maneira como ele soou quando disse que não conseguia parar de pensar nele. Não parecia real. Noah não tinha nada de especial: baixa estatura, físico esguio, definitivamente sem tanquinho. Tinha olhos castanhos sem graça e sardas.
Adam era a porra de um modelo de passarela. Tinha sido, pelo menos. Agora parecia mais um astro do rock, com seu cabelo preto como tinta, unhas pintadas e cílios tão pretos que pareciam ter delineador. E aqueles olhos azuis, tão pálidos que eram quase brancos. Ele não parecia real. Era como se alguém o tivesse arrancado de um drama adolescente. O bad boy. O supermodelo. O assassino.
Noah foi até a cama que ocupava a metade traseira de seu trailer, tirando a roupa até ficar só de cueca antes de se jogar de cara no colchão, com Adam ainda em sua mente.
Ele supunha que querer foder o assassino de seu pai era um nível de loucura que provavelmente exigiria anos de terapia que ele não podia pagar. Mas Noah sentira algo entre eles logo naquela primeira noite. Ele soube no instante em que Adam assumiu o controle da situação; sentiu o equilíbrio de poder mudar mesmo com Noah segurando a arma. Adam poderia tê-lo matado a qualquer momento. Naquele instante, o pensamento foi tão inebriante quanto heroína.
Às vezes, ele desejava que ele o tivesse matado. A morte parecia pacífica, enquanto a vida de Noah era um caos. A morte parecia preferível à solidão. E Noah não conseguia se lembrar da última vez em que não se sentira sozinho. Ele já sentira que alguém se importava?
Ele esfregou o rosto no travesseiro como se pudesse limpar sua depressão. Preferia pensar em Adam. Adam com aquelas mãos grandes e quentes envolvendo seu rosto e movendo-o para onde queria, como se Noah tivesse sido feito apenas para o prazer de Adam. Como seria dar prazer a Adam?
Seu pau endureceu. Definitivamente queria saber a resposta também.
Mesmo hoje cedo, Adam assumira o comando imediatamente, não porque quisesse se impor ou porque tivesse algum tipo de complexo de macho alfa. Adam simplesmente dominava o espaço naturalmente. E, que Deus o ajudasse, Noah gostava disso.
Ou talvez fosse o efeito das drogas. Talvez o Noah sóbrio não achasse sexy o Adam dizendo que provavelmente o machucaria, mas, por hoje, Noah escolheu adormecer com um sorriso nos lábios, revivendo a memória dos beijos de Adam até finalmente apagar.
Noah acordou com o protesto das dobradiças da porta de seu trailer. Ele sentou-se num solavanco, o coração martelando no peito enquanto observava uma figura grande se aproximar. Gary. Ele se encolheu no canto do colchão, mas ficou sem espaço. Era tarde demais para se esconder; só havia uma entrada e saída. Ele bateu a mão no interruptor; a lâmpada de quarenta watts não tirou o horror da situação, mas deu a ela um tom muito mais cinematográfico, como um filme de Stanley Kubrick.
Noah não tinha certeza de quem parecia mais chocado. Se ele ou Adam. Quando o rosto de Adam entrou em foco, um choque de percepção percorreu Noah; parte dele excitada, mas a outra metade furiosa por ele ter acabado de lhe dar um susto de morte. — Você acabou de invadir a minha casa?
Adam franziu a testa, virando-se para olhar para a porta como se Noah pudesse estar falando com outra pessoa. Quando voltou a olhar, deu de ombros. — Tecnicamente, eu só puxei com força e ela abriu.
A boca de Noah caiu com o tom pragmático na voz de Adam. — Você já ouviu falar em bater na porta?
Adam subiu na cama de Noah, como se fosse óbvio que ele terminaria ali. — Eu bati. Você não respondeu.
Noah puxou o travesseiro para o colo, abraçando-o, perguntando-se se estava sonhando ou alucinando pela segunda vez naquela noite. — Talvez eu não quisesse te ver. Isso sequer passou pela sua cabeça? — ele perguntou, soando pouco convincente até para os próprios ouvidos.
As sobrancelhas de Adam se uniram enquanto ele se inclinava no espaço de Noah. — Não, não passou. Por que você não iria querer me ver?
— Hum, são tipo quatro da manhã? Eu estava dormindo? Eu nem te conheço direito? — Noah rebateu.
— Você me conhecia mais cedo. Aquele embaixo de mim era você, não era?
Noah apertou o travesseiro com mais força. — E você entendeu isso como um convite oficial para entrar na minha casa?
Adam pareceu realmente ponderar a questão, como se não tivesse certeza de suas próprias motivações. Finalmente, ele disse: — Você disse que estava em casa. Eu bati. Você não respondeu. Achei que talvez tivesse tido uma overdose. Eu precisava ver com meus próprios olhos que você estava vivo.
Noah esfregou a base das palmas nos olhos. — Estou vivo.
Adam não foi embora; apenas se aproximou. — Por que você usaria uma droga sem nem saber o que era?
Noah deu de ombros. — O que você é, a polícia da moralidade? Você mata pessoas, tipo, como um hobby.
— É mais como um serviço comunitário — disse Adam, com a expressão vazia.
Noah piscou para ele antes de balançar a cabeça. — Eu não consigo entender qual é a sua. Nunca sei se você está tirando sarro de mim ou se simplesmente não tem a menor ideia do que é considerado um comportamento apropriado.
Adam estendeu a mão e pegou a de Noah, olhando para ele com uma intensidade que o fez engolir em seco. — Eu sou muito bem treinado em como me comportar na alta sociedade. Meu pai garantiu isso. Mas... isso é para as outras pessoas, não para você.
Noah tentou puxar a mão. — Eu não mereço educação?
Adam franziu a testa, parecendo ficar frustrado. — Não, você não merece a minha versão falsa. Você sabe quem eu sou... O que eu sou. Eu não preciso ser falso perto de você.
Noah deveria estar aterrorizado com a intensidade das palavras de Adam, a forma como ele o encarava como se visse algo... mágico. Talvez Adam estivesse chapado? — Eu sei que você assassinou meu pai. Sei que você já matou pessoas. Mas não sei quem você é. Só sei o que você fez. Isso não pode ser quem você é.
Adam pareceu quase ofendido pelas palavras de Noah. Estava definitivamente confuso. — Mas é. Eu fui criado para isso. Todos nós fomos.
Noah ponderou as palavras dele. — Você foi criado para matar?
— Fomos criados para equilibrar o jogo. Para corrigir os erros do sistema de justiça. Há muita gente ruim neste mundo e a lei raramente toma a decisão certa. Nós fazemos nossa lição de casa. Salvamos vidas. Mantemos as pessoas seguras.
Noah deveria dizer para Adam ir embora. Tinha visto documentários de crimes o suficiente para reconhecer um sociopata quando via um; sabia que qualquer um que olhasse para ele daquela forma provavelmente era louco de pedra. Mas ele não estava errado. Matar o pai de Noah, por mais doloroso que tivesse parecido na época, definitivamente salvou vidas. Salvou o Noah. Ele só não tinha se lembrado disso até forçar a mão de Adam e aquelas memórias começarem a flutuar para a superfície.
Sua pele arrepiou só de pensar nele. Não tinha ideia de como ou por que tinha transformado o pai em um santo após sua morte. Ele fora definitivamente um monstro. Agora, suas memórias eram o monstro, espreitando nos cantos mais improváveis, surgindo quando Noah menos esperava e o despedaçando.
Às vezes, era como se tivesse acontecido com outra pessoa, mas em outros dias, era como se ainda estivesse acontecendo. Às vezes, a única maneira de calar as vozes era engolir algumas pílulas, beber um pouco de álcool. Às vezes, as drogas eram seu único refúgio seguro.
— Por que você está aqui?
— Eu queria te ver — disse Adam com tanta sinceridade que Noah não pôde evitar sorrir.
— Você acabou de me ver há algumas horas.
Adam se jogou de costas, sentindo-se em casa na cama de Noah, parecendo muito melhor do que deveria ali. — Não foi o suficiente. Eu precisava te ver mais.
— Você sabe que eu não vou transar com você, né?
O olhar de Adam desviou de Noah e voltou, suas sobrancelhas pretas e pesadas se franzindo novamente. — Tudo bem.
— Então, se é por isso que você está aqui, deveria ir embora — instigou Noah.
Adam arqueou as sobrancelhas. — Mas... não é por isso que estou aqui. Então, eu vou ficar. Tudo bem?
Noah só conseguia encarar Adam, que estava tirando os sapatos e depois o jeans, jogando-os na beirada do colchão. — Por que você está tirando a roupa?
— Você queria que eu dormisse de botas?
Noah gesticulou freneticamente. — Por que você tirou as calças?
— Assadura — disse Adam, sem mudar a expressão.
— Você é caso de internação. Completamente pirado.
— Isso é rude. Eu sou um sociopata. Palavras machucam, sabe? — Noah abriu a boca para se desculpar quando Adam sorriu. — Estou brincando. Você tem mais perguntas ou podemos dormir agora?
O cérebro de Noah girava a mil por hora. — Você não mora em uma mansão do outro lado da cidade?
Adam balançou a cabeça com um sorriso. — Não, meu pai mora. Eu moro em uma quitinete do outro lado da cidade.
— E por que você não pode ir dormir lá?
Adam deu de ombros. — Porque você não está lá e eu quero estar com você.
Noah piscou para ele com cara de tonto. — Eu... — Ele parou. Por que estava lutando contra aquilo? Não tinha pensado em nada além de Adam desde que se despediram horas atrás. — É, está bem. Você venceu. Vamos dormir. Mas nada de gracinhas — ordenou Noah, secretamente esperando que ele fizesse alguma.
Adam sorriu, enfiando-se debaixo das cobertas e segurando o edredom para que Noah fizesse o mesmo. Antes que pudesse fazer qualquer outra coisa, Adam deslizou o braço por trás do pescoço de Noah, puxando-o para si. Noah permitiu-se descansar a cabeça no peito de Adam, notando vagamente que era uma camiseta diferente da de antes. Sob seu ouvido, os batimentos cardíacos de Adam pulsavam firmes, induzindo Noah a um cochilo leve.
— O que é aquilo? — Adam perguntou.
Os olhos de Noah se abriram, olhando para Adam, que encarava o teto. Ele tentou se livrar do aperto de Adam, mas ele o segurou no lugar.
— Não é nada. Só um projeto.
O olhar de Adam se cruzou com o dele. — Eu reconheço um quadro de investigação de assassinatos quando vejo um.
Noah olhou para o teto onde tinha pregado inúmeras fotos, documentos, artigos e imagens de possíveis suspeitos, conectando todos com fios vermelhos. — Não estou mentindo. É um projeto.
— Um que envolve o seu pai?
Noah olhou para a foto do pai no centro do teto. — É, algo assim.
— Você sabe que eu não vou parar de perguntar até você me contar, né? — Adam perguntou.
Noah suspirou. — Vou fazer um trato com você. Se pudermos dormir agora, eu explico tudo amanhã. Tive uma noite longa.
Noah assustou-se quando Adam levantou a mão e acariciou sua bochecha. — Tudo bem. Conversamos de manhã. Eu te levo para tomar café.
Não era uma pergunta, então Noah não a recebeu como tal. Adam mudou o peso do corpo e ergueu o queixo de Noah, dando-lhe um beijo suave. — Boa noite.
— Boa noite — Noah ecoou, com a voz rouca.