Ela fechou a porta do quarto com força, mas o barulho continuou. A voz grossa do pai, o choro abafado da mãe, o bater de uma caneca na mesa da cozinha. Mais uma noite.
— De novo essa merda — sussurrou ela, encostando a testa na parede fina do apartamento.
Do outro lado, só silêncio. A casa do vizinho. O velho barrigudo de 60 anos que ela via todo dia no elevador. Ele sempre dava bom dia com um sorriso tímido, mas ela já tinha reparado como o olhar dele descia sem querer até os seios pequenos dela por baixo da camiseta.
Sem pensar duas vezes, saiu do quarto, passou pela sala onde os pais gritavam, e bateu na porta do vizinho.
Ele abriu com uma expressão de susto. Camiseta regata, barriga saliente, cabelo grisalho bagunçado.
— Oi — ela disse, com a voz trêmula. — Posso ficar um tempo aqui? Não aguento mais ouvir eles brigando.
Ele hesitou, mas abriu passagem. A esposa dele estava no sofá, vendo novela.
— Senta aí, filha — a mulher disse, sem tirar os olhos da TV.
Ela se sentou ao lado do velho. O sofá era pequeno. As coxas se encostaram. Ele pigarreou e afastou um pouco a perna, mas ela não se moveu.
— Você treme — ele murmurou, baixo, enquanto a esposa bocejava.
— É o nervoso.
Ele não respondeu. Mas sentiu quando ela deslizou a mão até o joelho dele, por baixo de um jornal que estava no colo. O dedo dela fez um círculo lento na calça jeans dele.
Ele olhou para a esposa. Ela já estava com os olhos semicerrados, quase dormindo.
— Isso é loucura — ele sussurrou.
— Eu sei — ela respondeu, e a ponta da língua apareceu entre os lábios.
O dedo dela subiu um pouco mais. Ele prendeu a respiração. O sofá rangeu.
A esposa ressonou leve.
Ele virou o rosto e encostou os lábios no cabelo dela.
— Você não sabe o que está fazendo.
— Sei, sim — ela disse, e a mão apertou de leve.
Então ela se levantou devagar, sem fazer barulho. Olhou para a esposa adormecida, depois para ele. Estendeu a mão.
— Vem.
Ele engoliu em seco. Olhou ao redor da sala escura, ouviu o ronco leve da mulher, os vizinhos gritando ainda do outro lado da parede. E se levantou.
Ela o levou pelo corredor até o banheiro, a única porta que dava para fechar sem barulho. Mal cabiam os dois dentro. A luz do abajur da sala entrava por baixo da porta, desenhando uma faixa amarela no chão frio.
Ela o empurrou contra a parede de azulejos. As mãos dele hesitaram, depois encontraram a cintura dela. Ela mordeu o lábio dele, puxou a camiseta dele para cima, passou as mãos pela barriga. Ele gemeu baixo.
— Cala a boca — ela sussurrou, e riu.
Ele riu também, nervoso. A mão dele escorregou por dentro da bermuda dela, e ela arqueou as costas, encostando a testa no peito dele.
A esposa tossiu na sala. Os dois congelaram.
Silêncio.
Depois, o ronco voltou.
Ela puxou o zíper da bermuda dele com os dentes. Ele fechou os olhos.
— Você vai me pagar por isso — ele murmurou.
— Já estou pagando — ela respondeu, e abaixou a própria calça até os joelhos.
Ele a virou de costas, devagar, com as mãos trêmulas. Ela apoiou as mãos na pia. Ele se aproximou por trás, o corpo dela quente contra a barriga dele.
— Assim? — ele perguntou, a voz falhando.
— Assim — ela confirmou, olhando para ele pelo reflexo do espelho escuro.
Ele encostou o rosto no pescoço dela. Ela sentiu a respiração quente, o cheiro de sabonete barato e suor. A mão dele apertou o quadril dela.
E a porta do banheiro rangeu sozinha com o peso dos dois.
Foi então que a esposa apareceu.
Tinha acordado com a bexiga cheia. Levantara-se devagar do sofá, espreguiçara-se, passara a mão nos cabelos grisalhos e viera andando sem fazer barulho pelo corredor escuro. A porta encostada. A fresta de luz.
O que ela viu fez seu coração parar por um segundo.
O marido — o homem barrigudo com quem dividia a cama há trinta anos — estava ali, de costas para ela, abraçado com a garota. Os dois corpos colados. A camiseta dela jogada no chão. A calça dele enrolada nos pés. A mão dele apertando a cintura dela contra a pia.
A garota olhou pelo reflexo do espelho e viu a mulher parada na porta.
Em vez de gritar, em vez de fechar os olhos, a esposa entrou. Fechou a porta atrás de si com um clique seco.
O marido virou o rosto, pálido.
— Não para não — ela disse, com a voz baixa e firme. — Já que começaram, quero ver até onde vão.
A garota riu, nervosa. A esposa aproximou-se mais, o corpo grande roçando no braço suado dele. Ela olhou nos olhos da menina, depois para o marido.
— Trinta anos, hein? — ela murmurou. — E eu achando que você já não tinha mais jeito.
Ele tentou dizer alguma coisa, mas a voz não saiu.
A esposa então se virou, abriu a porta do banheiro e saiu, deixando os dois ali, ofegantes, nus, descobertos. Voltou para o sofá, ligou a TV no mudo, e esperou.
Quando ele saiu do banheiro, meia hora depois, a garota já tinha voltado para o próprio apartamento. Ele estava vermelho, descabelado, com a camiseta do avesso.
Sentou-se ao lado da mulher.
— Eu posso explicar — ele começou.
Ela colocou a mão na coxa dele.
— Amanhã você explica. Agora vai dormir.
Ele deitou. Ela ficou sentada, olhando para a parede fina, escutando os vizinhos brigando do outro lado.
E sorriu sozinha.
Na manhã seguinte, ela acordou com o cheiro de café. O marido já estava na cozinha, de costas, mexendo a panela no fogão.
Ela se sentou à mesa, cruzou os braços.
— Sentou ali no sofá com ela — o marido disse, sem se virar. — Você viu tudo e não fez nada. Por quê?
A esposa levou a xícara aos lábios, tomou um gole devagar.
— Porque fazia tempo que eu queria ver se você ainda tinha sangue nas veias. E também — ela pausou, os olhos apertados — queria ver o quanto ela era capaz de ir longe.
Ele virou o rosto, confuso.
— O que você quer dizer com isso?
Ela levantou, foi até ele, colocou a mão no peito dele.
— Quero dizer que aquela menina não é santa. Ela se ofereceu para você, mas também já se ofereceu para o próprio pai. Eu ouvi. Através da parede. Na noite em que a mãe dela viajou.
O marido empalideceu.
A esposa deu mais um gole no café, os olhos fixos na janela.
— E você vai fazer o quê com essa informação? — ele perguntou, a voz falhando.
Ela colocou a xícara na mesa, com um clique seco.
— Nada. Por enquanto.
Do outro lado da parede, a garota escutava tudo, encostada no quarto, um sorriso nos lábios.
Hoje à noite, ela pensou, eu bato na porta dele de novo.