Nos porões de nossas almas e de nossos corpos, encontrávamos saciedade. Entre paredes sombrias e o veludo rubro do carpete, não havia espaço para máscaras ou hipocrisias; ali, o restante do mundo simplesmente deixava de existir.
(Salomé, Moulin Rouge)
Ophélia é meu nome de batismo — assim me disseram, embora eu mesma pouco saiba sobre ele. A verdade é que, enquanto teço verbetes e açoito meus dedos sobre o carvão e o papel macio, pergunto-me por quais caminhos errantes caminhei até interromper meus passos exatamente neste ponto do mundo. Minha história não é bela; tampouco é adornada por aventuras ou amenidades. Não cabe sequer na moldura da melancolia. Ela apenas é — uma história.
Certo dia despertei do torpor dos pensamentos e acolhi aquilo que sempre habitara em mim: meu demônio interno — ou seria apenas um desejo há muito disfarçado? Nomeá-lo nunca foi a questão.
Meu corpo passou a exigir mais. Minha carne estremeceu. Diante do espelho, meus sentidos insurgiram-se, como se quisessem punir-me pelos longos anos em que os mantive em cárcere. E então compreendi que havia chegado a hora de libertá-los.
Caminhei. E caminhei um pouco mais. Deixei que meus pés me conduzissem por essa tecnologia louca e sedutora que nos aproxima e nos confunde. Foi ali que encontrei um porto — efêmero, talvez, mas suficientemente firme para que eu decidisse lançar âncora, ao menos por um tempo.
Entre breves estrofes e tímidas apresentações, encontrei-o.
Ou talvez tenha sido ele quem me encontrou primeiro.
Havia algo em sua presença — mesmo tão distante, mesmo reduzida a palavras sobre uma tela — que me desconcertava. Não era a pressa comum dos encontros modernos; era uma lentidão calculada, quase ritualística. Ele sabia esperar. Sabia construir silêncios. E, mais perigoso ainda, sabia habitá-los.
Seu modo de escrever possuía uma estranha elegância — preciso, atento, quase cirúrgico — mas havia também uma sombra, um subtexto que escapava pelas entrelinhas e me alcançava de maneira inesperada. Era um homem de poucas urgências e muitos mistérios. Não se revelava; insinuava-se.
Meu primeiro impulso foi fugir. O segundo, mais perigoso, foi permanecer.
E permaneci.
Passei a esperar por ele como quem espera uma estação mudar. O som das notificações tornou-se um pequeno rito; cada mensagem sua fazia o tempo adquirir outra densidade. Eu relia frases, buscava sentidos ocultos, imaginava o timbre de sua voz, o peso de suas pausas, a expressão que seus olhos talvez assumissem ao escrever meu nome.
Comecei a criar para ele um rosto — e desfazê-lo logo depois. A inventar gestos. A adivinhar sorrisos. A desejar aquilo que ainda não conhecia.
Após algumas noites, desejos antes desconhecidos começaram a florescer em mim, alimentados pelos anseios que atravessavam a tela e vinham ao meu encontro. A expectativa, a demora calculada, a provocação contida — tudo se converteu em um jogo deliciosamente cruel.
Ele parecia compreender meus limites antes mesmo que eu os nomeasse. E então os rodeava. Não os tocava de imediato — contornava-os, observava-os, convidava-me a cruzá-los por vontade própria.
Descobri prazer na tensão, na vertigem da espera, na ousadia de me perceber mutável sob seu olhar invisível.
O que antes era receio transfigurou-se em êxtase.
E eu, que durante tanto tempo habitara o conforto das minhas próprias muralhas, senti-me curvar — flexível, viva, vulnerável — como um tronco antigo dobrando-se ao sopro violento de um vendaval. Talvez pela primeira vez, não temi o abalo.
Desejei-o. Não apenas a ele — mas à mulher que eu me tornava diante dele.
