No Lugar Errado

Da série O Galpão
Um conto erótico de Mateus
Categoria: Gay
Contém 2162 palavras
Data: 25/05/2026 22:44:27
Última revisão: 25/05/2026 23:01:04
Assuntos: Bruto, Gay, Macho, Oficina, sigilo

Minha mãe tinha a capacidade irritante de transformar decisões em fatos consumados.

— Você já tá com dez*****s anos, Mateus.

Ela dizia isso como se a idade fosse uma doença degenerativa que exigisse providências urgentes.

— E daí? — respondi, sem tirar os olhos do prato.

— E daí que tá na hora de aprender a trabalhar.

Meu pai soltou um suspiro cansado do outro lado da mesa.

— O menino tá estudando.

— Meio período não mata ninguém.

— Mata nota.

— Só nota não gera disciplina, caráter, compromisso. Ele tem que aprender o valor do trabalho, também.

Eles já tinham tido aquela discussão antes. Muitas vezes. Eu normalmente saía da cozinha no meio, deixando os dois brigarem sozinhos, como um casal cansado discutindo o destino de um país falido. Mas, naquela noite, havia algo diferente no tom da minha mãe. Ela já tinha decidido.

— A Sandra tá precisando de alguém lá na empresa.

Pronto, ali estava o veredito. Meu pai largou os talheres.

— Sandra? Aquela oficina?

— Não é oficina — minha mãe rebateu rápido — É uma empresa.

— Empresa de quê?

— Estrutura metálica. Cobertura. Galpão. Essas coisas.

Meu estômago afundou devagar, porque eu sabia exatamente o tipo de lugar que era. A empresa ficava num galpão enorme na saída do bairro, perto da rodovia. Um daqueles lugares eternamente cobertos de poeira fina e cheiro de ferro quente, onde caminhonetes velhas estacionavam tortas e homens gritavam uns com os outros como se estivessem brigando, mesmo quando estavam apenas conversando.

Meu primeiro pensamento, ao chegar lá, foi simples: eu não sobrevivo uma semana aqui. O calor era absurdo, marretas batendo, faíscas atravessando o ar, o cheiro de solda misturado com suor masculino. Tudo parecia excessivamente físico, pesado, barulhento.

E eu… bom. Eu era um garoto magro demais, limpo demais, acostumado a passar a tarde lendo ou estudando enquanto ouvia música no quarto. Não sabia carregar chapa de metal, não sabia usar lixadeira, não sabia sequer conversar naquele idioma bruto dos homens dali.

— Esse é o filho da (nome da minha mãe)? — perguntou um cara gordo, encostado num monte de ferro.

— É — respondeu Sandra — Mateus.

O homem me olhou de cima abaixo, devagar demais.

— Hum.

Só isso. Hum. Mas aquele “hum” dizia muitas coisas: fraco, bonitinho, não aguenta. Meu corpo inteiro ouviu.

Os primeiros dias foram humilhantes. Eu chegava em casa destruído, os braços queimando, as mãos ardendo de pequenas feridas. A lombar latejando como se eu tivesse sessenta anos. No terceiro dia, tive que fingir no banheiro que não estava quase chorando de cansaço. Não somente pela dor física, mas pelo sentimento constante de inadequação.

Os outros homens dali pareciam pertencer naturalmente ao próprio corpo. Ocupavam espaço com facilidade. Sabiam levantar peso, xingar, rir alto, existir sem pensar demais. Eu pensava demais, gostava de literatura, cinema, arte, política, história, mitologia, música, quadrinhos, e só pensava em ir embora dali o tempo inteiro.

— Ô aprendiz! — gritou um deles certa manhã — Traz aquela caixa ali.

Aprendiz. O apelido pegou rápido. Sempre vinha acompanhado de risada. Ou provocação.

— Cuidado pra não quebrar a unha.

— Vai devagar que o príncipe cansou.

— Esse aí nunca pegou no pesado na vida.

E o pior era que estavam certos. Mas havia outra coisa acontecendo ali, algo mais silencioso, mais perigoso. Porque, no meio daquele ambiente brutalmente masculino, meu corpo começou a reagir de maneiras que eu odiava admitir.

O suor escorrendo pelos braços deles, as camisetas levantando sem querer, os músculos tensionando sob esforço, as brincadeiras físicas, os empurrões, o contato constante. Tudo era excessivamente corporal naquele lugar. E eu percebia demais. Muito mais do que deveria.

Foi então que notei Leandro (tenho um problema com alguns nomes, eles sempre voltam) pela primeira vez. Ou talvez ele já estivesse ali antes e eu só tivesse permitido olhar naquele dia. Ele devia ter uns dezenove anos. Um pouco mais alto do que eu. Moreno de sol. Forte de um jeito funcional, músculos criados na academia e no trabalho pesado. Braços cobertos por uma camada fina de pelos escuros. O cabelo curto e preto quase sempre molhado de suor no fim do expediente.

Mas era o olhar. Sempre o olhar. Leandro tinha aquele tipo de expressão masculina preguiçosa que parecia permanentemente entre o deboche e a ameaça. E ele me observava, não o tempo inteiro, só o suficiente.

Na sexta-feira da minha primeira semana, eu estava carregando umas peças menores para o depósito quando a caixa escapou da minha mão. O barulho ecoou pelo galpão, ferramentas caíram no chão. Silêncio. Depois risadas.

— Aí, aprendiz…

Fechei os olhos por um segundo. Queria evaporar, mas antes que alguém continuasse, ouvi outra voz.

— Vocês também são uns filhos da puta.

Leandro. Ele apareceu do outro lado do corredor, limpando as mãos numa flanela suja.

— O moleque tá aqui há cinco dias.

— Cinco dias e já quer aposentadoria — alguém respondeu.

Mais risadas. Leandro nem sorriu. Se abaixou e começou a me ajudar a recolher as ferramentas espalhadas.

— Relaxa — disse baixo, sem olhar diretamente pra mim — Na primeira semana eu derrubei uma escada inteira em cima do carro do chefe.

Olhei pra ele, surpreso.

— Sério?

Ele finalmente sorriu. Lento. Bonito demais.

— Não.

E saiu andando. Filho da puta. Naquela noite, pela primeira vez desde que comecei ali, cheguei em casa pensando em outra coisa além de desistir. Fui pro banho ainda sentindo o cheiro da empresa impregnado na pele. Ferro, poeira, sol, suor.

E, pela primeira vez, percebi que meu corpo estava começando a associar aquele lugar a algo além de cansaço. Algo pior. Ou melhor. Ainda não dava pra saber. Só sabia que, enquanto a água escorria quente pelos meus ombros doloridos, a imagem de Leandro sorrindo no galpão voltava inteira pra minha cabeça. E eu tive a sensação estranha, quase elétrica, de que sobreviver ali talvez fosse muito mais perigoso do que eu imaginava.

__________

Na segunda-feira da semana seguinte, acordei com o corpo menos dolorido. O que era estranho, porque eu já tinha entendido que dor era o idioma oficial daquele lugar. Minha mãe colocou café na minha xícara sem me olhar.

— Viu? Sobreviveu.

Meu pai, atrás do jornal, soltou:

— Ainda dá tempo de pedir demissão.

— Meu bem…

— O quê? O menino tá acabado.

— O menino tá trabalhando.

Eu permaneci quieto, mastigando o pão dormido e tentando ignorar a sensação constante de que minha vida tinha sido sequestrada por adultos cansados. Quando saí de casa, para ir à escola de manhã, ainda estava frio. A cidade amanhecia devagar, meio cinza, meio enferrujada, como se também tivesse dificuldade de existir antes das sete da manhã.

Após o almoço, de tarde, eu voltaria para o novo trabalho. E, pela primeira vez, senti uma coisa próxima de resignação. Talvez eu realmente fosse ficar ali, talvez aquele galpão fosse agora parte da minha vida. A ideia era deprimente. E curiosamente elétrica.

A empresa parecia diferente logo após o almoço. Menos barulhenta, menos agressiva. Homens segurando copos de café preto, rádio sertanejo tocando baixo, caminhões chegando cobertos de poeira vermelha de estrada.

Foi Sandra quem me chamou.

— Mateus, vem cá.

Ela estava numa sala de vidro elegante acima do galpão. Um escritório moderno, cheio de pastas, cheiro de papel, ar-condicionado e computadores novos, bem diferente do clima lá embaixo.

— Senta.

Me sentei. Sandra me observou por alguns segundos sobre os óculos.

— Você tá odiando aqui, não é?

A honestidade quase escapou. Quase.

— Tô tentando me adaptar.

Ela riu pelo nariz.

— Diplomático.

Pegou uma caneta, girando entre os dedos.

— Sua mãe falou que você é bom com computador.

— Acho que sim.

— E escreve bem?

— Melhor do que carrego ferro.

Aquilo arrancou dela uma gargalhada sincera.

— Ainda bem que você sabe.

Eu sorri, meio sem graça. Sandra então apontou para o galpão lá embaixo.

— Aqueles homens ali nasceram pra isso. Você não.

A frase me incomodou imediatamente. Porque parte de mim concordava. E outra parte odiava concordar.

— Isso não é crítica — ela continuou — Cada um serve pra uma coisa.

Ela abriu uma pasta cheia de papéis.

— Tô precisando organizar orçamento, nota, pedido, planilha… essas merdas. Você aprende rápido?

— Aprendo.

— Ótimo. Porque o Paulo soma errado e o Júlio escreve “conserto” com dois esses.

Ri sem querer. E foi assim que minha sentença mudou de setor.

A notícia se espalhou rápido demais. No final do dia, já sabiam. Homem em ambiente masculino percebe privilégio antes mesmo de perceber fumaça.

— Aí é mole — comentou Júlio, alto o suficiente pra mesa inteira ouvir — Uma semana e já virou secretário.

— Filho de amiga da patroa é diferente — outro respondeu.

Risadas. Eu continuei olhando pro nada. O ventilador girava preguiçoso no teto, espalhando calor ao invés de aliviar.

— Relaxa, aprendiz — disse Paulo — Daqui a pouco tá mandando na gente.

Mais risadas. O tom era brincadeira, mas não era. Leandro apareceu no meio daquilo segurando uma garrafa de refrigerante. Se sentou ao meu lado sem pedir licença.

— Vocês tão com inveja porque ele sabe ler.

Silêncio curto. Depois alguém respondeu:

— Ih, o namorado chegou.

As gargalhadas aumentaram. Meu estômago travou imediatamente, mas Leandro só abriu a garrafa, calmo.

— Se eu fosse namorado dele, pelo menos ia melhorar o gosto dele pra homem.

Aquilo fez metade da mesa explodir de rir, inclusive eu, contra minha vontade. E talvez tenha sido esse o problema. Porque, dali em diante, alguma coisa mudou.

O escritório ficava acima do galpão, mas o calor subia inteiro. Eu passava as tardes digitando orçamento enquanto escutava o som metálico da produção lá embaixo. Marreta, serra, solda, gritos. Às vezes eu observava pela janela os homens trabalhando sem camisa no calor brutal das três da tarde. Braços brilhando de suor, movimentos repetitivos, brutais, hipnóticos.

E então eu procurava Leandro automaticamente, o que já era preocupante por si só. Ele tinha um jeito irritante de ocupar espaço sem fazer esforço, sempre andando devagar demais, como se nada naquele lugar tivesse autoridade suficiente para apressá-lo.

E ele olhava pra mim, toda hora. Não descaradamente. Pior. Com pequenas pausas, pequenos sorrisos, pequenos desafios silenciosos, como se soubesse exatamente o efeito que causava.

Na quarta-feira, quase no fim do expediente, faltou energia no galpão inteiro. Os motores desligaram de uma vez, o silêncio repentino chegou a doer no ouvido. Alguém xingou lá embaixo, outro começou a rir. O calor piorou instantaneamente sem os ventiladores.

Sandra foi embora mais cedo resolver alguma coisa no banco e me deixou fechando o escritório. Eu organizava umas notas fiscais quando ouvi passos na escada metálica. Leandro. Claro. Ele encostou na porta aberta, suado, coberto de poeira clara nos braços.

— Elite do administrativo ainda tá trabalhando?

Continuei fingindo concentração.

— Alguém precisa sustentar essa empresa.

— Ah, pronto. Uma semana e já virou patrão.

Sorri sem olhar diretamente pra ele. Erro. Porque quando finalmente olhei, ele ainda estava me encarando, quieto. O sol de fim de tarde entrava atrás dele, deixando metade do rosto dourada e metade escura. Bonito de um jeito irritante.

— O que foi? — perguntei.

Leandro deu de ombros.

— Nada.

Mas não saía dali. O silêncio ficou mais longo, mais quente. Lá embaixo, alguém gritou alguma coisa distante, um caminhão deu partida, a cidade inteira parecia coberta por aquela luz laranja cansada do fim do dia.

— Você não combina com esse lugar — ele disse de repente.

Meu peito apertou sem motivo racional.

— E você combina?

Ele riu baixo.

— Também não.

Aquilo me pegou desprevenido, porque era a primeira vez que ele parecia falar sério comigo. Sem piada, sem provocação. Só… verdade. Fechei a pasta devagar.

— Então por que você tá aqui?

Leandro me olhou por alguns segundos antes de responder. E havia alguma coisa diferente no rosto dele agora. Algo menos debochado, mais perigoso.

— Porque às vezes a gente fica onde consegue sobreviver.

Silêncio. O tipo de silêncio que muda o ar da sala. Minha garganta secou. Lá fora, o céu começava a escurecer devagar sobre o galpão quente, sobre a cidade pequena, sobre aquele verão comprido demais. Leandro então sorriu de canto, preguiçoso, quase cruel.

— Mas você… — ele disse, me olhando da cabeça aos pés — Você ainda não percebeu o problema que vai arrumar trabalhando aqui.

E desceu as escadas antes que eu pudesse perguntar o que aquilo significava.

__________

DISCLAIMER:

Pessoal, queria fazer um pequeno comentário sobre este novo conto.

Diferentemente das histórias anteriores, que tinham um caráter muito mais autobiográfico, este texto caminha mais livremente pela ficção, pela fantasia e pelas memórias sensuais de uma fase muito específica da minha juventude.

Acho que existe uma idade, especialmente para muitos homens gays e bissexuais, em que a descoberta do desejo vem como uma explosão. Hormônios, curiosidade, carência, fantasia, medo, tesão, culpa, vontade de viver tudo ao mesmo tempo. E, honestamente? Às vezes parecia mesmo que eu queria transar com todos os homens minimamente bonitos que apareciam na minha frente… rs

Então este conto nasce muito desse lugar: menos compromisso com fatos exatos e mais compromisso com sensações, desejos, atmosferas e fantasias que marcaram aquele período da minha vida.

No fim, talvez a literatura seja exatamente isso: transformar emoção em narrativa.

Obrigado por estarem acompanhando essa nova história comigo. Um grande abraço!

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