Há uma mística em uma noite iluminada de sábado. A sensação de infinidade, como se as horas passando fossem apenas o começo de algo maior.
Certamente meu pai sabe disso. Enquanto ele coloca o Rolex envolta do pulso. Ele veste uma camisa de linho fino junto com uma calça preta, particularmente bonito. Bonito? É, eu não deveria observar tanto ele… eu deveria ignorar como os ombros são largos, e os músculos se retesam por debaixo da camisa.
Meu pai sempre teve um corpo de dar inveja, despertando os meus pensamentos mais primitivos na hora escura. Mas eu sempre busquei ignorar isso, afinal ele é meu amigão.
Meu pai tem 32 anos, o que significa que eu tenho 17 o que significa também que eu cresci com ele. Eu vi ele amadurecer. Cuidar de mim não foi fácil eu sei, pelo menos eu imagino. Quando minha mãe foi embora, coube a ele fazer o trabalho difícil e com um tanto incentivo, ele agora é um advogado muito bem sucedido, mesmo sendo muito novo.
Então, sim ele é meu amigão… e ao mesmo tempo dono dos meus pensamentos de uma forma muito errática.
— Deixei cem reais em cima do balcão da cozinha, se quiser pedir uma pizza ou algo para jantar… se precisar de mais algo, tem meu cartão — ele caminha lentamente em minha direção, ele sempre teve um caminhar, como um puma, um predador. — O pai vai encontrar uns amigos do escritório, talvez eu volte bem tarde, entendeu? Vai ficar bem?
— Bom, morrer de fome não vou. — digo um tanto emburrado.
— Ei… não começa! Você sabe que o sábado é meu, eh já tomei café da manhã contigo e o você vai ter o domingo inteiro comigo — ele levanta meu rosto segurando meu queixo. — Eu odeio quando você tenta me dobrar com essa cara.
Meneio com a cabeça, odiando o fato de ele estar novamente preferindo as noitadas dele. Deveria ter me acostumado. Meu pai é um libertino nato. Mal faço ideia do que acontece nessas festas, mas sei que não é coisa leve… nada ilegal, com certeza.
— A impressão que tenho as vezes é que eu ocupo um espaço muito pequeno na sua vida…
— O que não é verdade — ele me corta, intenso, direto, me fitando meio que de cima. — Você é só o centro de toda a minha vida, moleque.
Ele bagunça meu cabelo antes de dar as costas se despedindo. Levanto da cama no encalço dele, e quanto ele se afasta ele dá as últimas ordens e escuto o clique da porta.
As horas se arrastam lentamente como um caracol tentando atravessar uma pista, levando em consideração o que é costumeiro, quando meu pai abre a porta com certa dificuldade imagino a cena antes dela realmente acontecer.
Fito a caixa de pizza em cima da mesa de centro, por onde ele passa com a mão estendida pegando uma fatia já fria.
— Vou tentar não ser o pai chato que reclama do horário de dormir… — Giovanni fica calado, sempre gostei de como o nome dele soa na minha mente. — Tiago, são 02:00 da madrugada e você tem aula amanhã cedo.
— Esqueceu que amanhã é domingo? Tomou absinto ou o quê? Já avisei que misturar destilado e fermentado já não é uma boa para uma pessoa da sua idade.
— 32 anos. Sou mais ativo que você e garanto que faço um estrago. — ele sorri, os dentes impecavelmente brancos, os olhos se apertando de leve.
O cheio de álcool no corpo dele se mistura com perfume e suor. Também há uma nota de perfume feminino então sei que ele se agarrou com alguma puta.
— Imagino… — murmuro mordendo meu próprio lábio inferior, olhando para a televisão ligada.
Ele então se levanta dizendo que vai tomar banho. Mas antes de ir, ele se abaixa e deixa um beijo desajeitado na minha bochecha, o que acaba acertando o canto de meus lábios.
Paraliso. E estou em pânico. Nunca cheguei nessa parte.
E para ele pareceu tão normal… visivelmente, afinal ele apenas continuou andando despretensiosamente.
droga, eu me odeio!
