Capítulo UM
"ADAM"
Adam afundou a cabeça ainda mais no capuz vermelho, a mão fechando-se em torno do cabo da faca escondida no bolso canguru do moletom. Era fácil se misturar no meio da noite, deslizando de sombra em sombra, evitando as luzes amareladas e anêmicas dos postes daquela rua escura e imunda — mas isso não significava que era um bairro seguro. Longe disso.
Aquela era a parte esquecida da cidade. Todas as janelas tinham grades; as ruas eram marcadas por buracos que se transformavam em poças oleosas sempre que chovia. A onipresença de lojas de armas, agentes de fiança e advogados contrastava fortemente com o bairro de Adam, do outro lado da linha do trem. Mas ele não estava tentando "turistar na miséria". Aquelas eram as pessoas de Adam. Ele passara os primeiros seis anos de vida em um trailer caindo aos pedaços atrás de uma loja de conveniência.
Viaturas da polícia rondavam as ruas, às vezes apontando lanternas pelas janelas para assediar grupos de pessoas até que se dispersassem. Mas nunca notavam Adam. Ninguém nunca o notava, na verdade. Era por isso que ele ainda estava livre para vagar, caçar e matar. Mas, naquela noite, a única coisa em sua lista de tarefas era dormir cedo.
Era estranho como alguém podia se camuflar perfeitamente apenas fingindo que pertencia ao lugar. Mesmo alguém que passava boa parte do tempo sob os holofotes. Alguém famoso em certos círculos. Ele supunha que era quase mais fácil passar despercebido quando a alternativa parecia absurda. E o filho caçula do bilionário Thomas Mulvaney andando sozinho na pior parte da cidade, altas horas da madrugada, parecia bem absurdo.
Mas aquele também não era quem Adam era. Na verdade, Adam era ninguém. Uma mentira cuidadosamente elaborada, criada especificamente para corrigir os erros dos outros. Uma mentira que ele executara tão bem que, às vezes, até ele acreditava. Mas não era real. Nada daquilo. Talvez fosse isso que tornava suas caminhadas a melhor parte de suas noites. Ninguém dava a mínima para ele naquele lado da cidade. Não conheciam o nome Mulvaney nem quem o mundo pensava que ele era. Não se importavam.
Ele cortou caminho por um beco escuro até a entrada da carcaça vazia de um prédio onde guardava seus... suprimentos. Não precisava de luz para se guiar. Usava aquele esconderijo específico desde os quinze anos. Só precisava deixar a faca em seu kit e seguir caminho. Talvez até chegasse em casa antes da meia-noite.
Adam não ouviu o arrastar de tênis no concreto até que fosse tarde demais. O som de um cão de arma sendo puxado seguiu-se rapidamente, ecoando pelo espaço vazio. Ainda assim, ele não diminuiu o passo até que uma voz trêmula gritou: — Para.
Adam sentiu vontade de ignorar o pedido. O dono da voz parecia jovem, incerto. Aterrorizado, na verdade. Não era incomum que garotos de rua tentassem encontrar abrigo quando esfriava. Provavelmente era um viciado. Um nóia atrás de dinheiro fácil ou drogas. Mas a chance de levar um tiro não era zero, e até junkies nervosos às vezes davam sorte e acertavam uma artéria. Seu pai o ressuscitaria apenas para matá-lo de novo se ele se deixasse abater naquela parte da cidade.
Ele parou com um suspiro, virando-se para encarar seu agressor. Era definitivamente um amador. Tinha parado exatamente no único feixe de luz do espaço escurecido, iluminando suas feições com detalhes suficientes para que Adam pudesse desenhar o rosto do garoto de memória.
Ele era o antítese de Adam: pálido e sardento onde Adam era bronzeado; cabelos castanhos claros bagunçados onde os de Adam eram negros como azeviche; ossos pequenos e delicados em oposição direta ao corpo de nadador de Adam. Provavelmente não era muito mais jovem que ele. Parecia estar no início dos vinte anos.
O garoto, quem quer que fosse, nunca tinha segurado uma arma antes. Isso estava claro pela postura e pelo modo como sua mão tremia, mas o dedo pairando diretamente sobre o gatilho fez com que Adam lhe dedicasse o mesmo cuidado que daria a qualquer outro predador.
— Tudo bem, você me pegou. E agora? — Adam perguntou.
— Tira o capuz — o garoto exigiu, a arma oscilando em sua mão enquanto falava.
Adam franziu a testa diante do pedido estranho. — Por quê?
O garoto pareceu hesitar, como se não esperasse que Adam fosse questionar. Ele achava que a arma lhe dava vantagem. Provavelmente dava, contra a maioria. Mas não contra Adam. Ele sacudiu a arma. — Não faça perguntas. Só faz.
Adam deu um único passo à frente, observando com interesse o garoto recuar um passo. — Não.
Os olhos do rapaz saltaram. Ele parecia à beira das lágrimas. — Não? Eu vou estourar a porra da sua cara.
Mentira. — Então faz.
Adam observou o dedo do garoto tremer no gatilho. Ah, ele queria fazer. Ele queria Adam morto. Interessante. Talvez fosse tudo um mal-entendido. Não faltavam criminosos naquela área. Muita gente para guardar rancor.
— Eu sei quem você é — disse o garoto, a confiança surgindo em sua voz.
Adam não conteve um riso anasalado. — Ah, é? Quem você acha que eu sou?
Os olhos do garoto se estreitaram, um sorriso sofrido surgindo em seu rosto. Ele suava apesar do frio, mas Adam não achava mais que ele fosse um viciado. O garoto estava apavorado, mas seus olhos eram limpos, sua pele impecável. Aquele garoto não era um nóia.
— Adam. Mulvaney. — Ele articulou cada sílaba, como se dizê-las em voz alta pudesse invocar algum tipo de fúria sobrenatural.
Ouvir seu nome nos lábios do garoto apagou o sorriso de seu rosto. Se ele não precisava esconder sua identidade, então era melhor mostrar a face. Melhor dar ao garoto a aparência de controle. Ele empurrou o capuz para trás. — E quem é você?
Não houve hesitação. — Noah.
Adam sussurrou o nome do garoto para si mesmo. Não esperava que ele respondesse. Pessoas que pretendem deixar suas vítimas vivas não dizem seus nomes. Isso não era um bom sinal para o pobre Noah, que parecia que a vida já o tinha atropelado mais de uma vez.
— Certo. O que você quer, Noah? Dinheiro? Drogas? Tenho cem pratas comigo, mas se levar meu cartão de débito, pode conseguir muito mais. Eu te dou até a senha.
O rosto do garoto se contorceu em uma fúria que parecia quase cômica naquela carinha inocente e sardenta. Quase. — É assim tão fácil para você, né? Só jogar dinheiro no problema. Como você consegue? — Consigo o quê? Só estou tentando garantir que todos nós voltemos para casa esta noite. Eu tenho dinheiro. Você parece que precisa de ajuda. Ninguém te culpa por fazer o que tem que fazer para sobreviver.
Isso só o deixou mais irritado, se é que era possível. — As pessoas realmente não veem quem você é, não é? Você mente com tanta facilidade.
Ele não estava errado. Isso provavelmente incomodou Adam mais do que qualquer coisa. Quem quer que fosse, Noah tinha feito a lição de casa. Noah estava assinando a porra da própria sentença de morte. Adam não gostou da pontada aguda de dor que sentiu ao pensar que aquilo terminaria mal para o garoto.
Ainda assim, era melhor agir como se não tivesse ideia do que Noah estava falando. — Não estou mentindo sobre ter dinheiro. Posso te mostrar meu saldo bancário. — Eu não quero a porra do seu dinheiro! — Noah gritou, suor e saliva voando enquanto lágrimas de raiva escapavam de seus olhos.
Adam deu mais dois passos lentos na direção de Noah. — Então o que você quer, Noah?
Ele debochou, depois fungou, limpando o nariz com as costas da mão. — Ver você sangrar até morrer no asfalto.
As sobrancelhas de Adam subiram diante do veneno na voz do garoto. — Eu nem te conheço, Noah. O que eu poderia ter feito para você querer me matar?
Os olhos de Noah se arregalaram, a boca se contorcendo. — Você realmente não lembra de mim, lembra?
Não. — Eu deveria? — Você já matou tanta gente que realmente não consegue lembrar das suas vítimas?
Sim. Praticamente. Mas ele não planejava compartilhar isso com Noah. Além do mais, se Noah tivesse sido uma das vítimas de Adam, não estaria mais respirando. — Quem você acha que eu matei? — Meu pai, Wayne Holt.
Adam fechou os olhos, deixando seu cérebro vasculhar as inúmeras vítimas do passado, colhendo detalhes ao encontrar o nome. Wayne Holt, cinquenta e um anos, predador em série responsável pelo abuso e assassinato de pelo menos quinze crianças com menos de dez anos. Tinha conseguido evitar a detecção por três décadas. A polícia nunca encontrou evidências suficientes para indiciá-lo. Felizmente, as pessoas de Adam tinham recursos melhores. E uma forma de justiça muito mais rápida.
Um choque de consciência o atingiu ao perceber que ele conhecia o garoto, embora anos tivessem se passado. Wayne Holt fora uma das primeiras mortes de Adam. A número três, talvez? Aproximadamente duas semanas após o aniversário de dezesseis anos de Adam. O garoto tinha uns dez anos na época. Adam fez as contas rapidamente. Sim, batia. Com certeza era o garoto que saíra das sombras naquela noite, chamando timidamente pelo pai, encerrando a diversão de Adam quase antes de começar.
Thomas ficara furioso por ele não ter verificado se havia testemunhas na casa, mas Adam estava tão animado, tão pronto para lembrar Wayne Holt de cada uma de suas vítimas e da dor que ele deixara para trás. Se Noah era realmente aquele garoto, havia uma chance muito grande de ele também ter sido uma vítima.
— Seu pai era um monstro, Noah. No fundo, acho que você sabe disso.
Mais uma vez, a arma oscilou descontroladamente. — Vá se foder. Você não sabe merda nenhuma sobre o meu pai. — Mas eu sei. Posso provar para você, se é disso que precisa. Mas não acho que você queira ver o que eu vi. Algumas coisas nunca podem ser apagadas. — Cala a boca! Você está mentindo. Você é um... assassino em série. Você faz esse papel de riquinho entediado, mas, na verdade, você é a porra do monstro.
Adam suspirou. Que porra ele deveria fazer sobre isso? Sobre ele? Ele não podia matá-lo. Bem, ele podia. Mas não o faria. Ele sabia disso, lá no fundo. Não conseguira matá-lo na primeira noite em que o vira e certamente não poderia fazer isso agora, enquanto ele sofria pelo pai. Isso era claramente algo que Noah vinha planejando há muito tempo. Mas ele também não queria morrer hoje.
— Você tem três opções, Noah. Pode simplesmente ir embora e eu finjo que isso nunca aconteceu. Eu posso fazer uma ligação e te mostrar quem seu pai realmente era, arruinando cada lembrança feliz que você já teve dele. — Adam encurtou a distância entre eles, segurando o cano da arma e pressionando-o contra a própria testa. — Ou você pode puxar o gatilho e me matar. Nada disso vai mudar a verdade. Seu pai era um pedófilo e um assassino de crianças.
Tão perto, Adam podia ver os olhos castanhos profundos de Noah, vermelhos e úmidos de lágrimas, as sardas pontilhando sua pele, a sujeira manchando suas bochechas e queixo. Por trás da raiva e da sede de sangue, ele tinha uma aparência única, nada parecida com a sucessão de debutantes mimadas que ele era forçado a aturar todos os dias para manter seu disfarce.
— O que vai ser, Noah? — ele perguntou suavemente. — Eu realmente espero que seja a opção um.
Os olhos do garoto percorreram o armazém vazio freneticamente, vibrando com tanta energia que Adam podia senti-la no metal pressionado contra sua pele. — Faça a ligação — Noah finalmente disse, soando miserável. — No viva-voz — acrescentou. — Para que eu possa ouvir.
Adam suspirou. — Noah... — Faz logo — ele retrucou, cortando o apelo de Adam.
Quando Noah baixou a arma, Adam tirou as mãos do bolso do moletom, deixando a faca onde estava para alcançar lentamente o bolso de trás. Ele extraiu o telefone e discou para o primeiro nome em seus contatos frequentes. — O que foi, docinho?
A voz feminina do outro lado da linha era surpreendentemente animada para as onze da noite. — Estamos em canal aberto — ele alertou.
Calliope não era o tipo de garota que se colocava no viva-voz. O som de unhas longas digitando furiosamente parou abruptamente. — O-kay. O que está acontecendo? Você está em apuros? Se você se meteu em merda de novo, Adam... — Canal. Aberto — ele lembrou, cortando o sermão. — Preciso que me faça um favor. Pode acessar uma informação? — O homem de lata tem pinto de metal?
Adam franziu a testa. — Não sei o que isso significa. — Às vezes eu odeio esse trabalho — ela resmungou. — Do que você precisa? — Preciso que me envie o arquivo de evidências de Wayne Holt.
Houve uma longa pausa. — Por quê? Esse caso tem mais de uma década. — Só manda. Tudo. — Até o... — É, até aquilo — Adam disparou, antes de respirar fundo e soltar o ar. — Desculpa, Cali. Foi uma noite longa. Por favor, pode enviar? — Tá. Pode deixar, bonitão. Me dá cinco minutos.
Com isso, ela desligou, deixando Adam e o garoto muito mais próximos, agora sem o cano de uma arma entre eles. — Você deveria ir embora — Adam disse, a voz suplicante. — Você não quer ver o que nós vimos. Eu te prometo, tínhamos provas mais do que suficientes para condenar seu pai.
O rosto de Noah se contorceu, quase como se as palavras de Adam causassem dor física. — Então por que vocês não foram à polícia? — Seu pai era bom em apagar rastros. A polícia tem que se preocupar com mandados e custódia de provas. O meu pessoal não. Nós só precisamos encontrar a verdade. — Nós? Quem diabos são vocês? Você não é muito mais velho que eu. Mal tinha idade para dirigir quando matou meu pai. Eu pesquisei. Que idiota contrataria um garoto para matar um adulto? — Ninguém me contratou. Isso não é um emprego. Eu não tenho benefícios nem plano de previdência. Por favor, Noah. Só vai embora.
O telefone de Adam apitou. Ele abriu o e-mail e o arquivo criptografado que piscava no topo. — Última chance.
Noah arrancou o telefone da mão de Adam e pressionou o dedo contra o botão de reproduzir. Adam se virou. Não conseguia ver o vídeo novamente, nem a reação do garoto a ele. Felizmente, o vídeo não tinha som. Ouvir a reação de Noah já era ruim o suficiente. O modo como ele puxou o ar bruscamente, o grito sufocado que parecia o de um animal ferido e, finalmente, o vômito respingando no concreto quando Noah perdeu o conteúdo do estômago.
Adam lutou contra o impulso de confortá-lo. O que diabos ele diria? Não existiam cartões de "sinto muito que seu pai era um lixo". Embora, dada a quantidade de pais merdas por aí, talvez as gráficas estivessem perdendo um mercado. Ele se virou e pegou o telefone de volta gentilmente. Ele escorregou facilmente dos dedos do garoto. — Ele não vale suas lágrimas nem sua vingança. Mesmo que ele nunca tenha encostado em você. Ele precisava ir. Sinto muito que você tenha se machucado no processo.
Noah olhou para ele com rancor. — É, tenho certeza de que isso vai tirar o seu sono.
Adam apenas observou enquanto o garoto se virava e se afastava, ombros caídos, cabeça baixa. Ele lembrava a Adam um cachorro que tinha sido espancado.
O rosto de Noah foi seu companheiro constante na caminhada para casa e até horas depois, enquanto ele estava deitado na cama. O que teria acontecido com ele depois que o pai morreu? Ele tinha o que comer? Tinha um teto sobre a cabeça? Estava em algum lugar sozinho, a dois segundos de engolir uma bala?
Adam sabia melhor do que ninguém que traumas de infância voltavam para te assombrar nos momentos mais inoportunos, das formas mais incongruentes. E uma vez que alguém girava a chave daquela parte do cérebro onde as memórias moravam, era quase impossível enfiá-las de volta.
Quando o sol nasceu, Adam não tinha pregado o olho. Ele esfregou as palmas das mãos nos olhos até que faíscas dançassem atrás das pálpebras. Ele deveria encontrar o pai e Atticus no clube para o café da manhã. Sabia que deveria contar sobre Noah. Eles precisavam saber que alguém lá fora sabia quem Adam realmente era. Mas ele não queria contar. Não queria contar a ninguém. Uma parte estranha dele queria manter Noah só para si.
Ele cambaleou até o chuveiro, deixando a água fervente atingir suas costas e ombros, pensando em olhos castanhos grandes e sardas espalhadas pela pele pálida. Sentia-se bizarramente responsável pelo garoto. Não sabia por que continuava pensando nele como um garoto. Não deviam ter mais de seis anos de diferença, mas Adam sentia que já tinha nascido velho — que tinha vivido cem vidas nos vinte e sete anos de sua existência. A vida de Noah claramente não tinha sido fácil, mas havia uma vulnerabilidade, um desespero silencioso que tocou algo enterrado muito fundo dentro de Adam. Algo que ele nem sabia que existia nele.
Sua consciência.
Será que traria algum conforto a Noah saber que ele tinha, de fato, tirado o sono de Adam a noite toda?
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"NOAH"
Ele o estava observando de novo. Agora era uma ocorrência quase noturna. No início, Noah pensou que estava ficando louco, imaginando fantasmas nas sombras. Mas não, era ele. Adam Mulvaney. O homem que matou seu pai. Seu pai... o predador de crianças. O estômago de Noah revirou com o pensamento, as imagens daquele vídeo tentando cavar o caminho de volta para seu cérebro. Mas ele não as deixaria entrar; tinha encontrado um milhão de maneiras criativas de mantê-las do lado de fora.
Noah podia sentir os olhos dele sobre si mesmo agora. Apesar do grave pulsante da música de dança, da exibição vertiginosa de feixes de neon disparando pelas paredes escuras e do mar de corpos movendo-se em uma única onda coesa, Noah sentia os olhos de Adam. Ele não tinha ideia do que Adam queria.
A princípio, pensou que talvez ele viesse em busca de vingança ou apenas para eliminar uma testemunha, mas Noah já lhe dera um milhão de chances de acabar com sua miséria, e o desgraçado nunca as aproveitou. Em vez disso, apenas o observava. Talvez sentisse algum tipo de prazer doentio ao ver Noah sofrer. O feitiço virou contra o feiticeiro, porém, porque Noah estava chapado demais para sentir qualquer coisa que não fosse prazer.
Ele cambaleou pela porta lateral da boate para o ar fresco da noite. Não se agasalhou. A felicidade sintética correndo por ele o deixava quente por inteiro. O beco cheirava a lixo podre e mijo, mas Noah girava pelo caminho como um bailarino, tropeçando quando ouviu a porta do beco se abrir e bater atrás de si. Ele não olhou, não reconheceu seu perseguidor de forma alguma. Apenas saiu cambaleando do beco para o estacionamento.
Ainda era cedo o suficiente para que outros permanecessem nas esquinas, nos estacionamentos, do lado de fora da mercearia. Mas Noah nunca se sentira tão sozinho. Ele estava sempre sozinho, mesmo quando as pessoas se amontoavam ao seu redor. Não importava o que tentasse, nada preenchia o vazio dentro dele. Nem drogas, nem álcool, nem foda sem sentido. Ele torceu o lábio com este último pensamento.
Tinha deixado sua amiga, Bailey, e a namorada dela no bar para seguir um estranho aleatório até os banheiros, mas o cara estava bêbado demais para conseguir uma ereção. Noah o deixou desmaiado na cabine.
Ele não pôde evitar a risada que escapou, o som assustador na quietude da noite. Estava destinado a ficar sozinho. Ele desejava que Adam simplesmente fizesse logo o que tinha que fazer. Um tiro na cabeça, um corte na garganta, empurrá-lo na frente de um carro em movimento. Fosse o que fosse, não poderia ser pior do que viver com o que ele tinha visto.
Talvez precisasse dar um empurrãozinho. Talvez Adam não quisesse pegá-lo com uma multidão ao redor. O pensamento da morte era um bálsamo que acalmava a psique esgarçada de Noah. Não o deixava triste ou assustado; apenas lhe dava uma sensação de paz, uma paz que nunca experimentara antes. Ele deu risadinhas mais uma vez, piscando para conter as lágrimas. Refez seus passos, pulando poças e rachaduras na calçada. Dois quarteirões para lá. Três quarteirões para baixo. O guincho do metal protestando enquanto ele empurrava a porta pesada.
Ele o seguiu? Estava curioso? Noah tinha ido muito àquele prédio após o primeiro encontro deles, mas nunca encontrou nada. O que quer que Adam tivesse escondido ali que o fazia voltar repetidas vezes fora movido após aquela noite. Não que Noah o culpasse. Só porque não tinha matado Adam, não significava que não o entregaria à polícia. Mas não o fez. Depois do vídeo — depois de ver o que seu pai tinha feito — tudo voltou para ele em um turbilhão. Tudo. Um calafrio o percorreu enquanto tentava afastar os pensamentos. O que ele faria quando as drogas parassem de fazer efeito?
Uma vez dentro do prédio abandonado, ele se sentou nos degraus de metal que levavam ao segundo andar, esperando. Agora que estava imóvel, as drogas finalmente assumiram o controle, fazendo seu trabalho. A transpiração se acumulou na linha do cabelo e gotas de suor escorreram por suas costas. O tempo passava, rápido, depois devagar, depois rápido de novo, como se ele estivesse em uma nave espacial, distorcendo o espaço e o tempo.
Ele inclinou a cabeça para trás até ficar olhando para as vigas de metal. Havia um buraco no teto emoldurando o céu noturno acima, um feixe singular de luar atravessando a escuridão. Como Noah não tinha notado aquilo antes? Ele sorriu enquanto as estrelas e a lua borravam e entravam em foco, depois dançavam, perseguindo umas às outras dentro e fora da abertura no telhado para se enrolarem nos suportes. Ele ergueu a mão e as estrelas escorreram por seus dedos como faíscas, as brasas estalando contra sua pele como minúsculos elásticos.
— Noah?
Ele inspirou bruscamente ao ouvir seu nome nos lábios de Adam. Sentou-se ereto num solavanco, agarrando-se ao corrimão de metal enferrujado para não cair para frente. Adam brilhava. Sua pele cintilava como se ele fosse um vampiro em um filme adolescente ruim, como se sua pele fosse feita de luz. Sua aura latejava em um vermelho profundo que fazia Noah querer tocá-la. Ele desejava que Adam não fosse tão bonito. Teria sido melhor assim.
Mas ele era. Adam era tão lindo. Seu cabelo era tão preto que parecia azul sob o luar, e seus olhos eram do azul mais pálido. Talvez ele fosse um vampiro. Nenhum humano deveria ser tão bonito. Ele estreitou o olhar conforme seus olhos caíram para o decote em "V" profundo de sua camiseta. O topo de asas de uma mariposa ou borboleta aparecia no centro do peito, e seu pescoço era adornado com uma grande tatuagem de cobra que o envolvia e um colar com uma bala pendurada.
— Você é real? — Noah ouviu a si mesmo perguntar, depois bufou com o espanto em sua própria voz. O que diabo a Bailey tinha dado para ele, afinal? Era claramente da boa.
— Você está chapado?
Noah baixou a voz para um sussurro dramático. — Você é tira? — Seu coração falhou quando Adam sorriu, revelando dentes perfeitos. — Provavelmente são facetas — ele murmurou.
— O quê?
Noah poderia não ter dito nada, mas, em vez disso, disse: — Seus dentes. Provavelmente nem são seus.
Noah sabia que não estava fazendo sentido, mas era incapaz de se conter de dizer o que quer que surgisse em sua cabeça. Queria tocá-lo, acariciá-lo, passar os dedos por seu cabelo e provar sua pele que ainda brilhava como açúcar cristalizado. Será que ele tinha um gosto doce?
— São meus — assegurou Adam. — Mas, se te faz sentir melhor, meu pai pagou muito dinheiro por eles. Eram bem zoados quando eu era pequeno. Minha mãe biológica não era muito fã de dentistas. Nem de higiene. Nem de crianças, aliás.
Noah processou aquela informação. Adam tinha uma mãe biológica. Noah sabia disso? Talvez. Ele sabia que Adam fora adotado. Todos os filhos de Mulvaney tinham sido. Ele era o "Daddy Warbucks" da Geração X.
Noah recostou-se sobre os antebraços. — Você veio aqui para me matar?
Adam se aproximou, com a cabeça inclinada como um pastor alemão. — Não.
A decepção se instalou dentro de Noah. — Você está me seguindo?
Outro passo. — Sim.
— Por quê?
Isso pareceu travá-lo no lugar. — Eu... não sei.
Noah suspirou. — Você deveria me matar. Eu sei demais.
— Você provavelmente não deveria dizer isso para alguém que suspeita ser um assassino.
— Se eu fosse contar para alguém, já teria contado — admitiu Noah. — Se é com isso que você está preocupado.
— Não estou. Eu... não estou.
— Que bom — Noah conseguiu dizer antes que seus olhos perdessem o foco e sua cabeça pendesse para o lado.
De repente, as palmas das mãos de Adam envolveram seu rosto. — Ei. O que você tomou?
Noah deu de ombros, as pálpebras caindo pela metade. — Não sei.
— Você não sabe? — Adam ecoou, seus polegares puxando a pele logo abaixo dos olhos de Noah, como se tivesse tatuado as respostas sob a pele ali.
— Eu disse para a Bailey me surpreender. Tenho que admitir, estou surpreso — confessou Noah, sua mão estendendo-se para envolver o rosto de Adam da mesma forma que ele envolvia o seu. — O que estamos fazendo?
Adam bufou. — Estou tentando garantir que você não morra de overdose. O que você está fazendo?
Noah espalmou os dedos sobre as maçãs do rosto afiadas de Adam. — Você é muito lindo. Alguém já te disse isso? — Noah perguntou, examinando-o em busca de uma única falha, mas não encontrando nenhuma.
Adam riu pelo nariz. — Sim.
— Ah — disse Noah, deixando as mãos caírem. Ele odiou o quão derrotado soou.
Adam não abaixou os braços, porém; continuou a envolver o rosto de Noah em suas mãos grandes.
— Você é muito... grande — disse Noah, deixando seu olhar percorrer desde os pés calçados com botas de Adam até o topo de sua cabeça. Bem, tanto quanto conseguia enquanto Adam mantinha seu rosto refém.
Adam inclinou a cabeça mais uma vez. — Não, eu tenho um tamanho médio. Você é que é meio pequeno.
Noah desdenhou. — Não onde importa.
Isso também não era verdade. Ele era bem proporcionado em todos os sentidos. Não sabia por que disse aquilo, mas Adam sorriu e o coração de Noah tropeçou no peito. O que havia de errado com ele?
Noah não pôde deixar de notar os incisivos pontiagudos de Adam. Pressionou um dedo contra a ponta afiada. — Você é secretamente um Cullen? Você tem dentes de vampiro. É por isso que é tão lindo?
O sorriso sumiu dos lábios de Adam e ele fechou a boca, prendendo o dedo de Noah entre as mandíbulas brevemente, o suficiente para Noah sentir a ponta afiada pressioná-lo. Não forte o suficiente para romper a pele, mas o bastante para deixar uma marca. Ainda assim, o pau de Noah tomou nota.
Quando Adam soltou seu dedo, Noah passou o polegar sobre a marca. Adam o tinha marcado. Como um animal. Adam era um animal. Um predador. Um assassino. Um assassino que ainda segurava seu rosto. — O que você está fazendo? — ele perguntou de novo.
— Você tem estrelas nas bochechas — murmurou Adam, com um olhar estranho nos olhos, um que fez o pau semiereto de Noah latejar por trás do zíper.
— A namorada da Bailey transformou minhas sardas em estrelas — disse ele, a mão subindo novamente contra sua vontade, desta vez para arrastar o polegar pelo lábio inferior de Adam, ofegando quando sentiu a língua de Adam contra a polpa de seu dedo. — Seus lábios são tão vermelhos — disse ele, a voz cheia de espanto. — Você está usando batom?
Adam balançou a cabeça. — Não.
— Por que você está me seguindo? — Noah perguntou novamente.
— Porque não consigo parar de pensar em você — disse Adam, soando confuso, como se não tivesse tido a intenção de dizer aquilo.
Os olhos de Noah se arregalaram com as palavras. — Eu sou... Você é uma alucinação?
Adam balançou a cabeça, inclinando-se no espaço de Noah. — Eu sou real.
A cabeça de Noah se inclinou para mais perto, até que ele pudesse ver as piscinas azul-claras dos olhos de Adam no luar quase inexistente. — Nada disso parece real.
Os dedos de Adam traçaram as estrelas nas maçãs do rosto de Noah. — Isso parece real?
A língua de Noah saiu para lamber seu lábio inferior. — Sim. Suas mãos são tão quentes.
— Eu sou calorento. Sempre fui — disse Adam, ajoelhando-se no degrau logo abaixo daquele onde Noah estava sentado, forçando as pernas dele a se abrirem.
— Você vai me machucar? — Noah perguntou, a voz quase esperançosa.
Adam escaneou seu rosto por um longo momento. — Provavelmente, sim. Mas você pode gostar.
Noah lançou-se para frente, chocando suas bocas. Por um segundo, os lábios de Adam foram irredutíveis, mas então suavizaram, e a mão na bochecha de Noah deslizou para seu queixo, puxando-o para baixo para que ele pudesse deslizar a língua para dentro.
Noah não sabia o que estava pensando, mas não estava arrependido. Nada daquilo parecia real, nem os degraus de metal cravando-se em suas costas, nem as coxas de Adam separando as suas, nem o calor de seu corpo prendendo Noah no lugar contra a escadaria.
Adam controlava o beijo, inclinando a cabeça de Noah como bem queria, explorando preguiçosamente sua boca como se tivesse todo o tempo do mundo, como se tivesse o direito de tomar o que quisesse. Talvez isso devesse ter deixado Noah irritado, mas apenas o excitou. Ele finalmente se permitiu enterrar as mãos nas madeixas sedosas de Adam, gemendo quando Adam se moveu e seus quadris se encontraram. Adam estava tão duro quanto Noah, talvez mais. Definitivamente maior.
Noah achava que ninguém jamais o havia beijado assim antes. Beijar — quando havia beijo — era sempre apenas um precursor para o evento principal, nunca era o objetivo. Quanto mais se beijavam, mais Noah pensava que aquilo era apenas um sonho febril vívido. Não havia como ele estar beijando o homem que matou seu pai em um armazém sujo e deserto. Ele provavelmente estava desmaiado naquele banheiro nojento da boate.
— Você cheira bem — rosnou Adam contra seus lábios.
— Isso não pode ser verdade. Eu cheiro a suor.
— É, mas por baixo disso... você cheira diferente. Algo que é só seu.
— Não sei o que isso significa — sussurrou Noah antes de beijá-lo novamente.
Noah assustou-se quando seu corpo vibrou. Em seu torpor, pensou ter sido atingido por um taser. Então percebeu que era o celular de Adam vibrando no bolso dele. Adam o ignorou, suas mãos entrelaçadas no cabelo de Noah, segurando-o no lugar para que pudesse morder seus lábios, seu queixo, o lóbulo de sua orelha.
Mais uma vez, o telefone começou a vibrar. Adam encostou a testa na de Noah, respirando pesadamente, antes de se empertigar e pegar o telefone. — Fala.
Noah não conseguia ouvir o que a voz do outro lado estava dizendo, mas parecia tão irritada quanto Adam soava. — Ocupado. É, ocupado. Não é da sua conta. — Adam bufou. — Eu vou estar lá. Eu disse que vou estar lá, Atticus. Droga.
Atticus Mulvaney. O irmão de Adam. Um médico. Tanto MD quanto PhD. Deixou de praticar medicina para pesquisar doenças raras. Outro filho de ouro.
Quando Adam desligou, ele examinou o rosto de Noah. — Me dá seu celular.
Noah franziu a testa. — O quê?
— Seu celular. Me dá.
Noah tateou o bolso até tirar o feio celular de flip. Adam franziu a testa para o aparelho como se nunca tivesse visto um antes. — O quê? É o único que eu posso pagar.
Adam não disse nada depois disso, apenas digitou algo no teclado. Quando o telefone de Adam tocou, ele desligou a chamada e salvou o número, então devolveu o aparelho. — Eu tenho que ir. Estou chamando um Uber para você. Me manda uma mensagem quando chegar em casa.
— O que—
— Não discuta comigo. Só faça. — Noah abriu a boca para mandá-lo se foder, mas então a fechou num estalo. Adam deu um impulso para sair do degrau inferior e caminhou três passos antes de se virar e vir na direção de Noah com tanto ímpeto que acionou um instinto de fuga. Antes que ele pudesse fazer seu cérebro confuso obedecer, os lábios de Adam estavam nos seus novamente, beijando-o de um jeito que fez seus dedos do pé encolherem dentro dos tênis.
Então ele se foi e Noah estava sozinho, perguntando-se se realmente tinha acabado de alucinar tudo aquilo. Que porra estava acontecendo?