Os três primeiros meses de Dom passaram voando e, ao mesmo tempo, pareciam ter durado uma vida inteira. Talvez porque tudo fosse intenso demais. Cada madrugada acordada, cada susto bobo ou cada chorinho diferente que nos fazia trocar olhares tentando adivinhar o que ele queria.
Meu cérebro demorou para entender que nosso menino finalmente estava bem, seguro, cercado pelos irmãos e pelos barulhos da nossa rotina caótica. Aos poucos, Dom foi se adaptando. No começo estranhava absolutamente tudo, dormia pouco, se assustava fácil, chorava sempre que saía do colo de Juh e parecia odiar qualquer tentativa de ser colocado no berço acordado, porém com o passar das semanas aquilo foi mudando de um jeito quase imperceptível. Ele começou a reconhecer nossas vozes melhor, adorava observar os irmãos conversando perto dele e, principalmente, começou a relaxar mais comigo. Inclusive, estava passando muito mais tempo no meu colo sem reclamar. E, por incrível que pareça, se levarmos em consideração os primeiros dias, até me arrisco a dizer que ele estava gostando bastante do meu colinho.
Obviamente, isso mexeu bastante comigo, porque durante muito tempo senti que precisava conquistar meu próprio filho aos poucos, respeitando os limites dele e entendendo que, querendo ou não, Dom era muito mais apegado a Juh, o que era completamente normal. Além de ter passado meses dentro dela, ainda existia o peito, o cheiro, o conforto imediato que somente ela conseguia oferecer. Nada no mundo competia com o pepezinho dela e eu sabia disso desde sempre e isso nunca me incomodou, pelo contrário, eu achava lindo observar aquele vínculo crescendo tão naturalmente entre os dois.
Mas confesso que foi gostosinho perceber que, aos poucos, eu também estava encontrando meu espaço. Dom começou a permanecer mais tempo comigo sem reclamar, aceitava meu colo por mais tempo, relaxava encostado no meu peito e até me permitia ajudá-lo em alguns momentos usando a mamadeira para aliviar um pouco a rotina puxada de Juh. E aquilo me deixava tão feliz de um jeito difícil de explicar, porque depois de tantas semanas me sentindo quase “visitante” naquele universo particular, meu filho agora simplesmente se aninhava em mim como se aquele fosse um dos lugares mais confortáveis do mundo. Ou melhor... o segundo lugar mais confortável do mundo, porque como eu disse antes, nada e nem ninguém era páreo para o pepezinho da mamãe.
Naquela manhã, acordei cedo, tomei um rápido banho e corri para adiantar algumas coisas pendentes do Projeto enquanto a casa ainda estava relativamente silenciosa. Depois de responder alguns e-mails e revisar uns documentos, percebi que Júlia havia sumido da cama fazia um tempinho. Foi quando vi os pezinhos dela aparecendo pela porta da varanda do quarto e, curiosa, fui até ela.
A cena que encontrei me arrancou uma risada imediata. Juh estava deitada numa esteira, usando apenas a parte de baixo do biquíni, com uma toalha cobrindo o rosto, aparentemente tomando o sol da manhã e fazendo um topless.
— Oxe, meu café está servido? — Perguntei, brincando, e Júlia começou a rir na mesma hora.
Me aproximei devagar e praticamente me joguei por cima dela com cuidado, distribuindo beijinhos pela pele quente do abdômen dela.
— O que você está fazendo? — Perguntei, indo delicadamente para cima dela.
Júlia levantou um pouco a toalha do rosto para conseguir me enxergar.
— Minha mãe que mandou, disse que cura os machucados dos mamilos — Ela respondeu.
E foi a minha vez de rir, contra a pele dela que eu beijava.
— Deixa eu conferir se está funcionando — Brinquei, tocando‑a de leve, e levei um tapinha.
— Amor, nem brinque porque daqui a pouco alguém chora, outro entra... Não... — Ela disse, enquanto eu seguia o meu trajeto de beijos até o pescoço dela.
— A gente não vem tanto aqui, não é? — Perguntei, enquanto ela virava de frente para mim.
Júlia não me respondeu, apenas se deixou ser envolvida por meus braços enquanto me olhava nos olhos.
— Eu vou chorar — Juh afirmou.
Até então, para mim, estávamos apenas praticando as nossas velhas brincadeiras bobas e gostosas, aquelas provocações leves que faziam parte da nossa dinâmica desde sempre. Porém, quando ouvi aquilo, fiquei completamente confusa, meu cérebro imediatamente começou a procurar onde eu poderia ter errado. Será que eu tinha ido longe demais para o momento que estávamos vivendo? Faltou sensibilidade da minha parte? Será que eu estava despertando nela vontades mesmo sabendo que não teríamos o tempo necessário para concluir a saciedade? Foram mil pensamentos atravessando minha cabeça ao mesmo tempo.
— Por que, amor? Passei dos limites com minhas gracinhas? — questionei, fazendo carinho no rosto dela.
— Amor, é porque está aparecendo muita coisa para mim sobre pós‑parto e ser mãe, como o bebê precisa muito da gente e é completamente dependente. Parece que nós ficamos resumidas a ser mãe... — Júlia disse, cheirando meu pescoço enquanto falava baixinho.
Na mesma hora eu entendi, porque já tinha sentido exatamente aquilo. A sensação estranha de amar profundamente a maternidade e, ainda assim, em alguns momentos, sentir medo de desaparecer dentro dela. Como se a mulher que existia antes do parto fosse ficando distante aos poucos, soterrada por rotina, responsabilidade, cansaço e pela demanda constante de um bebê pequeno. E o pior é que, junto dessa sensação, quase sempre vinha culpa.
— Não estou reclamando de ser mãe... — Juh começou a explicar, mas eu a interrompi antes que ela precisasse se justificar.
— Eu sei, gatinha. Eu passei exatamente por isso e te entendo, não precisa se sentir culpada. Existe mesmo essa sensação de que estamos perdendo um pouco da nossa identidade, esquecendo quem éramos antes do parto... — comecei a dizer, até ela me interromper também.
— É exatamente isso... Mas não é esse o ponto. Toda vez que essa sensação ousa me rondar, você não deixa. Você me faz lembrar o tempo inteiro que eu existo e ainda estou aqui. Eu amo ser mãe, sou muito grata por realizar o sonho de gerar e parir uma criança... E também amo ser mulher, especialmente ser sua mulher! — Júlia exclamou e nós duas sorrimos, bem bobinhas.
— É porque é impossível fingir costume quando se tem uma mulher gostosa dessa do lado — Brinquei, dando um tapa na bunda dela.
E Juh aproveitou para se aproximar um pouquinho mais, e mais, e mais, até tocar meus lábios com os seus.
— Eu te amo tanto, ai — Ela disse, roubando diversos selinhos.
Segurei o rosto dela e a beijei.
— E eu te amo mais — Respondi e a puxei mais ainda contra mim, para não ouvir uma réplica.
Ficamos alguns minutos dessa maneira, apenas curtindo a presença uma da outra. O que era estranho, afinal, estávamos na nossa casa, onde moram as nossas três crias, e o silêncio chega a parecer uma ameaça se pararmos para pensar.
— E cadê os nenéns? — Questionei, tentando entender.
— Estão juntos, coloquei Dom para fazer tummy time com eles um pouquinho — Júlia me informou.
— Nossa, deve estar divertido, Dom nem chorou nesse tempão — Comentei.
— É... Agora que você falou, é muito esquisito. É melhor eu dar uma olhadinha... — Juh disse e ameaçou levantar.
— Fica aí tomando seu solzinho nas tetas, eu vou — Falei e ela riu.
— É para cicatrizar, amor — Juh tentou explicar novamente.
— Minha sogra tem umas ideias, viu?! Mas dessa eu não vou reclamar, gostei da visão — Falei, descendo os olhos e apertando rapidamente os peitinhos dela.
— Minha mãe disse que funciona — Juh disse, convencida.
— Dona Jacira é uma mulher sábia... — Falei e logo após passei a língua do seio até a boca dela.
— Amor, eu não acredito que você fez isso, não... — Ela falou.
— É melhor eu levantar e ir logo lá, ou de duas, uma... Ou eu vou tirar essa parte do seu biquíni, ou os nossos filhos colocarão fogo na casa — Brinquei.
Juh não falou nada, mas pelo olhar dela, eu acho que ela estava doidinha para eu arrancar aquela calcinha dela e cair de boca ali mesmo.
~ Essa muié vai me matar na revisão desse texto 🤣
Fui até o quarto de Milena e lá estavam os três. Dom dormindo no tapetinho e Kaká e Mih conversando através de sussurros.
— Aaaaah, ele dormiu... — Falei, me juntando aos meus filhos.
— Mãe, ele é muito preguiçoso, fez uns três movimentos e depois já queria dormir — Kaique reclamou.
— A gente brincou com ele, mas não teve jeito. Ele agarrou a naninha e dormiu — Milena contou, achando fofo.
— Eu estava achando estranho vocês tão calados, achei que estavam aprontando — Brinquei.
— Agora eu quero dar mamá para ele, poooosso? — Mih pediu.
Eu não sabia se era o momento da mamadeira ou do peito, porém minha gatinha estava lá curtindo o momentinho dela, achei de bom tom nem cogitar interromper.
— Pode, vai lá esquentar o leite — Falei.
Assim que Mih saiu, virei para Kaká, que estava velando o sono do irmão bem de pertinho.
— Você queria brincar mais, não é? — Perguntei.
— Sim, só que ele só dorme — Meu filho explicou.
— Daqui há um tempo, você vai implorar para ele dormir — Fiz uma espécie de profecia.
— Não, a gente vai brincar muitão junto — Kaká me garantiu.
Ele se distraiu tentando acordar Dom delicadamente para quando Milena voltasse e eu os observei: Kaique todo cuidadoso e Ninho sem um pingo de pressa.
De repente, Kaique olhou para mim e perguntou:
— Mãe, a senhora já tomou café?
E então eu percebi que estava com fome.
— Pior que não — Respondi, sem entender a pergunta.
— Mãe! — Ele disse e arregalou os olhos — Vai! A mamãe acordou cedo para chegar na cozinha antes da tia Érica porque ela disse que pelo menos o seu café vai fazer agora.
Kaká falou tudo tão sério, como se fosse tão urgente que eu não tive outra ação além de rir.
— Valeu, filho, melhor eu ir mesmo — Concordei com ele.
— E elogia — Ele me aconselhou.
— Pode deixar — Garanti, ainda rindo.
Encontrei Milena subindo a escada e pedi para ela lembrar de ir com calma, respeitando o tempo que Dom leva para engolir e também comentei que ia forrar o estômago.
Imediatamente ela mudou de expressão, ficou igualzinha a Kaique há alguns instantes.
— Mãe, pelo amor de Deus, depois diz que estava muito gostoso!!! — Mih também me aconselhou.
— Ih, rapaz... Parece que a mamãe acordou decidida a fazer o meu cafezinho mesmo, hein — Falei, rindo.
— Ela já levantou dizendo que pelo menos uma coisa tinha que fazer nessa cozinha — Mih respondeu rindo.
Juh vivia em uma guerra imaginária com aquelas pobres mulheres simpáticas. Ela gostava muito das duas, porém não suportava a ideia de ser servida, mesmo sabendo que, se elas não estivessem exercendo suas tarefas, estaríamos mil vezes mais cansadas do que já estávamos.
Minha mãe e minha sogra tinham regressado para casa e, pelo visto, isso aflorou algo que já existia dentro de Júlia. Nós conversamos bastante antes e, apesar de não concordar, eu entendia os motivos. É apenas uma questão de costume e de se sentir à vontade.
Ela cresceu na pousada, que sempre teve funcionários, mas Juh se inseria no meio deles e sempre ajudou em tudo. Com Érica e Marcela, nem tempo para isso existia, então até o momento esse ajuste não tinha sido possível.
Como eu sou muito para frente e adoro bater um papo, geralmente não tenho muito problema em me enturmar e já fazer uma resenha. Em pouco tempo, o cuidado, a atenção e o carinho que as duas faziam tudo conquistaram o meu coração e logo já estávamos conversando sobre quase tudo sem receio algum.
Recebi uma ligação de um dos psicólogos do Projeto e ficamos conversando um bom tempo sobre assuntos relacionados aos nossos pacientes. Basicamente, concordamos que outras abordagens talvez funcionassem melhor. Como eu tinha que assinar alguns papéis lá, combinamos de conversar junto com um dos atendidos que tinha maior dificuldade em lidar com mudanças.
Nisso desceu Juh com Dom no colo e logo atrás Kaique e Milena.
— Nossa, que café delicioso! — Exclamei, sem conseguir conter o riso.
— Ahhhh, você nem sabe mentir... Quem te disse? — Júlia perguntou, também rindo, e me deu um beijinho.
Estiquei a mão para pegar meu negocinho e ele veio, todo sorridente.
— Dom sussurrou no meu ouvido — Brinquei.
— Mas Dona Júlia está uma delícia mesmo, a senhora precisa me passar esse segredo — Érica falou.
Júlia sorriu completamente sem graça.
— Dona Júlia, senhora... Amor, não dá! — Ela sussurrou quando a mulher se afastou.
— As duas me chamam de Lore, é só você parar de implicar — Disse‑lhe com certo ar de deboche.
E ela mostrou a língua para mim.
— Quando Dom aprender e der língua para as visitas, vou dizer que aprendeu com a mamãe — Zoei, enquanto ele se entretinha com o pingente do meu colar.
Ganhei um beijinho dela e, nesse exato momento, Ninho começou a chorar porque lembrou que no colo dela tem pepezinho à vontade e no meu, não.
— Vou dar um pulinho no hospital, tá? Preciso assinar algumas coisas e conversar com um psi — Falei.
— Sério? — Juh perguntou, meio triste.
— Volto para o almoço, prometo — Disse, segurando o rostinho dela para dar um beijo.
— Eu posso ir? — Kaká perguntou.
— E eu? — Mih também quis saber.
Olhei para Júlia e ela concordou.
— Se comportem porque a mamãe vai estar trabalhando — Ela pediu para os dois.
Evitava ao máximo usar o uniforme camuflado, mas não estava encontrando nenhum dos brancos, então foi o jeito. Troquei de roupa rapidinho e desci novamente e, pelas reações, foi uma grande descoberta.
— Oxente! — Marcela exclamou.
— Disso eu não sabia — Érica disse, rindo.
— É, tem esse detalhe — Falei, sem graça.
Desde o nascimento de Ninho até aquele momento, eu devia ter ido ao hospital do exército umas quatro vezes no máximo e, coincidentemente, em todas elas usei o uniforme branco. Como Érica e Marcela já sabiam que eu era psiquiatra, acho que associavam meu trabalho apenas à Filial, então para elas foi como se eu tivesse revelado uma informação escondida.
— Não acredito nisso até agora — Marcela falou, ainda rindo.
— Mulher, e você nunca comentou? — Érica perguntou.
— Porque para mim era uma informação completamente normal — Respondi, sem graça.
E foi aí que a situação piorou, as duas inventaram que queriam tirar foto comigo.
Na mesma hora me senti uma criança quando a mãe obriga a registrar um momento que ela claramente não quer registrar. Fiquei parada no meio da sala sem saber onde enfiar a cara enquanto elas tentavam decidir qual ângulo ficava mais bonito e, para piorar, Júlia, Kaique e Milena perceberam imediatamente o meu desconforto e decidiram transformar aquilo em entretenimento.
— Tira outra, essa ficou tremida — Juh incentivava, segurando o riso.
— Mãe, faz pose séria agora! — Kaká pediu animadíssimo.
— Não, não! Cruza os braços — Mih orientou, como se estivesse dirigindo um ensaio fotográfico.
E eu só conseguia olhar para os três com a maior sensação de traição possível enquanto eles se divertiam às minhas custas.
— Tenho que ir — Falei, e apertei as duas que estavam me ladeando no último clique.
Fui em direção a Juh e dei só um beijinho em Dom, enquanto olhava fixamente nos olhos dela, que ria, e eu prendia o meu riso.
— O único que eu não posso culpar — Disse para meu neném, e os três que ouviram soltaram uma gargalhada.
— Muito famosa essa minha mulher — Ela sussurrou e me puxou para um beijo.
— Se eu estivesse assim lá na varanda você não ia me rejeitar — Sussurrei de volta, contra o pescoço dela.
— Epa, eu não te rejeitei — Juh rebateu, convencida.
E eu só dei mais alguns selinhos nela.
Dei um tchauzinho para Érica e Marcela, que olhavam encantadas para nós de lá da cozinha.
No carro, os pestinhas foram rindo de mim, dizendo que eles tinham certeza de que eu queria arranjar um buraco para me enfiar e, para a alegria deles, eu confirmei a informação.
— Mamãe, compra uma roupa dessa para mim? — Kaique pediu.
— Por quê? — Perguntei, fazendo uma inevitável careta.
— Eu acho bonita — Ele respondeu.
— Kaká quer que tirem foto com ele — Mih brincou.
— Qual profissão vocês pensam em seguir? — Questionei.
Nesse tempo, todo mês era uma nova.
— Eu quero trabalhar lá na empresa do vô Paulo, porque ele disse que eu posso ser o presidente — Kaique respondeu.
— Ah, é? — Perguntei, rindo, e ele confirmou.
Meu pai estava tentando aumentar a lista nepotista dele enquanto estava lá em casa.
— Eu quero ser... Hum... Arquiteta! — Milena exclamou.
— Sério? Eba, vou economizar com as plantas — Brinquei e eles riram.
— A senhora queria que a gente fosse psiquiatra também? — Kaká me perguntou.
Eu nunca tinha pensado a respeito.
— Não sei, vocês seriam? — Questionei.
— Não, porque trabalha muuuito — Milena respondeu.
— Mih disse para a mamãe que não seria coordenadora que nem ela, para os filhos não sentirem ciúmes — Kaique disse e gargalhou.
— Claro, a mamãe fica lá rodeada de crianças e eu tenho que aceitar — Ela disse, convencida.
E eu comecei a rir do ciúme dela.
— Coitada de Lalá — Zoei.
— É, coitada de sua namoradinha — Kaique continuou.
— Ela não é minha namoradinha... Ainda! — Milena corrigiu ele, também rindo.
— E aí, como vocês estão? — Eu quis saber.
— Bem, o nosso date é na semana que vem, a senhora está lembrada, não é??? — Ela me perguntou, toda animada.
— Estou, estou... — Confirmei, desanimada.
Eu estava feliz por estar tentando proporcionar um momento para elas, porém confesso que o assunto “minha filha namorando” não era um dos meus favoritos. Por inúmeros motivos, eu tentava demonstrar interesse e as incentivava, mas foi um pouquinho difícil para mim.
Enquanto resolvia minhas coisinhas, minha atenção vivia escapando para a janela da sala. De onde eu estava dava para enxergar boa parte do gramado e das ações acontecendo lá embaixo, então toda hora eu acabava olhando. Naquele dia tinham separado atividades de arte, de violino e uma oficina para ensinar as crianças a andar de bicicleta, então o espaço estava cheio de movimento, risadas e alguns pequenos surtos infantis completamente previsíveis.
Kaique e Milena tinham se enturmado absurdamente rápido. Kaká praticamente adotou a oficina de bicicleta para ele, correndo de um lado para o outro ao lado das crianças, incentivando quem estava com medo e comemorando cada tentativa como se estivesse numa final de campeonato. Toda vez que alguma criança conseguia se equilibrar, dava para observar ele vibrando junto.
Já Milena ficou mais dividida entre as três atividades. Em um momento eu a via sentada no chão desenhando com um grupinho; no outro, estava perto do professor observando as crianças tentando tocar as primeiras notas, toda concentrada e encantada.
O mais legal era que os dois pareciam completamente à vontade ali. Não estavam tímidos ou com cara de quem queria ir embora. Simplesmente entraram na dinâmica das oficinas como se frequentassem aquele ambiente há muito tempo.
E eu me distraía fácil olhando aquilo. De vez em quando fazia questão de levantar os olhos dos documentos só para dar de cara com Kaique correndo atrás de alguma bicicleta desgovernada ou Milena ajudando uma criança a segurar o arco do violino direito, enquanto ria de alguma coisa. Eles claramente estavam se divertindo bastante... Tanto, que nem queriam ir embora.
Entramos no carro com os dois falando ao mesmo tempo, completamente elétricos. Kaique ainda estava suado de tanto correr pelo gramado e Milena não parava de mexer as mãos enquanto tentava me contar tudo que aconteceu nas oficinas.
— Não demorou quase nada! Quando eu comecei a ensinar um menino a pedalar direito, a senhora já estava chamando — Kaká reclamou.
— Verdade, a gente precisa voltar mais vezes — Mih concordou.
Sorri dirigindo, observando os dois pelo retrovisor. Era bonitinho demais perceber como eles tinham se conectado rápido com tudo.
— Gostaram mesmo, foi? — Perguntei.
— Muito! — Os dois responderam juntos.
— É muito bonito, mãe — Milena disse, e dava para sentir o orgulho no olhar dela.
— Eu também acho, viu?! — Concordei.
— Muito bonito que, depois das situações tristes, eles podem aprender coisas novas e divertidas para a idade deles — Kaique continuou.
Ele falou isso com uma naturalidade tão sincera que deu para perceber que eles realmente tinham entendido a importância daquilo tudo.
— Eles estão vivendo — Me limitei a comentar, levemente emocionada com a sensibilidade dos dois.
Os dois ficaram quietinhos por alguns segundos, observando o movimento da rua através da janela.
— A gente pode ajudar de novo outro dia? — Kaique perguntou na mesma hora.
— Pode sim — Respondi.
E os dois comemoraram como se eu tivesse acabado de dar a melhor notícia do mundo.
Chegamos em casa escutando risadas antes mesmo de abrir completamente a porta. O cheiro amanteigado invadia praticamente a sala inteira e denunciava que alguma bagunça culinária estava acontecendo na cozinha... E realmente estava!
Júlia e Érica tentavam convencer Marcela a provar uns biscoitos que, aparentemente, tinham acabado de sair do forno, enquanto as três riam bastante, e meu neném estava no sling, preso ao corpo de Juh, completamente aconchegado ali, inaugurando oficialmente o acessório porque até então nós praticamente não tínhamos usado.
A minha saída com os meninos claramente não tinha sido planejada por ninguém, mas olhando para elas, genuinamente se divertindo, dava para perceber que aquela manhã tinha feito bem para todo mundo.
Acho que Júlia percebeu a gente primeiro, porque levantou os olhos imediatamente e sorriu daquele jeitinho dela que me quebra. E foi só Dom ouvir minha voz que, na mesma hora, o beicinho dele começou a tremer antes mesmo do chorinho sair.
— Amor, ele te procurou o tempo inteiro — Juh informou, animada.
Nem consegui evitar o sorriso enorme que surgiu no meu rosto enquanto me aproximava deles. Meu coração simplesmente derreteu inteiro!
— Nem vai deixar a mamãe tomar um banho antes? — Perguntei, observando cheeeeeeia por ele estar gostando de ficar comigo.
Juh o tirou do sling com cuidado e, imediatamente, Dom se acalmou quando senti o corpinho dele encaixando contra mim. A expressão de choro sumiu tão rápido que nós começou a rir.
— Temos um ator! — Marcela brincou.
E aí Kaique e Milena começaram a contar tudo ao mesmo tempo, atropelando palavras de tanta empolgação. Os dois falavam sobre as crianças, sobre as oficinas, sobre quem conseguiu andar de bicicleta sozinho, os desenhos que fizeram e também das tentativas desafinadas no violino. Repetiram diversas vezes que amaram estar lá e que precisavam voltar outras vezes.
Eu queria muito almoçar, principalmente porque Kaique e Milena já estavam fazendo exatamente isso. Contudo, o meu caçulinha tinha se aninhado completamente no meu colo e achei melhor aproveitar para tomar uma chuveirada, porque definitivamente nós dois estávamos precisando, e Júlia nos acompanhou.
Ela começou a me contar sobre a manhã que teve depois que saí com os meninos, disse que ficou bastante tempo conversando com Marcela e Érica e que, no fim das contas, percebeu que estava sendo meio mancada insistindo em implicar com uma coisa tão besta e sem sentido. As duas não estavam ali para ocupar espaço nenhum ou fazê‑la se sentir menos importante dentro da própria casa. Muito pelo contrário... Só queriam ajudar, aliviar as coisas e somar na nossa rotina, então talvez fosse até divertido permitir aquela convivência acontecer de verdade.
Minha gatinha também comentou que as duas elogiaram bastante Kaique e Milena. Disseram que era raro encontrar adolescentes tão educados, respeitosos e prestativos daquele jeito. Falaram sobre como os dois sempre se colocavam à disposição para ajudar espontaneamente e pareciam muito atentos às pessoas ao redor deles e, segundo Juh, em algum momento da conversa, as duas acabaram dizendo que achavam lindo o jeito que nós duas nos tratávamos.
— É um negócio que arde no peito o tempo todo... — Falei, rindo, e soltei um beijinho no ar.
— É tão vivo — Ela disse, com um brilho no olhar.
— As duas são umas queridas, está vendo, amor — Afirmei em um tom convencido.
— Você tinha toda razão — Juh admitiu.
Dom acabou dormindo e, no momento em que fomos almoçar, ele acordou e aí era ele mamando e eu intercalando entre duas garfadas para mim e outra para Júlia.
— Temos biscoito de sobremesa — Érica falou.
— Vê qual está melhor, Lore — Marcela sugeriu.
— Eita, esse jogo é perigoso para mim, se eu disser que não é o da muié, durmo no sofá — Brinquei, e elas riram.
Os dois estavam muito bons, ergui o mais moreninho e o elegi como o melhor daquela tarde.
— Deu sorte, garantiu a cama — Marcela brincou.
— Preciso aprender urgentemente com você ou serei demitida, Juh! — Érica zoou, fingindo estar com medo.
— Eu prefiro os seus, eles estão mais fofinhos — Júlia disse para ela, sorrindo, que comemorou.
A tarde a gente ia dar um passeio de bicicleta, mas os três filhotes resolveram dormir, então nós precisamos adiar esse programinha em família para o dia seguinte.
