Capítulo 7
O Professor Bates era um idiota.
Pelo menos era o que Shawn pensava enquanto o homem o ignorava e continuava caminhando.
— Não há nada para discutir, Wyatt — disse Bates rispidamente, apertando o passo. — O trabalho deveria ter sido entregue ontem. Não abrirei uma exceção para você. A culpa é sua. Você é irresponsável! A termodinâmica é o ramo mais importante da ciência e você não a entende. Se reprovar na minha disciplina, o que parece cada vez mais provável, será merecido.
Shawn fez uma careta. É, a culpa era realmente dele. Ele não deveria ter passado tanto tempo estudando para o artigo de Mecânica dos Fluidos, tentando impressionar Rutledge. De qualquer forma, ele não o tinha impressionado exatamente.
— Mas...
— Pare de testar minha paciência, Wyatt — rebateu Bates, balançando a cabeça. — O que há de errado com os alunos de hoje em dia? — E Bates começou a esbravejar sobre o senso de direito dos alunos, a falta de foco e a falta de humildade, parecendo mais irritado a cada minuto. Shawn percebeu que não havia a menor chance de Bates lhe dar tempo extra para concluir o trabalho.
— Eric — veio uma voz familiar atrás deles.
Shawn ficou tenso e não olhou naquela direção. Droga. Rutledge era a última pessoa que ele queria que presenciasse aquilo.
— Algum problema? — perguntou Rutledge.
— Este garoto é preguiçoso e irresponsável! — disse Bates. — Ele não entrega os trabalhos no prazo e agora me pede mais alguns dias! Como ele pretende ser um engenheiro se não consegue sequer passar nas disciplinas básicas?
Shawn queria que o chão se abrisse. Rutledge era o homem mais inteligente que ele já conhecera. Provavelmente pensava que Shawn era burro como uma porta. Não que importasse o que ele pensava. Exceto que, de certa forma, importava. Importava até demais.
— Eu tinha a mesma opinião que você, Eric — disse Rutledge, com a voz indiferente. — Mas Wyatt mostrou alguma melhora nas últimas semanas. Dê a ele um dia. Se ele se atrasar de novo, reprove-o.
O olhar de Shawn disparou para ele. Não havia a menor possibilidade de ele conseguir terminar em um dia.
— Boa ideia — disse Bates. — Um dia, Wyatt.
— Mas...
Bates o encarou com fúria. — Um dia.
Pressionando os lábios, Shawn assentiu e saiu. Seus pés o levaram ao escritório de Rutledge. A porta estava destrancada, e ele entrou. Shawn encostou o quadril na mesa e enfiou as mãos nos bolsos. Ele não teve que esperar muito.
Rutledge não pareceu surpreso ao vê-lo, mas parecia ocupado, carregando uma pilha de papéis.
— Você não deveria ter feito aquilo — disse Shawn. — Não tem como eu terminar isso até amanhã.
— Por quê? — Rutledge colocou os papéis sobre a mesa e sentou-se.
Shawn deu de ombros, olhando para as próprias botas. — Eu sou burro.
— Você é um aluno bolsista.
Os lábios de Shawn se contorceram. — É. Eu costumava achar que era bem esperto, mas... mas não sou. A maior parte do que você e o Bates ensinam passa voando pela minha cabeça. Em um minuto acho que entendo termodinâmica, no próximo, não tenho a mínima ideia do que está acontecendo. Eu devo ser burro mesmo. — Shawn agarrou a borda da mesa. — Eu me sinto um fracassado às vezes, sabe? Não consigo um emprego que pague bem, não posso comprar para as meninas as coisas de que elas precisam, e agora isso. Eu me sinto tão inútil... e estúpido, e... eu só... Deixa para lá.
Houve um longo silêncio. Ele sentiu o olhar de Rutledge na nuca de sua cabeça.
— Não sou bom em consolar as pessoas — disse Rutledge, irritado.
Shawn virou-se para ele e forçou um pequeno sorriso. — Tudo bem. Estou surpreso por você ainda não ter me expulsado.
Os lábios de Rutledge se afinaram. Ele tinha uma expressão muito amarga no rosto. — Venha cá.
Shawn nunca se movera tão rápido em sua vida. Ele subiu no colo de Rutledge, encostou a cabeça em seu ombro e fechou os olhos. Os braços fortes de Rutledge se apertaram ao redor dele, e Shawn suspirou de prazer. Era tão bom. Exatamente do que ele precisava. Assustava-o — o fato de ele precisar daquilo —, mas ele precisava. Parecia quase melhor que o sexo.
— Você está ficando mole, Professor — ele murmurou com um sorriso, inalando o perfume dele. Era familiar e estranhamente reconfortante.
— Cale a boca, Wyatt — disse Rutledge, parecendo ainda mais irritado, se é que isso era possível.
Shawn roçou os lábios no pescoço dele. — Tudo bem. Você é muito mau e desagradável. — Ele se aninhou no pescoço de Derek. — Cinco minutos. Depois você pode me expulsar e fingiremos que isso nunca aconteceu.
Rutledge suspirou. — Mostre-me o trabalho.
A boca de Shawn se abriu. Ele ergueu a cabeça e encarou Rutledge. — Sério?
— Eu não vou fazer para você — disse Rutledge, fixando-o com um olhar severo. — Mas vou explicar o que você não entende.
Shawn sorriu e o beijou.
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Geralmente, Shawn tinha o sono leve.
Mas, quando a porta de seu quarto rangeu naquela noite, ele teve dificuldade para acordar, com a mente anuviada. Ele se aninhou mais fundo no ombro quente de Rutledge, apertando as mãos ao redor do braço dele.
As vozes pareciam vir de muito longe.
— Seu irmão está dormindo — disse Rutledge. — Volte para a cama.
— Mas eu tive um pesadelo! Estou com medo. O Shawn sempre me abraça quando eu estou com medo! — Era Emily.
Shawn tentou abrir os olhos. Não funcionou.
— Emily — disse Rutledge com firmeza. — Você é uma menina inteligente. Não pode dormir com o Shawn porque a cama é pequena demais para nós três.
— Eu durmo com o Shawn. Você pode ir dormir com a Bee!
Rutledge soltou uma risadinha. — Acho que eu não caibo na cama de vocês, tampinha.
Emily ponderou a questão. — Eu posso dormir em cima de você. Você é grande, e o Shawn gosta de dormir em cima de você.
Shawn certamente gostava, embora estivesse perturbado por Emily saber daquilo.
— Você não pode dormir em cima de mim.
— Por quê?
— Porque... porque... — Rutledge bufou, finalmente cedendo, para a surpresa de Shawn. — Está bem.
Dando um guincho de alegria, Emily escalou a cama e se acomodou sobre o peito de Rutledge.
— Você é muito quentinho — disse ela, bocejando.
Ele era mesmo. O quarto estava muito frio, mas Derek era muito quente. Tão quente.
— Durma. E não mije em mim — resmungou Rutledge.
— Eu não sou bebê. Eu sou grande. Eu não mijo na cama!
— Ótimo. Agora durma.
— Você tem uns pelos engraçados no peito. O Shawn não tem pelos engraçados no peito. Por quê?
Aquilo deixou Rutledge sem palavras por um instante. — Durma.
— Você não gosta de mim — murmurou Emily. — Você gosta mais da Bee.
Um suspiro pesado. — Por que você acha que eu gosto mais dela?
— Você deu chocolate para ela ontem!
Shawn franziu a testa. Hein?
— Porque ela pediu. Você tem que pedir se quiser alguma coisa.
— Então, se eu pedir, você me dá qualquer coisa? Qualquer, qualquer coisa?
— Se eu disser que sim, você vai parar de falar e dormir?
— Vou!
— Está bem. O que você quer?
— Eu quero um cachorrinho! Preto e fofinho! Com uma estrela branca na testa!
Uma pausa. — Escolha outra coisa.
— Mas você disse qualquer coisa!
Shawn voltou a adormecer, ainda sorrindo.
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— Então — disse Christian, recostando-se e balançando um pouco a cadeira. — O que está rolando entre você e o Rutledge?
Shawn desviou o olhar do prato. — Hein?
Christian riu baixinho. — Qual é. Eu não sou cego. Isso já vem acontecendo há semanas. Achei que você fosse enjoar dele logo, mas você ainda parece totalmente "fodido" a maior parte do tempo...
— Não pareço, não.
Christian lhe lançou um olhar cético.
Apertando a ponte do nariz, Shawn admitiu: — Tá legal, tudo bem. E daí?
Christian ergueu as mãos. — Ei, não estou julgando. Cada um com seus problemas. — Ele deu de ombros com um sorriso torto. — Não é da minha conta se você tem uma queda pelo pau dele.
Shawn se jogou para trás na cadeira e olhou para Christian com amargura. — Pode ser um pouco mais complicado do que isso. — Ele passou a mão pela testa, suspirando. — Eu nem sei mais como agir perto dele na aula. É como se meu cérebro parasse de funcionar quando ele está por perto. — Ele fez uma careta. — Eu o beijei ontem do lado de fora do escritório dele. Não consegui evitar. Tivemos sorte que era tarde e ninguém viu — eu acho.
As sobrancelhas de Christian quase atingiram a linha do cabelo. Ele soltou um assobio. — Espera, vocês estão, tipo, em um relacionamento?
Shawn esfregou o canto do olho. — Não... quer dizer... eu não sei. Eu... eu meio que dei uma chave da minha casa para ele.
Christian começou a rir.
Shawn o chutou por baixo da mesa. — Cala a boca. Fazia sentido. Às vezes ele chega muito tarde e eu não quero que ele acorde as crianças batendo na porta. Não significa o que você está pensando.
— Ah, é mesmo?
Shawn soltou um longo suspiro. — Eu não sei. As coisas têm estado estranhas ultimamente. Ele é tão bom para mim às vezes, e eu sinto como se... eu me sinto tão bem com ele, sabe? — Feliz. — É tão confuso.
— Pois é. Vocês não conversam?
Shawn deu de ombros. — Claro que conversamos, mas não sobre isso. Ele vai à minha casa à noite e, se as crianças ainda estão acordadas, não dá para falar direito. Se elas já estão na cama, não perdemos muito tempo conversando. — Eu só quero deixá-lo nu e em cima de mim. — E ele não é exatamente do tipo que gosta de bater papo.
— Parece que ele quer conversar desta vez. — Christian acenou com a cabeça para algo atrás de Shawn.
Shawn virou a cabeça e viu Rutledge caminhando em sua direção a passos rápidos. Shawn se levantou e deu um passo para longe da mesa assim que Rutledge o alcançou.
— Algo errado? — murmurou Shawn, olhando ao redor. Eles estavam atraindo olhares curiosos; professores normalmente não visitavam a cafeteria dos alunos.
Os ombros de Rutledge relaxaram um pouco. — Não — disse ele, virando-se e saindo da cafeteria, claramente esperando que Shawn o seguisse.
Revirando os olhos, Shawn seguiu.
— Vou viajar por alguns dias — disse Rutledge assim que saíram.
— Para onde? Por quê?
— Não importa. Não é da sua conta.
Shawn cruzou os braços sobre o peito. — Sério? Então por que está me contando?
Eles se encararam com hostilidade. Shawn recusou-se a desviar o olhar.
— Eu vou viajar — disse Rutledge com finalidade.
— Tudo bem. Vá. — Shawn mordeu a parte interna da bochecha, tentando segurar dezenas de perguntas. Perguntas que o fariam parecer uma adolescente patética e carente.
Rutledge deu um passo em sua direção; seus rostos estavam a poucos centímetros de distância agora. Havia uma inquietação estranha assombrando os olhos escuros de Rutledge. Algo estava mudando entre eles, e isso assustava Shawn. E o excitava.
Alguns segundos se passaram enquanto eles apenas se olhavam. Um rapaz saiu da cafeteria e eles se afastaram rapidamente.
— Senhor — disse o rapaz respeitosamente para Rutledge.
— Certo — disse Shawn, enfiando as mãos nos bolsos. — Eu vou indo. — Antes que eu pule em você e te beije na frente de todo mundo.
Rutledge assentiu rigidamente e se afastou.
Shawn suspirou. Droga. Talvez uma folga de alguns dias fizesse bem a eles. O relacionamento deles estava ficando estranho demais.
Ou talvez o problema fosse que não estava mais estranho.
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Rutledge não voltou em alguns dias. Nem ligou. Shawn sabia que ele mesmo poderia ligar, mas a simples ideia o fazia estremecer. Ele não queria parecer pegajoso.
Na sexta-feira, Shawn já não sabia o que pensar. Não ajudava em nada o fato de Emily e Bee passarem o tempo perguntando onde estava o Sr. Rutledge — uma pergunta para a qual Shawn não tinha resposta.
Onde ele estava? Havia um pensamento incômodo no fundo da mente de Shawn de que Rutledge tinha fobia de compromisso. Talvez ele tivesse ido embora porque o que havia entre eles o assustara. Se fosse isso, bem, que se fodesse. Shawn não se deixaria ser o lado carente da história.
— O que há com você, cara? — Christian perguntou na manhã de sexta, enquanto se sentavam na aula de Rutledge. — Nada. — Você está com uma cara horrível. — Não dormi bem — Shawn murmurou, esfregando os olhos. Não era mentira. — Eu só... — Ele se interrompeu ao notar o professor que entrava na sala.
Não era Rutledge. Seu coração afundou.
A Professora Newland ocupou o lugar atrás da mesa de Rutledge e sorriu para os alunos. — Bom dia — disse a mulher alegremente. — Vou substituir o Professor Rutledge até segunda ordem.
Um burburinho de comemoração percorreu a sala. Shawn levantou a mão. — Sim, Sr. Wyatt? — disse Newland. — Onde está o Professor Rutledge?
Ela ergueu as sobrancelhas. — Não creio que seja da sua conta, mas, se faz questão de saber... o Professor Rutledge está ausente por circunstâncias familiares. — É — murmurou a garota sentada do outro lado de Shawn. — Vi no noticiário que ele vai se casar com a filha de um político.
Shawn a encarou, entorpecido. Christian colocou a mão em seu ombro e disse algo, mas ele mal conseguia ouvir.
Casado? Derek? — Não pode ser verdade — ele sussurrou, mais para si mesmo do que para a garota. — Ele é gay. E ele é... Meu.
Exceto que ele não era, era? Ele não tinha o direito de estar com raiva. Eles não eram nada um para o outro.
— Você está bem? — Christian disse, olhando para ele com o cenho franzido. — Estou bem. — Shawn... — Eu estou bem, porra! — Shawn inalou profundamente e disse, mais baixo: — Desculpe. Estou bem.
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Shawn voltou para casa cedo, dispensou a babá, sentou-se no sofá e ficou observando as gêmeas brincarem. Os vestidos delas estavam gastos e pequenos demais. Elas precisavam de roupas novas. Ele fechou os olhos e pensou em quanto isso custaria. O Natal não estava longe, e o Natal era caro, então ele precisava economizar dinheiro. As roupas novas para as meninas teriam que esperar até que ele encontrasse um emprego melhor.
Shawn suspirou, esfregando o rosto. É. Era nisso que ele precisava focar. Sem mais distrações. As crianças dependiam dele. O sofá afundou quando as meninas subitamente subiram nele.
— Você está triste — disse Bee. — A gente não gosta quando você fica triste — disse Emily. Shawn sorriu radiante e as envolveu em seus braços, trazendo-as para perto. Elas estavam quentes e cheiravam a sabonete e doces. A inocência. — Não — disse ele. — Claro que não estou triste.
— Quando o Sr. Rutledge volta? — Emily perguntou mais uma vez, seus olhos azuis arregalados e brilhando com lágrimas. — Ele me prometeu um cachorrinho! Com uma estrela branca na testa. Bee chupou o polegar. — É, quando ele volta?
O coração de Shawn se apertou. Naquele momento, ele odiou Derek Rutledge mais do que qualquer coisa. As meninas não tinham ninguém além de Shawn; claro que elas haviam se apegado a Derek, já que ele estivera praticamente vivendo com eles nas últimas semanas.
Shawn sorriu, mas sentiu como se fosse uma careta. — Não parece que ele vai voltar, querida. Emily franziu as sobrancelhas. — Por quê?
Como ele deveria responder a isso? Shawn desviou o olhar. — Porque ele tem sua própria família. E parece que o pai dele pediu que ele se casasse. — Pelo menos essa era a única explicação que ele conseguia imaginar. — Ele vai começar uma família agora.
— Por quê? — Emily disse. O lábio inferior de Bee tremeu. — Por quê?
Shawn olhou para as duas e não soube o que dizer. — Eu não sei, bebê — ele murmurou, pressionando os lábios na têmpora de Bee e puxando Emily para mais perto. — Eu não sei.
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Shawn acordou no meio da noite, tremendo.
Ele se enfiou mais fundo sob as cobertas. O quarto estava frio e úmido, como de costume, mas era mais difícil ignorar isso depois de semanas compartilhando o calor corporal de outra pessoa. Ele sentia falta de estar aquecido.
Shawn suspirou, virou-se de bruços e abraçou o travesseiro, irritado consigo mesmo. Aquilo estava saindo do controle. Chega. Que se foda o Rutledge e seu maldito corpo quente. Que se foda ele.
Mas não importava o que dissesse a si mesmo, a pontada no estômago ainda estava lá. A fome. A necessidade que ia além do sexo. Ele queria o corpo de Rutledge ao seu lado, grande e quente. Queria até ouvir seus comentários cáusticos, sentir sua respiração contra a pele...
Shawn ficou tenso e ergueu a cabeça. Poderia jurar que ouvira vozes vindo da sala. Mas as meninas não poderiam estar acordadas, certo?
Franzindo a testa, Shawn saiu da cama, tremendo violentamente quando o ar frio atingiu sua pele, e caminhou em direção à porta. Havia luz na sala, mas isso não significava nada: ele deixara o abajur aceso porque as gêmeas tinham medo do escuro.
Shawn abriu a porta silenciosamente e congelou.
Rutledge estava sentado no chão ao lado da cama das meninas, com uma delas no colo. O coração de Shawn começou a martelar no peito.
Ele voltou.
Ele voltou.
— Onde você estava? — disse sua irmã, esfregando os olhos sonolentos com uma mão enquanto a outra brincava com a gravata de Rutledge. Era Bee, Shawn decidiu. Rutledge parecia ter um ponto fraco por Bee, embora fosse estranho que ele estivesse tolerando aquilo até mesmo dela.
Isso foi até Shawn estudar o rosto de Rutledge. Mesmo sob a luz fraca do abajur, suas feições pareciam extraordinariamente desprotegidas e cansadas.
— Eu estava visitando minha família — murmurou Rutledge.
Bee chupou o polegar. — Eu lembro da sua família. Seu pai não gostou muito da gente.
Uma expressão estranha cruzou o rosto de Rutledge. Ele não disse nada.
— O Shawn disse que você ia ter uma família nova.
Rutledge ficou rígido. — Ele disse?
Bee assentiu. — Ele estava muito triste.
Shawn sentiu o rosto arder. Ela tinha mesmo que contar aquilo?
Rutledge tinha uma expressão singular. — Ele estava? — murmurou.
— Eu também estava triste — disse Bee. — Eu não entendo. Por que você quer uma família nova? Você tem a gente.
Crianças, pensou Shawn, mordendo o lábio. Elas não tinham medo. De certa forma, as crianças eram mais corajosas que os adultos.
Rutledge abriu a boca e depois a fechou. Foi a primeira vez que Shawn o viu sem palavras. A garganta de Rutledge teve um espasmo antes de ele dizer a Bee: — Não se preocupe, eu não vou ter uma família nova.
Shawn soltou a respiração.
— Você não deveria estar dormindo, tampinha?
Bee estudou Rutledge seriamente com seus grandes olhos azuis. — Você também está triste. Aconteceu alguma coisa ruim?
Um sorriso sem humor torceu os lábios de Rutledge. — Pode-se dizer que sim.
— Quando eu estou triste, o Shawn me abraça e eu não sinto mais tanta tristeza. Você quer um abraço?
Shawn esperava que Rutledge rejeitasse a oferta com um escárnio.
Ele não rejeitou. Não disse nada.
Tomando o silêncio dele como um sim, Bee levantou-se e colocou os bracinhos ao redor do pescoço de Rutledge. Ele teve que segurá-la para que ela não caísse. Shawn ficou olhando para as mãos grandes de Rutledge nas costas de sua irmãzinha e depois para o rosto inexpressivo e estoico dele.
Silenciosamente, ele fechou a porta e voltou para a cama.
Cerca de vinte minutos se passaram antes que ele ouvisse a porta se abrir novamente. Houve um ruído de roupas sendo retiradas antes de o colchão ceder sob o peso de Rutledge e ele deslizar sob as cobertas ao lado de Shawn.
A velocidade com que Shawn se atracou a ele teria sido embaraçosa se Shawn conseguisse se importar; ele não conseguia. Ele só precisava beijá-lo. Precisava tocá-lo. Então o beijou, e Rutledge retribuiu o beijo com a mesma fome, seus lábios urgentes, quase desesperados.
Shawn não tinha certeza de quantos minutos passaram se beijando — pareceram horas e segundos ao mesmo tempo. Quando finalmente pararam para respirar, Shawn estava aquecido da cabeça aos pés. Enganchando a perna sobre o quadril de Rutledge, ele repousou a cabeça no peito dele. O coração de Rutledge batia sob seu ouvido, forte e rápido.
Por um longo tempo, houve apenas um silêncio companheiro.
— Ele morreu, não foi? — Shawn sussurrou, finalmente.
Ele sentiu Rutledge ficar rígido sob ele. — Sim.
Shawn hesitou, incerto sobre o que dizer. — O que aconteceu? Alguém disse que você ia se casar.
Rutledge suspirou, algo que Shawn sentiu mais do que ouviu enquanto o peito de Rutledge se expandia sob sua bochecha. — Foram as manipulações de Joseph novamente. Eu fui até lá porque ele me disse que estava em seu leito de morte. Quando cheguei, havia uma enorme recepção.
— Que tipo de recepção? — perguntou Shawn, passando os dedos pelos pelos do peito de Derek.
— Muitos políticos, empresários ricos e jornalistas. Quando cheguei, Joseph fez um anúncio.
Os olhos de Shawn se arregalaram. — Ele realmente anunciou seu noivado sem te perguntar? Isso é loucura. — Uau. Ele sabia que o pai de Derek era um déspota, mas aquilo era ridículo, até para ele.
Rutledge pareceu hesitar. — Eu acho... eu acho que ele não estava bem da cabeça ultimamente. E ele provavelmente esperava que eu não quisesse fazer cena na frente de tantas pessoas influentes e jornalistas. Ele estava certo — nossa família teria se tornado motivo de piada se eu fizesse isso. Eu o levei de lado e disse que, se ele não desmentisse o anúncio, eu mesmo faria. — Rutledge fez uma pausa. Sua voz era monótona quando continuou: — Ele ficou furioso e teve um ataque cardíaco. Estava morto na manhã seguinte.
Shawn fechou os olhos. — Vocês se resolveram antes de ele morrer?
Rutledge soltou uma risadinha, um som áspero e sem humor. — Não. Mesmo em seu leito de morte, ele me chamou de a maior decepção da vida dele. Tentou me manipular até enquanto lutava para respirar. Ameaçou deixar tudo para o marido de Vivian se eu não me casasse com aquela garota. É claro que não deixou. Ele é... era conservador demais para isso.
Os lábios de Shawn roçaram a pele quente e ele respirou fundo, sentindo a batida constante do coração de Rutledge contra sua bochecha. — Ele... eu não estou dizendo que isso o desculpa, mas se ele não se importasse com você, ele não teria... quero dizer, ele não é um vilão. Quando falei com ele, ele era um babaca arrogante, mas houve algo que ele disse... Ele disse que você era filho dele e que não era nenhum idiota. Eu acho que ele... era apenas orgulhoso demais para dizer algo gentil, mesmo que se sentisse de outra forma, sabe?
Rutledge suspirou. — Não importa agora. Eu não ligo.
Mentiroso.
Shawn se aninhou contra a pele dele. — Fico feliz que você tenha voltado, Derek.
Ele sentiu o corpo de Rutledge ficar tenso por um momento e depois relaxar contra o seu. Um braço forte envolveu as costas de Shawn e o puxou para perto com força, quase machucando suas costelas.
Shawn não reclamou. Ele se aconchegou mais ao calor de Derek e adormeceu instantaneamente.
Ele dormiu como um bebê, pela primeira vez em uma semana.
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— Derek — disse Shawn, fechando a porta.
Derek não desviou os olhos do computador. — Agora não. Estou ocupado e você é... você é uma distração excessiva.
Shawn sorriu. — Uma distração, é?
Derek lançou-lhe um olhar severo, mas foi, na melhor das hipóteses, sem convicção.
— Qual é, me conta logo!
— Sem tratamento especial — disse Derek. — Você saberá sua nota quando todos os outros souberem. Amanhã.
Recostando-se na porta, Shawn mordeu o lábio. — Eu reprovei?
Ele não tinha certeza. Derek o ajudara muito ultimamente, explicando boa parte da matéria que Shawn perdera no início do semestre. Shawn achava que sua compreensão do assunto tinha melhorado e que tinha ido bem na prova, mas agora, olhando para o rosto sério de Derek, ele já não tinha tanta certeza.
— Não — disse Derek. — Você não reprovou.
Shawn soltou o ar. — Então, o que eu tirei? Um C, certo?
Derek comprimiu os lábios. — Você tirou um B.
A boca de Shawn se abriu. — Sério? Espera, você...
— Não, eu não te dei nenhum tratamento especial — disse Derek, com um tom um tanto defensivo. — Você fez um bom trabalho. Você não é desprovido de inteligência. Se realmente se desse ao trabalho de frequentar as aulas, não teria tido problema algum.
Shawn sorriu, sentindo um calor e uma alegria estúpida. Ele deu um passo em direção à mesa, mas Derek disparou: — Não.
— Por quê?
Derek fixou os olhos na tela à sua frente, com a mandíbula cerrada. — Eu já disse. Você é uma distração. Eu tenho que trabalhar.
Shawn não queria ir embora. Queria abraçá-lo. Queria beijá-lo. Queria comemorar com ele. — Mas...
Derek suspirou entre os dentes. — Certo. Venha aqui e me beije. Um beijo. Depois você vai embora.
Shawn foi até lá e o beijou. E o beijou de novo. E de novo. E mais uma vez.
Quando seus lábios finalmente se separaram, Derek roçou o polegar na bochecha de Shawn. — Bom trabalho, Sr. Wyatt.
Shawn sorriu e lhe deu um selinho nos lábios. — Obrigado, Professor.
Um sorriso relutante apareceu no rosto de Derek antes que ele fizesse uma carranca e o empurrasse de seu colo. — Agora caia fora.
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Quando Shawn abriu os olhos na manhã seguinte, encontrou Derek observando-o.
— Bom dia — Shawn murmurou, com os rostos a apenas alguns centímetros de distância no travesseiro. Parecia insuportavelmente íntimo. — Dormiu bem?
— Não, não dormi — disse Derek, com o braço pesado nas costas de Shawn. — Sua cama é terrível. Quase caí duas vezes.
Shawn sorriu preguiçosamente. — Ninguém está te forçando a dormir aqui.
Derek contraiu os lábios em uma linha fina e desviou o olhar por um momento antes de voltar a encará-lo. — Será muito mais conveniente se usarmos a cama da minha casa.
Shawn piscou. — Você sabe que eu não posso deixar as crianças sozinhas.
— Eu tenho um quarto vago para elas.
Shawn ficou olhando para ele. — Você está me pedindo para morar com você?
O rosto de Derek estava inexpressivo. — Seria conveniente.
— Conveniente?
— Sim, conveniente.
Pressionando os lábios para não rir, Shawn assentiu solenemente. — Muito conveniente.
— Cale a boca, Wyatt — disse Derek.
Shawn abriu um sorriso lento e enlaçou o pescoço de Derek com os braços.
Eles se olharam nos olhos por um longo momento, e Shawn sentiu algo apertar em seu peito. Ele disse suavemente: — Eu também te amo, Derek.
Derek o encarou pelo que pareceu uma eternidade antes de dizer, um pouco sem fôlego: — Sim.
Shawn riu. — Ok, vamos ter que trabalhar nisso...
Derek o calou com um beijo.
Fim