Faltavam duas semanas pra eu sair quando comecei a perceber que a liberdade me assustava quase tanto quanto a cadeia tinha assustado no começo, porque depois de três anos vivendo entre parede mofada, contagem de preso e rotina de sobrevivência, o homem acostuma até com a própria ruína, e às vezes a ideia de voltar pro mundo parece mais perigosa do que continuar enterrado onde já conhece todas as regras.
Mas tinha outra coisa me incomodando. A sensação de que alguém ainda me observava de longe. Não a polícia, nem um inimigo, mas alguém que carregava culpa.
O advogado aparecia cada vez mais. Sempre elegante demais praquele lugar, falando baixo, revisando papelada, insistindo em detalhes do processo que ninguém antes tinha dado importância. Até que, numa tarde, enquanto guardava os documentos na pasta, ele perguntou:
— Você ainda pensa muito no Alfredo?
Aquilo me atravessou bonito. Porque ele nunca tinha citado o nome. Levantei os olhos devagar.
— Quem mandou você?
O sujeito hesitou só por um segundo. Mas eu vi na cara dele. E foi ali que eu soube. Antes mesmo da confirmação, antes mesmo da liberdade. Alfredo tava vivo e isso mexeu demais comigo.
Quando finalmente saí da cadeia, o mundo pareceu claro demais, barulhento demais, rápido demais, como se três anos e meio tivessem passado só pra mim e o resto da cidade tivesse seguido normalmente sem nem perceber minha ausência.
Meu tio queria que eu fosse direto pra Minas com ele no dia seguinte, largar o Rio de vez, sumir daquela vida antes que ela me puxasse de novo pra baixo. E eu tava decidido a fazer isso. Ou pelo menos achava que tava. Até ver Alfredo.
Ele tava encostado num carro preto importado do outro lado da rua, fumando nervoso, exatamente como fazia quando queria esconder ansiedade sem perder a pose.
E parceiro… eu senti minhas pernas falharem. Porque durante três anos eu tentei convencer a mim mesmo de que tava pronto pra qualquer desfecho — morte, mentira, esquecimento — menos praquilo. Menos pra descobrir que ele ainda existia.
Alfredo estava diferente. Mais magro, mais másculo com a barba mais cheia, e absurdamente mais bonito, daquele jeito que sempre me deixava com raiva do mundo. Só que agora havia alguma coisa quebrada nele que antes não existia tão aparente. Ou talvez sempre tivesse existido e eu era apaixonado demais pra enxergar.
A gente ficou se olhando por tempo suficiente pra parecer ridículo. Nenhum dos dois sabia como atravessar aqueles três anos de silêncio. Até que ele falou meu nome baixo, com voz rouca.
— Nandão…
Porra! Aquilo acabou comigo mais do que a cadeia inteira. A voz dele foi gatilho pra eu lembrar da gente fodendo no meu barraco – eu socando forte e ele se contendo pra não gemer alto, e só deixava escapar meu nome.
Mas não teve abraço imediato, nem teve cena de filme. Teve peso, culpa, saudade acumulada apodrecendo entre nós.
Ele se ofereceu pra me levar pra onde eu quisesse ir e eu acabei aceitando. Mas no caminho, a mão dele repousou na minha coxa e o olhar dele de safado acenderam uma faísca em mim novamente, e acabamos indo para um motel. Minha cabeça gritava para eu voltar atrás e sair dali, mas meu coração já estava acelerado demais e meu pau já estava duro demais para negar.
A gente se beijou com muita intensidade e paixão reacendida. Apesar de mais magro, o corpo dele estava bastante definido, provavelmente estava malhando nessas academias ou sei lá... Quando tirei a calça dele, me deparei com seu saco e seu cuzinho totalmente se pelos. Fiquei atordoado de tesão e caí de boca em tudo. Coloquei Alfredinho de quatro e alternava lambendo seu cu e chupando aquele pauzão delicioso. E quando o puto colocou a boca na minha rola pra chupar, eu não aguentei e gozei na hora. Alfredinho engoliu tudo e lambeu cada gota de porra.
Mas meu pau continuava duro. Tesão de mais de três anos acumulado. Todo esse tempo me aliviando apenas com punheta na prisão não foram suficientes. Então, me deitei e Alfredinho sentou na minha vara e começou a rebolar e quicar... o pau dele durão balançando no ar... foi um êxtase! Em seguida, ele ficou de frango assado, e de pé eu soquei sem dó. Meu pau ia no mais fundo do cu daquele almofadinha e ele só gemia e pedia pra eu continuar. E eu continuei até que ele começou a gozar sem se tocar. Me abaixei e chupei a porra toda do pau dele e lambi sua barriguinha sarada. Depois, voltei a socar naquele cuzinho guloso até encher ele de porra... muita porra.
Exaustos, fomos tomar um banho e então ficamos deitados na cama. Foi aí que descobri tudo naquela noite. Foi ele que mandou o advogado. Durante três anos Alfredo ficou tentando desmontar o processo escondido, longe do pai, longe da família, quase como se estivesse tentando voltar no tempo e impedir aquela porta de ter sido arrombada.
— Eu não consegui tirar você de lá antes… — ele falou sentado na cama — Mas eu precisava pelo menos tentar consertar alguma coisa.
Eu fiquei olhando pra ele em silêncio porque parte de mim queria socar aquele rosto lindo até esquecer tudo, e a outra parte queria puxá-lo pros meus braços e nunca mais deixar sair. E talvez essa tenha sido sempre a nossa tragédia.
— Por que tu sumiu? — perguntei depois de um tempo.
Ele passou a mão no rosto. Cansado.
— Porque eu era um covarde.
Não respondeu rápido dessa vez, não tentou fugir.
— Meu pai praticamente me sequestrou depois da tua prisão. Tirou meu dinheiro, me mandou pra São Paulo, depois pro exterior… eu tava destruído, Nandão. Eu bebia pra dormir. Eu mal conseguia olhar pra mim mesmo.
A voz dele falhou ali. E aquilo doeu porque era verdade.
— Eu achei que você tivesse morrido. Me disseram isso e eu quase acreditei — murmurei.
Alfredo me olhou como se carregasse aquilo havia anos.
— Parte de mim morreu naquele barraco.
Talvez tenha sido essa frase ou o jeito que ele finalmente parecia inteiro na dor. Só sei que, quando percebi, já tava beijando ele de novo e acabamos fodendo mais uma vez. Mas foi pior do que da primeira vez. Porque agora não era descoberta, era recaída.
A gente se procurou naquela cama de hotel como dois homens tentando recuperar um tempo que já tinha apodrecido, agarrando um ao outro com desespero, culpa e saudade demais acumulados no corpo, e enquanto Alfredo tremia e gemia rebolando no meu pau, eu percebi uma coisa terrível: eu ainda amava aquele filho da puta com tudo que tinha sobrado de mim.
Depois, deitados no escuro, ouvindo o barulho distante da cidade entrando pela janela aberta, Alfredo encostou a testa no meu ombro e falou quase num sussurro:
— Vem embora comigo dessa vez.
Fechei os olhos. Porque durante anos foi exatamente aquilo que eu quis ouvir.
— Eu consigo agora, Nandão… eu largo tudo. A gente vai pra qualquer lugar. Vamos pra Minas, se tu quiser, lá na fazenda do seu tio. Ou pra longe pra cacete daqui. Não importa mais.
Talvez ele estivesse falando sério. Talvez pela primeira vez na vida Alfredo Lima estivesse realmente pronto pra escolher alguém acima do próprio sobrenome.
Mas chegou tarde.
Porque enquanto ele falava, eu só conseguia lembrar do meu rosto batendo no chão daquele barraco enquanto a polícia me espancava, dos policiais me humilhando e mijando em mim, das noites sozinho na cadeia, do silêncio, da ausência, dos anos perdidos tentando sobreviver sem enlouquecer. E pior: eu lembrava da versão de mim que existia antes dele e percebia que aquele homem tinha morrido.
Passei a mão no cabelo dele devagar, com carinho e com amor. Talvez mais amor do que nunca.
— Eu amo você pra caralho, Alfredo. Amo tanto que meu peito parece até doer.
Ele levantou o rosto na mesma hora, como quem finalmente tava ouvindo a frase certa. Mas então continuei.
— E é justamente por isso que a gente não pode continuar.
Vi o olhar dele quebrar ali na minha frente, devagar.
— Não faz isso… — ele disse já com a voz embargada. — Não depois de tudo. Por favor, Nandão! Não me dei...
A voz dele falou de verdade. Sem pose, sem arrogância. Só medo.
E aquilo quase me destruiu, quase me fez mudar de ideia. Porque eu queria ficar. Queria mesmo. Queria acreditar que o nosso relacionamento podia dar certo. Mas nós dois já tínhamos nos afundado demais um no outro.
— A gente não sabe existir sem se machucar, Alfredo. Não foi só a questão da minha prisão... foi tudo o que tava acontecendo antes. Você não se contentava só comigo.
Ele abaixou a cabeça. Respirou fundo. E começou a chorar copiosamente. As lágrimas desciam grossas dos seus olhos... Pela primeira vez desde que conheci Alfredo Lima eu o vi sendo sincero com seus sentimentos. Nunca vou esquecer aquilo. O homem que passou anos fugindo de si mesmo finalmente desmoronando tarde demais.
Eu me levantei, limpei o gozo dele que ainda estava na minha barriga, e me vesti. Saí do motel sem olhar pra trás. Porque se olhasse… eu ficava.
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Hoje moro em Minas com meu tio, longe do Rio, trabalhando até o corpo cansar pra manter a cabeça em silêncio. Mas às vezes, no fim da tarde, sentado sozinho olhando o pasto balançar com o vento, ainda penso no Alfredo fumando na minha laje só de cueca, jovem demais, arrogante demais, perdido demais pra entender que o amor também pode destruir.
E na moral? Tem dias em que ainda dói tanto que parece recente. Tem dias que penso em pegar um ônibus e voltar pro Rio e acreditar naquele “fi duma égua”, como dizem os mineiros.
Mas amar alguém nem sempre significa permanecer. Às vezes significa sobreviver ao estrago… e aprender a ir embora mesmo querendo ficar.