Acordei antes do sol nascer direito, como quase sempre acontecia no rancho. O frio daquela manhã parecia ainda pior que o do dia anterior. O quarto estava tão gelado que sair debaixo da coberta exigiu esforço físico e emocional. Vesti a primeira blusa de frio que encontrei, calcei a bota e fui direto para a cozinha ainda meio dormindo. Meu avô já estava sentado na mesa tomando café.
— Hoje tem cidade — ele avisou antes mesmo de eu sentar. — Precisa comprar ração, peça da caminhonete, umas ferramentas e passar no mercado.
Assenti em silêncio enquanto servia café. Minha avó mexia alguma coisa no fogão a lenha e a casa inteira cheirava a pão torrado e café forte.
— E vê se compra lâmpada também — ela falou. — A da varanda queimou.
— Uhum.
— E uma correia dentada nova, a da caminhonete já está fazendo um barulho estranho.
Me sentei tentando acordar aos poucos. Foi então que ouvi passos vindo do corredor. Thayla apareceu primeiro, enrolada numa coberta como se tivesse acabado de sair de uma guerra.
Ela me olhou por alguns segundos antes de pegar café.
— Acho que foi a primeira vez na vida que você realmente calou a boca da Thaysa.
Soltei uma risada fraca pelo nariz.
— Impossível.
— Tô falando sério. Ela ficou estranha depois daquilo.
— Estranha como?
— Quieta, acho que nunca vi ela ficar tão quieta assim.
Agora sim parecia impossível, meu avô levantou da mesa, ele não tem muita paciência para conversas paralelas.
— Vai logo antes que a cidade lota.
Peguei a chave da caminhonete velha e saí para o frio absurdo da manhã. A lataria estava quase congelando. Entrei, liguei o motor e fiquei esperando aquecer. Já estava prestes a sair quando ouvi alguém bater na porta do passageiro.
Era Thaysa. Abri a trava. Ela entrou sem pedir licença, fechando a porta rápido por causa do frio.
— Vai pra cidade?
— Vou.
Ela ajeitou o casaco elegante demais para sete horas da manhã num rancho cheio de barro.
— Ainda bem. Me espera cinco minutos.
— Já esperei.
— Gabriel.
— Cinco minutos — falei ligando o rádio. — Depois eu vou com ou sem você.
Ela saiu bufando e entrou na casa novamente. Exatos quatro minutos depois, voltou. E honestamente, arrumada demais para alguém indo comprar detergente numa cidade pequena do interior. Bota limpa, calça justa, casaco preto bonito e sua marca registrada, o perfume doce demais e excessivamente forte. Ela parecia pronta para passar o dia num shopping de capital, não dentro da caminhonete velha do meu avô que cheirava a diesel, terra molhada e ferramenta enferrujada. Ela entrou e bateu a porta.
— Vamos logo.
Engatei a marcha enquanto Korn explodia no rádio. Automaticamente um sorriso apareceu no meu rosto.
Inclusive, que puta show aquele em São Paulo, fiquei rouco e com as pernas doendo no dia seguinte.
Thaysa fez uma careta imediata.
— Meu Deus, que música de maluco.
Depois de ouvir ela falar aquilo, aumentei o volume, ela tentou abaixar. Segurei o pulso dela antes.
— Ridículo, me solta.
Ela tentou de novo, afastei a mão dela outra vez.
— Gabriel!
— O motorista escolhe a música.
— Isso aqui parece trilha sonora de assassinato.
— Melhor que Taylor Swift.
— Você cala a boca agora — ela me encarou indignada e apontando o dedo para mim tal qual uma ameaça.
Depois de alguns segundos brigando pelo rádio, ela simplesmente começou a trocar as músicas sozinha. Só que aquilo era praticamente impossível. A caminhonete só tinha minhas playlists salvas, metal, rock pesado, mais metal, mais Korn.
Ela passou umas dez músicas seguidas fazendo cara de desgosto.
— Você escuta música de gente perturbada.
— Você escuta música de adolescente iludida.
— Pelo menos não parece que o cantor tá sendo exorcizado.
No fim, ela desligou o rádio completamente. O silêncio tomou conta da caminhonete. E estranhamente não era ruim, soava como uma pequena vitória depois de ver a cara emburrada dela. Ela também não falava nada. Só observava a estrada passando pela janela enquanto esfregava as mãos por causa do frio. Quando chegamos na cidade, estacionei perto da praça principal.
— Meio-dia eu vou embora — falei desligando o motor. — Com ou sem você.
Ela tirou o cinto.
— Você fala igual caminhoneiro divorciado.
Ignorei. Ela saiu andando sem nem dizer para onde ia. Passei a manhã resolvendo as coisas do meu avô, mercado, ração, ferragens, peças da caminhonete, parafuso, óleo, essas coisas.
No meio disso tudo encontrei umas três pessoas conhecidas perguntando sobre meu avô, alguns só querendo aquele velho papo furado de cidade pequena. Um deles perguntou quem era a menina bonita na caminhonete, se era minha namorada
— Deus me livre — respondi com uma cara de nojo. Infelizmente é minha prima.
Perto do meio-dia voltei para onde tinha estacionado. Thaysa ainda não tinha aparecido. Entrei na caminhonete, liguei o motor e esperei aquecer. Ela surgiu quase dez minutos depois carregando sacolas e claramente irritada quando percebeu que eu já estava pronto para ir embora sem ela. Entrou batendo a porta.
— Eu não acredito que você realmente ia embora e me deixar sozinha nesse fim de mundo.
— Eu te avisei.
Ela bufou e cruzou os braços. Dessa vez o rádio permaneceu desligado. Saímos da cidade em silêncio até sentir a caminhonete estranha alguns quilômetros depois. A embreagem ficou pesada, depois veio um barulho seco, então o carro começou a puxar para um lado.
— Inferno — murmurei.
Encostei na estrada de terra e desci, chutei o pneu traseiro, furado.
— Meu Deus — Thaysa apareceu do lado de fora quase imediatamente. — Eu devia ter ficado em casa.
Abri o capô.
— Claro. Porque isso foi claramente planejado.
Ela ignorou.
— A gente vai ficar preso aqui até escurecer, né?
Peguei as ferramentas na traseira da caminhonete.
— Você sabe mexer nisso?
Nem olhei para ela.
— Uhum.
Ela ficou em silêncio por alguns segundos, desacreditada.
— Gabriel... você pelo menos sabe trocar um pneu?
Ignorei.
— Tô falando sério, você sabe?
Ela soltou uma risada curta pelo nariz.
— Aposto duzentos reais que a gente vai ficar parado aqui até a noite.
Continuei mexendo no carro.
— Se eu resolver você me deixa em paz.
— E se não resolver?
— Te dou mil reais.
Ela arregalou um pouco os olhos.
— Você não tem mil reais.
— Então torce para eu resolver.
Ela cruzou os braços outra vez observando.
— Tá bom. Se resolver isso em menos de meia hora eu até te dou um prêmio.
Ignorei e continuei trabalhando. O vento frio batia forte naquela parte aberta da estrada. Minhas mãos ficaram sujas de graxa rapidamente enquanto eu trocava o pneu e mexia na embreagem. Quando terminei, olhei o relógio no painel. Quatorze minutos. Fechei o capô.
— Pode entrar.
Fui na caçamba e peguei um pouco de água para limpar as mãos. Thaysa permaneceu parada me olhando em silêncio. Pela primeira vez desde que eu conhecia aquela garota, ela parecia genuinamente sem resposta. Entrei na caminhonete novamente. Alguns segundos depois ela entrou também, quieta. Silêncio durante a volta inteira.
Ela me olhou algumas vezes durante o caminho.
Na última, finalmente falou:
— Você realmente resolveu tudo sozinho...
Mantive os olhos na estrada. E ignorei, claro.
Ela demorou um pouco antes de falar outra vez.
— Eu vou odiar ter que admitir isso, mas você realmente serve para alguma coisa, agora entendi porque o avô te explora tanto. Você ficou menos patético do que eu me lembro na escola — ela então se calou por um momento e depois ficou surpreendida. — Meu Deus! Pra você me matar e me enterrar em algum lugar por aqui não deve dar trabalho nenhum
Olhei rapidamente para a ela antes de voltar a atenção para a estrada e dar uma genuína risada.
— Para de ir, tô falando sério — ela deu um soco leve no meu braço. — Me lembra de nunca mais andar com você sozinha novamente.
O resto do caminho foi silêncio. Meu avô apareceu na varanda antes mesmo da caminhonete parar direito. Só de me ver descendo já percebeu que tinha alguma coisa errada.
— Que foi agora? Demoraram.
Fechei a porta da caminhonete.
— Pneu furou. E a embreagem começou a falhar.
O rosto dele mudou na mesma hora.
— Eu falei que aquela embreagem tava estranha semana passada.
Ele já desceu os degraus sem nem terminar o café, passou direto por mim e abriu o capô da caminhonete ali mesmo. Thaysa ficou parada perto observando a cena como se estivesse vendo dois primatas raros em habitat natural.
— Você continuou usando? — o velho perguntou.
— Fiz uma gambiarra, mas vamos ter que mexer de qualquer jeito.
Ele resmungou alguma coisa incompreensível enquanto mexia nas peças.
— Gabriel, pega a caixa de ferramenta grande.
Nem respondi, só fui buscar. Quando voltei, Thaysa ainda estava parada ali segurando as próprias sacolas.
— Vocês vão mexer nisso agora?
Meu avô respondeu antes de mim:
— Caminhonete parada é prejuízo.
— Meu Deus — ela murmurou. — Vocês falam igual personagens de documentário rural.
O velho ignorou completamente. Passamos o resto da tarde mexendo na caminhonete. Pela primeira vez em dias o sol apareceu de verdade, ainda frio, mas forte o suficiente pra secar parte do barro espalhado pelo terreiro. Tirei o casaco depois de um tempo porque trabalhar curvado naquele motor velho fazia qualquer um cozinhar por dentro.
Graxa até o cotovelo, mão preta de óleo, cheiro de combustível. E inexplicavelmente Thaysa continuava por perto. Às vezes sentava na carroceria, às vezes ficava encostada vendo a gente trabalhar, ou só aparecia pra falar alguma merda.
— Vocês realmente acham isso divertido?
Ninguém respondeu.
— Impressionante como homem do interior nasce sabendo consertar cerca, carro. Menos o Gabriel, esse ai nasceu um inútil.
Continuei apertando um parafuso. Ela olhou pro meu braço por alguns segundos enquanto eu puxava uma chave inglesa maior. Ela desviou o olhar na mesma hora. Aquilo foi estranho, mais estranho ainda porque ela não tentou me insultar por um bom tempo. Fim de tarde o frio voltou rápido. O céu escureceu de novo e o vento começou a passar forte pelo terreiro aberto do rancho. Meu avô limpou as mãos num pano velho e fechou o capô.
— Dá pro gasto agora.
Achei que tinha acabado, claro que não tinha.
— Gabriel — ele chamou de novo. — Aproveita e troca a lâmpada da traseira antes da chuva voltar.
Olhei pro céu.
— Vai chover mesmo.
— É por isso mesmo, troca agora.
Suspirei cansado e fui até o galpão procurar a caixa de lâmpadas. Ouvi passos atrás de mim pouco depois.
— Você trabalha desde a hora que acorda? — era Thaysa.
— Uhum.
— Isso não é deprimente?
Peguei a lanterna em cima da bancada.
— Bastante.
Ela pegou a outra lanterna antes que eu pudesse alcançar.
— Eu seguro.
Aquilo me fez olhar pra ela por um segundo.
— Você sabe usar uma lanterna pelo menos?
— Vai se foder.
Fomos até a traseira da caminhonete. Ela iluminava enquanto eu desmontava a proteção da lanterna velha. O vento ficava cada vez pior, fazendo o cabelo dela voar no rosto toda hora. Estava um silêncio, só o som metálico das ferramentas.
— Nunca imaginei você fazendo essas coisas — ela falou depois de um tempo.
— Quais coisas?
— Qualquer coisa útil — ela soltou uma risada curta.
Troquei a lâmpada e bati a tampa de volta no lugar bem na hora que o primeiro trovão cortou o céu.
— Corre — falei.
A chuva caiu pesada quase instantaneamente. A gente atravessou o terreiro, ela correndo na frente e eu atrás, até que paciente, tomar uma chuva no frio não iria me matar. Entramos dentro da casa já molhados pelo vento gelado. Minha avó apareceu da cozinha na mesma hora.
— Eu falei que ia chover!
— E eu falei que dava tempo — respondi tirando a bota perto da porta.
— Vai tomar banho antes de morrer congelado.
Não precisei ouvir duas vezes. Subi pro quarto sentindo o corpo inteiro pesado. O banho quente quase doeu de tão bom. A água levou embora cheiro de combustível, barro, suor e graxa acumulada do dia inteiro. Quando saí, coloquei uma calça de moletom limpa e um casaco escuro qualquer. O cabelo ainda estava molhado quando desci novamente. A casa inteira cheirava a canela, álcool e alguma coisa doce. Minha avó tinha preparado vinho quente como fazia praticamente todo sábado frio. Thayla tava enrolada numa coberta perto da televisão. Evelyn lia alguma coisa no sofá menor perto da janela. O avô dormia sentado na poltrona como se tivesse desligado sozinho. E Thaysa surgiu com a toalha no cabelo molhado e pesadamente agasalhada, levantou os olhos no instante que me viu. Ela me encarou por tempo demais, sem piada, sem provocação e sem sorriso debochado, apenas olhando. Peguei uma caneca de vinho quente e fiquei em frente a porta da cozinha, ainda dentro de casa, observando o caos lá fora pelo vidro da porta, o vento batendo violentamente contra a casa dando a impressão que iria cair a qualquer momento. Depois de alguns minutos ouvi passos atrás de mim, Thaysa apareceu segurando outra caneca. Ela ficou parada ao meu lado também observando o lado de fora. .
— Você realmente resolveu aquilo rápido hoje — ela falou olhando a chuva.
— Uhum.
Ela bebeu um pouco do vinho quente.
— Acho irritante você ser útil desse jeito.
Soltei uma risada curta. Ela virou o rosto na minha direção quase na mesma hora. Ficou me olhando em silêncio por alguns segundos antes de apertar a caneca quente entre as mãos.
— Credo, não faz isso de novo.
— O quê?
— Essa risadinha, é estranho.
— Você implica até com o meu sorriso.
— Porque ficou estranho em você, fica com cara de psicopata.
— Dramática.
O vento bateu forte contra a casa outra vez. Ela se aproximou um pouco mais por causa do frio, o ombro encostando no meu braço. Não se afastou. Ficamos assim alguns segundos ouvindo a chuva bater no telhado. Então ela olhou minhas mãos.
— Ainda estão machucadas.
— Demora um tempo para voltar ao normal.
Ela encostou os dedos nos cortes da minha mão calejada quase distraída. Devagar. Meu olhar caiu direto para a boca dela, ela percebeu. O silêncio ficou estranho de novo. Thaysa foi a primeira a desviar o olhar. Terminou o vinho quente de uma vez só e caminhou até a panela no fogão.
— A avó coloca álcool demais nisso, acho que ela tenta matar a família aos poucos de cirrose.
Pegou mais um pouco mesmo assim. Eu também peguei um pouco mais, só um copo foi insuficiente para esquentar. A chuva continuava violenta do lado de fora. Daquelas que fazem a casa inteira ranger de tempos em tempos. O vento assoviava pelas frestas antigas das janelas enquanto o relógio da sala avançava devagar. Mais um copo, depois outro, e mais outro. O corpo começava a ficar quente de verdade agora. Meu avô foi o primeiro a desistir da noite. Acordou assustado na poltrona, resmungou alguma coisa sobre levantar cedo e sumiu corredor adentro. Evelyn desapareceu pouco depois, silenciosa como sempre. Passou pela sala segurando o livro contra o peito e desejou boa noite baixo demais para alguém ouvir direito. Thayla foi a próxima, com muito vinho na cabeça para continuar acordada. Ela ria sozinha no sofá enquanto tentava enrolar a coberta no próprio corpo.
— Eu vou dormir antes que comece a ver espírito nessa casa.
— Você já vê normalmente — Thaysa respondeu.
Cinco minutos depois, Thayla já tinha sumido também. E então sobraram só eu, Thaysa, a chuva, o cheiro do vinho e a sala do andar de cima, escura devido a lâmpada queimada, porém iluminada pela luz amarela e fraca do corredor. Aquela parte da casa era mais silenciosa. Tinha duas estantes enormes de livros antigos, um sofá velho perto da janela e outro de couro escuro. Thaysa tava sentada desleixada num deles, afundada no casaco pesado, uma das pernas dobrada embaixo do corpo. O rosto levemente vermelho por causa da bebida.
Pensei em como Thaysa estava me seguindo recentemente, primeiro foi indo a cidade, depois no conserto do carro, no armazém e agora ela me seguia pela casa, onde eu ia, ela agia como uma sombra me perseguindo. Percebi ela girando a caneca devagar entre os dedos enquanto me observava por cima da borda.
— Você era apaixonado por mim na escola? — ela pergunta, a voz embargada.
— Não — fiz uma careta de nojo. — Deus me livre.
— Mentiroso.
— Você era e continua insuportávelmente irritante.
— Isso nunca impediu homem nenhum.
— Continua se achando demais, esse é o teu problema.
Dei mais um gole no vinho quente, ela me observava como se estivesse tentando decifrar algo.
— Sabe o que mais me irrita? — ela perguntou. — Você não reage mais.
Aquilo fez meu olhar sair da janela.
— Antes era fácil. Eu falava qualquer coisa e você ficava vermelho, nervoso, queria desaparecer.
— Isso foi há o que, doze? Treze anos?
— Eu sei.
Silêncio, a chuva bateu forte contra a janela outra vez, Thaysa afundou mais no sofá antes de falar baixo:
— Era mais interessante quando você se sentia humilhado, acho que gostava mais quando conseguia te afetar.
— Isso é meio doentio.
— Bastante.
Ela sorriu, dessa vez sem crueldade nenhuma, um sorriso cansado como quem admitisse a derrota. Ela sustentou aquele sorriso cansado por mais alguns segundos antes de terminar o resto do vinho de uma vez só.
— Você já quis se vingar de mim.
— Não.
— Não foi uma pergunta, eu afirmei — ela disse, se formando um bico em seus lábios e posteriormente um sorriso. — A pergunta vem agora, como você imaginou sua vingança?
— Não penso tanto assim em você, desculpa te decepcionar — respondi de uma vez.
Ela estreitou os olhos imediatamente, claramente insatisfeita com a resposta.
— Mentira.
— Você superestima sua importância na vida dos outros.
— Você não sabe mentir direito.
Dei mais um gole no vinho quente sem responder. Ela continuou me observando em silêncio por alguns segundos antes de afundar mais no sofá.
— Então nunca passou pela sua cabeça me humilhar de volta? Me fazer passar vergonha? Alguma coisa?
— Isso foi há mais de dez anos, Thaysa.
— Continua fugindo da pergunta.
Soltei o ar pelo nariz, cansado.
— Naquela época eu só queria que você calasse a boca, hoje em dia eu continuo querendo a mesma coisa.
Thaysa girava a caneca vazia entre os dedos distraidamente, o silêncio perdurou por longos segundos, começou a ficar desconfortável. O cansaço voltou com tudo, o vinho deixou cada fibra de músculo relaxado, pronto para uma noite longa de sono e já torcia para estar chovendo até a manhã do dia seguinte. Chuva de manhã era igual a uma manhã sem trabalho.
— Porque não me manda calar a boca agora? — Thaysa perguntou, a voz um pouco mais embargada.
— O que? — respondi, achando ter ouvido coisas.
— Me manda calar a boca, agora.
— Você tá bêbada.
— Pra caralho — ela se levantou.
Thaysa deixou a caneca no sofá desleixadamente, a caneca caiu, o resto do líquido escorreu pelo couro, eu percebi esse detalhe, mas ela aparentemente não, seus olhos estavam ocupados olhando fixamente e estranhamento para mim. Ela se aproximou, passos lentos até ficar entre mim e a janela.
— É irritante o jeito que você tenta se controlar, sempre foi assim, nunca deixou todas as emoções virem a tona, não é?
Ela apertou meus braços, recuei um pouco, Thaysa estava cheirando diferente, seu sorriso estava diferente, era estranho, mas bom ao mesmo tempo. Sentia o hálito de vinho vindo de sua boca, as bochechas coradas, os olhos com as pálpebras meio cerrados.
— Vai, manda eu calar a minha boca — ela repetiu, mais séria agora.
— Se isso vai fazer com que me deixe em paz — suspirei. — Thaysa, cala a porra da sua boca.
Ela sorriu, largo, quase de satisfação.
— Porque não vem você calar?
Fechei os olhos, suspirei fundo, ouvi ela rir. Quando abri novamente os olhos, Thaysa parecia estar bem receptiva para qualquer coisa que eu fosse e pudesse fazer. Agarrei sua nuca, com o cabelo entre meus dedos, a puxei para perto, suas mãos entrelaçaram minhas costas, nos beijamos.
Sim, caro leitor, eu e minha arquinimiga, nos beijando.
O pior é que ela não reclamou. Claro que não, ela pediu por isso. O cheiro do perfume dela era forte, a puxei para mais perto, colando seu corpo no meu, fui para o seu pescoço, beijei, mordi e deixei uma pequena marca de chupão. Meu pau duro esfregava nela, ela sentiu, mesmo com todas aquelas roupas pesadas. Ela se agachou, quase caiu se não fosse o sofá ao lado para ela se apoiar. Abaixou minha calça desleixadamente com a minha ajuda. Ela agarrou meu pau com desespero e passou a chupar, como uma necessidade para continuar vivendo. Sentir aquela boca quente, vê-la agachada na minha frente com a boca envolta do meu cacete... parece que sempre quis presenciar aquela situação, mas nunca admiti para mim mesmo.
Agarrei seu cabelo num rabo de cavalo e forcei sua cabeça. Ela ria enquanto chupava, se afastava e cuspia no meu pau, punhetando fazendo aquele sons perversos por toda a sala, por mais que a chuva e os trovões abafassem qualquer ruído, ainda era possível ouvir. Fodi sua boca mais um pouco, ela quase não engasgava enquanto mamava meu pau, o que não me surpreendia, ela parecia o tipo de garota que fazia sexo para preencher o vazio dentro de si. Apertei o rabo de cavalo, erguendo ela à força só para jogá-la no sofá, retirei o mais rápido possível aquela calça, desleixado, estava descontrolado para foder Thaysa, mas antes, tinha que provar aquela buceta, tinha que sentir qual era o gosto da mulher que sempre me esnobava.
A calça não saiu completamente, ficou presa por algum motivo em seus joelhos, mas aquilo era suficiente, ergui suas pernas, cai de boca em seu cuzinho, o que estava mais perto. Piscava na minha língua, tentava invadir, sem sucesso. Deslizei a língua rápido para a sua buceta, completamente ensopada, tanto que melou minha barba instantaneamente. Chupei seu clitóris, me deleitei na fenda melada, chupando todo o mel que saia. Thaysa mal se preocupava em abafar os gemidos, fora as caras e bocas, olhos revirados, a garota parecia estar possuída pelo prazer. Eu, me agarrando num fio de consciência, tive que tapar a boca dela com uma das mãos, enquanto a outra ainda sustentava as duas pernas. Os gemidos deram uma abafada, mas ainda percebia que seus olhos reviravam.
Não queria perder mais tempo e nem ligava se ela tinha gozado ou não. Me levantei e encaixei meu pau em sua buceta, na mesma posição. Comecei a enfiar, rápido, minhas bolas bateram na sua bunda, meu pau escorregou para dentro e logo comecei a meter. Apertava suas coxas com uma das mãos enquanto a outra que tapava sua boca, desceu um pouco até o pescoço, apertei, a enforquei. Ela me olhou com um misto de medo e tesão, apertando meu antebraço enquanto eu retribuía apertando um pouco mais seu pescoço a cada metida.
Estava culpando Thaysa de estar gemendo alto há poucos segundos, mas eu também não colaborei, metia violentamente em sua buceta, tanto que o sofá velho rangia, se misturando com o barulho do meu corpo batendo no dela, que foram ficando cada vez mais altos, mas eu pouco me importava. Imaginava que a chuva iria abafar todo tipo de ruído. Thaysa me olhava, dava para perceber a voracidade em seus olhos. Ela tentou tirar minha mão da sua boca.
— Vai devagar, idiota — ela falou sussurrando entre gemidos. — Quer acordar a casa inteira?
— Que seja, daí todo mundo vai ver a vagabunda que você sempre foi — rebati sem diminuir a velocidade das estocadas.
— Nunca imaginei que um trouxa igual você ia ter um caralho tão gostoso.
— E uma puta como você com uma buceta tão apertada?
— Não te dei permissão para falar desse jeito comigo — ela rebateu, rindo.
— Foda-se, a partir de hoje falo com você do jeito que eu quiser.
— Do jeito... que quiser? Ai... merda, acho que vou gozar — ela falou fechando os olhos e apertando a boca.
Antes que qualquer coisa fosse sair da boca dela, tapei novamente com a mão, continuei fodendo ela até o orgasmo vir, posteriormente diminuindo aos poucos, a fadiga começou a bater na porta. Observei ela gozar, e preciso admitir, era uma algo que passaria o dia inteiro assistindo. Tirei meu pau devagar, agarrei seu cabelo e a levantei do sofá, colocando-a de joelhos de novo. Ela nem precisou raciocinar muito, agarrou meu pau com a boca, chupando, babando, sentindo o gosto da própria buceta.
— Deita — ela falou se levantando e já me empurrando para o sofá. — Vou te ensinar como foder de verdade.
Deixei ela assumir por enquanto, vendo o que a experiência de uma boa vagabunda poderia me proporcionar. Deitei, abaixei um pouco mais a calça. Ela ficou de costas e deu uns passos parar trás, vindo mais perto, flexionou os joelhos. Pegou meu pau e encaixou na buceta, novamente estava dentro dela. Ela apoiou as mãos no meu joelho e começou a quicar. Como esperando, ela tinha experiência, ela rebolava, quicava, pena que estava de costas, queria ver os peitos balançando na minha frente.
— Puta merda — murmurei baixo.
— Que foi, não tá aguentando?
— Tá um pouco difícil aguentar essa buceta apertada.
— Não vai gozar agora, aguenta mais um pouco — ela falou olhando por cima do ombro, não parando de sentar em nenhum momento.
— Mais um pouco quanto?
— Sei lá, até eu gozar de novo.
Tinha que admitir, não ia aguentar por muito tempo, acho que queimei a largada fodendo ela com tanta brutalidade no começo, e a visão do quadril largo dela indo para cima e para baixo, a visão da buceta dela engolindo meu pau piorava minha situação, por mais que estivesse mal iluminado, ainda conseguia ver de forma nítida. Para minha sorte, Thaysa começou a se descontrolar nos gemidos de novo, as pernas tremendo. Ela deu uma última sentada, com força, fazendo meu pau chegar fundo, ficou ali parada por um tempo e então deitou por cima de mim.
— Caralho, como é bom gozar — ela falou, ofegante e cansada.
— Eu ainda não gozei.
— E o problema é meu ou seu? — ela rebateu, com uma risada sarcástica.
Não respondi, apenas erguia suas pernas de novo, arranjei forças não sei da onde e voltei a meter.
— Idiota, acabei de gozar, vai devagar.
— Esse é um problema meu ou seu?
Ela me encarou por cima do ombro, claramente com intenções assassinas.
— Só não goza dentro.
Justo, não queria problemas paternos não cedo. Acelerei a velocidade da estocada até sentir o orgasmo vindo. Tirei rápido meu pau e o coloquei entre as suas pernas, comecei a gozar em seu abdômen, um pouco por cima da sua buceta. Enfim, o silêncio. Ficamos um pouco ali, mas o peso de Thaysa começou a incomodar um pouco.
— Pode levantar?
Silêncio, nenhuma resposta.
— Thaysa?
Então ouvido sua respiração pesada, ela acabou pegando no sono. Joguei ela de lado e me levantei, arrumando minha roupa. Olhei para ela, gozo na barriga, calças até o joelho. Por mais que a odiasse, não poderia deixa-la daquele jeito. Ajustei a roupa dela, a peguei no colo... Deus sabe o quanto odiei carregar a demônia até o quarto dela. A deixei na cama e joguei o cobertor por cima dela de qualquer jeito. Por fim, fui para o meu quarto. A chuva ainda continuava.
Fiquei pensando mil coisas, que poderia chover na manhã do dia seguinte, pois assim ganharia uma folga do meu avô e poderia dormir mais. Pensei na merda que tinha acabado de acontecer, foder Thaysa daquele jeito. Claro que já havia fantasiado com aquilo algumas vezes, mas meu ódio por ela era mais, um ódio que aos poucos foi se diluindo.
