Muito bem então.
Vamos dar sequência a este que já está meio encaminhado.
Espero que curtam.
Forte abraço.
Mark
Foi exatamente nesse instante, enquanto Ynara já havia passado sua calcinha vermelha pelos pés e a subia na altura dos joelhos, que ela virou ligeiramente o rosto e congelou.
Seus olhos encontraram os de Breno e aquele olhar ficaria gravada nos corações deles para sempre.
[CONTINUANDO]
Breno decidiu não confrontar Ynara, afinal a verdade estava ali, estampada, visível para quem quisesse ver. Discutir seria apenas tornar público o chifre que ele acabara de receber. Virou-se então à esquerda, abaixou o olhar e seguiu até sua barraca com passos firmes e decididos. Dogão e Ruan que notaram a atenção de Ynara e uma movimentação próxima, também olharam naquela direção e souberam de imediato que o prazer havia dado lugar à preocupação. Ninguém no trio ousou chamar por Breno. Ele, aliás, não corria, apenas ia, passo após passo sobre o chão de terra batida. Pesados, é verdade, mas como não ser? O misto-quente abandonado na poeira e o café preto que vazou do copo de plástico, agora ficaram para trás, símbolos de uma manhã que começara estranha, ficara ruim e tinha tudo para descambar numa enorme tragédia.
Paradoxalmente, a mente de Breno operava em um silêncio quase absoluto. Não havia raiva imediata, nem lágrimas, nem dor; havia apenas um vazio geométrico, frio, que parecia ter nascido da mais pura decepção. Quando ele avistou o Uninho vermelho estacionado debaixo da copa daquela frondosa árvore, sentiu um vislumbre do destino. Aquele carro, tão carregado de expectativas na sexta-feira, agora parecia mais um caixão de metal sob o sol de maio, pronto para receber seu cadáver miserável.
Breno hesitou rapidamente, mas logo buscou a chave no bolso da bermuda amassada com dedos que tremiam sutilmente. Abriu então a porta do lado do motorista, entrou e ligou o motor. O ronco familiar do carrinho trouxe um eco de realidade, seguido de uma lufada de fumaça cinza que o fez se lembrar que aquele carro merecia um pouco mais de respeito. Ele engatou a primeira marcha e assim que se movimentou, notou que seu bólido ainda estava atado a barraca que havia erguido com tanto zelo e diversão com Ynara... com a maldita Ynara. Breno então o desligou e respirou fundo, afinal, o carro não era o seu inimigo, nem mesmo ela. Ynara era só uma... estranha. Uma estranha conhecida. Breno precisava recolher o que era seu e deixar o que era dela. Desceu do carro e olhou ao seu redor, vendo o mesmo acampamento tomado por um caos organizado de barracas e fogueiras apagadas, nada que superasse a neblina que estava em sua mente.
Breno entrou em sua barraca. Ali, o isolamento era pouco, quase nenhum, mas já era algo que o agradava. Só que ali também estava tomado por lembranças dela: seu cheiro, seu saco de dormir, sua camiseta jogada num canto, seus cremes que deixavam um rastro de um perfume doce que agora o sufocava. Breno sentou-se sobre o colchão inflável e, por um momento, se permitiu ter compaixão própria, abraçando os próprios joelhos. E chorou, ainda que de forma contida. Não durou muito, pois ele sabia que logo ela viria atrás dele. Começou então a encher as mochilas, uma com suas coisas, outra com as dela, enfiando de qualquer jeito, fechando zíperes com pressa e as jogando no porta malas do Uno. Só então ele viu que também colocara a mochila dela, talvez um lapso do homem que protege, que zela.
A poucos metros dali, o clima do lado de fora da barraca verde-militar havia mudado drasticamente. O riso de Dogão morreu na garganta e a calcinha vermelha de renda, que antes voava no ar como um troféu, terminou de ser içada por Ynara até a sua intimidade. Ruan deu uma suspirada profunda, a empáfia do gigante núbio dando lugar a um desconforto visível.
Ynara permaneceu estática por longos segundos, olhando para o vazio. O olhar de Breno havia operado nela um corte limpo: a adrenalina do sexo, o torpor do álcool e a vaidade de se sentir o centro das atenções de homens tão imponentes evaporaram como álcool sob o sol, deixando em seu lugar uma ressaca moral violenta, gélida e dolorosa. Suas mãos, que antes puxavam a calcinha para cima, agora tremiam enquanto ela forçava a saia para baixo, como que querendo cobrir a vergonha de ter sido exposta, os movimentos desajeitados, desprovidos de qualquer erotismo:
— Ele viu... — Sussurrou ela, a voz embargada, quase sumindo na brisa leve da manhã: — Meu Deus! O Breno estava ali. E... E viu.
— Relaxa, morena. — Dogão tentou usar uma voz mais firme, mas o tom saiu vacilante, desprovida de qualquer determinação como antes: — O cara não é de briga. Se fosse, já teria partido pra cima. Conheço o tipo dele: vai surtar, berrar, xingar, mas depois passa.
— Você não conhece ele coisa nenhuma, Dogão... — Ynara estalou, a voz subindo um tom, os olhos castanhos arregalados de pânico real: — Ele não é assim. Ele... Ele viu tudo, meu Deus!
- Tudo não. Mas viu... – Concordou Ruan, com a voz grossa de sempre, vacilante como nunca.
Aline e Bárbara que saiam de suas barracas, notaram o clima pesado e se aproximaram devagar. O semblante de deboche que ostentavam na noite anterior agora vacilava. Ynara apenas olhou na direção delas e resmungou:
- Ele viu. O Breno viu.
A cumplicidade feminina das noites anteriores agora se transformava em uma rede de contenção diante de um desastre iminente:
— Ele não brigou? — Ynara negou com um movimento trêmulo de cabeça: — Já é um bom sinal. Vamos lá falar com ele, Ynara. A gente vai junto. Falamos que foi brincadeira que escalonou e que... que todo mundo passou do ponto depois aquela jarra de sei lá o quê. Ele também passou mal ontem. Vai entender que a gente também não estava no controle.
Mesmo relutante, Ynara era a única coisa certa a ser feita naquele momento. O grupo começou a se mover pelo acampamento de forma lenta, quase solene. Parecia um cortejo fúnebre. Não caminhavam com a alegria e a leveza dos dias anteriores. Dogão e Ruan vinham logo atrás, mantendo uma distância quase respeitosa, os corpos grandes parecendo deslocados no meio das barracas pequenas. Havia uma cautela quase irracional na aproximação: sabiam que haviam invadido um território sagrado e que o homem que encontrariam na barraca adiante não era mais o amigo indefeso que carregaram para a enfermaria.
Quando se aproximaram do Uno vermelho, ouviram o som metálico de Breno jogando algum objeto pesado no porta-malas. O grupo parou a cerca de cinco metros. Ynara engoliu em seco, tremendo. O silêncio que se seguiu de dentro da barraca de Breno era mais ameaçador do que qualquer grito. Ela olhou para Aline, recebeu um sorriso contido e um aceno de cabeça encorajador, e deu o primeiro passo em direção à simples barraca de lona.
Ynara parou diante do zíper fechado . O tecido de lona parecia uma barreira intransponível. Ela conseguia ouvir a respiração pesada de Breno e sons de sua movimentação lá dentro. Respirou profundamente:
— Amoooor! — Chamou ela, a voz trêmula, quase um sussurro que se perdeu no barulho dos geradores distantes, e insistiu: — Breno?
Não houve resposta. Apenas o silêncio que logo foi rompido pelo som de um zíper sendo fechado com raiva:
— Breno, por favor... Abre aqui. A gente precisa conversar. — Insistiu ela, dando um passo à frente, os dedos tocando o metal do zíper com hesitação.
Lá atrás, Dogão cruzou os braços, uma impaciência começando a vencer o constrangimento inicial. Ele olhou para Ruan que permanecia em silêncio, observando a cena toda, e depois encarou a barraca:
— Deixa de drama, cara! — Gritou Dogão, a voz grave cortando o espaço e chamando a atenção de todos: — Sai daí e conversa com a mina como homem! Se tu não sair daí, eu vou entrar e te tirar à força, ouviu, maluco? Tu tem que ouvir o que ela tem para dizer.
— Cala a boca, Dogão. Maluco ficou você, cara! — Repreendeu Aline, dando um soco no ombro forte dele: — Não piora as coisas, seu animal. Deixa eles se entenderem.
— É, cara, joga na retranca. O problema é deles agora. — Murmurou Ruan, chamando a atenção de Dogão e o forçando a recuar um passo.
Dentro da barraca, o silêncio de Breno foi absoluto por não mais que 10 segundos. Então, o som do zíper correndo de dentro para fora ecoou nítido. A lona se abriu apenas o suficiente para que o rosto dele surgisse na fresta. Seus olhos estavam vermelhos:
— Ninguém vai entrar. Eu já estou saindo... — Disse Breno, a voz baixa, linear, assustadoramente calma.
Ele abriu a lona por completo, revelando o interior quase vazio. O colchão inflável já estava sem a tampa do registro, chiando baixo enquanto murchava no chão de terra. Breno passou por Ynara como se ela fosse uma alegoria sem graça, trazendo uma última mochila grande e a jogando com força no chão.
Ali fora, a configuração do espaço era humilhante. Dogão e Ruan observavam de braços cruzados perto da árvore. Ynara estava no centro, com os braços enlaçados ao redor do próprio corpo. Aline via próxima, pronta para acolher Ynara. Bárbara se aproximava com o restante do grupo. O circo estava praticamente armado.
Breno deu uma rápida olhada no grupo e, tão rápido quanto, lhe deu as costas. Seus dedos pegaram as amarras da lona que prendia o teto da barraca à tampa do porta-malas do carro, desfazendo os nós com uma agilidade única:
— Amor, eu... — Ynara começou, dando um passo na direção dele, a mão estendida no ar, mas sem coragem de alcançá-lo.
Breno a interrompeu, levantando uma das mãos sem sequer olhar para trás:
— Não precisa falar nada! O corno aqui já entendeu tudo.
— Amor, por favor... A gente... precisa... conversar? — A voz dela quebrou de vez, uma lágrima pesada descendo pelo canto do olho e limpando a poeira de sua bochecha.
— Pode ir falando... Ouço com os ouvidos, não com os olhos. — Breno novamente se virou de costas e voltou a desmontar os ganchos da barraca, jogando os espeques de ferro no chão com estalos secos: — Estou louco para ouvir os detalhes das suas trepadas...
— Breno, para de ser infantil! — Exclamou Ynara, o tom da voz subindo, numa mistura de desespero e frustração por não conseguir romper aquela barreira de gelo entre eles.
— Obrigado! Prefiro ser infantil do que uma puta traidora... — Retrucou ele, a frase saindo cortante, sem que ele alterasse o ritmo das mãos que dobravam a lona suja.
Um silêncio incômodo tomou conta de todos. Aline desviou o olhar para o chão; Ruan limpou o suor da testa com as costas da mão. Os outros não sabiam se ficavam ou saiam. Mas Ynara... esta sim sentiu o impacto da palavra como se fosse um soco no estômago. Ela inadvertidamente olhou para a mochila próxima e o medo de ser abandonada ali, ou ainda pior, de perder o namorado, a fez dar mais um passo, estendendo os dedos trêmulos até tocar de leve o tecido da camiseta dele:
— Não aconteceu nada... — Falou ela, a voz num fio, os olhos suplicantes buscando os dele: — Juro, Breno! Não aconteceu nada do jeito que você tá pensando.
— Não!?
Breno parou o que estava fazendo e se virou devagar. Seu corpo estava tenso, mas ele fez questão de encará-la de frente. Seus olhos fixaram-se nos dela como se quisessem ler sua alma, com uma intensidade que a fez recuar meio passo:
— Não mesmo? Então prova... Levanta a saia! Deixa eu ver como está a sua buceta e o seu cu, porque a boca você limpou na língua do Dogão agora há pouco. E não diga que não aconteceu, porque eu vi!
— Breno!? Que... Que loucura é essa? — Ynara cruzou os braços, numa falsa tentativa de se proteger, o rosto corando de um vermelho violento sob a maquiagem borrada: — Acha mesmo que eu vou me expor assim aqui na frente de todos?
— Agora há pouco você estava se exibindo sem nada para esses dois aí... — Breno apontou o dedo na direção de Dogão e Ruan, o braço rígido como um porrete: — Tá com vergonha de quem? De mim, seu namorado? Ou é dos outros? Se for deles, eu peço para virarem de costas.
— Para com isso, Breno... — Pediu Ynara, a cabeça baixa, os ombros começando a sacudir com o choro que finalmente começava a brotar forte.
O constrangimento dos outros era quase insuportável. Ynara respirou fundo e decidiu falar, contrariando seu próprio medo:
— Tá bom! Tá bom... Aconteceu. Mas não foi por mal. A gente... A gente se perdeu na onda de ontem. As coisas saíram do controle na madrugada. Exageramos e rolou. Foi sem querer. Juro!
— É isso aí, Breno. Ouve a tua namorada. — Interveio Aline, dando um passo à frente, tentando suavizar o ambiente com um sorriso amarelo que não convencia ninguém: — O que acontece no festival, fica no festival. Todo mundo sabe disso. É uma regra da galera. Ninguém aqui faz nada por mal, a gente só curte. Coisa de desapego do momento. Quando passarem o portal da fazenda, tudo volta ao normal. Você vai ver...
— É, bicho, não estraga o que vocês têm por causa de uma onda de momento. — Completou Dogão, descruzando os braços e tentando adotar um tom de camaradagem que soava falso, no mínimo tardio: — A morena curtiu a brisa, o som tava pesado, a gente se envolveu, descontrolou... Mas o namorado é você. Isso aí foi só coisa do momento. Não tem importância nenhuma para o futuro de vocês.
Breno olhou para Aline, depois para Dogão, e soltou uma risada curta, seca, que morreu antes de se tornar assustadora. Era a risada de quem havia atingido o limite absoluto da decepção:
— O que acontece... no... festival... fica... no... festival... — Repetiu Breno, pesando cada palavra como se experimentasse um veneno na boca.
Ele se virou de costas para o grupo mais uma vez, agarrando a estrutura de fibra de vidro da barraca e a dobrando com tanta força que o material estalou sob a pressão de seus dedos:
— Uma regra conveniente para quem não tem caráter, não acham?
— Breno, não fala assim! — Ynara deu um passo desesperado, segurando a barra da camisa dele com as duas mãos, os nós dos dedos brancos de tanta força: — Eu errei, eu sei! Mas eu amo você. Aquilo lá... Esquece! Foi só a merda da droga. Olha para mim, por favor! Conversa comigo...
Breno não conversou, nem olhou. Mas ele puxou a camisa com violência, livrando-se das mãos dela com um solavanco que a fez cambalear para a frente, quase caindo sobre a lona da barraca:
— Estou indo embora, Ynara. — Disse ele, a voz descendo para um tom quase inaudível de tão frio, enquanto jogava os restos da barraca desabada no banco traseiro do Uno: — Se quiser carona, eu te dou. Eu te trouxe, eu te levo. Ou peça para os seus novos amigos te ajudarem a carregar o seu desapego de volta para a cidade.
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