Antes mesmo de sairmos de casa eu já tinha percebido que aquela noite seria diferente.
Ela estava se arrumando no quarto enquanto eu terminava de escolher a roupa. O apartamento tinha só a luz amarela do abajur acesa, deixando tudo mais íntimo. Ela abriu a gaveta devagar e escolheu uma calcinha preta minúscula, quase invisível, segurando na ponta dos dedos antes de vestir.
Fez aquilo olhando para o espelho.
Sabendo que eu estava olhando também.
Depois colocou a calça branca justa, tão justa que marcava cada curva do corpo dela. Quando terminou a maquiagem e passou o batom vermelho escuro, ficou ainda mais impossível não reparar.
— Tá pronta? — perguntei.
Ela sorriu de canto.
— Agora tô.
O Bukowski estava exatamente como eu lembrava: escuro, abafado, vermelho, cheio de fumaça e música pesada ecoando pelas paredes. Assim que entramos, os olhares começaram.
Os caras acompanhavam ela discretamente enquanto atravessávamos a pista.
Alguns nem tentavam disfarçar.
Ela fingia não perceber, mas existia algo diferente nela naquela noite. O jeito como caminhava, como dançava, como mexia o cabelo enquanto segurava o copo… parecia gostar da atenção.
No começo ficamos juntos perto do bar. Bebemos, rimos, dançamos um pouco. Depois ela foi entrando mais na pista enquanto eu descia para fumar.
Quando voltei da primeira vez, ainda consegui vê-la perto do palco.
Na segunda vez, ela tinha sumido.
Procurei pela pista inteira sem encontrar.
Desci de novo. Acendi outro cigarro. Pedi uma cerveja no bar da área externa e fiquei alguns minutos tentando agir normalmente enquanto ouvia a música abafada vindo lá de dentro.
Mas alguma coisa já estava estranha.
Quando terminei a cerveja e subi novamente, a pista parecia ainda mais cheia. O calor, a fumaça e as luzes vermelhas deixavam tudo confuso. Demorei alguns segundos até encontrar ela.
E quando encontrei, fiquei completamente parado.
Ela estava mais ao fundo da pista.
De costas.
Dançando com um cara atrás dela.
Alto. Camiseta escura. Muito próximo.
Próximo demais.
No começo tentei convencer a mim mesmo de que era só a pista apertada. Mas ele continuou ali, acompanhando cada movimento dela. E ela não saiu.
Não virou para ver quem era.
Não tentou se afastar.
Continuou dançando lentamente enquanto ele colava o corpo nela cada vez mais.
A luz vermelha piscava sobre os dois em flashes lentos. A calça branca dela praticamente brilhava no escuro enquanto movia o quadril no ritmo da música.
Então ela empurrou o corpo para trás pela primeira vez.
Devagar.
Encostando nele.
O cara respondeu imediatamente, segurando firme a cintura dela enquanto aproximava ainda mais o corpo. Ela deixou.
E continuou.
Eu fiquei observando de longe sem conseguir desviar os olhos.
Ela dançava lentamente, pressionando o quadril para trás em movimentos cada vez mais provocantes. O cara mantinha as mãos na cintura dela no começo, deslizando devagar pelas laterais do corpo enquanto acompanhava cada movimento.
Depois as mãos começaram a descer.
Paravam na curva da bunda dela por alguns segundos antes de subir novamente. Em seguida desciam de novo, apertando devagar por cima da calça branca enquanto ela continuava se esfregando nele no ritmo da música.
E ela deixava tudo acontecer.
Sem olhar para trás.
Sem falar nada.
Às vezes inclinava a cabeça para o lado, fechando os olhos enquanto sentia as mãos dele segurando firme seu corpo no meio da pista lotada. O jeito como ela empurrava o quadril para trás deixava claro que sabia exatamente o que estava fazendo.
Os corpos dos dois já estavam completamente sincronizados.
Ela se movia devagar.
Ele acompanhava.
As mãos dele apertavam sua bunda repetidamente enquanto a luz vermelha atravessava a fumaça do Bukowski e iluminava os dois por segundos rápidos.
Em alguns momentos parecia apenas dança.
Em outros, íntimo demais para acontecer daquele jeito em público.
E o pior era que ela parecia gostar da sensação.
Eu não conseguia sair dali.
Parte de mim queria interromper tudo imediatamente.
A outra parte continuava hipnotizada pela cena.
Os minutos passaram assim.
Ela se esfregando nele lentamente.
Ele segurando firme sua cintura e sua bunda enquanto os dois dançavam encaixados no meio da pista.
Até que a música acabou.
Ela finalmente se afastou dele alguns centímetros e virou apenas o rosto pela primeira vez naquela noite. Olhou para o cara por cima do ombro e sorriu devagar.
Um sorriso lento.
Provocante.
Perigoso.
Depois saiu andando pelo meio da fumaça como se nada tivesse acontecido.
Mais tarde, já no fim da noite, consegui puxá-la pela cintura perto do bar. Tentei beijá-la no meio da confusão da pista, mas ela desviou no último instante, sorrindo perto da minha boca.
— Vou tirar o batom.
E saiu outra vez.
No táxi, o silêncio ficou pesado durante alguns minutos.
A cidade passava pelas janelas enquanto eu tentava esquecer a cena dela dançando colada naquele cara.
Mas não consegui.
Olhei para ela.
— Aconteceu alguma coisa?
Ela me encarou por alguns segundos.
Depois sorriu de leve e respondeu calmamente:
— Não.