O demônio e a megera – Episódio 2 (sapiossexualismo, o despertar sexual de Ana Clara)

Um conto erótico de Theodor e Aline
Categoria: Heterossexual
Contém 2661 palavras
Data: 17/04/2026 17:36:53
Última revisão: 17/04/2026 17:48:52

Gente, a ideia era só contar aquele episódio, que eu acho bem safadinho, da minha história com o André, mas me surpreendi vendo que as pessoas gostaram. Para falar a verdade, eu também gostei de compartilhar o ocorrido, o que nos deixou muito excitados. Então, decidi estender essa resenha.

Eu cresci em uma família muito especial. Meu pai, o Miguel, é biólogo, minha mãe, Letícia, professora de Letras. Nem é preciso dizer que coisas como ciência e literatura povoaram a minha infância desde sempre. Nunca perguntei por que diabos a filha de um casal com Miguel e Letícia gerou uma filha com o nome de Ana Clara.

Talvez porque achassem que o nome duplo me daria a impressão de ser duas pessoas. Então, Ana faria companhia para Clara e Clara faria companhia para Ana. O primeiro surto de inveja na vida foi perceber que minhas amiguinhas tinham irmãos e irmãs, enquanto eu tinha que me contentar com ter interações afetivas com minhas bonecas.

Uma carência que era plenamente recompensada pela atenção que recebia dos meus pais. Sempre fui tratada como uma princesa e educada quase como um espartano. Sim, um espartano, não uma espartana. É uma contradição meio estranha, mas eu acho que dá para explicar.

Com sete anos, eu já estava na terceira série. Com os mesmos sete anos, eu já fazia judô. Em outras palavras, meu lugar no mundo seria garantido se eu tivesse força física e mental. Com onze anos, é bom acelerar essa história para não matar ninguém de tédio, eu troquei o judô pela capoeira, que virou minha paixão. Aos mesmos onze anos, eu já conhecia Machado de Assis, Sartre, Jorge Amado, Clarice Lispector e Fernando Pessoa.

Eu não sabia ainda se me tornaria uma agente do Serviço Secreto ou uma versão século XXI de Cecília Meireles. Eu poderia me tornar qualquer coisa. E assim foi. Acho que foi depois dos dez anos que minhas pernas começaram a crescer feito tronco de eucalipto. A capoeira foi fundamental para que eu controlasse a vertigem cada vez que olhava a distância entre meu queixo e o chão, que parecia aumentar a cada semana.

Pode parecer que minha infância e minha adolescência foram a pior fase da minha vida. Ledo engano. Apesar de chegar aos 13 anos com uma marcha típica de um avestruz com problema de coordenação motora, recém presenteada com um aparelho ortodôntico, para corrigir espaçamento e desalinhamento dos dentes, sendo tratada pelos meus professores como uma celebridade e pelas colegas de colégio como um E.T., nada disso me afligia.

Se tinha algo que me afligia, mais do que as pernas enormes, cuja necessidade incompreensível de crescer não dava espaço para que ganhassem volume, eram meus seios. Na verdade, a mais completa e absoluta ausência deles. Se eu entrasse numa pelada no meio dos meninos e jogasse no time sem camisa, ninguém notaria a diferença. Aliás, jogar futebol era um dos meus esportes prediletos. E ai de quem ousasse fazer alguma piadinha sobre isso. Eles me defendiam. Aliás, as pessoas evitavam qualquer tipo de tratamento indecoroso comigo. Aos 13 anos, eu já tinha um histórico expressivo, que é melhor deixar essa parte da minha biografia oculta, mas já dá para imaginar.

Em casa, eu era a princesa magricela da mamãe e do papai, ganhando as melhores coleções de livros, levada ao teatro pelo menos uma vez por mês, sempre bem vestida e usufruindo das inutilidades travestidas de inovação que a indústria tenta nos empurrar goela abaixo. Na rua, no condomínio e na escola, devido ao meu perfil um tanto quanto moldado para reações pouco convencionais a provocações acima do tom, assim como a propensão a fazer alianças estratégicas pontuais (formação de quadrilha) eu era conhecida por muitos como a “Megera”, uma injustiça inaceitável, posso garantir. Mas, se fosse aceitável, não seria uma injustiça.

Por mais absurdo que isso possa parecer, foi nessa época que começou a aflorar a minha sexualidade. Como não poderia deixar de ser, de uma forma para lá de excêntrica. Minha casa era frequentada por amigos incríveis dos meus pais e eu adorava participar daquelas reuniões sociais. Os mais assíduos eram a tia Gabi e o tio Sávio. Era assim que eu os tratava desde pequena, quando eles davam risadas dos meus comentários, que muitas vezes pareciam os de um doutorando em filosofia perdido no corpo de uma criança.

Verdade seja dita, eu nunca fui do tipo vaidosa, só na medida certa, mas adorava me exibir para os adultos, que me retribuíam com elogios e afagos deliciosos para o meu ego infantil e, posteriormente, adolescente. Foi nessa época, lá pelos meus 13 anos, que tive meu primeiro amor platônico. Não por algum menino da minha idade ou por algum rapaz um pouco mais velho. Eles eram tão atraentes para mim quanto eu era para eles. O par romântico das minhas fantasias era o tio Sávio, que até era bem bonitão. Não eram fantasias eróticas, mas românticas. Foi nessa época que descobri que minha perereca falava e aprendi a arte da siririca, me imaginando em um iate num encontro romântico com meu amor platônico. Às vezes eu enrubescia quando estava com a tia Gabi. Sentia-me uma traidora sem escrúpulos, mas depois, no quarto, a voz do tio Sávio ecoava na minha mente e logo vinham as fantasias. Ele era muito inteligente e dominava as conversas, concentrando a atenção das pessoas nele e era isso que me consumia os sentidos.

Hoje, bem mais velha, já mulher, sei que sou sapiossexual, um tipo de pessoa que se excita com pessoas inteligentes, cultas e bem informadas. No meu caso, não tenho vontade de transar, mas fico toda molhada ao interagir socialmente com elas. Eu não tinha vontade de transar com o tio Sávio. Era uma menina perto dele e só tinha fantasias românticas. Mesmo assim, a vergonha do que eu sentia me matava. Eu sabia que era imoral ficar tendo fantasias com o marido da tia Gabi, que me tratava como uma princesa. Foi quando me tornei arredia, evitando ficar muito tempo com os adultos e buscando a companhia enfadonha da galera da minha idade ou me trancando no quarto para ler enquanto os adultos conversavam na sala.

Tio Sávio e tia Gabi, por questão de trabalho, tiveram que se mudar de estado, me deixando órfã do meu primeiro amor. Eu já tinha chegado aos 15 anos e a 1,70m. Meu Deus, eu nunca iria parar de crescer? Foi quando o vôlei entrou na minha vida, não como projeto, mas como diversão. Foi, também, quando conheci o amor da minha vida, o André, que vocês conheceram no primeiro episódio.

Minha primeira impressão dele foi a mesma que tinha dos outros rapazes de 17 anos, um desperdício de testosterona em mentes primitivas. Era melhor, no meu caso, não imaginar o que eles pensavam de mim. Minha mãe dizia que eu me sentia como um patinho feio, mas logo me transformaria num cisne, que tinha sido também assim com ela. Então, eu era o personagem de uma fábula, sem saber exatamente o que seria de mim quando viesse a transformação.

André veio morar no condomínio e seus pais fizeram amizade com os meus. Mal eu sabia que aquilo era um arranjo perfeito, não sei se do destino ou do acaso. Aliás, até hoje eu não sei a diferença entre uma coisa e outra, o que, ao cabo de tudo, não tem a menor importância mesmo.

André me ignorava e eu não tomava conhecimento de sua existência. Verdade seja dita, o sujeito já era bonitão, com um corpo de adolescente bem esculpido e esbanjando aquela autoconfiança de zé ruela marrento. Se tínhamos algo em comum, era nosso gosto por esporte, luta e artes marciais, algo que descobri por acaso, mesmo antes de ultrapassar a barreira do “oi” educado.

Foi para meu desespero que descobri que passaríamos um final de semana na casa que os pais de André tinham na serra. Duas famílias felizes e eu obrigada a conviver com aquele ogro, que também era filho único.

“Você vai gostar do André, é um bom menino”, dizia minha mãe, recebendo o apoio incondicional do meu pai. Não sei por que, mas eu me senti como personagem de um daqueles arranjos à moda antiga, em que os pais combinavam o casamento dos filhos, que eram os últimos a saber. Minha cara de poucos amigos mostrava o quanto eu estava adorando aquela bobagem ridícula. Já imaginava ter que aturar o ogro, ainda não era demônio, falando bobagens de adolescente retardado no meu ouvido. Eu não me considerava prepotente, mas eu não tinha paciência para aquilo.

Mesmo assim, sem alternativa, acabei indo. Era inverno, a casa tinha lareira e era bastante aconchegante. Chegamos numa sexta à noite, cada família no seu carro. A casa tinha três quartos e eu já tinha dois limõezinhos no lugar que deveria ser ocupado pelos seios. “A metamorfose de patinho feio para cisne é penosa”, eu pensava.

Os homens ficaram na sala conversando sobre coisas de homem e as mulheres foram para a cozinha preparar algo para o jantar. Os pais do André eram a tia Joana e o tio Paulo, que logo se afeiçoaram a mim. Era uma coisa meio excêntrica como os adultos me adotavam como mascote. Um mascote, aliás, que já dominava a cozinha. Afinal, eu estava preparada para sobreviver com dignidade em qualquer situação. Essa era a ideia.

Durante o jantar, todos à mesa, eu e André praticamente nos ignorando, a conversa rolava animada entre os adultos. Foi quando o assunto mudou para literatura. Uau! Aí eu me interessei. Foi quando André recitou um trecho de “Poema em linha reta”, um poema que eu adorava de Álvaro de Campos, um dos heterônimos de Fernando Pessoa, com o qual, por razões óbvias, me identificava.

Começava ali uma história. Não uma história de amor, mas de amizade, afinidade e quase dependência emocional mútua. André se tornou o irmão que eu não tinha. O que me protegia, mesmo que eu não julgasse precisar de proteção. O ogro, o metido a gostosão, que era o garanhão do bairro, aos pés do qual as meninas suplicavam por atenção.

Naquela viagem, nos aproximamos, eu, com minhas pernas desproporcionais e aqueles dois limões no lugar dos seios. Quando frequentávamos a área de lazer do condomínio, era comum eu estar sentada no colo do demônio e sendo paparicada, matando de inveja as outras meninas, todas mais bonitas e interessantes do que eu. E era André me levando para o cinema, para as baladinhas adolescentes e um enfiado no quarto do outro por horas, sem qualquer objeção dos nossos pais. Talvez porque soubessem que não havia risco de André se interessar sexualmente por aquela menina esquisita.

Eu tinha o irmão que eu sempre quisera, pelo menos eu pensava assim. Foi sentada no colo do André, não como é agora, que eu vi o tempo passar. Meus limões ridículos foram se transformando em algo mais relevante. Eu implorava por seios em minhas orações e eles vieram. Os santos para quem eu rezava intervieram. Parei de crescer e até hoje tenho 1,75m. Com o vôlei, minhas pernas engrossaram e o aparelho ortodôntico se tornou desnecessário.

Tínhamos tanta intimidade, que contei para ele sobre a minha masturbação assistindo a uma live no Youtube, depois que fiquei excitada com a inteligência do apresentador, que falava sobre geopolítica. É claro que ele só faltou rolar no chão de tanto rir, mas eu cheguei aos meus 17 anos sem ter dado um mísero beijo na boca. E o pior é que eu não percebi e não senti falta. O tempo passou e eu não senti, preocupada com meus estudos, desfrutando dos prazeres da literatura, da capoeira, da minha sexualidade excêntrica e, agora, da companhia do meu irmão postiço.

Enquanto as meninas da minha idade se satisfaziam e aplacavam os hormônios vendo filmes pornô ou praticando in loco com os rapazes, o meu refúgio eram as lives no Youtube, sempre com pessoas inteligentes falando de política, economia, filosofia e congêneres. Oh, garotinha esquisita essa Ana Clara! Faça-me o favor!

Tinha um que era o meu preferido, por causa da postura e desenvoltura em discorrer sobre os mais diversos assuntos. A quem sou muito grata pelos orgasmos, alguns até bem barulhentos, com os olhinhos fechados, as coxas se esfregando uma na outra e a boquinha emanando gemidinhos necessitados e que as vezes ganhavam um volume meio constrangedor.

Numa das viagens para a serra, eu e André trancados no quarto, ouvi alguém bater na porta. “Entra”, respondi, ele deitado na cama lendo não lembro o que, eu lendo “A República de Platão”, sentada ao seu lado, os corpos em contato, eu na posição de lótus.

- Crianças, venham almoçar. O que vocês estão fazendo que não saem desse quarto? Estamos ficando preocupados com vocês. Ainda não estou preparada para ser avó – provocou minha mãe.

- Cruz credo, mãe, Deus me livre, que ideia de jerico. Onde já se viu eu querer fazer um filho com esse ogro?

- Tampouco eu com essa megera – reagiu André.

- Sai pra lá demônio! Eu é que não tenho a menor intenção de fazer parte da sua listinha.

- Ahan, eu sei. Quem desdenha quer comprar – brincou minha mãe, que não se conformava com o meu desinteresse pelos rapazes, mal sabendo que minha praia era outra: o Youtube.

- Pois ela não sabe o que está perdendo, tia – reagiu André me abraçando por trás e estalando um beijo gostoso na minha bochecha.

Foi ali que passamos definitivamente a nos tratar por “Demônio” e “Megera” nos momentos de intimidade ou descontração. E também a ouvir de forma ostensiva as piadinhas dos nossos pais, por trás das quais havia o indisfarçável projeto de nos casar. Um dia, minha mãe me saiu com a brilhante ideia. “Filha, por que você não pede para o André dar um beijo em você?”

- Está louca, mãe? Nem que eu tivesse vontade. Vou ficar beijando um monte de mulher por tabela?

- Bom, já dei minha sugestão, filha. Você daqui a pouco vai entrar na faculdade com a boquinha ainda virgem? Ele é seu amigo, você confia nele. Tenho certeza de que vai concordar. Só para você saber como é. Vai que você goste – provocou.

- Se é assim, então, eu posso beijar qualquer um, não precisa ser o Demônio.

- Mas não larga dele, né?

- É porque nós somos amigos, quase irmãos – reagi, com alguma coisa dentro de mim perguntando: “será mesmo?”, enquanto minha mãe me olhava de um jeito irônico.

E o pior é que aquela maluquice sugerida por ela entrou na minha cabeça de mala e cuia. Alguma coisa estava mudando em mim e não era só o corpo. Agora, Ana Clara, a Megera, chamava a atenção dos rapazes e eu, que nunca fui boba, tampouco assexuada, logo entendi o poder de ter um corpo que fazia os coitados babarem. Além de um rosto que, agora com os dentes no lugar certo, me deixava bem satisfeita com minha imagem refletida no espelho, embora isso estivesse longe de ser prioridade na minha vida de espartano.

Com 17 aninhos, eu já estava ingressando na faculdade de Letras. André já fazia faculdade de economia e logo começou a trabalhar em um banco, mas o grude não acabava. Quanto menos tempo tínhamos para ficarmos juntos, mas desse tempo dedicávamos à companhia um do outro.

***

Esse é um conto autoral, inédito e produzido com exclusividade para a Casa dos Contos.

Para ler mais contos inéditos, leia nosso livro “Contos eróticos de Theodor e Aline – Volume 1 : Uma viagem ao centro dos prazeres permitidos e proibidos”, disponível na Amazon.com.

São 561 páginas de pura safadeza, com temas bem picantes, ou não seriam contos eróticos.

A leitura é grátis para quem é assinante Kindle, mas vale a pena o investimento no e-book para quem não é. Uma mixaria muito bem gasta.

Adoramos receber comentários e ficamos super excitados quando as pessoas nos seguem, porque também gostamos de seguir autores bem safadinhos, assim como nós.

Siga a Casa dos Contos no Instagram!

Este conto recebeu 0 estrelas.
Incentive Theodor e Aline a escrever mais dando estrelas.
Cadastre-se gratuitamente ou faça login para prestigiar e incentivar o autor dando estrelas.

Comentários