Castelo de Areia.
Temporada 1. A época da inocência
CapGrandes amigos .
Me chamo Carlos e, hoje, tenho 39 anos. Vou contar minha história “começando do começo”, o que significa voltar ao ponto em que os principais personagens da minha vida entraram nela — e, sem saber, mudaram tudo.
Essa história será dividida em três fases, narradas por mim e também pela pessoa que destruiu tudo.
O idiota do psicólogo que ela contratou exigiu isso diante do juiz — talvez só para me humilhar ainda mais. Mas, se é assim que conseguiremos resolver as coisas e impedir que minha família afunde ainda mais nesse caos, então farei o possível.
Cada fase será contada no tempo presente, como se eu estivesse vivendo tudo de novo, passo a passo, sem filtros, sem cortes. Uma narrativa em tempo real do que aconteceu — ou do que ainda acontece dentro de mim.
Acredito que ela fará o mesmo.
Veremos.
CATANDUVA - SP,Estou no colégio (estava no segundo ano), tentando prestar atenção na aula de Química. A sala, para minha surpresa, está mais organizada e silenciosa do que o normal. Somos vinte e cinco jovens entre 15 e 17 anos, cada um carregando suas próprias motivações, perspectivas e aspirações. Eu sempre fui esforçado — um pouco inteligente, talvez — mas muito focado em alcançar meus objetivos. Tinha 16 anos nessa época, e meu único propósito é seguir os passos do meu pai e, assim, conquistar uma vaga na Escola Politécnica da USP.
Amizades e vida social nunca fizeram parte dos meus planos. Eu vivia isolado. E tudo teria continuado assim… até aquele maldito dia, o pior da minha vida.
A aula já estava caminhando para o fim quando fomos interrompidos pelo seu Zezé, o monitor do corredor. Ele se aproximou, inclinou-se e murmurou algo no ouvido do professor. Confesso que já tinha terminado os exercícios e estava distraído, como sempre, separando o material para a próxima aula — Matemática — para adiantar a revisão antes do início. Talvez porque fosse a única matéria que realmente me dava prazer em estudar.
Foi então que percebi um silêncio diferente. Não aquele silêncio absoluto da concentração, mas um murmúrio contido, espalhado pelos grupinhos da sala. Um sussurro inquieto. E, acima de tudo, o peso — enorme, sufocante — dos olhares de todos recaindo sobre mim.
Olho para o professor. Ele me encara fixamente enquanto ainda murmura algo para o Zezé. Os lábios se movem depressa, mas não consigo ouvir nada — só vejo aquele olhar tenso, preso em mim. A impressão que tenho é de que falam sobre mim. Algo que fiz? Não faz sentido. Não há nada que Zezé ou qualquer outra pessoa pudesse ter dito a meu respeito… nada que justificasse aquela expressão dura.
Mas, observando melhor os olhos do professor, o modo como ele engole seco e respira curto, percebo que é algo muito mais sério. Ele ergue uma das mãos num gesto firme, quase automático, chamando-me para ir até eles. Quando me aproximo, noto que seu rosto está mais pálido do que o normal, o maxilar travado. Ele pede para o Zezé pegar água para mim, sem sequer desviar o olhar do meu. Em seguida, me pede para sair da sala.
A porta se fecha atrás de nós com um som abafado, mas forte o bastante para fazer meu peito apertar. Ele inspira fundo antes de falar — vejo seu peito subir devagar, como se estivesse se preparando para carregar um peso que não queria carregar. Então me conta uma notícia que, percebo imediatamente, já estava circulando nos corredores…provavelmente por que também foi notícia em jornais da manhã.
E, enquanto ele fala, sinto uma parte enorme do meu coração ser arrancada.
O professor segura minha mão. Está quente, suada, tremendo ligeiramente. Ele tenta ser direto, mas a voz falha, como se cada palavra fosse se quebrando antes de sair.
— Carlos… chegou uma notícia que eu preciso te falar. Eu… eu… — ele vacila. O suor se intensifica. Sinto um aperto súbito, involuntário, na minha mão. Ele tenta de novo, respirando apenas o suficiente para continuar:
— Seus pais… Carlos… o avião em que seus pais e o seu irmãozinho estavam caiu… ainda… ainda não há informações sobre o paradeiro deles.
O mundo simplesmente se apagou.
Não sei por quanto tempo fiquei assim, mas ouvi o professor chamando meu nome várias vezes até conseguir puxar minha consciência de volta. Só que, durante aquele breve apagão, não houve pensamentos, sentimentos ou sons. Nada. Foi como se um raio tivesse atravessado meu corpo, paralisando tudo, deixando apenas um vazio seco, brutal.
Quando finalmente retornei à realidade, olhei nos olhos do professor. A rigidez do seu semblante, a angústia contida, diziam mais do que suas palavras poderiam dizer. Ali, sem que ele precisasse confirmar nada, eu soube. Soube que nunca mais veria meus pais. Nem o meu irmãozinho — tão pequeno que ainda nem tinha idade para ir à escolinha.
Não existe palavra que descreva o que senti. Eu estava ali, de pé, consciente… mas era como se minha alma tivesse permanecido caída no chão. Não havia reação possível. Eu não sabia o que fazer, o que pensar, o que falar. Nada fazia sentido.
A professora da próxima aula chegou e, ao ver a cena, congelou por um instante. O professor disse algo no ouvido dela; seus olhos brilharam de um jeito que não esqueço — um misto de choque e pena. Ela pegou minha mão com delicadeza e me levou até a sala da diretoria. A psicóloga, a diretora… todos falaram comigo. Mas eu não lembro de uma frase sequer.
Só me lembro de permanecer naquela sala o resto do dia, sempre acompanhado, sempre observado… como se, a qualquer momento, eu pudesse desmoronar de novo.
Duas horas depois do fim das aulas, a porta da sala se abriu como se empurrasse o ar para dentro. Eu não estava exatamente lá — não totalmente — mas vi quando a psicóloga entrou, seguida por Verônica. Ela parecia deslocada naquele ambiente opaco: o cabelo loiro preso de qualquer jeito, o rosto marcado por uma preocupação que não se disfarçava. E ainda assim havia nela algo quente, quase luminoso, que esbarrava de leve na minha apatia.
Ela me procurou com os olhos — e me encontrou como se estivesse resgatando algo que temia não achar mais.
— Carlos… — a voz dela saiu baixa, ferida. — Amor… vamos pra casa?
Fiquei parado, sem saber o que significava “casa” naquele momento.
A palavra parecia pertencer a outra vida.
Mesmo assim, quando sua mão tocou meu ombro, o calor daquele gesto atravessou a névoa onde eu estava. Um toque simples. Quase nada. Mas foi o suficiente para me lembrar que meu corpo ainda existia — uma lembrança incômoda, quase cruel.
Caminhamos até a casa dela em silêncio. Ou melhor: ela falava pouco, e eu ouvia ainda menos. Tudo soava como ecos distantes, como conversas atravessando paredes espessas.
Até que ela disse:
— Sua mãe sempre confiou em mim… Ela queria que eu cuidasse de você quando eles não estivessem.
A frase bateu em mim e afundou, sem fazer barulho.
Eu não conseguia absorver nada.
Era como tentar segurar água com as mãos.
Quando chegamos, a casa se abriu diante de nós com uma naturalidade que me perturbou. Porque ali tudo continuava acontecendo: o cheiro de comida quente, o som abafado de passos, a vida doméstica se movendo em seu ritmo próprio. Nada naquela casa sabia que meu mundo tinha sido arrancado de mim horas antes.
As filhas de Verônica apareceram no corredor. Tauane surgiu primeiro — sempre ela antes de qualquer outra coisa. Bonita de um jeito que eu nunca soube encarar diretamente. Aquele tipo de presença que me fazia desviar os olhos antes mesmo de perceber que o tinha feito. Ela tinha postura, confiança, uma espécie de brilho social que sempre me colocava à margem, mesmo quando não olhava para mim.
Quando me viu, o olhar dela perdeu a nitidez por um segundo. Foi sutil, quase imperceptível — mas eu senti, como se aquele instante revelasse que ela não sabia onde me colocar no cenário da própria casa.
— Oi, Carlos… — disse, e a palavra flutuou entre nós, sem pousar em lugar nenhum.
Eu quis responder, mas meu peito estava apertado demais — não só pela timidez antiga, aquela sensação adolescente de inadequação diante de alguém como ela, mas por outra coisa: a percepção dolorosa de que eu carregava agora um tipo diferente de solidão. Uma solidão que não tinha nada a ver com grupos sociais. Era outra coisa, muito mais funda.
Tati apareceu logo atrás.
Mais nova, mais suave, mais transparente. A luz do corredor parecia repousar nela com mais gentileza. Ela não hesitou; deu um passo, aproximou-se, inclinou a cabeça como quem pergunta sem palavras se eu ainda estava inteiro o suficiente para ser alcançado.
— Carlos… — ela sussurrou. — Se você precisar… a gente tá aqui.
Havia algo devastador naquela doçura.
Não porque fosse pouca — mas porque era demais para alguém que estava tentando sentir o mínimo necessário para não despencar.
A verdade é que, naquele momento, ficar perto delas era difícil. Não por quem elas eram, mas pelo que representavam: vida organizada, rotina, estabilidade, futuro. Tudo o que eu não tinha mais certeza de possuir.
Verônica colocou a mão nas minhas costas e me guiou para dentro, devagar, com um cuidado que quase me quebrou por dentro.
— Ele vai ficar aqui com a gente — anunciou às filhas, como se precisasse organizar o mundo ao redor para que nada me esmagasse mais do que já estava esmagado.
Entrei e, por um instante, a mistura de cheiro de comida, piso limpo e risos que ainda ecoavam de alguma parte da casa me pareceu absurda demais. Eu estava ali.Eles estavam vivos.
E meus pais… meu irmão…
A casa me acolhia com calor.
E esse calor se transformava, dentro de mim, numa espécie de dor silenciosa. Uma dor angustiante e difícil de descrever com palavras. Apenas doía…e muito.
Tauane observou à distância, tentando gentileza mas sem saber onde colocá-la.
Tati permaneceu perto, mas sem invadir meu espaço, como quem orbita a dor de alguém por respeito.
E eu, no centro daquele pequeno universo acolhedor, sentia tudo e nada ao mesmo tempo. Como se minha alma tivesse ficado estagnada na porta da escola, enquanto meu corpo se movia por reflexo.
Naquela noite — muito antes de dormir — eu já sabia:
O que me esperava não era apenas a ausência da minha família. Era a presença contínua de um mundo que continuava existindo, mesmo depois de tudo.
E isso, talvez, fosse a parte mais difícil.
……………………..
(Tauane)
Me chamo Tauane, tenho 40 anos e estou escrevendo este memorando para tentar explicar o inexplicável. Para que a verdade — a minha verdade — seja ouvida pela única pessoa que realmente me importa que ouça.
Sei que fiz coisas horríveis nestes últimos meses, mas não sou essa pessoa que todos estão pensando que sou. Não sei a ordem cronológica que meu, ainda marido, irá usar para contar a versão dele, mas o início da nossa história, com certeza, é o mesmo para ambos.
CATANDUVA - SP,Esse foi o dia em que Carlos entrou na minha vida. Até então, para mim, ele era apenas um garoto tímido e insignificante do segundo ano. Gordinho, óculos gordurosos, roupas largas e desleixadas…tinha 16 anos, como a maioria de sua sala, embora ele parecesse sempre menor, mais frágil, como se o mundo fosse grande demais para ele.
Naquele tempo, eu reinava naquela escola. Não apenas por ser quem sou, mas também porque sabia me cercar das pessoas certas.
Nesse dia, eu nem estava na sala de aula. Não vi todo o drama que foi para o Carlos. O jeito como ele ficou sabendo do acidente com a família, a notícia sendo dada por professores que pareciam gostar de plateia, e a escola inteira assistindo, como se fosse um espetáculo.
Disseram que ele ficou horas sozinho naquela sala, esperando alguém. Um salvador, talvez. Ou só alguém que pudesse acordá-lo daquele pesadelo. Mas não era pesadelo. Era real. Cruel demais para alguém como ele.
Minha mãe foi a heroína da história. Não salvou ele da tragédia — ninguém poderia —, mas o tirou do centro daquele picadeiro e trouxe ele para dentro da nossa casa.
E eu? Eu estava matando aula.
Na casa dos meninos do terceiro ano. Todos com 18 anos, inclusive eu.
Estava com Miguel — esse desgraçado que vocês vão conhecer bem — e com Antônio, meu namoradinho da época. Namorado o suficiente para sentir ciúmes, mas frouxo o bastante para assistir.
Assistir o quê?A própria namorada sendo usada por outro, por causa de uma aposta idiota envolvendo futebol.
Eu estava pelada, de joelhos no sofá, empinada, sem a menor cerimônia. Antônio segurava e abria as minhas nádegas como se estivesse colaborando com uma obra de arte, enquanto Miguel enterrava o pau em mim.
E olha… sorte a minha que ele não era tão grande quanto achava que era. Mas o que tinha já era mais do que suficiente pra “marcar presença”, pois esta foi minha primeira experiência com algo penetrando meu cuzinho que não fosse os dedos dos garotos mais safados da escola.
Ele começou devagar. Antes disso, Antônio já tinha feito seu trabalho — chupando minha bucetinha raspada, bem do jeitinho que eu gostava, ainda mais depois do boquete duplo que eu mesma fiz questão de oferecer pra esquentar o clima.
Eles nunca se importaram com o fato de que eu não conseguia engolir tudo. Tratavam minha boca como se fosse outra buceta. E, sinceramente? Isso me excitava mais ainda.
Quando cansei um pouco, afastei eles da minha boca, puxei a cabeça do Antônio e forcei ele de volta entre as minhas pernas. Olhei direto nos olhos do Miguel e provoquei:
— Melhor parar de chupar vocês. Quem gozar não vai usar o pau em outro lugar.
Miguel só sorriu, deu de ombros e respondeu:
— De quatro então, sua putinha. No sofá. Antônio, chupa ela e prepara o cuzinho dela pra mim, a primeira vez desse cuzinho agora me pertence. -
Obedeci na hora. Sempre obedecia quando queria.
Antônio começou a me chupar de novo, meio atrapalhado, como sempre. Enquanto isso, tentava me preparar com os dedos. Desajeitado, mas esforçado — quase fofo, se não fosse tão patético às vezes.
Senti o gel frio nos dedos dele, contrastando com a língua quente e precisa no lugar certo. Ritmada. Certinha. Do jeitinho que eu mesma tinha ensinado depois de meses de treinamento intensivo.
Aquilo me levou quase ao limite.
Tive que interromper.
Empurrei a cabeça dele e reclamei:
— Para de usar a boca. Não inventa. Só prepara direitinho…Voce sempre implorou para meter no meu cuzinho, mas perdeu a aposta. Então prepara ele direitinho pro seu amigo.
A cara de cachorro abandonado dele… essa eu lembro até hoje. Nítida. Gravada.
A penetração em si? Nada memorável. Miguel ainda tinha muito o que aprender sobre sexo anal naquela época.
E, olha… ele aprendeu, viu? Virou especialista.
Infelizmente, tenho que reconhecer…
Mas enfim…
Voltando ao Carlos.
Quando cheguei em casa, mamãe já tinha ido buscá-lo na escola. E aquilo me deu um frio na espinha — porque significava que minha falta seria descoberta.
E, pior, teria consequência.
Tati, minha irmã, foi quem me contou tudo. Um garoto — o filho tímido dos vizinhos “amigos” da mamãe, principalmente depois da separação dos meus pais — tinha perdido a família inteira.
E agora ele ia morar com a gente.
Simples assim…Como se desse pra substituir um mundo inteiro por um quarto vazio na casa de outra pessoa.
Quando minha mãe entrou com ele pela porta… eu lembro…Eu lembro de tudo…
Carlos não levantava o olhar. Os ombros caídos, o corpo encolhido, como se estivesse tentando ocupar menos espaço no mundo. Os olhos… vermelhos, fundos, vazios e cheios ao mesmo tempo.
Era como olhar para alguém que ainda estava ali — mas já tinha perdido tudo.
E, naquele momento, alguma coisa em mim mudou.
De verdade.
Não foi pena.
Não foi caridade.
Foi… algo mais complicado. Mais feio também, talvez.
Um impulso.Uma necessidade…
Eu me aproximei devagar. Observei cada detalhe. O jeito que ele evitava contato, a respiração irregular, as mãos trêmulas tentando parecer firmes.
E então eu senti…Senti que ele precisava de alguém…
E, mais do que isso…Senti que eu queria ser essa pessoa.
Não só por bondade.
Mas porque, no fundo, eu sempre gostei de construir coisas quebradas do meu jeito.
Eu prometi ali, mesmo sem dizer em voz alta, que ele teria meu apoio. Minha presença. Minha amizade. Para sempre!!!
E foi assim que começou…
O projeto mais audacioso da minha vida.
E, dele… nasceu a amizade mais verdadeira e honesta que eu já tive.
Hoje eu entendo o que fiz.
E entendo, principalmente, o que causei nele.
Mas eu juro…
Juro que, dentro daquilo que eu sou, da forma torta que eu existo…
Minha intenção foi a melhor possívelCarlos)
3 DIAS APÓS O ACIDENTE.
Os três dias seguintes ao acidente seguiram um mesmo padrão silencioso e sufocante. Eu saía do quarto que haviam me oferecido apenas para as refeições — e mesmo isso parecia exigir mais de mim do que eu realmente tinha para dar.
Sinceramente, nem acompanhei direito os detalhes. Em algum momento, confirmaram que não houve sobreviventes. Eu ouvi… mas não processei.
Eu não estava vivendo.Estava apenas existindo.
Na manhã do terceiro dia, Verônica pediu para conversar comigo.
Estávamos na cozinha. A luz da manhã entrava pela janela, iluminando partículas de poeira suspensas no ar. O ambiente tinha cheiro de café passado, mas aquilo não me despertava absolutamente nada.
Ela não hesitou muito.
Aproximou-se, segurou minha mão com firmeza — mais firme do que eu esperava — e me conduziu até o escritório.
— Por favor, Carlos… precisamos conversar.
A voz dela era baixa, quase contida. Mas o corpo… o corpo dizia outra coisa. Ombros tensos, postura rígida, olhar fixo.
Havia dor ali.Muita dor.Mas também havia decisão.
Eu apenas a segui. Não resisti, não questionei. Na verdade… não havia nada em mim que quisesse reagir.
Fiquei em pé, em silêncio, esperando.
— Seus pais e eu… nós… eu…
As palavras não vinham. Ela respirava fundo, tentava organizar os pensamentos, mas parecia travada entre o que precisava dizer e o peso de dizer aquilo em voz alta.
Eu desviei o olhar por um instante, passei a língua pelos lábios secos e resolvi interromper.
— Eu sei.
Ela parou.
— Meus pais não tinham exatamente um relacionamento… “tradicional”...
Minha voz saiu mais firme do que eu pretendia. Quase fria.
Percebi isso no modo como ela reagiu — um leve recuo, quase imperceptível, como se tivesse sido tocada por algo mais duro do que esperava.
Respirei fundo e completei, agora mais baixo:
— Eu sabia de você. Sempre soube… que você era a pessoa “de fora” mais importante. — hesitei por um segundo — Nos últimos anos… vocês eram praticamente um trisal.
O silêncio que se seguiu foi pesado.
Verônica se aproximou devagar, como se cada passo exigisse cuidado, e segurou minhas mãos entre as dela. As mãos dela estavam frias.
— Seu “tio” Teixeira… e alguns amigos dos seus pais… organizaram um velório. Está acontecendo agora de manhã… — a voz falhou — e… um enterro simbólico à tarde, mesmo sem os cor… sem… sem nenhum vestígio…
Ela não conseguiu terminar.
Os lábios tremeram. O olhar vacilou.
Pela primeira vez, ela pareceu perder o controle que vinha sustentando até ali.
E foi nesse momento que algo em mim reagiu.Não foi dor.Não ainda.Foi… empatia.
Ou talvez apenas um reflexo automático de quem ainda não entendeu o próprio sofrimento.
Eu a puxei para um abraço.
Apertei com mais força do que imaginava ser capaz naquele estado.
— Tá tudo bem… — minha voz saiu baixa, quase rouca — A gente vai junto. Eu não vou sair do seu lado. Prometo.
Ela enrijeceu no primeiro instante, surpresa.
Se afastou levemente, me olhou nos olhos — como se estivesse tentando entender de onde aquilo tinha vindo — e então… cedeu.
Dessa vez, foi ela quem me puxou.
Com força.O corpo dela desabou contra o meu, e as lágrimas vieram sem qualquer tentativa de contenção.
O choro dela era irregular, entrecortado, quase desesperado.
Ficamos assim por algum tempo.
Sem pressa.
Sem palavras.
Apenas dois corpos tentando suportar algo grande demais.Quando nos soltamos, ela ainda evitava meu olhar por alguns segundos. Passou a mão pelo rosto, respirou fundo, mas a voz ainda carregava o peso do que estava por vir.
— Por favor… fica comigo. Comigo e com minhas filhas.
Ela parou.O olhar caiu.
Os dedos se entrelaçaram, inquietos.
— Eu sei que não é o ideal… sei que nunca vamos substituir seus pais… seu irmão…
A palavra “irmão” pareceu prendê-la por um instante. Ela engoliu seco, puxou o ar com dificuldade antes de continuar.
— Sua mãe… ela… — outra pausa — parecia sentir que algo podia acontecer. Me fez prometer que cuidaria de você… que ficaria responsável por você.
Agora ela me olhava de novo.
Direto.Sem defesa.
— Por favor… fica. Eu vou cuidar de você como se fosse meu filho. Por favor…
Eu não pensei muito.Na verdade, acho que não pensei nada.
Apenas a abracei de novo.
Dessa vez, com menos força.
Mais… aceitação.
— Eu fico… — minha voz saiu baixa, falha — Vou tentar… por você. Por eles.
Depois disso, nos trocamos em silêncio. E fomos para o cemitério.
O caminho até o cemitério foi… insuportável.
Eu estava no banco do passageiro. Olhava pela janela, mas não via nada de verdade. As imagens passavam, mas não se fixavam.
Dentro do carro, ninguém falava.
E o silêncio…O silêncio era esmagador.
Era como se ele tivesse peso.Como se ocupasse espaço.E, aos poucos, alguma coisa começou a mudar dentro de mim.
Uma pressão.Primeiro leve.Depois crescente.
Até se tornar impossível ignorar.
Meu peito apertou.De verdade.
Uma dor física.Crua.
A tristeza que ficou represada por três dias começou a romper de uma vez, sem aviso.
Sem controle.
Um som saiu de mim — um grito que eu não reconheci como meu.
E então veio o choro.
Violento.
Desordenado.
Incontrolável.
Eu não lembro exatamente do que aconteceu ao redor. Não sei como Verônica reagiu, nem as meninas.
Naquele momento… só existia aquilo.
Quando chegamos, demorei para sair do carro.
Fiquei parado por alguns segundos — ou minutos, não sei — com a mão na maçaneta, tentando reunir alguma força.
Quando finalmente consegui sair, o corpo parecia mais pesado.
Como se cada movimento exigisse esforço.
Fiquei ao lado da Verônica o tempo todo.
Como prometi.
No momento do “enterro”, porém, algo mudou.
As pessoas se aproximaram, pediram minha ajuda para carregar o caixão simbólico até o local do sepulcro da minha família.
Eu ouvi.Mas não consegui.
Afastei-me alguns passos.
Observei de longe.
Como se aquilo não me pertencesse completamente.
Como se ainda houvesse uma distância entre mim e o que estava acontecendo.
Depois, já com tudo encerrado, tio Teixeira se aproximou.
— Carlos… podemos conversar?
O jeito como ele disse aquilo…
O tom.A pausa.
Havia algo ali.
Algo que não era apenas luto.
E foi naquele momento que ele me revelou algo que mudaria completamente o meu futuro.
Algo grande o suficiente…
Para ainda ecoar até hoje.
……………………
(Tauane)
Na manhã do dia seguinte a chegada de Carlos, mamãe bateu na porta do meu quarto antes mesmo de amanhecer e mandou eu levantar porque “precisávamos conversar”.
Foi o suficiente para aquele gelo subir pela minha espinha na mesma hora. Eu sabia exatamente o motivo: minha “falta” no dia anterior não ia passar em branco.
Levantei sem discutir. Quando mamãe resolve alguma coisa, não existe debate. Fomos direto para o escritório em silêncio, aquele silêncio estranho que parece errado, como se a gente estivesse fazendo algo proibido.
Tati já estava lá, sentada, toda certinha como sempre. Mamãe fez um gesto com a cabeça e nós duas sentamos nas poltronas à frente da mesa, como se fosse um julgamento informal — e, sendo bem honesta, era.
Ela respirou fundo antes de começar:
— Preciso falar algo um pouco sério com vocês.
Dava para perceber que não era um sermão comum. Ela escolhia as palavras com cuidado, coisa rara. Explicou a relação com os pais do Carlos, falou da proximidade, da responsabilidade… nada exatamente novo, mas dito daquele jeito, sem esconder, ficava diferente. Mais pesado.
Eu tentei entrar no meio.
— Mas mãe, você—
Nem terminei.
— Cala a boca, mocinha. — o corte veio seco, sem subir o tom — E não pense que eu não sei que você cabulou aula. Nós ainda vamos conversar sobre isso… em particular. Me aguarde.
Pronto. Fim da minha tentativa.
Fiquei quieta na hora, olhando para qualquer lugar que não fosse ela. Mamãe então continuou, agora sem rodeios:
— Eu preciso que vocês duas me ajudem com o Carlos. Ele não tem mais ninguém.
A voz dela falhou ali. De verdade.
— A gente vai precisar… cuidar dele.
E então ela chorou.
Não foi bonito, nem controlado. Foi aquele choro que você não ensaia. E isso… isso muda o clima da sala.
Olhei de canto para a Tati. Como esperado, ela já estava com os olhos cheios, pronta para cumprir o papel de filha perfeita.
Eu fiquei na minha. Aquilo me incomodava, claro que incomodava, mas não o suficiente para eu ser idiota de bater de frente naquele momento.
Depois de alguns segundos, mamãe se recompôs. Limpou o rosto, respirou fundo e voltou ao controle.
— Tati, vai preparar o café.
Eu levantei junto.
— Eu vou com ela—
— Você fica.
Mamãe ordenou. Simples. Sem discussão.
Assim que ficamos sozinhas, o ambiente mudou. Ela se levantou, veio até mim e segurou minha mão. Me olhou de um jeito que eu não estava esperando.
Não era bronca. Não era ordem.
Era… pessoal.
Ela passou a mão no meu cabelo, devagar.
— Você tem os olhos do seu pai, sabia?
Aquilo me pegou desprevenida. Eu não respondi, mas senti o impacto. Foi rápido, quase imperceptível, mas veio. Lembrei dele. Do jeito que me olhava. Do orgulho que tinha em mim… antes do câncer, antes de tudo sair do controle.
Engoli seco.
Ela continuou, agora mais baixa:
— Eu tenho uma proposta pra você.
Aí sim ela tinha minha atenção de verdade.
— Se você usar esse seu carisma pra ajudar o Carlos a se enturmar, pra fazer a vida dele um pouco melhor… eu te dou aquele mochilão para a Europa que você pediu.
Eu não consegui evitar. Sorri na hora. Um sorriso limpo, automático.
Ela percebeu.
Claro que percebeu.
— O Carlos puxou o pai. É inteligente, aplicado, estudioso…
— Um nerd. — cortei, quase no reflexo.
Ela soltou uma risada curta, mas não perdeu o ritmo.
— Um nerd… que passaria em qualquer faculdade. Ano passado ele prestou como treineiro e tirou nota acima do corte.
Ela fez uma pausa, me analisando. Medindo.
— Seja amiga dele. Não… mais que isso. Próxima. Melhor amiga. Se você passar na Poli da USP — e só vale Poli ou ITA — você ganha um carro. Popular… mas novo.
Meu sorriso aumentou. Aquilo já tinha deixado de ser só “ajudar”.
Mas então ela mudou.
O olhar endureceu. A postura voltou.
— E presta atenção no que eu vou te dizer, Tauane… — agora era sério — Se eu souber que você viu qualquer tipo de trote, bullying ou gracinha com esse menino, não apenas viu, mas permitiu ou participou… você nunca me viu brava de verdade. Não queira ver.
Segurei o olhar dela por um segundo.
— Tá bom.
E estava mesmo.
Porque, no fundo, aquilo só deixava tudo mais interessante.
Mais risco.
Mais controle.
Mais jogo.
Será que o nerdzinho ia reagir como os outros? Ou ia quebrar o padrão?
Eu ia descobrir…
Levantei e fui ajudar Tati como se nada tivesse acontecido.
Nos dois dias seguintes, percebi que minha missão não ia ser tão simples. O garoto praticamente não saía do quarto. Quando saía, era como se estivesse… ausente. Não olhava direito, não puxava assunto, não reagia. Parecia um corpo ocupando espaço.
Mas, sendo justa… fazia sentido.
Eu também já tinha perdido meu pai.
No caso dele, foi tudo de uma vez.
No terceiro dia, depois do café, mamãe chamou ele:
— Carlos, vem comigo um instante.
O tom não deixava escolha.
Eu e Tati estávamos oficialmente “de luto” — e convenientemente fora da escola — desde que ele chegou. Assim que eles saíram da cozinha, Tati se inclinou um pouco na minha direção:
— Estão organizando um velório… mesmo sem corpo.
Eu só balancei a cabeça.
Nada a acrescentar.
Comemos rápido e fomos para o cemitério, um particular aqui em Catanduva. Não lembro de muitos detalhes, só que foi um drama pesado. Gente chorando, gente falando baixo demais, gente olhando mais do que devia.
Fiquei com a Tati quase o tempo todo e, sendo bem honesta, a gente só queria que aquilo acabasse logo.
Em um momento, vi um velhinho barrigudo conversando com o Carlos. O homem falava bastante. Carlos… só ouvia.
— Quem é aquele? — perguntei baixo.
— Amigo do avô dele. Advogado da família — mamãe respondeu, sem tirar os olhos dos dois.
Guardei isso.
O tipo de informação que sempre serve pra alguma coisa.
Depois voltamos pra casa. Carlos sumiu de novo no quarto e eu fui sair com uma amiga pra respirar, porque ninguém aguenta aquele clima por muito tempo sem surtar.
No dia seguinte, a casa estava diferente. Mamãe tinha ido trabalhar e Tati, claro, foi pra escola.
Resultado: eu sozinha tomando café de ressaca e dolorida da “festinha” da noite passada.
Estava tomando café quando Carlos entrou na cozinha. Andava devagar, como se ainda não tivesse certeza do próprio corpo. Sentou do outro lado da mesa e começou a passar manteiga na torrada com uma concentração quase exagerada.
Evitar contato.
Clássico.
Perfeito.
Levantei sem pressa e sentei ao lado dele.
— Bom dia.
Ele demorou um segundo a mais do que o normal.
— Bom dia…
A voz baixa, meio presa.
Fui puxando assunto aos poucos. Perguntas simples, comentários leves. E ele foi respondendo. Travado no começo, mas foi soltando. Em alguns momentos, até me olhava de volta — rápido, mas olhava.
Tinha alguma coisa ali.
Enquanto isso, eu fazia o básico bem feito: mantinha o olhar, sorria no tempo certo, soltava um elogio aqui e outro ali. Nada exagerado. Só o suficiente.
Até que chegou a hora.
— Carlos… posso te pedir uma coisa?
Ele me olhou direto dessa vez. Meio tenso.
— Pode…
Aproximei um pouco mais, diminuí o tom.
— Eu preciso de ajuda pro vestibular. Quero prestar engenharia…
Ele travou. De verdade.
Os dedos pararam na mesa. O olhar ficou fixo por um segundo longo demais.
Eu segurei a mão dele.
Suave.
— Me ajuda? Principalmente matemática e química…
Ele piscou, como se voltasse.
Demorou, mas respondeu:
— Eu… ajudo, sim.
Baixo. Ainda inseguro.
Mas aceitou.
E foi ali que começou.
Simples.
Sem esforço aparente.
Mas calculado.
A gente virou amigo.
Muito amigo.
Melhores amigos…
Antes de qualquer outra coisa.
………………….
(Carlos)
AINDA NO “ ENTERRO”
— Carlos… podemos conversar?
O jeito como ele disse aquilo…
O tom.A pausa.
Havia algo ali.
Algo que não era apenas luto.
“Tio” Teixeira se aproximou de forma silenciosa, quase calculada.
Tive a impressão de que ele esperou mais do que gostaria antes de vir falar comigo. Como se estivesse escolhendo o momento certo… ou adiando o inevitável.
Eu o conhecia bem. Era amigo do meu avô, tinha sido seu advogado e conselheiro até o fim. Depois disso, tornou-se o braço direito do meu pai na empresa. Mais do que isso: era, provavelmente, a pessoa mais próxima dele fora da família.
Não trabalhava por necessidade. Já tinha construído uma segurança financeira sólida como advogado tributarista — em um país onde isso, por si só, já dizia muito. Seus filhos e netos estavam fora do Brasil há anos, mas ele permaneceu. Mesmo depois da morte da esposa, escolheu ficar. Ao lado do meu pai.
Por isso estranhei.
Ele já deveria ter falado comigo antes.
Mas, quando finalmente veio, entendi que não era simples.
Mesmo com Verônica ao meu lado, eu ainda me sentia completamente sozinho. E, sendo honesto, tinha a sensação de que eu estava sustentando mais o peso dela do que o contrário. Talvez porque eu ainda estivesse anestesiado. Os pensamentos vinham em excesso, se chocavam, se anulavam… e nada se transformava em sentimento claro. Era como se a parte de mim responsável por sentir tivesse simplesmente desligado.
Teixeira parou à minha frente e foi direto:
— Hoje e amanhã, descanse. Mas depois você vem comigo para a empresa. Temos assuntos a tratar.
O tom era frio. Prático. Mas o rosto dele dizia outra coisa.
— Aconteceu alguma coisa, Teixeira? Algo além do que todo mundo está vendo?
Ele tensionou o corpo, desviou o olhar por um instante e hesitou.
— Seu pai tinha iniciado a venda de parte das ações da empresa… — fez uma pausa curta — alguns sócios influentes pressionaram depois que ele começou a negociar com uma empresa de segurança russa.
Eu já sabia disso.
Meu pai era engenheiro aeroespacial. Tinha desenvolvido uma tecnologia inovadora voltada para drones de longa autonomia. A patente chamou atenção demais — inclusive do exército brasileiro, que tentou intervir alegando interesse de segurança nacional.
Ele estava sendo pressionado.
De vários lados.
Mesmo assim, ouvir aquilo naquele contexto fez algo estranho se formar dentro de mim. Um incômodo. Uma ligação que eu não queria fazer.
Teixeira percebeu.
— Para sua própria paz… — ele escolheu as palavras com cuidado — eu recomendo que você venda as ações. Fique com uma parte mínima. Invista com segurança e siga sua vida.
Eu engoli seco.
— Você acha que o jatinho…?
Não consegui terminar.
Ele me puxou para um abraço breve, firme, e logo se afastou.
— Não acho.
Fez questão de repetir, olhando diretamente nos meus olhos:
— Não acho que tenha relação. Seu pai já tinha assinado a venda, mas o processo ainda não foi concluído…Agora, está travado novamente até o inventário. Ninguém faria mal a ele antes da venda concretizada. Não faria sentido. Não seria… inteligente.
Ele tinha um ponto.
Mas não era suficiente para acalmar o que começava a surgir dentro de mim.
Ele continuou, agora com um cansaço mais visível:
— Eu estou me aposentando. Vou voltar para minha família… viver o que ainda me resta com meus filhos e netos.
Aquilo me pegou de surpresa.
Ele então mudou levemente o tom:
— Você está com a Verônica. Ela é uma pessoa confiável. Mas…
Ele parou.
E, dessa vez, prendeu completamente a minha atenção.
— Mantenha sigilo sobre o valor da herança. Principalmente depois da venda das ações. Não confie em ninguém… nem em mim.
Aquilo me atravessou.
— Tome conta da sua vida. Mas não se feche. Deixe espaço para quem queira somar… só não entregue suas decisões nas mãos de ninguém.
Ele respirou fundo antes de concluir:
— Você tem o direito de viver uma vida normal. Mas vai ter que amadurecer sem seus pais. E eu… — a voz falhou — eu não vou poder te ajudar.
Foi a primeira vez que vi aquele homem quebrar.
Ele me abraçou de novo, dessa vez mais demoradamente, e chorou.
— Eu tenho uma doença pulmonar crônica… anos de cigarro. Já ia me aposentar… mas agora… — ele balançou a cabeça — não vou conseguir estar presente como deveria.
Se afastou, limpou o rosto e tentou retomar o controle:
— Em dois dias eu te procuro. Vamos resolver a parte legal, deixar tudo organizado. Mas… fora isso… — hesitou — você vai precisar caminhar sozinho.
Eu não lembro o que respondi.
Talvez não tenha respondido.
Voltei para o quarto e não saí mais naquele dia. Nem para jantar. Não havia fome, não havia vontade… não havia nada que me puxasse de volta para fora.
No dia seguinte, algo completamente fora daquele padrão aconteceu.
Tauane definitivamente entrou em minha vida.
Antes de tudo aquilo, ela provavelmente nem sabia que eu existia. E, de repente, estava ali, na minha frente, pedindo ajuda para estudar para o vestibular.
Ela era do terceiro ano, ou seja, um ano a minha frente. Tinha ótimas notas, nas primeiras posições nos simulados. Segura tanto na vida social como nos estudos. Não fazia sentido esse pedido…
Demorei alguns segundos para responder.
Minha primeira conclusão foi simples: a mãe dela devia ter pedido — ou exigido — que me incluíssem, que tentassem me aproximar.
Mas havia algo mais, pelo menos para mim.
Pelo que meus pais sentiam por Verônica. Pelo que eu vi nos olhos dela naquele dia — uma dor que eu reconhecia, mas ainda não conseguia acessar dentro de mim. Uma dor que, de certa forma, eu invejava, porque parecia… real.
E eu precisava de algo real.
Se até alguém como Tauane estava tentando — mesmo que por interesse, obrigação ou qualquer outro motivo — então talvez eu também pudesse tentar.
Foi o que eu fiz.
E, de forma surpreendente… funcionou.
Em pouco tempo, nos tornamos amigos.
Bons amigos.
Os melhores amigos.
Pelo menos… até tudo começar a desmoronar.
Continua…
Obs: FICA PROIBIDO A COPIA, EXIBIÇÃO OU REPRODUÇÃO DESTE CONTEÚDO FORA DESTE SITE SEM AUTORIZAÇÃO EXPRESSA DO AUTOR.
Nota do autor:
Finalmente venci a procrastinação e a depressão e voltei a escrever.
Antes de começar, li todos os comentários e, principalmente, as críticas das minhas histórias anteriores.
Coisas como “evitar mirabolâncias”, “falta de erotismo” e, principalmente, “intensidade que se perde com o tempo”.
Outras mais óbvias também apareceram — como “começa e não termina”.
Registrei tudo. E aceitei.
Mas vou insistir em um “erro”: não vou ter pressa.
Vou continuar apostando na construção da história e dos personagens. Então, sim — vai ser mais longa, mais detalhada e mais lenta do que muita gente prefere.
Estou escrevendo esta nota depois de terminar o primeiro capítulo. Se você está lendo isso, é porque eu realmente venci a procrastinação — porque só vou publicar depois de ter a história inteira pronta.
Dessa vez, vai ter começo, meio e fim.
Quem quiser seguir, já sabe o que esperar:
uma história de relacionamento. De erros, acertos e das complicações que existem entre duas pessoas.
Sem firulas.
Sem mistérios mirabolantes.
Sem exageros desnecessários.
Não tem vilão. Não tem herói.
Ou talvez tenha — mas isso eu deixo pra você decidir.
Se quiser ajudar, critique.
Elogio passa. Crítica fica.
Não vou participar do chat — acordo com a minha esposa. Talvez eu apareça respondendo comentários em “capítulos extras”, mas não prometo.
Se tudo correr como planejado, serão duas postagens por semana (terça e quinta).
É isso.
A descrição da série já diz muito sobre a essência da história.
O título também.
Obrigado…