Capítulo Seis
Rubens
O mundo é uma caixinha de surpresas, lembro de ter ouvido isso numa peça de teatro, era uma apresentação de humor, mas eu me lembro de ter achado a vida do Joseph Climber bem parecida com a minha. Um tempo depois conheci o Mariano e pensei que a vida é mesmo uma caixinha de surpresas.
Mariano apareceu na minha vida quando eu estava pronto para aceitar que morreria sozinho, me assumir não era nem uma possibilidade visível a longo prazo na época — sabia que minha mãe me daria as costas, assim como aconteceu — aí quando achei que tudo ia bem, de repente não ia mais. Quanto tempo será que o Mariano passou achando que nossa relação não estava mais indo bem e eu sequer percebi?
Acho que nunca parei para realmente pensar sobre isso porque na época estava ocupado demais na minha depressão pós término. Então o Antônio apareceu e a vida me deu outra rasteira me mostrando que na real não faço ideia de como o mundo funciona. Pode dizer que meu lance com Antônio evoluiu rápido demais, que foi por carência, ou só uma coisa de curiosidade dele, mas aí estamos nós noivos e conversando sobre a possibilidade real de adotar uma criança — Joseph eu te entendo, a vida é mesmo uma caixinha de surpresas.
— Meu amor, a gente vai fazer isso — um alívio fica notável em sua expressão — mas não quero viver com o medo de que alguém pode vir aqui e pegar o Pequeno da gente, então vamos fazer isso do jeito certo.
— Gessika falou que isso pode levar muito tempo — noto a preocupação que ele tem com o Pequeno e isso só me faz amá-lo ainda mais.
— Amor, não pretendo ir a lugar nenhum, mesmo que leve anos o lugar dele nessa casa e na nossa vida vai está esperando por ele.
— Eu te amo Rubens.
— Eu também te amo.
Sendo bem sincero, estou aterrorizado, mas não posso demonstrar isso agora, Antônio precisa de sua rocha, um de nós precisa se manter firme e farei esse papel por ele. A briga vai ser grande, mas se isso é importante para ele é importante para mim também, passei pouco tempo com o Pequeno, mas sinto como se ele já fizesse parte da minha vida, esse moleque agora é parte da gente, é parte da nossa família, não sei explicar só sinto que é o certo a fazer, de uma forma ou de outra vamos fazer parte da vida do Pequeno.
— Vou ligar para Gessika, ela é a melhor para fazer isso pela gente — não quero concordar com isso, mas a verdade é que a Gessika além de ser uma destruidora de corações e de irmãos é a advogada mais implacável que eu conheço. Ela resolveu a papelada da ONG em tempo recorde.
— Tudo bem, deixa que eu falo com o Zé Filho — digo.
— Como o Ben está? — É a primeira vez que o Antônio pergunta sobre o amigo, a relação dos dois ficou bem estremecida depois do que o Ben fez.
— Ele está arrasado, só tem falado comigo e o com Santi, estou achando que ele vai acabar indo passar um tempo com nosso irmão.
— Você queria que fosse ele aqui em casa? — Essa é uma pergunta dificil de responder.
— Eu amo o Ben — digo, mas não posso negar o que ele fez — só que o Zé precisa mais de mim e os dois são meus irmãos.
— Você é um bom irmão — ganho um beijo do meu noivo.
— E você é um ótimo noivo, já te agradeci por deixar meu irmão morar um tempo com a gente?
— Rapaz, não, ainda não agradeceu — ele diz, voltando a me beijar.
Passo a mãos envolta do seu pescoço, e nosso beijo começa a ficar mais intenso. Que saudades eu tava do corpo dele sobre o meu na cama, o calor, sentir o coração dele acelerado, Antônio é o homem mais quente o gostoso que já conheci, ele é tão safado, mas também atencioso, ele me dar mais prazer do que já pensei em ter na vida — “a mãos a vida é uma caixinha de surpresas” minha mente pensa nisso imediatamente quando ouvimos o Pequeno começar a berrar da sala e logo em seguida:
— Gente meu sobrinho está chorando.
— É oficial, só vamos transar quando ele for para faculdade — digo em baixo do homem de pau duro em cima de mim.
— É minha vez, ou é a sua?
— Essa é sua paizão — digo.
— Não me chame assim ou seu irmão vai ter que aprender a fazer a fórmula do Pequeno — Antônio me beija mais uma vez.
— Ele precisa trocar a fralda! — Grita Zé Filho estragando o resto de clima que tinha nesse quarto, mas nós dois estamos rindo, afinal escolhemos entrar nessa vida.
Dividida as tarefas do Pequeno, até o Zé Filho entrou no meio, meu irmão pediu uns dias de férias que ele tinha no trabalho. Antônio falou com Gessika e eu falei com Zé Filho, ele aceitou até que numa boa pedirmos a ajuda dela, acho que no fundo ele entendeu, mas não concorda que a gente tenha contato com sua ex e nem posso julgá-lo, pois também me senti estranho quando meus irmãos começaram a ter mais amizade com Mariano.
Família é um presente, estou exausto, mas não trocaria minha vida por nada, hoje eu consegui trabalhar, mas Antônio vai trabalhar amanhã, então estou contando que a tia Marlí venha me ajudar — ela tá chateada de ter ficado sabendo do Pequeno só depois, mas muito feliz pelo sobrinho neto que ela ganhou.
— Amor, você acha que vai demorar mesmo para o Pequeno ficar com a gente?
— Não faço ideia, mas espero mesmo que não — digo me sentindo totalmente apaixonado por essa pequena esperança de ser pai e também por esse moleque no meio da minha cama.
Antônio veste sua calça moletom, e uma camiseta, combinamos de ficarmos o mais vestido possível para tentar aplacar o fogo da saudade que temos do corpo um do outro. Por mim já tava procurando uma casa com três quartos e decorando com tudo que o pequeno tem direito, mas preciso ser o pé no chão, Gessika disse para o Antônio que o Juiz vai negar nosso pedido de guarda provisório que ela abriu hoje, mas que isso é natural, porém vão levar nosso menino para um abrigo.
— Quando vai ser a audiência? — Pergunto pela terceira vez.
— Gessika falou que pode levar uns dois a três dias — Antônio está tão preocupado quanto eu.
Essa noite acho que até o Pequeno devia está cansado pois ele só acordou duas vezes, na segunda fiz algo que li num site e deu certo, deitei ele no meu peito e o som do meu coração acalmou ele, só que agora para mim me despedir dele vai ser a pior coisa que já passei na vida.
Acordo cedo — já que consegui dormir — Zé Filho está no sofá — desde ontem quando contei que estávamos pedindo para Gessika nos ajudar no processo ele se fechou, me sinto mau por ele, é como se tivesse traindo meu irmão, mas não posso confiar que outra pessoa possa nos ajudar como ela está fazendo.
— Bom dia Zé — digo lhe entregando uma caneca de café quando ele se junta a mim na cozinha.
— Ela vai vir para cá? — Ele pergunta na lata.
— Na verdade ela deve está chegando agora, mas não é pelo processo, depois que vocês terminaram ela já tava planejando voltar.
— Vou arrumar minhas coisas, pode ver uma passagem para mim, por favor — diz tomando seu café.
— Zé Filho, escuta — puxo uma cadeira para sentar do lado dele — Gessika não vai entrar nessa casa enquanto você estiver aqui e meu lance com ela está sendo cem por cento profissional, eu te expliquei ontem.
— Eu entendo Rubens, ela é mesmo a pessoa certa para ajudar vocês com meu sobrinho — gosto que ele já trata o Pequeno como nosso — mas não posso estar perto da Gessika nesse momento.
— Acredita Zé Filho eu sei, passei por isso e você sabe, mas aprende com meus erros irmão, fugir não vai te ajudar.
— Serviu para você — ele gesticula para o quarto ontem Antônio dormi com nosso menino.
— Antônio não veio para resolver meu problema com Mariano, isso eu tive que fazer enfrentando meu passado, aliás se eu não tivesse me resolvido não estaria noivo agora.
— Você ainda gosta do Mariano? — Ouvi muito essa pergunta e pensei muito sobre a resposta, hoje em dia acredito que esse capítulo da minha vida já está resolvido.
— Não como eu amo meu noivo, eu tenho um carinho por ele e pelo que a gente viveu, Mariano me ensinou muito e foi importante para que eu hoje entenda a importância que é ter uma família com Antonio, mas essa maturidade só veio quando eu parei de fugir.
— Eu não tô fugindo, ela fudeu com meu irmão mais velho, então tenho direito de não querer ouvir mais nem uma mentira que sai da boca dela.
— Zé Filho, não estou falando para ser amigo dela, eu não sou amigo do Mariano e Deus sabe que o Antônio é capaz de infartar só com a ideia.
— Ela beijou ele no nosso noivado, como posso fingir que isso não aconteceu Rubens? — Os olhos do Zé Filho tem mais do que tristeza, tem raiva.
— Não tem que fingir nada, mas é ela quem errou, eles erraram com você e por isso não é você quem tem que esconder meu irmão.
— O que eu vou fazer aqui? — Ele está tão perdido.
— Me ajudar, daqui uns dias um policial vai entrar aqui e levar meu filho embora irmão e quero ser uma rocha para o meu noivo, mas para isso preciso que você seja minha rocha.
— Rubens, esse menino apareceu na vida de vocês por um motivo, é louco mas eu sinto como se ele sempre tivesse sido de vocês — sinto aperto no peito, pois é exatamente assim que me sinto.
— É muito insano eu querer tanto assim ser pai de uma criança que acabei de conhecer? — Pergunto e Antônio que acabou de chegar com o Pequeno no colo responde.
— Não, ela escolheu a gente para cuidar dele e do Tigela.
— Por falar no Tigela — vou até a porta da cozinha e abro para que ele vá para o quintal, em dois dias, o Tigela já criou sua própria rotina aqui em casa.
— Esse é o Pitbull mais manso que existe — Zé Filho diz e acho graça, pois ontem enquanto eu trabalhava ele dormia do lado da minha mesa, com uma paz que só um cachorro que confia no seu dono é capaz de ter.
Antônio vai encontrar com Gessika no almoço, eu só consigo pensar que em breve vamos entrar em uma batalha longa e cansativa na justiça, mas uma coisa eu prometo, vou fazer de tudo para conseguir a guarda desse menino, não vou abrir mão dele, é importante para o meu amor e é para mim também.
Pelo menos Gessika disse que o Tigela só se a maluca voltar é que ele sai dessa casa, ainda bem, já me acostumei a ter esse grandão gentil e educado pela casa. Tigela é tão “de boa” que bastou a tia Marli chegar e começar a elogiar ele para ficar todo manhoso com a tia. E não só ele, o Pequeno ficou todo feliz no colo da tia avo dele. Eita que menino mimado esse meu.
