O dia seguinte foi de transição para Carla. Ela passou a manhã despachando os assuntos pendentes de Vice-Presidente Sênior e se preparando mentalmente para o novo cargo. Perto do final da tarde, enquanto organizava seus pertences para a mudança oficial para o antigo escritório de Mirtes, ela recebeu a última ligação da antiga Presidente, que estava prestes a embarcar para Milão.
— Carla. - A voz de Mirtes soou no viva-voz, fria e direta, mas com uma camada sutil de finalidade. — Antes de assumir a Presidência, você tem um último dever como Vice-Presidente Sênior. Sua última missão.
Carla pegou a pasta lacrada que Mirtes havia deixado em sua mesa na noite anterior.
— É simples. - Mirtes instruiu, ditando o ritual.
— Você irá descer ao térreo, à ala onde ficam os jovens funcionários recém-contratados. Você procurará por um jovem chamado Wesley Bandeira. Você entregará este contrato a ele e dirá as seguintes palavras, e apenas estas palavras: "O que você acha de ganhar um milhão de euros ao ano?" Fui clara, Carla?
— Sim, Sra. Mirtes. - Carla respondeu, a voz momentaneamente rouca pela expectativa.
Ao desligar, Carla sentiu um choque elétrico percorrer seu corpo. Ela apertou a pasta em suas mãos. A localização (o cubículo), e aquelas palavras exatas... eram o espelho de sua própria história.
Carla recuou, sentando-se pesadamente em sua cadeira. Seus olhos marejaram imediatamente. Ela se viu na pele de Wesley.
O jovem tímido, ambicioso, talvez infeliz, olhando para o futuro com a mesma desesperança que ela, Carlos, sentira naquele mesmo cubículo, há tantos meses.
A ficha caiu: Mirtes, em seu último ato de comando, estava forçando Carla a confrontar o início de sua própria jornada, o momento em que a vida de Carlos se fragmentou para dar lugar a Carla. A emoção a dominou. As lágrimas escorreram, não de tristeza, mas de uma profunda gratidão, reconhecimento e a sensação de que um ciclo havia se fechado de maneira perfeita. Ela havia sido resgatada. Agora, ela era a mensageira do resgate.
Carla recompôs a maquiagem, enxugando as lágrimas e respirando fundo para recuperar a compostura da Presidente. Vestindo seu tailleur mais autoritário e colocando saltos que a elevavam acima da rotina, ela desceu de elevador, descendo os andares de luxo até a ala de cubicles que parecia pertencer a outro universo.
O ambiente era de trabalho monótono, com jovens curvados sobre monitores, a ambição ainda não gasta pela rotina. Ao chegar, Carla era uma visão estranha; uma mulher de alta moda e autoridade suprema em um local onde só se viam ternos simples e camisas de botão. Os murmúrios cessaram, substituídos por um silêncio reverente.
Ela encontrou o cubículo. Wesley Bandeira.
O jovem, de cabelos escuros e olhos ligeiramente assustados pela presença da executiva de poder, levantou-se apressadamente, sem entender o que estava acontecendo.
Carla parou na frente dele, estendendo a pasta lacrada. Ela se apresentou com a voz clara, mas com um toque de ternura subjacente que só a memória de Carlos podia emprestar:
— Boa tarde, Wesley Bandeira. Eu sou Carla de Souza, Presidente da Mirana Corp. - Ela fez a pausa necessária.
— Tenho uma pergunta para você.
Com a voz embargada pela emoção contida, mas com a convicção de sua nova verdade, ela proferiu as palavras que selariam o destino de Wesley e o fim de sua própria história como "Carlos":
— O que você acha de ganhar um milhão de euros ao ano?
