*Marido de Aluguel – Capítulo 01*
Ao longo dos anos exercendo a profissão de marido de aluguel, acumulei histórias que ainda me acordam no meio da noite. Umas inusitadas, outras intensas. Essa que vou contar agora foi das que deixam marca.
Era uma quarta-feira abafada. Por volta das três da tarde, meu celular tocou. Do outro lado, uma voz feminina, decidida: precisava montar um guarda-roupa às cinco. Anotei o endereço e aceitei na hora. Ficava na mesma cidade onde eu morava na época, a poucos quarteirões de casa.
Quando o portão rangeu, ela apareceu. Sozinha. Branca, cabelos pretos que escorriam até a metade das costas, baixinha. Vestia uma calça jeans que moldava cada curva e uma camiseta branca de algodão, fina o suficiente para não esconder nada do que importava. A voz era um convite: macia, baixa, daquelas que entram pelo ouvido e descem direto pro meio das pernas. O olhar vinha manso, quase tímido, mas tinha fogo escondido nas entrelinhas.
— O quarto é aqui — disse, virando de costas e me guiando pelo corredor.
Enquanto eu suava parafusando as peças do guarda-roupa, ela se encostava no batente da porta. Observava. Puxava assunto. Falou da mudança, que era professora, que ia dividir a casa com uma amiga. Conversa fiada de gente que não se conhece, só que cada vez que ela mordia o canto da boca entre uma frase e outra, o papo banal virava promessa.
Com o guarda-roupa de pé, ela apontou pra parede.
— Você fixa umas prateleiras pra mim? E uns quadros também.
Peguei a trena, o nível, o lápis.
— Segura aqui pra mim, na altura que você quer.
Ela ergueu a prateleira com as duas mãos. Ficou de costas pra mim, quadril alinhado com a minha cintura. O espaço entre a cama e a parede era mínimo. Não tinha jeito: precisei colar por trás dela pra riscar a marcação.
Foi aí que o cheiro me pegou. Doce, quente, desses que grudam na memória e no corpo. E logo depois veio o toque. Sutil, quase um acidente. Ela empinou o bumbum e roçou de leve contra mim. Disfarcei. A culpa era da posição, falei pra mim mesmo. Mas meu corpo não ouviu a desculpa. O sangue fugiu da cabeça e endureceu entre as minhas pernas. Respirei fundo, tentando manter a postura.
Na segunda prateleira, a história se repetiu. Só que dessa vez eu não disfarcei.
Mesma cena: ela na minha frente, mãos ocupadas, costas pra mim. Colei devagar, deixando meu peito encontrar as costas dela, minha cintura buscar o encaixe do quadril. Ela não recuou. Respondeu no mesmo compasso, rebolando devagar, testando, provocando. O ar do quarto ficou denso, elétrico.
Por um segundo, tudo desapareceu: a prateleira, o lápis, o profissionalismo. Minha vontade era largar tudo no chão, enlaçar aqueles cabelos pretos, puxar o rosto dela pro meu e calar aquela boca com um beijo que não pedisse licença. Engoli em seco. Travei a vontade nos dentes. O medo de estar sozinho naquele desejo me manteve no lugar.
Mas o jogo já tinha começado. E eu sabia que, dali pra frente, nenhum de nós dois ia conseguir fingir que era só um serviço.