Capítulo 10: Estilhaços de Vidro
Por Alice
O dia do casamento amanheceu com um céu azul cruelmente perfeito. A mansão estava um caos de floristas, garçons e fotógrafos. No andar de cima, minha mãe terminava a maquiagem, radiante, sem desconfiar que o chão sob seus pés era feito de areia movediça.
Stefano não tinha voltado para o hotel. Ele estava em algum lugar da casa, silencioso como uma sombra. Eu me sentia como se estivesse caminhando para o meu próprio julgamento, usando um vestido de madrinha que parecia apertar meus pulmões.
Ouvi uma batida na porta do meu quarto. Não era o toque suave da minha mãe.
— Entre — eu disse, a voz falhando.
Fernanda entrou. Ela estava impecável em um terno de linho claro, mas seu rosto carregava uma tensão que nenhum corte de cabelo moderno poderia disfarçar.
— O Stefano está com o seu pai no escritório — ela disse, sem rodeios. — Ele vai falar, Alice. Eu vi a cara dele. Ele não vai deixar esse casamento acontecer sem jogar a nossa verdade no ventilador.
— O que a gente faz? — perguntei, sentindo as lágrimas subirem. — Se ele contar agora, ele destrói a felicidade da minha mãe.
Fernanda caminhou até mim e segurou minhas mãos. O toque dela era a única coisa que me mantinha de pé.
— A gente assume, Alice. Antes que ele faça isso por nós. A verdade dita por quem sente dói menos do que a dita por quem odeia.
Por Fernanda
Eu nunca tive medo de escândalos, mas ver o desespero nos olhos da Alice me fazia querer queimar o mundo. Saímos do quarto e descemos a escadaria. A música começava a tocar no jardim. Paramos diante da porta do escritório do meu pai.
Lá dentro, ouvimos a voz de Stefano, alterada:
— ...você está sendo enganado, Roberto! Enquanto você planeja o futuro, sua filha está nos fundos com a minha noiva!
Abri a porta com um estrondo.
O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Meu pai estava atrás da mesa, pálido. Stefano apontava para nós com o dedo trêmulo de raiva. Minha mãe, que tinha acabado de entrar por outra porta para buscar o buquê, parou no meio do caminho.
— O que é isso que o Stefano está dizendo? — meu pai perguntou, a voz baixa, carregada de uma decepção que me atingiu mais do que qualquer grito.
Por Alice
Olhei para minha mãe. O brilho nos olhos dela estava se apagando. Olhei para Stefano, que tinha um sorriso amargo de triunfo. E então, olhei para Fernanda. Ela não soltou a minha mão.
— É verdade, mãe — eu disse, e senti um peso imenso sair das minhas costas, embora soubesse que o impacto seria devastador. — Eu e a Fernanda... nós nos envolvemos. Não foi planejado, não foi por mal, mas aconteceu.
— No banheiro de uma boate! — Stefano cuspiu as palavras. — Na adega desta casa! Elas riram de vocês o tempo todo!
— Ninguém riu de ninguém, Stefano — Fernanda deu um passo à frente, protegendo-me com o próprio corpo. — O único erro aqui foi a gente ter tentado fingir que não sentia nada para não estragar o "teatro" de vocês. Eu amo a Alice. E ela não pertence a você.
Minha mãe cambaleou. Meu pai sentou-se pesadamente na cadeira. O casamento perfeito tinha acabado antes mesmo do primeiro convidado sentar na cadeira.
— Saiam daqui — meu pai disse, sem olhar para nós. — As duas. Agora.
Por Fernanda
Eu não esperei o convite de saída. Puxei Alice pelo corredor. Stefano tentou segurar o braço dela, mas eu o empurrei com tanta força que ele bateu contra a estante de livros.
— Nunca mais encoste nela — avisei.
Fomos para o meu carro. Alice chorava copiosamente, o vestido dourado de madrinha amassado contra o banco. Eu arranquei com o carro, deixando para trás os gritos, as flores e o desastre que tínhamos causado.
Dirigi até a Praia do Matadeiro, um lugar onde o som das ondas engole qualquer lamento. Estacionamos e caminhamos até a areia. O sol estava se pondo, pintando o céu de rosa e laranja.
— Eles nunca vão nos perdoar, Fernanda — Alice disse, abraçando o próprio corpo.
— Talvez não agora. Talvez leve anos — respondi, parando na frente dela. — Mas agora você pode respirar. Você não tem mais que casar com um homem que você não ama. Você não tem mais que se esconder no porão.
Alice olhou para o mar, o vento bagunçando seus cabelos loiros. Ela respirou fundo, um suspiro que parecia carregar toda a dor da última semana.
— Eu perdi tudo — ela sussurrou.
— Você me ganhou — eu disse, segurando o rosto dela. — E eu prometo, Alice, que desta vez não vai ser em um banheiro de boate ou em uma adega escura. Vai ser à luz do dia. Em qualquer lugar que você quiser.
Ela me beijou. Não foi um beijo de luxúria proibida, foi um beijo de recomeço. Era salgado, amargo pelas lágrimas, mas doce pela liberdade.
Sabíamos que o caminho seria difícil. Teríamos que lidar com a fúria do meu pai, a mágoa da mãe dela e o julgamento de todos. Mas, enquanto caminhávamos de mãos dadas pela areia, sob o mesmo teto que agora era o céu de Florianópolis, sabíamos que a paixão que tentamos esquecer tinha se tornado a única verdade que valia a pena viver.
FIM
Notas da Autora:
Obrigado por acompanhar a história até aqui espero que tenham gostado... vai ter último capítulo..
