O Barman e o Confeiteiro (Capítulo 11)

Um conto erótico de R. Valentim
Categoria: Gay
Contém 2282 palavras
Data: 11/04/2026 14:02:36
Assuntos: Gay

Segunda-feira. O dia internacional de engolir sapo e fingir que é caviar.

Meu dia já começa torto na hora do almoço. Encontro o Luan no nosso self-service de sempre no centro da cidade. Sento na frente dele com o meu prato, mas, se na semana passada ele já estava no mundo da lua, hoje o gigante está orbitando em outra galáxia. Ele fica encarando o prato de macarrão com carne de panela como se tentasse ler o futuro no molho.

— Então, eu fechei os detalhes do bolo de três andares praquele noivado chique. — Falo, gesticulando com o garfo. — Vai me dar um trabalho do cão, mas a grana vai salvar o meu mês. E, nossa, com esse calor que tá fazendo em Fortaleza, eu vou ter que blindar a cobertura com ganache, senão a porra do bolo derrete antes de cantarem parabéns.

Luan não pisca. Ele mastiga devagar, o olhar perdido num ponto cego atrás de mim.

— Luan? Tá me ouvindo, cara?

— Aham... — ele murmura, a voz grave saindo no automático. — Fica bom.

— Fica bom o quê? Eu acabei de falar que o bolo vai derreter, idiota!

Ele dá um sobressalto, piscando rápido e focando em mim finalmente.

— Foi mal, Dri. Juro. Eu... tô com a cabeça cheia hoje.

— Cheia de quê? Cê não fala nada! Desde aquele almoço você tá com essa cara de quem tá escondendo um corpo no porta-malas. É a Stella? Vocês brigaram?

Ele balança a cabeça, desviando o olhar pro copo de suco.

— Não, tá tudo de boa com ela. É só... cansaço, mano. O curso, o trabalho. Ignora. O que você tava falando do bolo?

Eu suspiro, desistindo. Têm coisas corroendo a mente do Luan, mas ele é fechado que nem um cofre de banco. Resolvo não espremer. Eu já tenho os meus próprios problemas pra lidar. E, puta que pariu, como eu tenho problemas hoje.

Chego no call center para bater o meu ponto. A primeira coisa que eu faço, como virou rotina na última semana, é esticar o pescoço pra procurar a cabeleira do Nathan na baia dele. Vazio. O computador está desligado, a cadeira perfeitamente encaixada na mesa. Sinto um frio esquisito na espinha. Vou direto pro computador da minha baia, abro o sistema e checo a escala do andar.

Quase soco o monitor.

O Henrique, o demônio que o RH chama de supervisor, mudou o horário do Nathan. Ele passou o moleque pro turno da noite, entrando no meio da tarde e saindo quase meia-noite. Exatamente o horário que fode com qualquer chance da gente se encontrar depois do meu expediente.

Meu sangue ferve na mesma hora. Levanto da cadeira, pronto pra ir na mesa da supervisão tirar satisfação, questionar que porra de mudança arbitrária é essa, mas travo no meio do corredor acarpetado.

O Henrique está lá. De pé ao lado da mesa de canto, onde o Nathan acabou de chegar e está colocando a mochila. O meu chefe, com aquele perfume barato que me dá náusea e um sorriso cínico no rosto, está encostado na divisória da baia, perto demais do Nathan.

Eu me encolho um pouco atrás de uma pilastra, observando a cena. Henrique fala alguma coisa baixinho, rindo. O Nathan sorri de volta. E então, o Henrique toca no ombro do Nathan. Uma mão demorada, pesada, com o polegar roçando a base do pescoço do garoto. Cheia de segundas intenções escancaradas.

O pior de tudo não é a ousadia do Henrique, que nunca teve escrúpulos na vida. O pior é que ele não está nem aí se o andar inteiro está reparando. E o Nathan... o meu principezinho não recua. Ele não se afasta, não fecha a cara. Ele aceita o toque com uma naturalidade que faz o meu estômago revirar.

Eu quero voar no pescoço do Henrique. Quero arrancar aquele crachá dele na porrada e gritar pra todo mundo que o Nathan tá comigo. Mas eu engulo a seco, a bile subindo pela garganta. Eu preciso da merda do emprego. Dou meia-volta, fumaçando de ódio, e passo o resto da tarde atendendo clientes no automático, com o corpo tenso toda vez que olho pro outro lado da sala.

Quando dá o meu horário de saída, eu sou uma pilha de nervos prestes a explodir. Quero ir pra casa, me trancar no quarto e ficar olhando pro teto, mas o Caio tem outros planos. A jararaca me manda dez mensagens seguidas, me intimando pra ir pro pub onde o Ykaro trabalha. Depois de muita insistência, chantagem emocional e uma ameaça de ir bater na porta da minha casa, eu cedo.

Chego no pub e a intenção do Caio fica óbvia em três segundos. Ele não está sozinho.

O Kwid branco estacionado lá fora já tinha me dado a dica, mas ver o Breno sentado ao lado do Caio confirma tudo. O advogado engravatado, com o cabelo milimetricamente penteado, as mangas da camisa dobradas e um sorriso que derrubaria qualquer um, acena pra mim.

Sento na mesa, pedindo o cardápio. O Breno é absurdamente bonito. Alto, cheiroso, com uma postura de quem é dono do mundo, mas ao mesmo tempo muito divertido e simpático. E o Caio, de forma muito sorrateira (ou assim ele acha), fica empurrando o Breno pra cima de mim.

— Sabe, Adriano, o Breno tava me falando que adora caras que sabem cozinhar. — Caio solta, tomando um gole do chope, com um sorrisinho maléfico. — Ele disse que o sonho dele é um marido que faça bolo no final de semana.

Breno ri, negando com a cabeça.

— Eu disse que admiro quem tem esse talento, Caio. Não coloca palavras na minha boca. Mas é verdade, Adriano. É uma profissão muito foda. Se precisar de consultoria jurídica pra abrir o seu próprio negócio no futuro, o meu escritório tá à disposição.

— Viu só? — Caio levanta as sobrancelhas pra mim, como se dissesse "pega logo". — Além de lindo, é útil. Um partidão.

A minha bicha amiga está jogando o Breno pra mim pra tirar o peso da própria covardia das costas. Eu me sinto meio balançado pelo Breno por um segundo — o cara é o pacote completo de estabilidade e beleza —, mas eu não sou assim. Sou fiel. Eu amo o Caio demais pra pegar o cara que ele nitidamente gosta, e a minha cabeça ainda é toda do Nathan, por mais puto e confuso que eu esteja hoje.

— Muito obrigado, Breno — respondo, dando um sorriso amigável. — Quando eu for abrir a Adriano Cakes, você vai ser o primeiro a saber. Mas por enquanto, eu tô muito bem comprometido.

Caio revira os olhos com tanta força que eu acho que ele vai ver o próprio cérebro.

Logo depois, o Luan aparece, arrastando uma cadeira de madeira pra sentar com a gente.

— Chegou o pastorzinho — Caio dispara, destilando veneno. — Não sabia que você saía de casa antes da meia-noite, varão.

— E aí, jararaca. — Luan rebate, a voz grave e cansada, sentando pesadamente. — Achei que cobras não gostassem de lugares movimentados.

Eu assumo o meu eterno papel de mediador da ONU.

— Chega, vocês dois. Breno, ignora o fogo cruzado. Vou pedir uma porção de batata frita.

O pub está cheio, a música tocando alto. Olho pro balcão e vejo o Ykaro lá, jogando coqueteleiras pro alto, com aquela cara fechada e impenetrável de sempre.

De repente, a Stella nos vê e vem correndo nos atender. Ela está toda radiante, com o avental sujo de espuma de chope e o cabelo ruivo preso num coque alto. Ela chega na nossa mesa, entrega a nossa porção de batata e, sem nenhum aviso, debruça sobre o ombro do Luan e dá um beijo de língua intenso nele, bem na frente de todo mundo.

Eu sorrio, achando a cena fofa. Mas o meu sorriso morre quando eu olho pros detalhes.

O Luan corresponde, claro, mas o corpo do gigante inteirinho trava. Ele puxa a Stella de leve pelos ombros, quebrando o beijo muito mais rápido do que ela queria. Ele dá um sorriso amarelo, forçado, e os olhos escuros dele desviam instantaneamente em direção ao balcão, buscando as costas do Ykaro.

Eu conheço o Luan desde a infância. Ele é reservado, mas ele nunca rejeitou afeto da Stella em público assim. Tem um desconforto gigante nele agora. Um nervosismo que beira o pânico e que não é só timidez. O Caio e o Breno estão distraídos conversando, mas eu capto o movimento na hora. Só não faço a menor ideia do que diabos isso significa.

A Stella volta pro salão, alheia à tensão, e eu aproveito que os meus amigos estão todos reunidos pra desabafar.

— Aquele asno do Henrique mudou o horário do Nathan — falo, batendo o meu copo de chope na mesa com força. A raiva volta a borbulhar. — Jogou o moleque pro turno da noite.

— O que isso quer dizer na prática? — Breno pergunta, pegando uma batata.

— Quer dizer que agora eu chego em casa e ele ainda tá logado no sistema até meia-noite! Vou ter que me contentar em ver meu namorado só no final de semana, se der sorte.

— Namorado? Quando foi o pedido com aliança e buquê? Porque eu perdi essa parte — Caio ergue uma sobrancelha, o sarcasmo pingando de cada palavra.

— Você entendeu, Caio. A gente tá junto. E o que me deixa mais louco, o que tá me fazendo espumar de ódio, é que o Henrique tá dando em cima do Nathan na cara dura.

Luan franze a testa, prestando atenção agora.

— Como assim dando em cima, Dri?

— Ele não tem vergonha nenhuma! Eu vi hoje. Passou a mão no ombro dele no meio do salão, cheio de sorrisinho, sussurrando no ouvido dele. E o pior é que ele faz isso na frente de todo mundo.

Caio estala a língua no céu da boca, encostando as costas na cadeira e cruzando os braços. A postura de juiz implacável volta com força total.

— Adriano, amor da minha vida, presta bastante atenção no que você tá me dizendo. O seu supervisor, que tem a fama de pegar a empresa inteira, muda o horário do novato "coincidentemente" pra ficar no mesmo turno dele, assedia o moleque no meio do andar, e o novato aceita tudo de boa?

— Ele é calouro, Caio! — eu rebato, aumentando a voz, a defensiva tomando conta. — Ele tá na experiência! Ele não pode bater de frente com a supervisão! Você queria que ele fizesse um barraco e perdesse o emprego?

— Ou ele simplesmente não quer fazer barraco porque tá gostando — o veneno do Caio espirra com precisão cirúrgica. — Eu já te falei, Dri. Esse garoto esconde alguma coisa muito grossa. E eu não tô falando da putaria escondida de vocês. Ele é cheio de segredos. Tem furo nessa história dele.

Olho pro Luan, esperando desesperadamente que o meu porto seguro me defenda. Que ele diga que o Caio é louco e amargurado. O Luan aperta o copo de cerveja com as mãos grandes, olha pro fundo do líquido amarelado e solta um suspiro pesado, fechando os olhos por um segundo.

— Dri... — Luan começa, ajeitando a postura na cadeira. — Você sabe que eu odeio dar razão pra essa víbora. Odeio mesmo.

Caio dá um sorrisinho vitorioso de canto de boca.

— Até tu, Brutus? — pergunto, sentindo uma pontada de traição rasgar o meu peito.

— Não é isso, mano. Não tô dizendo que o moleque não presta. É só que... — Luan me olha com uma seriedade que dói. — Essa parada do chefe mudando o horário. Do assédio na cara dura e ele não reagir, não te mandar uma mensagem reclamando. Tem algo errado aí. O Caio pode falar do jeito mais escroto possível, mas eu também sinto isso. Toma cuidado pra não ser o último a saber das coisas, só isso. Protege o seu coração, Adriano.

O resto da noite vira um borrão de gosto amargo na boca. O Breno tenta animar a mesa contando uma história engraçada sobre um juiz do fórum que dormiu na audiência, mas a minha cabeça está longe. As palavras do Caio e do Luan ecoam na minha mente, misturando-se com a imagem da mão do Henrique no pescoço do Nathan.

Quando eu chego em casa, por volta da meia-noite, a casa está escura e silenciosa. Tomo um banho frio, visto uma cueca velha e deito na minha cama.

Pego o celular com as mãos um pouco trêmulas e abro a conversa do Nathan. Ele deve estar saindo do trabalho agora.

Adriano: "Cheguei em casa. Tô com muita saudade hoje. Odiei essa mudança de horário. Queria muito você aqui comigo."

Envio. Fico olhando para a tela iluminada no escuro do quarto, o brilho machucando os meus olhos. Um risquinho. Dois risquinhos cinzas.

O status lá em cima muda para "Online".

Meu coração dá um salto. Ele viu. Ele entrou no aplicativo.

Mas os risquinhos continuam cinzas. Ele não abriu a minha conversa. O "Online" some. Nenhuma confirmação azul. A foto dele, sorrindo inocente no perfil, parece zombar da minha cara de idiota.

Passam dez minutos. Meia hora. Nada. Nenhuma palavra.

— Ele deve estar cansado... a operação é puxada — sussurro pra mim mesmo, tentando forçar os meus olhos a fecharem e a minha mente a se acalmar.

Mas no fundo do meu peito, onde a paixão cega e desesperada não alcança, uma rachadura fina e gelada começa a se abrir. É o meu primeiro suspiro real de desencanto. Aperto o celular contra o peito no escuro, tentando me convencer de que tudo vai ficar bem amanhã, que ele vai me dar uma desculpa plausível. Mas a voz do Caio não sai da minha cabeça.

Tem alguma coisa muito errada com o príncipe da jockstrap vermelha. E eu estou morrendo de medo de descobrir o que é.

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Comentários

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até o momento estou gostando mais dessa versão do conto do que a anterior, apesar de continuar não gostando do ykharo e Luan como casal, mas isso já é uma questão minha msm kkkk.

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