Eu estava parado no meio da sala, olhando pra ela ali no chão, estava visivelmente abalada, toda patética, implorando o meu perdão.
Claire estava ajoelhada bem na minha frente, os olhos marejados, vermelhos, inchados de tanto chorar. As lágrimas escorriam pelo rosto dela sem parar, o cabelo castanho claro bagunçado caindo sobre os ombros. Ela tremia levemente, as mãos estavam juntas sobre sua coxa como se rezasse, e a voz saía rouca, quebrada, implorando sem parar.
— Me perdoa, Mark... por favor... eu estou arrependida de verdade. Eu me deixei levar por uma aventura idiota, por aqueles passeios que ele me levava, pela forma como ele me induzia... eu não sei o que deu em mim. Eu te amo, eu sempre te amei. Foi um erro, um erro enorme.
Eu fiquei em silêncio por um segundo, só absorvendo tudo. O apartamento parecia menor, o ar mais pesado. Meu coração batia forte, mas não era só raiva. Era uma mistura de dor, decepção e algo mais frio que eu ainda não conseguia nomear direito. Olhei pra ela e falei baixo, controlado:
— Tudo que está acontecendo agora é culpa sua, Claire. Só sua.
Ela ergueu um pouco o rosto, lágrimas caindo no chão, e assentiu rápido, desesperada.
— Eu sei... eu sei muito bem disso. Mas eu estou arrependida, amor. Eu juro que estou. Eu não queria que nada disso tivesse acontecido.
Eu respirei fundo, cruzando os braços. A imagem dela ali, ajoelhada, me lembrava de todas as noites que a gente tinha passado juntos no começo — o congresso, o primeiro beijo, o jeito como ela me olhava como se eu fosse o único homem do mundo. Agora era diferente. Tudo era diferente.
— Quem é ele? — perguntei direto, sem rodeio. — Quem é o seu amante?
Claire baixou a cabeça de novo, os dedos esfregando um no outro, ansiosa. Não respondeu logo. Só ficou ali, respirando pesado.
— Isso não importa mais — murmurou finalmente. — A gente não vai se ver nunca mais. Eu cortei tudo.
Eu dei um passo mais perto, a voz ainda baixa mas firme.
— Por que você não quer me falar? O que você está escondendo?
— Eu não quero prejudicar ninguém, Mark. Não quero que isso vire um escândalo maior do que já é. Eu cortei todos os laços com ele. Acabou. De verdade.
Eu fechei o punho ao lado do corpo, sentindo o sangue subir. Olhei pra ela com raiva pura nos olhos.
— Você acha mesmo que simplesmente não se verem mais vai resolver o problema? Você está grávida, Claire. Grávida de outro homem. Como isso vai se resolver?
Ela não disse nada. Só ficou ali, cabisbaixa, os ombros tremendo mais forte. O silêncio encheu a sala inteira. Eu levantei o punho fechado, fazendo menção como se fosse bater nela , o braço tremendo de raiva contida. Claire fechou os olhos rápido, encolhendo o corpo, esperando o golpe.
Mas eu não bati.
Em vez disso, abri a mão devagar e deixei meus dedos deslizarem pelos fios do cabelo dela. Carinho leve, quase gentil. Ela abriu os olhos, surpresa, lágrimas ainda caindo.
— Em todo esse tempo desde que eu te conheci — eu disse baixinho, a voz rouca —, eu nunca levantei a voz pra você. Por que você acha que eu poderia te agredir agora?
Claire soltou um soluço alto e se jogou pra frente, abraçando minhas pernas com força. O rosto dela pressionado contra mim, chorando sem controle.
— Eu vou mudar, Mark. Eu juro. Eu vou fazer você confiar em mim de novo. Eu vou fazer você me amar como antes. Me dá uma chance... por favor.
Eu fiquei ali, mão ainda no cabelo dela, sentindo o corpo dela tremer contra o meu. Parte de mim queria empurrar ela pra longe. Outra parte... outra parte ainda doía demais pra reagir. O telefone tocou de repente, quebrando o momento. Era alguém que eu estava esperando me ligar. Olho para ela e digo.
— Levanta. Se recomponha. Eu vou atender lá fora.
Ela se levantou devagar, limpando o rosto com as mãos, com os olhos ainda vermelhos. Eu saí pra varanda, fechei a porta de vidro e atendi.
Conversei tudo que precisava com a pessoa do outro lado da linha, que me deu boas notícias sobre o que eu precisava. Logo em seguida, fiz uma outra ligação, e quando finalizei, senti o vento bater o meu rosto.
Fiquei ali uns minutos, olhando a cidade lá embaixo, o vento frio batendo no rosto. Muitas coisas ainda iriam acontecer naqueles próximos dias, e o vislumbre da cidade me fazia ter a determinação de continuar. Quando voltei pra dentro, Claire estava sentada no sofá, quieta, esperando.
Os próximos dois dias passaram num ritmo estranho, quase suspenso. Claire seguia como uma verdadeira dona de casa, ela cozinhava, fazia meu almoço, jantar. Não foi mais trabalhar, ela sentiu nesse período um enjoo, indicando que estava realmente grávida. Pedi para ela ir ao médico quando pudesse.
Fui trabalhar normalmente, o debate entre os candidatos aconteceu, eu o cobri muito bem. Paralelamente, eu estava trabalhando em outra "matéria".
A gente foi ao hospital duas vezes, visitas curtas, tensas. Nada demais aconteceu além disso. Derrick finalmente recebeu alta no segundo dia. Ele estava acordado, sentado na cama, ainda um pouco pálido mas com aquela cara durona de sempre.
Quando a gente chegou no quarto, Linda estava do lado de fora, no corredor. Eu perguntei se podíamos entrar e ela disse que sim, com um aceno cansado. Nós dois entramos. A primeira coisa que Derrick fez foi olhar direto pra Claire, com a voz grossa e cheia de decepção.
— Sua vadia desgraçada... você tem ideia do que você fez?
Claire parou no meio do quarto, como se tivesse levado um soco. Eu só olhei, sem dizer nada. Ela voltou a chorar na hora, se aproximou da cama devagar. Derrick continuou, sem piedade:
— Você fez meu nome e o da sua mãe irem pra lama. Prejudicou o pobre do seu marido, que sempre fez tudo por você. Não foi esse tipo de educação que eu te dei. Você está se comportando igual essas meninas modernas que acham que podem ter namorado em todo lugar.
Claire ficou cabisbaixa, lágrimas caindo no chão do quarto. Linda, ao lado, deu um tapa forte no rosto da filha. O som ecoou. Claire não reagiu, só chorou mais baixo.
Derrick olhou pra mim então, os olhos cansados mas firmes.
— Você deveria dar um cacete nela, Mark. Fazer ela aprender.
Eu balancei a cabeça devagar, voz calma.
— De jeito nenhum, sogro. Eu não posso fazer isso. Se eu fizer, qualquer sentimento que ainda resta entre nós vai se quebrar de vez. Além do mais, ela já prometeu lá em casa que não vai mais fazer isso. Acho que toda essa situação vai servir de lembrete pra ela.
Claire ergueu o olhar pra mim nesse momento, os olhos marejados, cheios de uma esperança frágil. Como se eu realmente estivesse a perdoando. Linda e Derrick trocaram um olhar, depois olharam pra mim com algo parecido com gratidão.
— A gente não merece você como genro — murmurou Linda, a voz embargada. — Nunca mereceu.
Eu não respondi. Só olhei pro relógio na parede, depois liguei a TV do quarto como se não quisesse mais nada com a conversa. Estava passando o canal de notícias da cidade. A manchete bombando era sobre o candidato a prefeito, o renomado advogado Lucio Forest.
Diziam que ele estava usando a empresa de advocacia pra lavar dinheiro. Além disso, corriam boatos fortes de que ele tinha uma amante. Ele foi procurado pela direção do noticiário, mas negou dar qualquer entrevista. A esposa dele, uma linda mulher de olhos azuis, cabelos negros, disse que isso era só boatos para prejudicar seu marido.
As últimas pesquisas, indicaram que ele teve uma leve queda nas intenções de voto, mas ainda estava vencendo.
Eu olhei pra tela sem mexer os olhos. Meus lábios esboçaram um sorriso sutil, quase imperceptível. Meu olhar deslizou pro canto e encontrou o de Claire. Ela estava em choque, o rosto pálido, os olhos arregalados fixos na TV. Os pais dela assistiam também, comentando baixo.
— Eu sempre disse que não foi uma boa ideia vocês terem vindo morar aqui — resmungou Derrick. — Olha que tipo de nível de candidato essa cidade tem. Corrupto e ainda com amante. Nojento.
Eu peguei o celular devagar, sem ninguém notar, e mandei uma mensagem rápida pra um número que eu tinha guardado. Guardei o aparelho e chamei Claire com a voz normal:
— Vamos embora. Já está tarde.
No caminho pro carro, enquanto dirigia, eu comentei sutil, sem olhar pra ela:
— Ainda bem que você saiu daquele escritório. Pelo jeito ele está envolvido em muita coisa.
Claire só esboçou um “é” cansado, olhando pela janela, os ombros caídos.
Quando chegamos em casa, ela preparou um jantar simples — macarrão com molho que eu gostava, salada, vinho. A gente comeu quase em silêncio. Depois eu fui tomar banho. A água quente batia nas costas, relaxando um pouco a tensão dos dias.
De repente a porta do box abriu. Claire entrou nua, o corpo ainda perfeito, seios médios firmes, bumbum redondo, pele molhada na hora. Ela me beijou devagar, as mãos subindo pelo meu peito.
— O que você pensa que está...? — Comento ali, ela me cala.
— Shhh. Por favor, eu só quero... Me reconectar a você.
A gente começou as preliminares ali mesmo, no chuveiro. Beijos quentes, as mãos dela me tocando, as minhas deslizando pela cintura dela, apertando a carne macia. O tesão veio forte, apesar de tudo. Eu a levantei um pouco, encostei ela na parede fria e entrei devagar. Comecei a socar meu pau, ele começou a entrar lento, gostoso. Ela tentava me beijar, ora eu aceitava, ora eu rejeitava, e ela entendia isso. A água seguia caindo sobre nossos corpos, eles eram tomados por uma mistura pecaminosa de prazer, mas ao mesmo tempo, dor.
O sexo foi intenso, molhado, os gemidos dela ecoando no banheiro. Eu me deixei levar pelo momento, o corpo vencendo a cabeça por alguns minutos.
Depois a gente saiu do chuveiro e foi pro quarto, ainda molhados, continuando. Mas quando ela se deitou na cama, eu parei. Não consegui mais. O corpo travou. Claire notou na hora.
— Eu vou me livrar da cama! — disse ela baixinho, já se levantando pra trocar os lençóis.
Eu fui pra varanda, o ar da noite frio contra a pele. A razão havia voltado, e junto dela, um certo nojo com tudo que aconteceu. Com a toalha amarrada na cintura e os cabelos levemente molhados, fiquei ali fumando um cigarro que eu tinha guardado, olhando a cidade.
Ela terminou de arrumar tudo. A noite acabou assim, cada um no seu lado da cama, silêncio pesado.
No dia seguinte eu saí cedo, dirigindo sem destino certo. Estava passando por uma rua tranquila quando vi ela. Uma mulher linda, de olhos azuis penetrantes, cabelos negros longos e lisos, elegante de um jeito que chamava atenção sem esforço. Ela estava numa floricultura pequena, escolhendo flores. Eu parei o carro, desci e entrei na loja.
Ela estava com um buquê de tulipas nas mãos. Eu me aproximei devagar e comentei, sorrindo:
— Tulipas são minhas flores favoritas também.
Ela virou, os olhos azuis encontrando os meus. A gente trocou uma conversa breve — sobre flores, sobre o dia bonito, sobre Nova York sendo uma cidade cheia de surpresas. Nada profundo. Só leve, natural. Depois a gente se despediu com um aceno educado.
Eu voltei pro carro, esbocei um sorriso e pensei baixinho:
Tudo está acontecendo exatamente como eu queria.