Pacto de Silêncio:

Um conto erótico de Hero
Categoria: Heterossexual
Contém 2226 palavras
Data: 10/04/2026 16:07:38

​Pacto de Silêncio:

O Verso do Luxo

​Ricardo e o Marcos eram o que a sociedade chamava de vencedores. Um engenheiro de elite e um advogado de peso. Mas, dentro das suas mansões, o clima era de velório. Eu sou o cara alto, atlético, com aquele bigode que impõe respeito em qualquer mesa de diretoria. O meu parceiro já é o oposto no físico: mais baixo, careca, ombros largos como um armário e uma força bruta que a sua esposa chamava de grosseria. Cansados de sermos pisados, alugamos uma cobertura que virou o nosso "escritório". Lá, o mundo ficava da porta para fora.

​Naquele refúgio de elite, o espaço era um latifúndio, mas a etiqueta passava longe. A primeira coisa que caía por terra eram as roupas executivas. Nós não perdíamos tempo com a etiqueta cobrada pelas nossas esposas esnobes. Ficávamos à vontade, de cueca ou pelados, circulando pelas peças da cobertura. Ali, o silêncio que todo homem busca era sagrado. Mijávamos com o assento do vaso levantado, bebíamos água no gargalo e assistíamos futebol usando as camisetas dos nossos times. A única coisa que nos separava era o clássico: Grêmio versus Inter. Derrubávamos cerveja no chão, fumávamos sem parar e deixávamos os cinzeiros imundos. Não havia perturbação, pois pagávamos muito bem alguém para limpar a bagunça depois que íamos embora. Não tinha frescura de figurino; era só pele com pele, o conforto de ser quem se é. O suor e a masculinidade sem filtros eram as únicas regras daquela casa.

​Foi entre um uísque e outro que traçamos o plano. Como ambos ganhávamos rios de dinheiro, decidimos atacar onde mais doía nelas. Começamos a plantar a semente da crise, avisando que os negócios estavam caindo. O limite dos cartões delas começou a despencar. As regalias e os mimos de luxo foram cortados um a um. Não demorou para o jogo virar. Vendo a fonte secar, elas começaram a tentar voltar a ser "ótimas esposas". De repente, o jantar estava pronto e o tom de voz mudou. Mas não éramos amadores. Sabíamos que aquele teatro era movido a cifrões. Elas não sentiam falta de nós; sentiam falta do saldo bancário.

​Eu estava ali, desabado na poltrona da cobertura depois de dois dias sumido, sentindo o peso de cada palavra. O meu amigo apenas ouvia, com o peito travado.

​— O pior de tudo, meu amigo, é saber que aquele moleque não tem culpa de nada — falei, sentindo um nó na garganta. — O guri estava ali fazendo o seu papel. E o que me rasga o peito é saber que ele provavelmente foi pago com o meu dinheiro. Eu ralo, levanto impérios, e o meu suor serviu para pagar a foda que acabou comigo. Eu financiei o prazer da minha mulher com um cara que não tem onde cair morto, mas que tem o que ela queria.

​Ele parou na minha frente. A dor vinha em ondas.

​— Ele é novo... um guri sem posse, sem poder, sem nada. Mas ele tinha a fome da minha esposa. Eu fui traído pela confiança, pelo dinheiro e pelo corpo dela. Ela estava lá... dando aquele cuzinho que ela sempre me negou. Aquela raba que eu nunca pude tocar direito porque ela dizia que era "sujo", que era "baixo nível", estava lá, aberta para um moleque socar com tudo. Ela estava sendo uma cadela! Uma safada pedindo mais, implorando para o guri não parar enquanto ele enfiava até o talo sem camisinha. Ela se transformou numa vadia de luxo paga por mim, mas que só atendia os desejos daquele moleque.

​Eu tremia de ódio frio. Peguei o celular com a mão instável.

​— Eu filmei... Consegui gravar boa parte daquela sujeira. Está tudo aqui no meu aparelho. Isso vai ser o fim dela.

​Dei o play. O meu parceiro assistia com os olhos injetados. Quando a imagem mostrou a minha esposa se entregando daquele jeito visceral, fazendo o que sempre nos negou, ele não aguentou.

​— Filha de uma puta! — explodiu, num urro que veio do fundo da alma.

​O amigo arremessou o seu copo de uísque contra a parede. O cristal estourou em mil pedaços. Naquele segundo, o barulho do vidro quebrando foi o som do que sobrou de nós. Éramos apenas duas pessoas, despidas de qualquer poder, sentindo a mesma dor.

​— Chega — eu disse, com a voz gélida. — Não toca mais nesse assunto. Nunca mais. Eu não volto mais para aquela casa. Vou morar aqui. Vou comprar tudo novo, do zero. Não quero nem o cheiro daquela vida na minha pele. Tenho que refazer o meu armário, a minha vida, tudo com as minhas próprias mãos.

​O meu celular não parava de vibrar no sofá. Era ela, mandando mensagens de "preocupação".

​— Deixa ela ligar — falei, olhando para o aparelho. — Deixa ela se rasgar na dúvida. Nós agora vamos jogar o nosso jogo.

​Ficamos ali, no meio dos cacos e do cheiro do uísque. Éramos só dois caras tentando entender como a gente tinha se tornado tão pequeno diante de quem a gente mais amava.

​O silêncio que veio depois do copo estilhaçado era pesado, mas aos poucos o ar foi mudando. Eu ainda estava ali, estagnado, com os olhos fixos nos cacos, quando senti que a barreira de raiva do parceiro começou a ceder. Ele não conseguia ficar parado vendo o meu desespero. Devagar, o homem atravessou a sala, desviando dos vidros, e parou na minha frente com um sorriso de canto, tentando quebrar aquele clima de velório com o seu jeito bruto.

​— Olha aqui para mim, Ric — disse ele, estufando aquele peito de armário e fazendo uma pose de fisiculturista. — Tu está chorando por causa daquele projeto de gente? Olha bem o tamanho desse teu parceiro aqui. Tu acha que eu perco para aquele guri de academia? Eu sou muito mais forte, sou mais bonito e, no mínimo, tenho mais pegada que aquele frango. Tu não precisa de nada que venha daquela casa. Não precisa dela, não precisa de ninguém. Tu tem a mim, porra!

​Eu olhei para ele e, pela primeira vez em dois dias, senti um riso frouxo querendo sair. Aquele jeito do meu amigo se gabar era tão absurdo que o peso no meu peito deu uma aliviada. Levantei-me devagar e entrei na dança.

​— Mais bonito, é? Tu é um convencido, isso sim — brinquei, já sentindo uma energia diferente. — Mas deixa eu ver se esse músculo todo é de verdade ou é só pose de advogado.

​Dei um passo rápido e o cerquei por trás, passando os braços pelo seu tórax largo. Começamos uma luta de brincadeira, meio rindo, meio se testando.

​— Ah, é? Agora tu quer ver, safado? — eu falei bem junto ao seu ouvido, segurando firme e dando uma mordida de leve no seu pescoço. — Agora tu vai ver quem é que manda nessa cobertura. Eu vou ter que te pegar agora, seu sem-vergonha. Vou te comer para tu aprender a não se achar tanto.

​O amigo soltou uma gargalhada grossa, mas não recuou. Pelo contrário, virou-se nos meus braços com uma agilidade que eu não esperava, me prensando contra o balcão da cozinha americana com uma força que me deixou sem ar. O clima de piada sumiu num estalo, dando lugar a uma urgência que vinha do fundo das entranhas.

​— Pois então vem, engenheiro — desafiou, com a sua voz rouca e os olhos fixos nos meus. — Mostra que tu ainda é o dono da porra toda. Eu não vou a lugar nenhum.

​Ali, no meio da sala, com o cheiro do uísque entornado e o brilho dos cacos no chão, nós nos entregamos. Não teve frescura, não teve etiqueta e, principalmente, não teve nenhuma lembrança daquelas mulheres. Foi um ato de posse, de raiva transformada em desejo puro. Eu o agarrei com uma fome de quem precisava reafirmar que ainda estava vivo. As mãos dele, pesadas e firmes, me apertavam com uma vontade que me fazia esquecer qualquer traição. Nós nos exploramos com uma intimidade nova, sem as amarras do que a sociedade esperava. Naquele momento, éramos apenas dois parceiros selando um pacto com o corpo. O suor dele misturado ao meu, a respiração forte e a certeza de que, naquele refúgio, éramos os únicos reis. Senti o seu desejo bruto pedindo passagem. Quando finalmente desabamos juntos, o silêncio que ficou não era mais de dor. Era o silêncio de quem tinha acabado de retomar o território.

​Depois da tempestade, o corpo finalmente pediu arrego. Fomos para o quarto principal, o único que já estava montado com uma cama digna de dois gigantes. Não rolou mais nada; o sexo bruto da sala já tinha selado o pacto. Deitamos um do lado do outro. Antes de apagar, ele me olhou, puxou o meu rosto e me deu um beijo, um estalo seco de parceria.

​— Dorme, Ric, que amanhã o mundo vai conhecer a nossa nova cara — murmurou antes de começar a roncar pesado.

​Fechei os olhos sentindo que, pela primeira vez em anos, eu não era um projeto de marido, eu era apenas eu.

​Acordamos com o sol batendo na cara e uma vontade de chutar o balde que não cabia no peito.

​— Levanta, engenheiro, que nós vamos queimar o teu cartão e o meu hoje — gritou o parceiro, já jogando uma toalha na minha cara.

​Fomos para o shopping mais caro da cidade, mas não entramos em nenhuma daquelas lojas de terno que nossas esposas adoravam. Entramos em uma loja de roupas pesadas, estilo motociclista e streetwear de luxo. O vendedor olhou para nós dois — dois caras grandes, com cara de poucos amigos — e quase tremeu.

​— Esquece tudo o que tu sabe sobre moda, guri — disse o meu amigo, pegando uma jaqueta de couro legítimo e jogando para mim.

​O provador virou o nosso palco particular. O parceiro pegou uma calça de couro preta, bem justa, e saiu fazendo pose de astro do rock. Eu olhei para ele, coloquei as mãos na cabeça e soltei uma gargalhada que ecoou pelo corredor.

​— Pelo amor de Deus, tu vai prender a circulação desse teu peito de armário e o juiz vai ter que te dar oxigênio no meio da audiência — eu disse, levantando da poltrona.

​— Volta aqui, seu engenheiro metido, tu ainda não viu nada — ele gritou, rindo alto e fazendo uma sarrada no ar só para me provocar.

​Aí foi a minha vez; peguei uma camisa de linho toda aberta, com umas correntes pesadas. Quando saí, o amigo se jogou no sofá da loja e começou a assoviar, debochando da minha cara.

​— Olha só se não é o garanhão da construção civil, pronto para seduzir as betoneiras da obra — disparou, levantando-se para puxar o colarinho da minha camisa nova.

​Experimentamos dezenas de calças, e cada peça nova era uma munição para uma piada mais pesada que a outra. Em um momento, saí com uma jaqueta cheia de zíperes e ele apenas apontou para mim, balançou a cabeça negativamente e saiu andando, fingindo que não me conhecia.

​Depois de muita palhaçada, decidimos o que levar. Olhamo-nos no espelho, já vestidos com as roupas novas, e o deboche deu lugar a uma satisfação bruta de quem finalmente se reconhece.

​— Joga esses trapos de terno num saco e bota no lixo — ordenou ele para o guri da loja. Saímos de lá carregados de sacolas, caminhando com a postura de quem não deve nada para ninguém.

​Em seguida, ele me puxou para uma loja de roupas íntimas caríssimas.

​— Chega de cueca de pacote de supermercado que aquelas pães-duros compravam para nós, Ric — disse o parceiro, passando a mão numas peças de seda.

​— Elas economizavam na nossa pele para gastar em salão de beleza, mas agora o jogo mudou — respondi.

​Um atendente jovem, de uns 28 anos, chamado Lucas, aproximou-se.

​— Solteiro, né, Lucas? — eu emendei, trocando um olhar rápido com o amigo.

​— Sou solteiro, sim — confirmou o rapaz, sem se intimidar com o tamanho dos dois marmanjos.

​— Entra aí, Lucas, que nós queremos conferir essas costuras de perto — o meu parceiro ordenou, indicando o provador VIP.

​Entramos os três no espaço cercado de espelhos. Acomodamo-nos nos bancos de couro, ocupando o espaço com a nossa presença. O Lucas ficou de pé, sentindo os nossos olhares. Quando ele tirou a calça, ficando apenas com uma cueca semitransparente, o ar pareceu sumir. O rapaz deslizou a peça para baixo, ficando nu diante de nós. No mesmo segundo, nós dois levamos as mãos aos olhos, caindo na risada. O rapaz começou a ter uma ereção, mas nós não queríamos aquilo daquela forma.

​— Baixa a bola e este cacete, guri, que nós só queremos ver se o pijama vai cair bem — eu disse, cortando o clima com um tom gélido e divertido.

​Antes de sairmos, escolhemos as duas cuecas pretas mais caras da loja, exatamente iguais.

​— Essas aqui são o nosso uniforme — falei, colocando a mão no ombro dele.

​— É o nosso uniforme de guerra... agora ninguém mais pisa na gente — sentenciou o amigo.

​Já longe do shopping, joguei a sacola pequena no seu colo.

​— Abre aí, careca... vê se a tromba combina com o teu "peito de armário" — explodi em gargalhada.

​Quando ele viu o elefantinho e eu balancei a minha transparente na frente dele, o carro quase saiu da pista de tanto que ríamos. A dor da traição ainda estava lá, mas o deboche e a parceria eram o único remédio que prestava.

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