Eu transei com o meu tio no Natal, não havia nada que ia mudar isso, quando acordei no dia seguinte e fui tomar meu banho eu me sentia confusa, mas ao mesmo tempo, algo dentro de mim, havia mudado, eu não tinha nem uma fantasia em relação a ele querer mais do que sexo, veja bem, mas ele não me tratou como o sobrinho putinho, ele realmente me tratou como uma garota, a forma, a delicadeza, eu passei longos minutos na cama pensando nisso…
E depois, mais longos minutos no banho pensando nisso… Coloquei a minha roupa para lavar e levei direto para o quarto da minha irmã, quando estava saindo minha mãe me parou, “Porque suas roupas estão ficando no quarto da sua irmã?”, eu senti um frio na barriga, “Porque ela vai ver se troca para mim, ué?”, uma desculpa besta, mas funcional, “Aquela calça de ontem estava muito escandalosa, não quero mais você com algo assim.”, eu respiro fundo, olho para ela, “Eu gostei dela.”, “Estava horrível e escandaloso Paulo.”, “Então eu tenho mal gosto.”, ela olha para mim, com um olhar de raiva…
“Em casa a gente conversa direito, quero olhar suas roupas, acho que seu guarda-roupa precisa mudar e bastante pelo visto.”, eu sinto meu coração apertado e ela sai andando, eu olho em volta, sentindo minha mente, confusa, querendo chorar, eu estava de volta no visual, tactel, blusinha regata e calcinha, dessa vez, a cuequinha feminina azul, eu saio correndo da casa, quando estou saindo pela varanda trombo com o meu tio.
“Exatamente quem eu queria encontrar, vamos comprar pão.”, ele não me dá escolha, só me puxa pelo braço para a pick up, antes que o Padre nos veja juntos e sai…
… … … … … … … … …
Estávamos no carro seguindo para a padaria quando ele fala, “Paulinha o que foi aquilo ontem?”, eu olho para ele confusa, “Eu não sei, me diz você?”, ele olha para mim e percebe minha confusão, “Eu… Menina, como você…”, percebo que ele está confuso, “Eu não sei o que dizer Paulinha, só sei que você mexeu com o titio.”, “Eu não sei o que fazer.”, ele olha para mim, tira uma mão do volante para acariciar meu rosto, “Nem eu tão pouco menina.”, ele suspira e vamos comprar o café da manhã.
Estávamos na padaria, ele parecia pensativo, quando resolveu abordar o assunto, “Paulinha?”, eu olho para ele, estava terminando de colocar algumas sacolas no banco de trás, “Pois não tio?”, eu sentia que ele queria conversar estava até estranhando um pouco, mas, percebia algo, “Você é como aquela Glamour Garcia, Roberta Close, essas… Mulheres, que eram homens.”, eu sinto meu sangue gelar, ao mesmo tempo, percebo que ele está querendo me entender, então faço que sim com a cabeça.
“Entendi… Vamos para casa.”, ele volta para o volante, eu para o banco, olho para ele, meio sem entender, ele parece estar refletindo, enquanto dirige rápido para casa… “Acho que ontem acabou sendo bem diferente do que eu imaginava Paulinha, acho que o tio te entendeu errado, peço desculpas.”, eu olho para ele por um tempo faço que sim com a cabeça.
… … … … … … … … …
Quando voltamos para casa, o Padre olhou para nós dois com um olhar acusativo, mas tomamos café sem falar, nada, meu tio após o café se retirou logo para a sala, dizendo que queria ver tv, eu respiro fundo e me levanto, o Padre meio que entrou no meu caminho, “Espero que esteja pensando no que eu te falei.”, “Estou sim.”, “Ótimo, fico mais feliz assim.”, ele deixa eu ir, mas sinto seu olhar de julgamento.
Apesar de tudo o dia 25 passou sem incidentes e eu estava me divertindo tanto que nem percebi que algo havia mudado, algo essencial, algo que colocava engrenagens em andamento,mas que eu realmente não dei bola, não no dia 25 ao menos…
Tio Luiz continuava nos observando, mas ele havia parado de tentar encostar em mim, parado de tentar suas gracinhas comigo, parado inclusive de ficar me olhando com aquela cara de tarado esperando eu olhar de volta, o padre percebeu, voltou suas atenções para nós novamente, eu, Suelen e Valéria, um senta direito aqui, vocês deveriam se comportar ao lado de um garoto, essas coisas que mamãe endossava.
Júlio continuava sendo um fofo, quando eu não estava com as meninas estava conversando com ele pelo celular, se tornou minha pequena ilha longe desse sítio, o que ele fazia muito bem, mas começava a achar que não seria suficiente, só na sexta a tarde eu comecei a entender, meu tio se afastou de mim, por ser uma garota trans, já tinha ouvido falar de caras assim, seja gay, mas não afeminado, acho que é isso né??
Enfim, me machucou e bastante ao entender que era isso…
Mas problemas raramente vêm sozinhos, eu deveria saber disso, deveria estar preparada para isso, ao menos é o que eu pensei quando as coisas explodiram sem aviso, ou melhor os avisos estavam lá, só eu que não dei atenção, estava no quarto da Suelen, com ela e a Valéria ouvindo música quando escutamos uma situação de briga em um dos quartos, saímos rapidamente as três para lá.
Minha irmã e minha mãe estavam discutindo…
“A Senhora não têm nada que fazer no meu quarto.”, minha mãe se defende debochada, “Primeiro que você é minha filha, você não pode me impedir, segundo que eu só quero as roupas do Paulo.”, minha irmã vê eu e as meninas se aproximando, “Pois não vai levá-las, não achou não é mesmo? Que peninha.”, “Patrícia, eu sou sua mãe me dá as roupas.”, “Para a senhora destruir, como fez a vida toda? Não!”, minha mãe vê eu e as meninas e sai andando brava, “Vamos ver se não.”...
Eu olho para a Patrícia, “Relaxa.”, ela se aproxima, “Eu vou deixar meu quarto trancado Pri, aí você pega a chave extra com a Suelen.”, eu faço que sim com a cabeça, “E se a mamãe perceber?”, “Ela não vai entrar no quarto da Suelen, ela não é nem louca.”... Suelen e Valéria deram um risinho com o jeito que ela falou, eu ainda estava séria e abalada.
“Isso não é muito justo com sua mãe Patrícia.”, quem fala é o Padre, logo atrás da gente, olho para ele, assustada, todas olhamos menos minha irmã, “Ela não têm mais esse direito Padre, não posso permitir isso.”, ele olha desafiante, “Porque você está escondendo as roupas femininas inclusive calcinhas que o Paulo está usando.”, eu e as meninas nos olhamos, sinto o medo crescente.
“Olha Padre estou sim, mas isso também não têm nada haver com você, a gente vai contar para ela antes do senhor ir embora.”, ele olha para ela, não gostando do tom de voz, “Quer ver seu irmão no inferno.”, ela sorri, “Acho que o senhor, não sabia, mas não me considero mais católica, então não acredito nessas coisas…”, ele fica vermelho de raiva, olhando para ela, “Patrícia…”, ela não deixa ele continuar, “Você intimidou a Priscila, isso não me deixa nem um pouco no clima para escutar sermão, acho melhor ambos declararmos isso com um empate, você vai conseguir que a gente revele para todo mundo.”, ele olha para ela faz um sim com a cabeça.
“Espero que não siga tal exemplo Paulo, sei que ambos foram criados como bons católicos.”, e se retira… Suelen, está olhando, percebo na postura dela o grito preso na garganta, Valéria está contendo o risinho também, minha irmã olha sorrindo, para nós, “Vão se divertir ao invés de ficarem com essas cabecinhas pensando bobagem.”, as três rimos e voltamos para nossas músicas.
Mas a noite, minha irmã e Danilo saíram para se curtir, e enquanto Valéria tomava banho eu e Suelen estávamos vendo vídeos de música, que ela me fez a pergunta que iria me fazer pensar na rejeição com ainda mais força.
“Priscila você transou com o meu pai?”, eu fico abismada, olhando para ela, olhando para os olhos dela, “Eu… Sim.”, ela dá uma risadinha nervosa, “Poxa como assim mano.”, eu fico sem graça vermelha, “Desculpa Su, como você soube?”, “Eu vi ele e minha mãe conversando.”, eu fico abismada sentindo o medo dentro do meu corpo, “Meu Deus a tia deve estar me odiando.”...
“Priscila meus pais têm relacionamento aberto.”, “QUÊ?”, eu acabo falando super alto, abismada, “Shiu é segredo, só você sabe fora a gente em casa.”, eu faço que sim com a cabeça, toda sem jeito, “Meu pai gosta de…”, eu percebo ela sem jeito tentando encontrar as palavras, “Seu pai é bissexual.”, ela faz que sim com a cabeça, “Acho que o Padre sabe pelo jeito que está pegando no pé dele.”, eu faço que sim com a cabeça, “Também acho.”, ela suspira.
“Se o André ficar sabendo ele vai ficar puto, ele vive brigando com meus pais por causa da vida que eles escolheram.”, eu olho preocupada, “Acho que não vai mais acontecer.”, falo por fim meio sem jeito, me sentindo também um pouco mal, apesar do alívio, “O que houve Pri.”, “Ele meio que não quer mais nada, desde que eu falei…”, “Que você é uma menina trans.”, faço que sim com a cabeça, ela me abraça apertado.
“Ele deve ter outros motivos Priscila, eu acho que não é por você ser uma menina.”, eu abaixei a cabeça e fiz um sinalzinho meio sem saber o que dizer também…
… … … … … … … … …
Eu estava do lado de fora vendo as estrelas no dia 26 mais tarde, falando com o Júlio, faltavam dois dias para o meu aniversário dia 28 o Padre para do meu lado, eu guardo o celular na calça tactel, respiro fundo, mas continuo olhando as estrelas, “Paulo eu quero falar com você.”, eu olho para ele, “Eu não sei se quero falar.”, “Nem tenta que você não é sua irmã.”, ele fala isso e me segura com força pelo pulso, sinto que machuca um pouco olho para ele, me sentindo tremer de medo.
“Você vai parar com esse comportamento escandaloso, chega de calcinha, chega de roupas femininas, ou vou falar para a sua mãe no momento que eu ver.”, eu olho para ele, abismada, de boca aberta, “A gente têm um combinado…”, ele me empurrou contra a parede me segurando com força pelos pulsos, “E algo me diz que você está abusando disso.”, eu olho abismada, “Você só está me punindo pela minha irmã.”, “Eu estou fazendo o que é certo para salvar sua alma.”...
“Começo a achar que seu tio estava certo e que o que faltou para você e sua irmã foi uma figura paterna.”, eu puxo o pulso com toda a força, conseguindo me soltar dele, “Você não sabe nada, sobre mim ou minha irmã.”, “Sei que os dois estão se comportando como o diabo gosta que tal.”, eu fico séria olhando para ele, “Acho que eu vou ter que falar para a sua mãe agora.”...
Eu entro em pânico, “Não espera…”, ele se vira olhando para mim, com os olhos frios como gelo, me fazendo estremecer, “Tah bom eu falo com a minha irmã… E paro…”, ele sorri satisfeito com as minhas palavras, “Isso é para seu bem.”, eu olho para ele, mas desvio os olhos, olhando para o chão, o ódio em meu peito é simplesmente sem palavras, mas não vou estragar o meu aniversário… Só que… Isso me faria tão mal…
Eu fico pra trás, triste, manhosa, sem saber o que fazer para me livrar dessa questão, amanhã é dia 27 véspera do meu aniversário e eu começo a chorar e choro sozinha por um tempo antes das meninas virem ver estrelas também.
“Pri o que houve?”, “O Padre… Disse que se perceber que estou de calcinha vai falar para a minha mãe na hora.”, Suelen é quem fica mais puta, mas me abraça apertado, “Acho que devemos falar com a sua irmã.”, quem diz é a Valéria, “Mas e se ele falar, tipo vai estragar o fim de semana de todo mundo.”, a Suelen segura meu rosto e faz olhar para ela, “E se não falarmos, ele vai estragar o seu.”, a Valéria quem completa, “Priscila, você está tão feliz, não deixa ele estragar não. Vamos ver o que ela fala.”, eu faço que sim com a cabeça.
O problema é que a gente só conseguiria falar com a minha irmã no dia seguinte, ela tinha saído para curtir meu cunhado e só voltaria no sábado pela manhã, hoje eu estava a mercê do que acontecesse, estávamos jantando, quando o Padre resolve mudar nosso acordo mais uma vez…
“Paulo, hoje você vai dormir no meu quarto ao invés do quarto da sua mãe.”, todos olharam para ele e para ela, “Como assim?”, minha mãe quem responde, “Eu conversei com o Padre e talvez, você precise de outra influência fora o Danilo.”, se aproveitando para falar isso enquanto minha irmã e cunhado não estão, “Mas…”, o Padre é quem me cala, “Sem mais Paulo, sua mãe tomou uma decisão se você honra sua mãe, você vai aceitar.”, eu baixo a cabeça e olho para as meninas.
“Sim senhor.”, eu olhei para ele e vi em seus olhos que ele realmente estava satisfeito de fazer as coisas do jeito dele a partir de aqui…
O problema, é que eu não sabia, mas meu tormento nas mãos do Padre, estavam só começando, naquela noite ainda consegui ficar com as meninas, falei com o Júlio, realmente precisava de um suporte.
Julio - Não chora Priscila, eu sei que seu aniversário vai ser maravilhoso e nós vamos nos ver assim que você voltar e sua irmã já prometeu que é a última vez que coisas assim acontecem.
Ele falava, enquanto tentava me acalmar.
Eu - Mesmo assim Júlio, isso está um inferno, é sério, eu estou querendo morrer.
Julio - Não fala assim, espera sua irmã voltar, ela com certeza vai ter algum plano…
Resolvi confiar, era mais uma pessoa apostando tudo que minha irmã conseguiria bater de frente com essa situação, mas isso significava que essa noite, eu ainda teria que me submeter ao que o Padre quisesse, ao menos, assim conseguia me manter sem arrumar confusão…
… … … … … … … … …
Naquela noite quando cheguei no quarto do padre para dormir, ele estava lendo sua Bíblia, me esperando ele fechou a bíblia e olhou para mim de short e camiseta, “Está de calcinha Paulo?”, eu faço que não com a cabeça, “Me deixa ver!”, eu olho abismada, “Eu não vou tirar minha roupa na sua frente.”, “Então amanhã terei a conversa com a sua mãe depois do café.”, eu olho para ele querendo chorar, engulo em seco.
“Então como vai ser?”, eu removo meu short ficando só de cueca e camiseta, “Ok, vejo que cumpriu nosso combinado.”, eu estava tremendo, querendo chorar, me sentindo humilhada e também, exposta e também, violada e foi aí que eu percebi algo. Eu posso ser muito burra, podem dizer o que quiserem sobre mim…
Mas eu reconheço um olhar de desejo e ao contrário do olhar do meu tio, que me deixa lisonjeada, aquele olhar me deu uma onda de náuseas, nunca me senti tão enojada na vida, eu fui dormir, mas estava me sentindo o pior de todos os lixos, nem consigo colocar em palavras, o quão mal eu estava me sentindo tentando dormir com a lembrança daquele olhar, chorei, em silêncio, quietinha até adormecer.
… … … … … … … … …
No dia seguinte eu me sentia um lixo, véspera do meu aniversário, não quis ficar no quarto, com ele, mas também não quis sair de casa, fiquei jogada no sofá, neguei quando as meninas me chamaram, percebi olhar de preocupação do meu tio, da minha tia, já minha mãe e o Padre estavam de conversinha, vitoriosos, quando minha irmã chegou, após acordar e perceber um pouco a situação veio falar comigo.
“Pri o que houve anjo?”, “Nada.”, eu respondo super rápido, com medo, ela percebe e me faz olhar para ela, “Priscila, me deixa te ajudar? O que houve?”, eu ia tentar falar mas comecei a chorar, ela me abraçou apertado e ali com o rosto no peito dela, eu contei tudo o que aconteceu nas últimas horas, não consegui esconder nada, ela me segurou pela mão e olhei para ela um pouco confusa.
“Confia em mim.”, faço que sim com a cabeça, “Então vêm.”, eu me levanto com ela e as duas vamos para o quarto, onde o Padre estava em seu momento de estudos, quando entramos ele fechou a bíblia e olhou para nós…
“Acho que quebrou nosso acordo Paulo.”, ela olha para ele e dá uma risadinha, “É acho que elA quebrou sim.”, ela enfatiza o ‘A’, o que faz o Padre olhar duro para nós duas, “Bom terei que falar com sua mãe.”, eu entro em pânico, mas a Patrícia já fala antes, “Vamos lá eu vou junto.”, eu olho de um para o outro, o Padre parece confuso… “Eu estou louca por esse barraco desde que vocês começaram essa guerra contra ela ontem.”, o Padre parece preocupado agora, olhando para ela.
Minha irmã continua, “Vamos lá, a gente fala com ela e se ela fizer a Priscila chorar, eu vou dar um puta de um barraco para acabar com toda essa porcaria de ilusão de família conservadora tradicional.”, ele olha para ela, “Você não sabe do que está falando.”, ela ri, “Não? Uma mãe solteira, um homem que sai transando com todo mundo mesmo sendo casado. Quer que eu continue?, Quer ver quantos podres eu consigo expor?”, ele parece realmente abalado agora.
“Quer ver o que sobrará do orgulho dessa família quando eu acabar?”, ele respira fundo, “O que você quer?”, ele consegue falar, vejo o receio nos olhos dele, “Nada, eu só quero que você deixe ela em paz. E não se preocupe, antes de você ir, você vai ver esse segredo exposto, mas não quero você pressionando ela e vou garantir, não saindo mais até ela estar pronta para se revelar.”, ele olha para a Patrícia e para mim, “Está bem, será como queira Patrícia. Mas vocês não podem ir contra as leis de Deus.”, ele fala colocando autoridade em suas palavras….
“Olha a lei de Deus e não sei, mas conheço uma, ou uma dúzia de lei dos homens que o senhor pode ter quebrado.”, ele olha para ela bravo com ela, “Do que está falando?”, ela olha para ele e dessa vez se concentra em manter um tom de voz frio, “Forçar ela a tirar a roupa na sua frente? Assédio pessoal, intimidação… Quer que eu continue?”, ele se ajeita sentado, “Eu só est…”, ela não deixa ele terminar, “Se qualquer coisa dessa se repetir, eu vou mandar uma carta para o bispo e colocar uma ação na justiça contra você E sua igreja.”.
O Padre estava tenso e preocupado, até um pouco pálido, “Depois de ter visto ela toda amuada Padre, enquanto você e a mamãe se consideravam vitoriosos, minha paciência com vocês esgotou, eu só quero um motivo para colocar fogo nessa família, mandar uma linda cartinha para sua igreja e mover uma ação contra você e a igreja, para ver se alguém ainda vai te chamar de Padre depois disso.”, ele respira fundo, “Ok Patrícia você venceu.”.
Ela olha bem dura para ele, “Não Padre, eu não venci, ainda não. Você ainda é Padre, essa guerra não começou, só me dá um motivo e aí você vai ver como se parece quando eu venço.”, ele se encolhe um pouco, ela se vira para mim e sorri o sorriso mais doce e gentil, “Vai lá, com a Su e a Val anjinha, vai ficar tudo bem agora.”, eu sorrio contente e saio correndo, estava passando pela sala, quando escuto a tia Vanda me chamar, “Paulo vem aqui um pouquinho.”, eu vejo meu tio entrando na sala passa por mim sinaliza e vai para o sofá sem falar nada.
Eu vou falar com a minha tia…
Minha tia sinaliza a mesa e me pede para sentar na outra cadeira, eu estou olhando para ela, esperando mais alguma coisa horrível na minha vida, porque esse fim de semana está sendo o pior até agora ,com exceção da proteção da minha irmã e ainda bem que tenho a proteção dela, imagina como essas últimas semana teriam sido sem, acho que já teria me afogado na piscina.
“Paulo, ou Paula… Você está chateada com o seu tio? Por isso está amuadinha?”, ela me chamou no feminino e isso foi um choque, mas a pergunta também me pegou de surpresa, ela já sabia como a Suelen tinha me avisado, “Não. Quer dizer, também… Eu não esperava… Eu achei que não ia fazer diferença…”, eu consigo colocar os pensamentos em ordem, mas dói, dói bastante…
“Como assim anjo, me explica?”, eu olho para ela, respirei fundo, já estou ferida, não vai fazer diferença, “Ele está me ignorando desde que eu falei. Tipo ele até me olha, mas não.. Eu achei que ele não ia se importar, mas se importou, porque ele nem toca mais em mim e eu estou me sentindo rejeitada por ser uma menina trans…”, ela deu uma risadinha e sentou do meu lado me servindo um pudim e um suco.
“Eu acho que você entendeu seu tio errado.”, eu olho para ela, tentando entender o que foi engraçado com carinha triste… “Você falou para ele que é uma menina, que deseja ser tratada como uma menina.”, eu fiz que sim com a cabeça, “E ele começou a te tratar como ele trata a Valéria, como sempre tratou sua irmã, sem ficar encostando e sendo invasivo com o seu espaço e isso te fez sentir rejeitada, porque ele mudou, mas ele só está te respeitando como menina.”, ela foi falando isso e eu comecei a sorrir toda boba.
“Eu não tinha…”, eu fico sem voz, sinto os olhos lacrimejar e bebo o suco, “Eu não tinha pensado assim.”, ela sorriu, “Percebi.”, fico toda vermelha, “Você achou que ele se afastou por não aceitar, quando foi exatamente o contrário meu bem, ele te aceitou completamente.”, eu sinto uma felicidade tão grande no meu peito, que até o que aconteceu com o Padre, sumiu completamente, me sinto invencível e princesa.
“Eu acho que devo desculpas.”, ela sorri, “Não precisa, só continua felizinha e isso é o que a gente deseja para você no seu aniversário.”, eu sinalizei positivamente com a cabeça. “Obrigada.”, “De nada neném.”, ela termina de arrumar as coisas e me deixa sozinha pensando…
Depois de terminar de comer o pudim, lavei minha louça e vou me vestir linda, de calcinha, ousei, passei um gloss transparente, passo pela sala e meu tio está lá sentado vendo futebol, sozinho vou até ele e sento no colo dele, “Obrigada, só queria dizer isso.”, ele envolveu minha cintura sorrindo, “De nada Paulinha… Mas não é esse o nome que vai usar né?”, eu faço que não com a cabeça, “Priscila… É o nome que eu ia ter se tivesse nascido menina.”, ele sorri, “Eu sei, fui eu quem escolheu esse nome.”, eu sorrio vermelha.
“Vai lá Priscila, é bom te ver sorrindo.”, eu sinalizo e saio para ir ficar com as meninas, que comemoram minha mudança de humor…
=== === === FIM === === ===
É isso gente, as vezes, encontramos aceitação onde menos esperamos e principalmente, as vezes as pessoas que mais cobrimos de uma certa, moralidade inquestionável, nos mostram que nos enganamos, Priscila começando a enxergar a moralidade tradicional da família dela como a irmã e a prima enxergam, como uma mentira, uma fachada social para evitar fofocas e nada mais.
Votem, comentem, façam uma autora feliz.
