O voo para Paris foi a primeira prova irrefutável de que a vida de Carlos já estava mudando, e que o luxo era o novo idioma. Ele viajou na Primeira Classe, um universo de silêncio acolchoado, assentos que se transformavam em camas e serviço impecável que contrastava drasticamente com as poltronas apertadas e o barulho constante da classe econômica. Aquele casulo de conforto e exclusividade parecia uma dimensão paralela, e pela primeira vez, Carlos sentiu o peso do dinheiro – não apenas como poder de compra, mas como uma barreira invisível que o separava definitivamente do mundo comum. A culpa da simplicidade de sua vida anterior competia com a euforia da opulência.
Durante as longas horas sobre o Atlântico, ele tentou em vão se concentrar no material que Letícia havia incluído na pasta: relatórios financeiros densos, perfis detalhados de acionistas globais e o manual de conduta interna da Mirana Corp, um documento que parecia mais um guia de etiqueta da alta sociedade do que um código empresarial. Ele folheava as páginas, mas sua mente continuava voltando ao enorme envelope selado que continha o contrato assinado e o cartão frio de Mirtes. Era impressionante como os documentos falavam de performance, estratégia e crescimento, mas não havia uma única menção ao que ele se tornaria.
Mirtes, ele percebeu com uma pontada de desumanização, não o via como um homem que faria a transição para uma mulher; ela o via como um projeto de marca, um produto a ser lançado no mercado executivo. Não havia espaço para sentimentos, apenas para resultados. Carlos começou a ensaiar mentalmente sua nova personalidade, tentando encontrar a voz, a dicção perfeita e a postura de alguém que tinha o direito de ganhar um milhão de euros por ano. Ele praticava mentalmente frases em um tom de autoridade que jamais usara na vida, sentindo-se patético e excitado ao mesmo tempo. Ele precisava matar o funcionário anônimo.
Ao desembarcar no aeroporto europeu – um labirinto de vidro e aço que refletia uma tecnologia e uma arquitetura que pareciam pertencer ao futuro –, Carlos sentiu-se pequeno, deslocado e incrivelmente vulnerável, apesar de sua roupa nova de viagem. O burburinho de pessoas apressadas e de idiomas desconhecidos era opressor.
No saguão de desembarque, Letícia estava à sua espera, e sua presença impunha uma autoridade imediata. Vestida com um tailleur perfeitamente cortado e exalando uma elegância inatingível, ela era o epítome do sucesso que ele buscava. Ela não o abraçou, nem ofereceu um sorriso caloroso ou uma saudação gentil; a interação era estritamente profissional e gelada. Ela segurava um iPad com uma mão e tinha um casaco de cashmere cinza-chumbo no braço, a imagem da eficiência cara.
— Seja bem-vindo, Carlos. - Ela disse, com a voz formal e sem inflexão. Ela não ofereceu a mão. — O seu treinamento começa em exatamente três horas. Você não terá tempo para descanso. Não há tempo a perder.
A ausência de qualquer calor humano serviu como um balde de água fria no nervosismo de Carlos. Letícia não esperou por uma resposta, fazendo um breve aceno para que um motorista de luvas brancas levasse a única mala de Carlos. Ela o conduziu rapidamente por um corredor lateral, longe da multidão, para um carro executivo de luxo com vidros fumê, que parecia mais uma cápsula de segurança.
Assim que se acomodaram no banco de couro, Letícia continuou, sem desviar o olhar do iPad que exibia um cronograma rigoroso:
— Você não será levado para o seu apartamento ainda. A Presidente Mirtes preparou um espaço para o seu treinamento pessoal. É um local completamente isolado, discreto e, acima de tudo, essencial para a sua transição. A partir do momento em que cruzarmos as portas daquele lugar, você deixará de ser Carlos.
Ela fez uma pausa dramática. O carro começou a se mover, deslizando pelas avenidas largas e elegantes da Europa, mas a paisagem externa não importava. Letícia finalmente virou a cabeça e olhou diretamente para Carlos, com uma intensidade que gelou a alma dele. Seu olhar era de avaliação, não de empatia.
— Você teve seus dias no Brasil para ponderar, para se despedir de sua vida anterior e de seu nome. A Mirana Corp não tolera hesitação ou nostalgia. A partir de agora, você começará a responder apenas como Carla. Você não terá mais permissão para responder ao nome de Carlos. Ele já foi pago e está extinto. Entendido?
Carlos engoliu em seco, sentindo que o ar pesado e perfumado do carro o sufocava. Ele assentiu lentamente. A vida de Carla começava não em seu novo apartamento ou no escritório, mas naquele exato momento, sob o olhar vigilante e implacável de Letícia. Ele acabara de entrar na porta de sua nova prisão dourada.
