Carlos era um homem comum.
Não no sentido pejorativo, mas na acepção mais literal da palavra. Trinta e dois anos, cabelos castanhos curtos e sempre um pouco desgrenhados, olhos claros que já foram mais brilhantes. Magro, os ombros ligeiramente curvados para a frente — herança de anos inclinado sobre telas de computador e planilhas que nunca terminavam. Não era feio, mas também não era bonito. Era o tipo de homem que passava despercebido numa sala lotada, que os garçons esqueciam de servir, que os colegas de trabalho chamavam pelo nome errado nas primeiras semanas.
Carlos, naquela noite, sentado na ponta da cama com as mãos enterradas no rosto, ele parecia ainda menor do que sempre fora.
— Eu não sei como isso aconteceu — ele repetiu, pela terceira vez em dez minutos. A voz saía abafada pelos dedos, como se ele estivesse falando sozinho, ou talvez rezando. — Eu juro que revisei os números. Eu revisei três vezes.
Marina estava de pé na porta do quarto, os braços cruzados sobre o peito. Observava o marido com uma mistura de piedade e exaustão. Trinta anos, uma beleza que não precisava de adornos. Morena de olhos castanhos, cabelos castanhos e compridos que caíam sobre os ombros como uma cortina. O corpo era de mulher no auge da beleza natural — seios fartos que sempre chamavam atenção onde ela passava, bunda carnuda e redonda que as calças de alfaiataria tentavam disciplinar sem muito sucesso, coxas grossas que se estreitavam em tornozelos delicados. Os quadris eram na medida certa, nada exagerado, mas também nada pequeno — o tipo de corpo que fazia homens casados virarem a cabeça no supermercado e mulheres mais velhas franzirem a testa com inveja discreta.
— Você revisou três vezes amor, será que está errado mesmo? — A voz dela era plana, cansada.
— Foi o que meu chefe mostrou Marina, uma virgula, uma maldita virgula.
— Isso é grave? E agora?
Carlos ergueu os olhos. Estavam vermelhos, mas ele não havia chorado — ainda não. Era apenas o cansaço de semanas de trabalho excessivo, noites mal dormidas, a ansiedade roendo cada pedaço de sossego.
— Agora eu não sei Marina. — Ele soltou as mãos, deixou-as cair sobre os joelhos. — Amanhã o chefe me chama para saber o que aconteceu. Se eles vão me demitir... se vão só me suspender... se vão me processar...
— Processar?
— O erro afetou o contrato com um cliente grande. O cliente ameaçou romper. Se romper, a empresa perde milhões. — Ele fez uma pausa, a garganta seca. — Milhões, Marina. Eu não sei nem o que é um milhão direito. E agora eu posso ter custado um para eles.
O silêncio que se seguiu foi denso, carregado de coisas que nenhum dos dois queria dizer. A sala pequena, o sofá gasto, a televisão desligada, a conta de luz vencida há três dias sobre a mesa de centro. O apartamento inteiro cheirava a aperto. A meses de aperto.
— Quanto tempo a gente aguenta? — Marina perguntou, embora já soubesse a resposta.
— Sem o meu salário? — Carlos riu, um riso amargo, sem humor. — Um mês. Talvez dois, se a gente parar de comer carne e vender o carro.
— O carro já é praticamente sucata. Não paga nem o financiamento.
— Então um mês.
Marina desviou o olhar. Foi até a janela, empurrou a cortina fina, olhou para a rua lá embaixo. O movimento de carros, as luzes dos postes, a vida seguindo indiferente. Ela pensou em como tudo podia desmoronar por causa de um número errado numa planilha. Um número. Um dígito. A diferença entre continuar ou afundar.
— Talvez eu possa arrumar alguma coisa — ela disse, ainda olhando para fora. — Um trabalho. Qualquer coisa.
— Você não trabalha há anos. Seu currículo...
— Eu sei o que meu currículo diz. — Ela se virou, enfrentando-o. — Mas eu sei fazer outras coisas. Posso ser caixa num supermercado. Atendente numa loja. Garçonete. O que precisar.
Carlos balançou a cabeça.
— Você não merece isso. Você merece...
— Não importa o que eu mereço. — Ela interrompeu, a voz mais firme do que se sentia. — Importa o que a gente precisa.
O celular de Carlos vibrou sobre a mesa de cabeceira. Ambos olharam para a tela iluminada. O nome do chefe.
Carlos hesitou, depois atendeu.
— Alô? — Sua voz era frágil, quase inaudível. Ele ouviu por alguns segundos, o rosto empalidecendo mais a cada palavra. — Sim... sim, eu entendo... amanhã às nove? ...Sim, eu vou. Claro.
Ele desligou. O celular caiu da mão dele sobre o colchão.
— Era ele? — Marina perguntou, embora soubesse a resposta.
— Era. — Carlos passou a mão no rosto. — Amanhã às nove. Reunião com o diretor.
— O diretor? Não é o seu chefe direto?
— Não. — Ele ergueu os olhos para ela, e havia algo neles que Marina não vira antes. Medo. Medo genuíno, daqueles que paralisam. — Amanhã eu vou falar com o Sérgio Monteiro.
Marina conhecia o nome.
Sérgio Monteiro. O dono da Monteiro Holdings. O homem que aparecia nas revistas de negócios com um sorriso largo e uma presença imponente que a fotografia nunca captava por completo. Alto — bem mais alto do que a média, o que o fazia parecer ainda maior quando entrava numa sala —, ombros largos que sustentavam ternos sob medida, uma barriga protuberante que transbordava sobre o cinto, denunciando os excessos de uma vida de jantares de negócios e bebidas caras. O rosto era largo, vermelho, marcado por papadas que tremiam levemente quando ele falava, e uma calvície que ele tentava disfarçar penteando os poucos fios escuros para o lado. Os olhos, pequenos e castanhos, estavam encravados naquele rosto flácido como duas brasas — espertos, calculistas, que não perdiam um detalhe.
Ele era o patrão do patrão do marido. O homem que, segundo os boatos dos corredores da empresa, colecionava mulheres como colecionava carros importados — com ostentação, sem nenhum respeito.
Marina também o conhecia pessoalmente. Conhecia o cheiro de tabaco e colônia cara. Conhecia a mão grande e pesada que, numa confraternização de fim de ano, descera sorrateiramente até o volume generoso da sua bunda enquanto ela conversava com a esposa de um dos gerentes.
— Acidente, querida. Muito vinho. — Ele havia dito, com um sorriso que não pedia desculpas. A altura dele fazia com que ela precisasse erguer o rosto para olhá-lo, e naquele momento, ela se sentiu pequena, vulnerável, engolida pela sombra daquele homem.
— O senhor é o chefe do meu marido — ela respondeu, recuando um passo, o rosto queimando de vergonha e raiva. — Isso não lhe dá o direito de...
— De nada. — Ele a interrompeu, ainda sorrindo. A voz era grave, arrastada, como alguém que não precisa ter pressa porque o tempo trabalha a seu favor. — Foi só um gesto. Um gesto amigável. Não precisa levar a mal.
Ela levou. Mas não contou para Carlos. O que adiantaria? Carlos estava lutando para se firmar na empresa, precisava daquela promoção, precisava daquela estabilidade. Uma acusação de assédio contra o dono da empresa seria o fim da carreira dele. E Marina, na época, acreditava que podia engolir aquela humilhação e seguir em frente.
Carlos não dormiu.
Marina também não. Ficaram deitados lado a lado na cama pequena, olhando para o teto, o silêncio entre eles tão pesado quanto as horas que passavam. Às seis da manhã, Carlos se levantou. Vestiu o terno cinza que já não ficava tão bem quanto antes, passou a mão pelos cabelos desgrenhados, e olhou para ela.
— Vai dar certo, não se preocupe meu amor — disse, mas não parecia acreditar.
— Vai. — Marina sentou na cama, os lençóis cobrindo os seios fartos, o cabelo escuro caindo sobre os ombros. — Me avisa quando terminar.
Ele assentiu, pegou a pasta, e saiu.
A porta se fechou. Marina ficou ali, sentada, ouvindo o silêncio. Depois, lentamente, levantou-se.
Carlos voltou ao meio-dia.
Marina estava na cozinha, mexendo uma panela de arroz que não tinha mais gosto. Quando ouviu a chave na porta, sentiu o estômago se contrair. Ele entrou devagar, como quem carrega um peso invisível, e foi direto para a sala. Sentou no sofá. Não disse nada.
— Carlos? — Marina se aproximou, sentou ao lado dele. — O que aconteceu?
Ele ficou em silêncio por um momento. Depois, passou a mão no rosto e falou, a voz vindo de algum lugar muito fundo.
— Ele não vai me demitir.
— Não? — Marina sentiu um alívio imediato, quase suspeito. — Então...
— Ele propôs um acordo. — Carlos a olhou, e Marina viu algo nos olhos dele que não vira antes. Não era alívio. Era vergonha. — Ele disse que eu sou um bom funcionário. Que fui promovido rápido demais, talvez, e que isso me deixou despreparado. Mas que ele acredita no meu potencial.
— E o erro?
— O erro foi perdoado. Com uma condição.
Marina sentiu um arrepio na espinha.
— Que condição?
Carlos desviou o olhar. As mãos apertaram os joelhos com força.
— Ele precisa de uma secretária executiva. Alguém de confiança. Alguém que conheça os bastidores da empresa, que saiba lidar com clientes, que tenha discrição. Ele perguntou de você.
— De mim? — Marina sentiu o sangue gelar. — Por que ele perguntaria de mim?
— Ele lembrou de você. Da confraternização. Disse que você causou uma ótima impressão. Que é inteligente, eloquente, bem-apessoada. — As palavras saíam como veneno. — Disse que seria uma ótima secretária.
— Carlos... — Marina tentou encontrar as palavras certas, mas elas não vinham. — Você sabe como ele é, arrogante, autoritário e cheio de intimidade com as mulheres.
— Eu sei. — Ele a olhou, e Marina viu lágrimas nos olhos dele. — Eu sei, Marina. Mas eu não tenho escolha. A gente não tem escolha. Se ele me demitir, a gente perde a casa, o carro, tudo.
— Ele está te chantageando. — Marina sentiu a raiva subir. — Ele está usando você para me chantagear.
— Eu sei. — Carlos enterrou o rosto nas mãos. — Eu sei, Marina. Mas o que a gente pode fazer?
O silêncio se instalou novamente, mas agora era diferente. Mais pesado. Mais escuro.
Marina pensou na mão de Sérgio em sua bunda naquela festa. Pensou nos olhos dele, pequenos e brilhantes, que a devoravam como se ela fosse um pedaço de carne. Pensou no que significaria trabalhar para aquele homem, ficar sozinha com aquele homem, servir aquele homem.
E pensou nas contas. No carro. Na casa. Em Carlos, desempregado, destruído, sem chão.
— Eu vou fazer — disse, antes que pudesse mudar de ideia.
— Marina...
— Eu vou fazer. — Ela se levantou, as mãos apertando o vestido preto. — Por nós. Pela gente. Eu vou trabalhar para ele.
Carlos ergueu os olhos para ela. Havia gratidão ali, mas havia também algo mais. Algo que parecia medo.
— Eu vou proteger você — ele disse. — Se ele tentar alguma coisa, a gente...
— Ele não vai tentar nada. — Marina mentiu, e a mentira saiu com uma convicção que a assustou. — Ele é profissional. É o chefe. Não vai arriscar o negócio por causa de uma secretária.
Carlos assentiu, como se precisasse acreditar nisso para não enlouquecer.
Marina foi para o quarto. Abriu o armário, olhou as poucas roupas que tinha, e escolheu a mais modesta. A saia preta, comprida, que descia até a canela. A blusa de gola alta, que escondia o colo. Os óculos de executiva, que ela usava para parecer mais velha, mais séria, menos vulnerável.
No espelho, a imagem era de uma mulher profissional, competente, controlada.
No dia seguinte, Marina entrou no edifício Monteiro. O monstro de vidro, trinta andares que pareciam tocar o céu. Ela apertou a aliança no dedo — o ouro gasto, a inscrição interna já quase apagada: *Para sempre, C&M* — e sentiu o metal frio contra a pele.
*Para sempre*, pensou. *Vou fazer isso por nós, para sempre ao seu lado meu amor.*
O segurança já a esperava com um crachá temporário. O elevador subiu em silêncio, e Marina sentiu o estômago apertar a cada andar que passava. Quando as portas se abriram, ela se viu em um corredor amplo, iluminado por luzes indiretas que destacavam quadros a óleo nas paredes. Paisagens europeias, cenas de caça, naturezas-mortas que deviam custar mais do que todo o apartamento dela.
Uma mulher loira, magra e de expressão cansada a aguardava atrás de uma mesa de recepção.
— Sra. Rodrigues? — A mulher se levantou, os olhos evitando os de Marina. — O Dr. Sérgio está em uma ligação, mas pediu que a Sra. aguardasse ali dentro. — Ela apontou para uma porta dupla de madeira escura, ladeada por dois vasos de suculentas.
— Obrigada.
Marina caminhou em direção à porta, mas antes de abri-la, parou e olhou para trás. A secretária — Cláudia, dizia o crachá — já havia sentado novamente, os dedos voando sobre o teclado com uma urgência que parecia desespero.
— Posso perguntar... — Marina começou, mas a mulher a interrompeu com um olhar rápido, cheio de algo que parecia medo e advertência ao mesmo tempo.
— Não fique sozinha com ele depois das oito — a mulher sussurrou, mal movendo os lábios. — E nunca, em hipótese alguma, aceite uma carona.
Antes que Marina pudesse perguntar mais, a mulher já havia abaixado os olhos para o computador, o rosto novamente uma máscara de indiferença.
Ela empurrou a porta. A sala de Sérgio Monteiro era um monumento à desproporção.
O espaço era vasto, talvez cinquenta metros quadrados de puro exibicionismo: piso de mármore polido que refletia as luminárias de cristal no teto, estantes de madeira escura abarrotadas de livros que jamais seriam lidos, um globo terrestre do tamanho de uma mesa de centro. E no centro de tudo, atrás de uma escrivaninha que parecia um sarcófago, uma cadeira presidencial de couro preto.
A cadeira estava virada de costas para ela. Mas mesmo sentado, a altura dele era perceptível — a silhueta imponente que se erguia acima do encosto da cadeira, os ombros largos recortados contra a luz da janela.
— Dr. Sérgio? — chamou, a voz mais frágil do que gostaria.
A cadeira girou lentamente.
E lá estava ele.
Sérgio Monteiro se levantou — e Marina precisou erguer o rosto para vê-lo. Alto, bem mais alto do que ela lembrava. E ele sorriu.
— Marina — ele disse, a voz grave e arrastada, como alguém que não precisa ter pressa porque o tempo trabalha a seu favor. — Finalmente.
A lembrança da mão dele em sua bunda voltou como um choque. Lembrou do sorriso debochado, do "acidente, querida". Lembrou de como ele a havia feito se sentir pequena, não apenas pela altura, mas pelo poder que exercia sobre ela naquele momento. Sentiu o estômago se contrair, mas manteve o rosto impassível.
— Dr. Sérgio. — A voz saiu firme, apesar do coração acelerado.
— Por favor, sente-se.
Ele indicou uma das cadeiras em frente à escrivaninha. Estofado em veludo azul-marinho, tão macio que ela quase afundou quando se sentou. Ele permaneceu de pé por um momento, pairando sobre ela, e Marina sentiu o peso da altura dele como uma sombra.
— Sabe — ele disse, caminhando lentamente ao redor da mesa, os passos pesados ecoando no mármore —, eu fiquei muito feliz quando o Carlos me contou que você aceitou o convite.
— O senhor me convidou?
— Claro. — Ele parou atrás da cadeira, as mãos apoiadas no encosto de couro. A altura fazia com que ele olhasse para ela de cima, e Marina sentiu um desconforto que tentou disfarçar. — Você é exatamente o tipo de pessoa que eu procuro. Inteligente. Discreta. Leal. — Ele fez uma pausa, os olhos percorrendo o corpo dela com uma lentidão que era quase clínica. — E bonita. Muito bonita.
— Obrigada. — Marina manteve a voz neutra, mas sentiu o rosto queimar. — Espero corresponder às expectativas profissionais.
— Profissionais. — Ele repetiu a palavra como se saboreasse cada sílaba. — Sim, claro. Profissionais.
Sentou-se finalmente, e a cadeira rangeu sob seu peso. A mesa ficava entre eles agora, mas Marina ainda sentia a altura dele como uma presença, como se ele pudesse se levantar a qualquer momento e voltar a pairar sobre ela.
— Seu marido é um bom funcionário — Sérgio começou, os dedos entrelaçados sobre a mesa. — Competente. Dedicado. Exatamente o tipo de homem que eu quero na minha empresa.
— Fico feliz em saber.
— E eu fico feliz que você esteja feliz. — Ele inclinou a cabeça, os olhinhos brilhando. — Mas você sabe, é claro, que ele cometeu um erro. Um erro grave. Que poderia ter custado milhões à empresa.
— Foi um erro — Marina respondeu, a voz firme. — Ele assumiu a responsabilidade e, como o conheço ele muito bem, sei que fará de tudo para corrigir.
— Eu sei. — Sérgio se recostou na cadeira, que rangeu novamente. — E é por isso que eu não vou demiti-lo. Porque acredito em segunda chance. Acredito que as pessoas podem aprender com os erros.
— O senhor está sendo generoso.
— Estou sendo prático. — Ele sorriu, e o sorriso não chegava aos olhos. — Um funcionário bom é difícil de encontrar. E eu valorizo quem é leal à empresa. Quem faz sacrifícios pela empresa.
Marina sentiu o peso da palavra *sacrifícios*.
— E é aí que você entra, Marina. — Ele se inclinou para a frente, os antebraços carnudos apoiados na mesa. A proximidade fez com que ela recuasse ligeiramente na cadeira. — Preciso de uma secretária executiva. Alguém de confiança. Alguém que conheça a empresa, que saiba lidar com clientes, que tenha discrição. Alguém que esteja disposta a fazer o que for preciso para manter a família unida.
— O senhor está falando de chantagem.
— Estou falando de oportunidades. — Ele não negou. Não confirmou. Apenas sorriu. — Você quer proteger seu marido? Quer manter sua casa? Quer continuar com a vida que construiu? Então aceite o trabalho. Trabalhe para mim. Seja discreta. E tudo vai ficar bem.
Marina olhou para a aliança em seu dedo. Pensou em Carlos, no rosto dele na noite anterior, a vergonha, o medo. Pensou na casa, nas contas, no carro. Pensou na vida que tinham construído juntos, tijolo por tijolo, sacrifício por sacrifício.
— Eu aceito — disse, a voz vindo de algum lugar muito distante dentro de si.
— Excelente. — Sérgio bateu palmas uma vez, o som ecoando na sala vasta. — Cláudia vai lhe passar as instruções. Amanhã você começa.
Ele apertou um botão na mesa, e a porta se abriu. Cláudia apareceu, o rosto impenetrável.
— Cláudia, apresente nossa nova colega às rotinas. Mostre o andar, os procedimentos, o código de vestimenta. — Ele já havia desviado o olhar para o computador. — E, Marina?
Ela se levantava quando ele falou seu nome. Parou.
— Sim?
Ele ergueu os olhos para ela. Naquele momento, a expressão dele não era ameaçadora nem sedutora. Era pura posse. Como se ela já fosse um objeto que ele comprara, mas ainda não tivesse aberto a embalagem.
— O código de vestimenta é rigoroso. Nada de saias compridas, blusas de gola alta, óculos. Quero você vestida como uma mulher que trabalha para mim. Cláudia vai lhe dar as orientações.
Marina sentiu o rosto queimar, mas não respondeu. Saiu da sala em silêncio, sentindo os olhos de Sérgio em sua nuca — e, por um momento, teve a estranha sensação de que ele não a observava como se observa uma funcionária, mas como se observa algo que já se decidiu tomar.
No corredor, Cláudia a aguardava.
— Bem-vinda— sussurrou, com um sorriso que não tinha humor. — Vou lhe mostrar sua mesa.
Os primeiros dias foram de adaptação.
Marina aprendeu o sistema de agendas, os protocolos de atendimento, os nomes dos clientes importantes. Cláudia ensinava com uma eficiência fria, mas havia uma urgência em seus ensinamentos que ia além do profissional. Ela ensinava Marina não apenas como fazer o trabalho; ensinava como *sobreviver*.
— Nunca entre na sala dele sem antes anunciar pelo interfone — explicou Cláudia no primeiro dia, enquanto percorriam o corredor. — Mesmo que a porta esteja aberta. Mesmo que ele tenha dito para você entrar. Anuncie.
— Por quê?
Cláudia parou, olhou para os lados, e baixou a voz:
— Porque ele gosta de ver as pessoas esperando. Gosta de saber que você está ali, do outro lado, aguardando permissão. É sobre controle.
No segundo dia, Sérgio a chamou para sua sala no final da tarde. Marina anunciou-se pelo interfone, esperou os segundos que pareceram horas, e entrou quando a voz arrastada disse "pois não".
Ele estava de pé junto à janela panorâmica, a silhueta alta recortada contra o céu alaranjado. De costas, com os ombros largos e a barriga protuberante, ele parecia ainda maior — uma montanha de carne e poder que bloqueava a luz do sol poente.
— Feche a porta — ordenou, sem se virar.
Marina obedeceu. O clique da fechadura soou mais alto do que deveria.
— Aproxime-se.
Ela caminhou até a janela, parando a dois metros dele. Não queria chegar perto demais. O cheiro de tabaco e colônia cara já era forte o suficiente à distância.
— Você sabe por que a Cláudia está saindo? — ele perguntou, ainda de costas.
— Ela disse que recebeu uma proposta melhor.
Ele riu. Aquele riso baixo e gutural que Marina já aprendera a odiar.
— Cláudia trabalhou para mim durante oito anos. Oito anos, Marina. Ela viu três esposas, cinco sócios e Deus sabe quantas secretárias passarem por aqui. E você acredita que ela simplesmente recebeu uma "proposta melhor"?
Marina não respondeu.
— Cláudia está saindo porque eu decidi que ela devia sair. — Ele finalmente se virou, e o sol poente iluminava seu rosto de uma maneira que tornava cada imperfeição mais pronunciada. A altura fazia com que Marina precisasse erguer o rosto para olhá-lo, e ela detestava aquela sensação de pequenez. — Ela ficou confortável demais. Achou que tinha poder. Achou que poderia estabelecer limites comigo.
— Limites são saudáveis no ambiente de trabalho — Marina ouviu-se dizer, e imediatamente se arrependeu.
Os olhos de Sérgio brilharam. Não com raiva, mas com diversão.
— Você é corajosa. Gosto disso. — Ele deu um passo em sua direção, e ela recuou um. O passo dele era longo, e a distância entre eles diminuiu mais do que ela gostaria. — Mas coragem e tolice andam lado a lado, Marina. Você não está mais no seu antigo emprego. Aqui, as regras são minhas. Os limites são os que eu estabeleço. E eu não gosto de pessoas que me dizem "não".
Ele estava a um metro dela agora. Marina podia ver os poros dilatados no nariz largo, a camada fina de suor no lábio superior, os olhos pequenos e castanhos que a examinavam com uma intimidade que a fazia sentir nua.
— Eu não vim aqui para dizer "não" — ela respondeu, surpreendendo-se com a firmeza da própria voz. — Eu vim para trabalhar. E trabalho bem. Se isso não for suficiente, talvez eu não seja a pessoa certa para o cargo.
O silêncio se instalou entre eles, denso como a fumaça de cigarro que impregnava as cortinas. Sérgio a observou, os olhos percorrendo seu rosto com uma lentidão que era quase clínica — descendo pelo pescoço, pelos seios que a blusa de gola alta tentava esconder, pela cintura, pelos quadris.
E então ele sorriu.
— Suficiente — ele disse, e havia algo naquela palavra que soou como uma ameaça adiada, não uma concessão. — Por enquanto.
Ele se afastou, retornando à mesa, e Marina percebeu que estava segurando a respiração há tempo demais.
— Amanhã temos um jantar com investidores chineses. Você vai me acompanhar.
— Eu não tenho experiência com...
— Você vai aprender. — Ele já estava sentado, os olhos fixos no computador. — Vista algo elegante. Decote discreto, mas... convidativo. Os chineses são sensíveis a esses detalhes. Às oito, mando o carro buscá-la em casa. Não aceito atrasos.
Dessa vez, ela não esperou ser dispensada. Saiu da sala com passos rápidos, fechando a porta com mais força do que pretendia.
No corredor, Cláudia a aguardava, uma pasta de documentos na mão.
— Jantar com investidores? — perguntou, a expressão cansada.
— Como você adivinhou?
— Porque é o primeiro movimento dele. O jantar. — Cláudia entregou a pasta a Marina, e seus dedos tocaram os dela por um instante. — Ele vai te servir vinho. Muito vinho. Vai dizer que é para "quebrar o gelo". Você não vai beber. Vai fingir que bebe, mas não vai engolir uma gota. Entendeu?
Marina assentiu, confusa.
— E quando ele colocar a mão na sua coxa, embaixo da mesa... — Cláudia hesitou, os olhos desviando-se por um momento. — Quando ele fizer isso, você não vai tirar. Não na primeira vez. Você vai deixar, vai sorrir, vai continuar a conversa como se nada estivesse acontecendo.
— Por que eu faria isso?
— Porque se você tirar, ele vai saber que você ainda tem limites que precisam ser quebrados. E ele vai passar a noite inteira tentando descobrir qual é o seu limite. — Cláudia suspirou, e de repente parecia muito mais velha do que seus quarenta e poucos anos. — Se você deixar, ele se entedia. Ele gosta da luta, não da conquista. Quanto mais você resistir, mais ele vai querer. Quanto mais você ceder nos pequenos gestos, mais rápido ele perde o interesse.
— E foi assim que você sobreviveu oito anos?
Cláudia não respondeu. Apenas olhou para Marina com uma expressão que misturava pena e advertência.
— Eu sobrevivi — ela disse, finalmente — porque eu não tinha nada que ele realmente quisesse. — Ela olhou para a aliança no dedo de Marina. — Você tem.
O jantar foi exatamente como Cláudia previra.
Sérgio enviou um carro preto com vidros fumê para buscá-la às oito em ponto. Marina vestiu o tailleur preto que comprara às pressas — o mesmo que usara na entrevista, mas agora a saia era um pouco mais curta, o decote um pouco mais profundo. Cláudia dissera que era o código de vestimenta, e Marina não quis questionar.
Carlos a observara sair de casa, sentado na borda da cama, as mãos entrelaçadas.
— Você não precisa fazer isso — ele disse, pela milésima vez.
— Sim, preciso. — Ela ajustou a bolsa no ombro. — Já conversamos sobre isso.
— Marina...
— Eu volto antes da meia-noite. — Ela se inclinou e beijou sua testa, sentindo o gosto salgado da pele. — Confia em mim.
No carro, ela repetiu mentalmente as instruções de Cláudia como se fossem um mantra. *Não beba. Deixe a mão. Sorria. Não reaja.*
O restaurante era um daqueles lugares que não precisam de letreiro na porta porque o endereço já é suficiente. Iluminação baixa, música de piano ao fundo, garçons que se moviam como sombras. Sérgio a aguardava na entrada, e Marina sentiu o impacto da altura dele novamente — ele parecia ainda maior no meio daqueles homens pequenos e curvados, uma torre de carne e poder.
— Está linda — ele disse, os olhos fixos no decote por um segundo a mais do que seria apropriado. A voz grave ecoou no ambiente silencioso. — Os investidores vão adorar você.
A mesa era redonda, reservada para seis pessoas. Os investidores — três homens chineses de meia-idade em ternos escuros — já estavam sentados quando chegaram. Sérgio apresentou Marina como sua "assistente executiva" e "braço direito", enfatizando as palavras de uma maneira que deixava claro que ela era tanto um acessório quanto uma profissional. A mão dele no pequeno das suas costas, guiando-a até a cadeira, demorou mais do que o necessário.
O vinho chegou quase imediatamente. Um tinto encorpado, servido por um sommelier que se curvou diante de Sérgio como um vassalo diante de um rei.
— Para celebrar novos negócios — Sérgio ergueu a taça, e todos o imitaram.
Marina levou o vinho aos lábios, sentiu o líquido amargo tocar sua língua, mas não engoliu. Baixou a taça com um sorriso, os lábios úmidos, o rosto sereno.
— Você não bebe? — Sérgio perguntou, a voz baixa, os olhos fixos nela.
— Bebo, mas devagar. — A mentira saiu natural. — O senhor não vai querer uma secretária bêbada na primeira noite, vai?
Ele riu, e o riso era baixo, íntimo, como se eles compartilhassem um segredo.
— Você é esperta. Gosto disso.
A conversa fluiu em dois idiomas. Os chineses falavam um inglês truncado, Sérgio respondia com um português tão carregado de sotaque que parecia uma língua diferente. Marina, fluente em inglês, intervinha quando necessário, traduzindo termos comerciais, suavizando mal-entendidos, sendo exatamente a ponte que Sérgio esperava que ela fosse.
Ele observava tudo com um sorriso satisfeito, os olhos brilhando mais com cada taça de vinho que bebia. E a cada taça, a mão dele ficava mais próxima da dela sobre a mesa.
O toque veio durante o segundo prato.
A mão de Sérgio encontrou sua coxa por baixo da mesa, os dedos grossos pressionando o tecido da saia. Marina sentiu o coração disparar, o estômago se contrair em um espasmo de repulsa. A lembrança da confraternização voltou como um soco — a mesma mão, o mesmo gesto, o mesmo sorriso debochado depois.
Ela não se moveu.
Manteve o sorriso no rosto, continuou a conversa com o investidor à sua esquerda, perguntando sobre o fuso horário de Xangai, sobre os desafios logísticos da importação. A mão subiu alguns centímetros, os dedos agora traçando um círculo lento na parte interna de sua coxa. O tecido da saia era fino demais, e ela sentia o calor da pele dele como uma queimadura.
*Deixe. Sorria. Não reaja.*
Ela olhou para Sérgio, que fingia estar absorto na conversa com o investidor à sua direita. Seu perfil era grotesco à luz das velas — a papada balançando levemente enquanto ria de algo, a altura que fazia com que ele parecesse dominar a mesa inteira, os dedos ainda em movimento sob a mesa, explorando com uma calma que era quase científica.
Ele sabia. Sabia que ela não ia tirar a mão. Sabia que ela não ia reagir. Sabia que, naquele momento, ela era dele.
E o pior — o pior, que Marina só admitiria para si mesma muito tempo depois, na solidão do banho, com a água quente tentando lavar algo que não era sujeira — o pior era que, em algum lugar profundo do seu corpo, uma parte dela *respondia* àquilo.
Não ao toque em si. Não à mão grande e pesada de Sérgio. Mas ao poder que aquele toque representava. A certeza de que, por mais que ela repudiasse aquilo, por mais que sua mente gritasse *não*, seu corpo estava ali, imóvel, permitindo, sendo *usado*.
E havia algo naquela submissão que acendia uma chama escura, proibida, que ela imediatamente tentou apagar.
O jantar terminou perto das onze.
Os investidores se despediram com apertos de mão e promessas de contratos. Sérgio, visivelmente embriagado, colocou a mão no pequeno das costas de Marina enquanto caminhavam para a saída — a mão grande, pesada, que cobria quase toda a extensão da sua cintura.
— Você foi impecável — ele murmurou, o hálito quente e ácido contra sua orelha. A altura dele fazia com que ela sentisse a respiração em cima da sua cabeça, e ela precisou controlar o impulso de se afastar. — Exatamente o que eu esperava.
— Fiz meu trabalho — ela respondeu, a voz neutra.
— Ah, Marina... — Ele riu, e o som bêbado era ainda mais desagradável que o habitual. — Você ainda não faz ideia do que é seu trabalho.
A mão dele desceu ligeiramente, os dedos roçando a curva da sua bunda por cima do vestido. O gesto foi rápido, quase imperceptível, mas Marina sentiu como um choque. Enrijeceu, mas não se afastou. Não podia. Não na frente dos investidores que ainda os observavam.
— Até amanhã — Sérgio disse, soltando-a, o sorriso ainda nos lábios. — Não se atrase.
Ela entrou no carro, as mãos tremendo. O motorista fechou a porta, e Marina ficou ali, sentada no banco de couro, olhando para a frente, sentindo o calor ainda na pele onde a mão dele estivera.
*Isso é só o começo*, pensou. *Não sei se vou aguentar, tenho que aguentar, por Carlos.*
Carlos estava acordado quando ela chegou. Sentado na mesma posição em que ela o deixara, as mãos entrelaçadas, o rosto pálido à luz do abajur.
— Como foi? — perguntou, a voz rouca.
— Normal. Jantar de negócios. — Ela se sentou ao lado dele na cama, começando a tirar os brincos. — Eles são sérios. O contrato deve fechar na próxima semana.
— Ele... fez alguma coisa?
A pergunta pairou no ar, carregada de todas as suspeitas que Carlos vinha acumulando. Marina podia ver em seus olhos a batalha entre a necessidade de saber e o medo da resposta.
— Ele foi profissional — ela respondeu, e a palavra saiu firme, embora dentro dela houvesse um tremor. — Bebeu demais, como sempre. Mas nada além disso.
Carlos a observou por um longo momento. Depois, lentamente, um sorriso começou a se formar em seus lábios. Não era um sorriso completo, mas era o primeiro que Marina via nele em dias.
— A gente conseguiu — ele disse, a voz ainda trêmula, mas agora com uma nota de esperança. — A gente conseguiu, Marina.
— Conseguimos sim meu amor. — Ela tocou o rosto dele, sentindo a barba por fazer, a pele quente. — Você não vai perder o emprego. As contas vão ser pagas. A gente vai ficar bem.
— Mais do que bem. — Ele a puxou para um abraço, apertando-a contra o peito. — A gente vai sair dessa. Eu sei.
Marina fechou os olhos, sentindo o coração dele bater contra o dela. Por um momento, quase acreditou que tudo podia voltar ao normal.
— Vamos comemorar — Carlos disse, afastando-se apenas o suficiente para olhar em seus olhos. Havia um brilho neles que ela não via há meses. — Vamos comemorar como a gente merece.
Ela sabia o que ele queria dizer. Viu nos olhos dele, na forma como as mãos percorreram suas costas, descendo até a cintura.
— Agora? — perguntou, a voz saindo mais fraca do que pretendia.
— Agora. — Ele a beijou, e o beijo era diferente dos que dera nas últimas semanas. Não era o beijo apressado de quem está cansado, nem o beijo mecânico de quem cumpre uma obrigação. Era um beijo de comemoração. De alívio. De esperança.
Marina se deixou levar. As mãos dele percorreram seu corpo com a familiaridade de nove anos de casamento — os seios que ele conhecia tão bem, a cintura, os quadris. Não havia pressa, não havia fome. Havia apenas a certeza de que estavam ali, juntos, e que aquilo era deles.
Carlos a deitou na cama com cuidado, como se ela fosse frágil, como se tivesse medo de quebrá-la. O peso dele era familiar — magro, leve, seguro. Ele tirou a blusa dela, os seios fartos saltaram para fora, e ele os beijou com uma ternura que a fez fechar os olhos e, por um instante, esquecer tudo o mais.
— Eu te amo Marina— ele murmurou contra sua pele.
— Eu também te amo Carlos.
Ela disse a verdade. Amava Carlos. Amava a forma como ele a tocava, como a olhava, como a fazia sentir segura. Amava a vida que construíram, mesmo com todas as dificuldades. Amava o homem que ele era — bom, dedicado, presente. E era exatamente por isso que doía tanto saber o que ela teria que enfrentar.
Carlos entrou nela. O sexo era o de sempre — o movimento ritmado, a respiração ofegante, os gemidos abafados. Não era espetacular. Não era cinematográfico. Era real. Era deles. O "papai e mamãe", como ela chamava nos primeiros anos, quando ainda achava graça. E ela gostava. Gostava da simplicidade, da intimidade, da forma como ele a conhecia tão bem.
Ela fechou os olhos e se concentrou no toque, no calor, na presença do homem que amava. O corpo respondia devagar, mas respondia. Não era a explosão que os filmes mostravam, mas era real.
Foi então que Carlos mudou ligeiramente de posição. O movimento foi pequeno, quase imperceptível, mas fez com que a base do pau dele roçasse o ânus dela.
O choque foi inesperado.
Marina sentiu um prazer agudo, surpreendente, que subiu pela espinha e se espalhou pelos quadris. Um gemido escapou de seus lábios — mais alto do que o habitual, diferente do que ela costumava fazer. A surpresa a fez abrir os olhos.
— O que foi? — ele perguntou, parando o movimento, preocupado. — Doeu?
— Não... — A voz dela saiu estranha, quase sem graça. — É... foi sem querer. Não... foi nada. Continua.
Mas um calor subiu pelo seu rosto. Não era tesão. Era vergonha. A vergonha de ter gemido por algo que não era o toque dele, mas um acidente de percurso. A vergonha de ter sentido prazer em um lugar que ela nunca deu à intimidade com Carlos. A vergonha de que seu corpo tivesse reagido de uma forma que sua mente não autorizara.
Carlos já havia mudado de posição, voltando ao ângulo de sempre. O roçar não se repetiu. Marina sentiu um misto de alívio e algo que ela não queria nomear — uma ponta de curiosidade que ela imediatamente abafou.
Ele continuou o movimento, e Marina se concentrou em sentir o que sempre sentia. O prazer veio, baixo, constante, confortável. Não era a explosão que ela imaginava que existia, mas era real. Era deles. E ela se agarrou àquilo como quem se agarra a uma tábua de salvação.
Carlos gozou com um gemido abafado, o corpo tremendo contra o dela. Marina sentiu o orgasmo dele como se fosse seu — a entrega, a confiança, o amor. Ela o abraçou forte, apertou as pernas em volta dele, enterrou o rosto em seu pescoço.
— Foi bom? — ele perguntou, ofegante.
— Foi. Foi muito bom.
Ele se deitou ao lado dela, o braço pesado em volta de sua cintura, a respiração ainda ofegante. Marina ficou ali, olhando para o teto, sentindo o corpo ainda pulsar — não de prazer intenso, mas da paz que vinha depois da intimidade compartilhada.
— Marina — Carlos disse, depois de um longo silêncio. A voz estava diferente. Mais séria.
— O que foi?
— Eu estive pensando. — Ele se virou de lado, apoiando a cabeça na mão, olhando para ela. — Sobre a gente. Sobre o futuro.
— O que tem o futuro?
— Tem que... — ele hesitou, como se estivesse buscando as palavras certas. — As coisas estão melhorando. O meu emprego está garantido. Você vai trabalhar, vai ajudar nas contas.
— Sim — ela concordou, ainda sem entender.
— E quando a gente sair dessa... — Ele tocou o rosto dela, os dedos percorrendo a linha da mandíbula. — Eu quero que a gente comece a pensar em ter um filho.
Marina sentiu o coração apertar. Não de medo. Não de alegria. Era uma mistura das duas coisas, um nó na garganta que não sabia desatar.
— Um filho? — repetiu, como se precisasse processar.
— Um filho. — Carlos sorriu, e o sorriso era cheio de esperança. — A gente sempre quis, Marina. Desde o começo. Mas nunca deu certo. Sempre faltava dinheiro, sempre faltava tempo, sempre faltava estabilidade. Agora... agora a gente pode.
Marina olhou para ele. Para o rosto que conhecia melhor do que qualquer outro. Para os olhos que a viram no altar, que a seguiram por nove anos, que ainda brilhavam quando olhavam para ela. Ele era tudo o que ela sempre quis. E ela o amava. Amava de verdade, com todas as forças, com todas as fraquezas.
— Você quer mesmo? Não está brincando comigo né? — perguntou, a voz saindo mais fraca do que pretendia.
— Quero sim, não estou brincando — Ele pegou a mão dela, apertou os dedos entre os seus. — Quero te ver grávida. Quero ver você com a barriga cheia do nosso filho. Quero ser pai, Marina. Quero construir uma família com você.
Ela sentiu os olhos marejarem. Dessa vez, era alegria. Alegria pura, misturada ao medo do que estava por vir, mas alegria.
— Eu também quero — disse, e a verdade saiu como um soluço. — Eu quero muito, Carlos. Quero muito ter um filho com você.
Ele a beijou, e o beijo era doce, cheio de promessas. Marina correspondeu, os braços em volta do pescoço dele, o corpo colado ao seu. Por um momento, ela se permitiu sonhar. Sonhar com a barriga crescendo, com o quarto do bebê, com as noites em claro e as primeiras palavras. Sonhar com a vida que sempre quis.
Mas quando Carlos se deitou, quando a respiração dele se tornou lenta e profunda, Marina ficou acordada, olhando para o teto.
A felicidade ainda estava lá, mas agora acompanhada de um peso. Um peso que ela não sabia como carregar.
*Ele quer um filho*, pensou. *Ele quer uma família. Ele quer tudo o que eu sempre quis.*
O celular vibrou na mesa de cabeceira. Ela sabia quem era antes de olhar.
*"Você esteve magnífica hoje. Amanhã, quero que almoce comigo na minha sala. Tenho uma 'reunião' privada para discutir seu desempenho. Use a saia cinza. A que fica mais curta. — S"*
Ela leu a mensagem uma vez. Depois outra. O estômago se contraiu, o coração acelerou. Não era desejo. Não era fascínio. Era medo. Medo do que ele poderia pedir, medo do que ela teria que fazer, medo de não ser forte o suficiente para manter os limites que sabia que precisava manter.
Ao lado, Carlos dormia, o rosto relaxado, os lábios entreabertos, sonhando com o filho que queriam ter. Ele confiava nela. Ele a amava. Ele não fazia ideia do que ela teria que enfrentar.
Marina olhou para a aliança em seu dedo. O ouro gasto, a inscrição interna já quase apagada: *Para sempre, C&M.*
Ela não respondeu a mensagem imediatamente. Ficou ali, sentada na cama, olhando para a tela iluminada, sentindo o peso da escolha que já havia feito e que agora precisava sustentar.
Por fim, com os dedos que tremiam levemente, ela digitou:
*"Sim, Sr. Sérgio. A que horas?"*
A resposta veio em menos de trinta segundos:
*"Meio-dia. Não se atrase. E, Marina? Deixe a aliança em casa amanhã. Pequenos detalhes fazem toda a diferença."*
Ela leu a mensagem e sentiu um frio na espinha. A aliança. Ele queria que ela tirasse a aliança. Como se ela já não fosse mais esposa. Como se ele estivesse, aos poucos, apagando os vestígios da vida que ela tinha com Carlos.
Lentamente, ela a retirou. O metal estava quente contra sua palma, aquecido pela pele que a usara por anos. Ela a colocou sobre a mesa de cabeceira, ao lado do celular ainda iluminado. Ao lado de Carlos, que dormia, alheio.
Deitou-se novamente, os olhos fixos no teto, e deixou que a escuridão a engolisse.
No quarto ao lado, o ronco de Carlos era o único som, um ritmo constante que marcava o tempo que ainda lhes restava antes que tudo aquilo se tornasse irreversível. Marina fechou os olhos e pensou no filho que ele queria. Pensou na família que ele sonhava. Pensou em como ela queria dar aquilo a ele, como queria ser a esposa que ele merecia.
*Eu vou aguentar*, disse a si mesma, com uma convicção que precisava ser verdade. *Eu vou aguentar por nós. Pelo nosso filho. Pela nossa família.*
Mas, no fundo, ela não tinha certeza de nada. Apenas sabia que, a partir dali, cada dia seria uma batalha. E que ela teria que lutar sozinha.
Quando acordou, ao som do despertador, a primeira coisa que seus olhos encontraram foi a aliança sobre a mesa de cabeceira. Sozinha. Esperando.
Ela não a recolocou. Guardou-a na gaveta, ao lado das coisas que ainda eram só deles, e foi tomar banho.
A água quente escorria sobre seu corpo, e ela tentou não pensar no que viria. Tentou se convencer de que era apenas um trabalho. Apenas algumas horas por dia. Apenas um homem que ela precisava aturar.
*Eu vou fazer o que for preciso*, repetiu como um mantra. *Por ele. Por nós. Pelo nosso filho.*
Ela fechou os olhos, respirou fundo, e se preparou para mais um dia.
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NOTA DO AUTOR:
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