Castelo de areia. Temporada 1 - Cap. 1.5 . A praia. Parte 2

Um conto erótico de Manfi
Categoria: Heterossexual
Contém 5189 palavras
Data: 30/04/2026 17:06:45

CapA praia. Parte 2

(Tauane)

Nesse momento, eu juro… eu queria voar no pescoço das meninas.

Não era só raiva. Era mais fundo que isso. Era um tipo de irritação que vinha misturada com frustração, com arrependimento… e, principalmente, com a sensação incômoda de que eu mesma tinha ajudado a colocar tudo naquele lugar.

Porque eu tinha aberto a minha maldita boca…

Respirei fundo, passando a mão pelo rosto, tentando organizar os pensamentos que vinham rápidos demais, se atropelando, sem me dar tempo de decidir o que fazer primeiro.

Eu tinha colocado Carlos numa enorme armadilha. Por pura inocência, abri a boca e falei demais para alguém como o Hugo.

Eu tinha confiado nele. Confiado de verdade.

Falei sobre a Luana, seu segredo e o relacionamento com Carlos, como se aquilo fosse seguro, como se ele fosse alguém que saberia guardar, respeitar, entender.

Não foi por mal. Não foi por descuido. Foi porque, naquele momento, eu acreditei que ele era realmente diferente.

E isso me irritou ainda mais.

Não com ele. Comigo.

Porque era a primeira vez que ousava confiar. A primeira vez que me permiti olhar para uma pessoa — um homem — e ter a esperança de um relacionamento real, não uma merda de fantasia.

Soltei o ar devagar, olhando ao redor, tentando me localizar de novo dentro daquilo tudo. A casa, a piscina, o som distante, as risadas… tudo parecia normal demais para a quantidade de coisa errada que estava acontecendo ao mesmo tempo.

E, no meio disso… meus olhos tiveram uma única direção…

Carlos.

O pensamento veio direto, sem rodeio.

Se alguém ali não merecia estar no meio daquela confusão… era ele.

E, mesmo assim, estava.

Respirei fundo mais uma vez, dessa vez mais controlada.

Decidi agir. Não iria simplesmente assistir à destruição da única pessoa, fora da minha família, que me viu de verdade. Que, antes de me ver como a garota bonita da escola, me viu como uma amiga — uma amiga de verdade.

Enxergou em mim virtudes que eu nem achava que tinha. Na verdade, virtudes que eu nem sabia que merecia.

De forma abrupta, para não repararem, fui até a churrasqueira demonstrar o mínimo de apoio à pessoa que estava desmoronando na minha frente.

O calor bateu primeiro.

Não só da brasa, mas do ambiente. O cheiro de carne, o som da gordura estalando, o leve chiado constante… tudo criava uma espécie de fundo que deixava a cena ainda mais carregada.

Carlos estava de costas quando me aproximei.

Postura rígida. Movimentos contidos.

O tipo de concentração que não era sobre o que ele estava fazendo… mas sobre o que ele estava tentando não sentir.

Parei por um segundo antes de falar, observando.

O jeito como ele virava a carne com mais força do que precisava. Como segurava o utensílio com tensão nos dedos. Como não olhava para trás.

Ele já sabia que eu estava ali. Mas não quis demonstrar.

— Quer ajuda?

Minha voz saiu mais neutra do que eu esperava.

Ele demorou um segundo a mais do que o normal pra responder. Sem me olhar.

— Não precisa.

Curto. Direto. Mas não agressivo…

Aproximei mais um pouco, ficando ao lado dele.

O calor agora era mais intenso, mas não era isso que incomodava.

— Mesmo assim…

Peguei um dos temperos na bancada, mais pra ter o que fazer com as mãos do que por necessidade.

— Eu devia ter ajudado quando a gente chegou.

Aguardei qualquer resposta, mas recebi apenas silêncio.

O tipo de silêncio que machuca mais do que palavras, do que ofensas, do que xingamentos.

Um silêncio pesado, cheio de ressentimento…doloroso…principalmente para quem o escolhe.

Olhei de lado.

O maxilar dele estava travado. O olhar fixo na grelha, mas distante.

— Desculpa… por aquilo também.

Completei, dando uma ênfase especial na palavra aquilo.

E, dessa vez, ele parou.

Não completamente, mas o suficiente.

A mão ficou suspensa por um instante antes de virar a carne.

Ele respirou fundo. Devagar.

Os ombros tensos, erguidos.

E só então falou:

— Você não precisa se desculpar.

Claro que precisava. E o mais importante, eu queria…muito.

Virei o corpo um pouco mais na direção dele, tentando encontrar algum espaço ali que não fosse só tensão.

— Preciso sim. A gente tinha um combinado…a casa é minúscula…

Minha voz saiu mais baixa. Mais honesta.

— Não era pra ser assim.

Ele soltou um ar curto pelo nariz. Quase uma risada, mas sem humor nenhum.

— Não… não era.

O jeito que ele disse aquilo…me preocupou.

Porque não tinha ironia. Não tinha acusação direta.

Tinha algo pior.

Aceitação.

E, junto disso, uma irritação contida que parecia estar sendo empurrada pra baixo à força.

Observei o rosto dele com mais atenção.

O olhar mais duro.

A respiração menos regular.

O pequeno movimento do maxilar sempre que ele ficava em silêncio por mais de um segundo.

Ele estava segurando e não era pouco.

— Carlos…

Chamei, mais baixo.

Ele finalmente olhou pra mim.

E foi ali que eu percebi, de verdade…

Aquilo não era só incômodo.Não era só desconforto.

Era o tipo de coisa que, se não saísse…

ia explodir.

Não naquele momento, talvez.

Mas em algum outro momento…E eu não sabia quando…e nem como…

Segurei o olhar por um instante, tentando medir até onde eu podia ir ali sem piorar tudo.

Mas não era o momento.

Não com ele. Não daquele jeito.

Desviei primeiro. Respirei fundo.

— Eu vou ver a Tati.

Falei, mais pra mim do que pra ele.

Ele não respondeu.

E, dessa vez, o silêncio não pediu resposta.

Me afastei devagar, sentindo ainda o peso daquele olhar mesmo depois de virar o corpo.

Cada passo parecia mais pesado do que deveria, porque agora não era só o erro, era a consequência começando a aparecer.

E eu sabia. Sabia que não dava mais pra ignorar.

Nem fingir, muito menos adiar.

Encontrei minha irmã perto da porta da cozinha, encostada na bancada, mexendo em alguma coisa como se nada tivesse acontecido.

Como se tudo estivesse normal.

E isso…isso me irritou mais do que qualquer outra coisa até agora.

Parei na frente dela.

Esperei. A encarei dos pés a cabeça.

Ela levantou o olhar.

— Que foi?

Simples. Leve demais.

Respirei fundo.

Dessa vez sem tentar suavizar.

— A gente precisa conversar.

Minha voz saiu diferente, sem espaço pra brincadeira. Sem espaço pra fuga.

E, pela primeira vez desde que tudo começou…

Eu senti que aquilo não era mais uma escolha.

Era necessidade.

…………..

(Carlos)

Por mais que eu tentasse, talvez não tenha conseguido esconder nada.

E essa foi a pior parte, porque, no fim, não era sobre o que estava acontecendo… era sobre o quanto aquilo estava visível. Escancarado. Disponível para qualquer um que quisesse olhar com um pouco mais de atenção.

E, pelo jeito, alguém quis.

Tauane.

Resolveu se fazer de boazinha, vir até mim, falar baixo, oferecer ajuda, pedir desculpa… como se aquilo resolvesse alguma coisa. Como se eu precisasse daquilo.

E talvez fosse exatamente isso que mais me incomodava.

Porque, por um segundo… eu precisei.

Me senti pequeno — não de um jeito figurado, mas pequeno mesmo.

Como uma criança que sabe que alguma coisa está errada, mas não entende o quê, não sabe explicar, não sabe reagir… só sente. E espera. Espera que alguém mais velho, mais certo, mais seguro… resolva.

Aquilo era ridículo. Toda aquela situação era patética. Na verdade, eu era ridículo, e aquela situação apenas escancarou isso para todos.

O pior é que eu não consegui esconder. O quanto estava incomodado. O quanto estava envergonhado. O tamanho da minha pequenez no meio de todos os outros.

Estava tudo lá, para quem quisesse ver, como um livro aberto. Na minha expressão. No olhar. No jeito que eu fiquei parado. No tempo que levei para responder.

Tauane viu. Como se estivesse lendo minha mente, ela me deixou exposto.

E aí fez o que faz melhor.

Controlou. Ou tentou recuperar o controle — ou, pelo menos, a sensação de que ainda o tinha.

Chamou a Tati para “ajudar” ou algo do tipo.

Quase ri quando pensei nisso.

Ajudar.

A palavra ficou girando na minha cabeça por alguns segundos, com um gosto estranho, meio ácido.

Engraçado como, de repente, eu virei o problema.

O que precisa ser cuidado. Organizado. Resolvido.

Talvez fosse mais fácil mesmo ser o cara que não entende, que não percebe, que precisa que alguém explique o que está acontecendo.

Seria infinitamente mais prático.

Mais confortável.

Quase invejei essa versão de mim.

Mas não foi isso que realmente aconteceu.

Porque eu estava vendo. E, quando você vê… não tem mais volta.

Virei o rosto. E foi aí que piorou.

Não foi um movimento brusco. Foi quase automático, como se meu corpo estivesse tentando me proteger antes mesmo que eu entendesse do quê. Mas não adiantou.

Porque, quando meus olhos encontraram a cena… não teve como voltar atrás.

Luana, deitada na espreguiçadeira como se nada tivesse acontecido, como se aquilo ali fosse só mais um dia normal, como se eu não estivesse ali — ou, pior, como se eu não importasse o suficiente pra mudar qualquer coisa.

Senti o maxilar travar sem perceber. Um leve pressionar dos dentes, constante, incômodo.

O corpo relaxado… exposto.

E não era só a posição. Era o jeito. O descuido calculado. A naturalidade forçada que, justamente por ser tão perfeita, deixava claro que não tinha nada de inocente ali.

O biquíni pequeno demais, quase irrelevante pra função que deveria ter.

Engoli seco.

Não era descuido. Não era falta de noção.

Era escolha.

E essa percepção veio rápido. Rápido demais.

Como um estalo seco dentro da cabeça.

Meu peito subiu um pouco mais forte numa respiração que não chegou a ser profunda. Só irregular.

E isso ficou claro rápido demais.

O jeito que ela se movia, ajustando o corpo sem pressa, sem preocupação, deixando a pele aparecer mais do que o necessário… mais do que o confortável… mais do que o esperado.

Meu olhar tentava escapar, mas sempre voltava.

Como se tivesse um peso ali. Como se alguma coisa puxasse.

Como se soubesse exatamente o efeito que causava. Principalmente, soubesse em quem…

Olhei pro Hugo.

Quase por reflexo. Como se eu precisasse confirmar. Como se eu ainda tivesse alguma esperança idiota de que estava interpretando tudo errado.

Mas não.

O cara não fazia questão nenhuma de disfarçar.

O olhar fixo, lento, percorrendo, sem culpa, sem pressa, sem medo.

Aquilo me deu um incômodo físico. Literal.

Um aperto estranho no estômago. Um calor subindo pelo pescoço. As mãos ficaram levemente tensas ao lado do corpo, os dedos se contraindo sem que eu percebesse.

E aquilo… aquilo me incomodou de um jeito que eu não esperava.

Não apenas por causa dele.

Mas principalmente por conta dela.

Porque, em nenhum momento, ela tentou evitar. Nem ajustar. Nem quebrar o olhar.

Nada.

Muito pelo contrário.

Mostrava estar confortável com toda a situação. Quase cúmplice.

Essa palavra ficou ecoando na minha cabeça.

Cúmplice.

Desviei o olhar imediatamente…

Quase como se tivesse sido pego fazendo alguma coisa errada.

Tarde demais.

Porque, no meio disso tudo… eu também estava olhando.

Lógico que estava.

Soltei o ar pelo nariz, curto, irritado comigo mesmo.

Fiquei observando aquele corpo que, nas últimas semanas, foi meu objeto de desejo.

E essa consciência veio pesada.

Veio com um peso que não era só emocional. Era físico. Como se algo tivesse descido pelos ombros, me puxando pra baixo.

E essa foi a parte que mais me irritou.

Porque não era só sobre o que eles estavam fazendo.

Era sobre mim. Sobre como eu reagia.

Sobre como, mesmo incomodado, mesmo desconfiado, mesmo com tudo gritando errado na minha frente… eu ainda respondia.

Senti isso no corpo.

No jeito que minha postura mudou quase imperceptivelmente.

No modo como minha respiração ficou mais curta.

No calor que não tinha nada a ver com o ambiente.

O corpo respondia.

Traidor.

Como se nada daquilo importasse.

Como se bastasse.

Passei a mão no rosto, tentando disfarçar, como se aquele gesto pudesse reorganizar alguma coisa dentro de mim.

Não organizou.

Soltei um ar curto, quase uma risada sem humor.

Bonito… Muito bonito.

Balancei a cabeça de leve, olhando pro chão por um segundo, como se aquilo fosse me dar algum tipo de controle.

O cara ali, achando que estava entendendo tudo, analisando, conectando pontos… e preso exatamente no mesmo lugar que criticava.

Senti um desconforto subir pelo peito. Não era raiva pura. Era pior.

Era reconhecimento.

Talvez a lógica que dominava minha mente naquele momento estivesse certa.

Talvez eu fosse só mais um.

Um pouco mais lento. Um pouco mais iludido.

Mas, no fim… igual.

A palavra veio seca.

Igual.

Levantei o olhar de novo.

Mesmo sem querer.

Como se alguma parte de mim ainda insistisse em confirmar, em validar, em se torturar mais um pouco.

Voltei a olhar.

Dessa vez mais rápido. Mais controlado.

Forçando o pescoço a se mover menos. Tentando limitar o tempo. Tentando manter algum tipo de dignidade que, naquele ponto, já parecia meio inútil.

Tentando não me entregar de novo.

Mas já era.

Porque agora não era mais só o que eu via.

Era o que eu estava começando a entender.

E essa compreensão veio como um peso lento, se espalhando.

No peito. Na cabeça.

No jeito que meu corpo ficou mais rígido sem que eu percebesse.

E isso… isso era muito pior.

Porque você até ignora.

Mas entender…

Não tem como desfazerTauane)

Entrei com a minha irmã na cozinha e já soltei, sem dar tempo para ela se preparar:

— Poxa, Tati… você com a Luana? Na cara dele?

A porta ainda nem tinha terminado de bater atrás da gente, e minha voz já tinha preenchido o ambiente inteiro, alta demais, direta demais, carregada de um incômodo que eu mesma não tinha conseguido organizar antes de falar.

Ela nem hesitou. Virou rápido, cruzando os braços, o olhar firme, quase desafiador, como se já estivesse esperando por aquilo, como se aquela conversa já estivesse pronta dentro dela muito antes de acontecer.

— Nem vem… e você? Não conseguiu esperar um minuto? Maresias inteira ouviu o que vocês fizeram naquele quarto.

Senti o impacto na hora, não só pelo que ela disse, mas pelo jeito como disse.

A resposta veio na mesma altura, na mesma intensidade, como um reflexo, e meu corpo reagiu antes da minha cabeça — os ombros tensionaram, o ar ficou mais curto, um calor subiu pelo peito e se espalhou rápido demais.

Por um segundo, pensei em retrucar, em empurrar mais, em não deixar barato, e as palavras até vieram, prontas, afiadas, esperando para sair… mas travaram.

Porque o silêncio veio antes. Curto, pesado e, de alguma forma, necessário.

Ficamos ali, paradas, nos encarando, medindo até onde aquilo ia.

Eu sentia o coração batendo mais forte, não rápido, mas pesado, como se cada batida carregasse mais do que devia.

E então… quebrou. A tensão cedeu primeiro no olhar dela, um leve amolecer quase imperceptível, e depois no meu, como se fosse automático.

A gente se conhecia demais para sustentar aquilo por muito tempo.

Sempre foi assim. Como se existisse um limite invisível entre a gente, e a gente soubesse exatamente quando parar.

— Me conta… — ela disse, inclinando levemente o corpo para frente, um sorriso aparecendo no canto da boca — ele é tudo isso mesmo?

Revirei os olhos automaticamente, um reflexo que veio antes da vontade de responder.

— Sério isso?

Mas eu já estava sorrindo também, mesmo sem querer, sentindo o canto da boca puxar sozinho.

Porque, no fundo, era sempre assim.

A gente brigava, se atacava, se expunha… e, no meio disso, voltava para o mesmo lugar. Cúmplice.

Sempre.

Encostei o quadril na bancada, cruzando os braços de leve, tentando parecer mais relaxada do que realmente estava, embora meu corpo ainda carregasse o resquício da tensão — nos ombros, na respiração que ainda não tinha se estabilizado completamente.

Tati mais nova que eu, mas , assim como eu, queria viver tudo, experimentar, sentir, errar.

Isso aparecia nos detalhes — no brilho do olhar, na forma leve como mudava de assunto, no jeito como parecia sempre confortável, mesmo quando não deveria estar.

A diferença era que ela sabia esconder melhor. Muito melhor.

Ela tinha uma habilidade que eu nunca tive: fazer tudo parecer certo, se manter dentro de uma imagem que ninguém questionava.

A filha perfeita, a garota comportada, a inocência intacta.

Aquela de quem ninguém desconfiava.

E aquilo não era só aparência, era construção, era controle.

Enquanto isso, eu sempre fui mais óbvia, mais intensa, mais fácil de ler.

Meu olhar entregava, minha postura entregava, até o meu silêncio entregava.

Na época, eu não conseguia enxergar isso. Eu também era, muitas vezes, enganada, mesmo conhecendo ela como ninguém.

Hoje… eu vejo demais.

Vejo nos pequenos gestos, nos tempos de resposta, nos silêncios que não são vazios.

Entendo as nuances, como a inocência dela funcionava quase como uma arma — talvez nem algo que ela mesma entendesse totalmente naquele momento.

— E você? — perguntei, inclinando levemente a cabeça, observando — desde quando você e a Luana estão… assim?

Ela deu de ombros, como se não fosse nada, mas eu percebi o pequeno atraso antes da resposta.

— A gente sempre foi próxima.

Apoiei mais o peso na bancada, estreitando o olhar.

— Próxima, Tati… ou próxima?

Ela segurou o sorriso, controlando, como sempre.

— Qual o problema?

Inclinei a cabeça, analisando.

— Nenhum. — deixei a pausa se estender um segundo a mais — Desde que você não esteja sendo idiota.

Ela riu baixo, sem se afetar.

— Engraçado você falar isso.

Passei a língua no céu da boca, sentindo o gosto seco, segurando a resposta por um instante.

— Eu não tô falando de mim.

— Nunca tá.

A gente se encarou de novo, mas dessa vez não era confronto. Era entendimento. Era aquele tipo de troca silenciosa que não precisava de muito.

— E o Carlos? — ela perguntou, mais baixo agora.

O nome dele veio diferente, mais pesado.

Senti isso no corpo, no leve travar da respiração, na forma como meu peito pareceu segurar o ar por um segundo antes de soltar.

— O que tem ele?

— Você sabe.

Desviei o olhar por um instante, focando na bancada, em qualquer coisa que não fosse ela.

Sabia.

Mas não respondi.

— Você vai machucar ele.

A frase não veio como acusação, veio como constatação, simples, direta, e isso me incomodou mais do que deveria.

Senti um aperto subir pelo peito, um incômodo difícil de ignorar.

— Não é tão simples assim.

— Nunca é pra você.

Soltei o ar pelo nariz, quase rindo, sem humor.

— E pra você é?

Ela não respondeu.

Mas o silêncio respondeu por ela.

E foi aí que eu entendi: ela também estava no meio de alguma coisa. Só não demonstrava. Nunca demonstrava.

Ficamos em silêncio por alguns segundos, cada uma presa no próprio pensamento, como se a conversa tivesse ido mais fundo do que a gente pretendia. E, como sempre, ninguém quis continuar dali.

Fui a primeira a desviar.

Me afastei da bancada, senti o frio da pedra sair das costas, e caminhei até a porta da cozinha, apoiando o ombro na parede, cruzando os braços numa tentativa quase instintiva de me ancorar em alguma coisa enquanto voltava minha atenção para fora.

E foi aí que eu vi.

Hugo, de pé, ao lado da espreguiçadeira onde a Luana estava deitada. Próximo demais. Inclinado o suficiente para não parecer invasivo… mas perto o bastante para ser.

O tipo de proximidade que tenta se disfarçar, mas não engana.

Ele estava confortável, o corpo relaxado, sem tensão nenhuma, como se aquilo fosse natural.

A sunga marcava sem esforço, sem vergonha, sem tentativa de esconder, e aquilo me chamou atenção rápido, quase instantâneo — não pelo tamanho, mas pela naturalidade, pelo jeito como ele simplesmente não se importava. E, pior… ela também não.

Eles conversavam sobre alguma coisa leve, riam, soltos, como se nada estivesse acontecendo, como se não tivesse ninguém ali observando, como se não existisse consequência nenhuma.

O som da risada chegava abafado até mim, misturado com os outros sons da casa, mas ainda assim claro o suficiente.

Meu maxilar travou sem que eu percebesse, senti os dentes pressionarem mais forte, a respiração ficou mais curta, mais pesada, e o pensamento veio automático, rápido, cortando.

Não foi ciúme. Eu conhecia o ciúme. Aquilo era outra coisa. Mais quente, mais direta.

Ódio.

Porque não era sobre perder. Era sobre ver.

Ver demais. Entender rápido demais. E não poder fazer nada.

Dei um passo à frente sem pensar, o corpo reagindo antes da razão, mas não fui longe. A mão da Tati segurou meu braço, firme, os dedos pressionando o suficiente para me parar.

— Nem pensa nisso.

A voz dela saiu baixa, segura, sem espaço para discussão.

Eu não olhei para ela.

Continuei olhando para frente, para eles, para tudo que estava acontecendo ali, escancarado, dissimulado, errado de um jeito quase ofensivo.

Senti a pressão dos dedos dela aumentar um pouco.

— Tauane… Tau… por favor.

Respirei fundo, devagar, puxando o ar pelo nariz, segurando, soltando aos poucos, tentando recuperar um controle que já tinha passado do ponto. Mas não era simples.

Porque, pela primeira vez, eu não queria controlar.

Meu corpo não queria recuar, não queria fingir que não via.

Eu queria reagir.

Queria interromper, expor, quebrar aquilo.

E isso… isso era muito mais perigoso.

………..

(Carlos)

Como esperado, Hugo levantou.

Não foi brusco, nem chamativo. Pelo contrário… foi natural demais. Natural a ponto de incomodar.

Como se aquele movimento já estivesse decidido muito antes, como se ele só estivesse esperando o momento certo — ou criando ele, pouco a pouco, sem pressa, sem precisar forçar.

Eu percebi antes mesmo dele terminar de se levantar.

No jeito que o corpo se ajustou, na postura que mudou quase imperceptivelmente, no olhar que passou a ficar um pouco mais presente, mais direcionado. Pequenas coisas. Detalhes que, juntos, diziam muito mais do que qualquer atitude direta.

E, aos poucos, ele começou.

Nada direto. Nada óbvio. Mas suficiente.

O tipo de presença que cresce sem pedir espaço. Que se impõe sem parecer que está tentando. O corpo se posicionando melhor, ocupando mais o ambiente, o olhar demorando um pouco mais do que deveria, o sorriso aparecendo no momento certo, com a medida exata entre o casual e o intencional.

Se mostrando.

E aquilo não era improviso. Não era impulso. Era controle.

E, como eu já imaginava… ela não evitou.

Luana não recuou.

E isso veio antes de qualquer gesto mais claro. Veio na ausência de reação. No conforto. Na naturalidade com que ela permaneceu ali, como se aquilo fosse esperado, como se fizesse parte.

Não que fosse escancarado. Não era.

Era sutil o suficiente para qualquer outra pessoa ignorar. Para passar batido no meio do barulho, das conversas, do movimento do lugar.

Mas não pra mim.

Não mais depois de tudo o que aconteceu, tudo que eu já tinha visto, sentido, percebido.

Agora eu via diferente.

Agora eu prestava atenção.

Agora eu entendia o que antes passava.

Com o tempo, ninguém poderia deixar de notar a marcação que se formava na sunga branca dele, cada vez mais evidente conforme ele se movimentava sem qualquer preocupação em disfarçar.

Ou o modo como ambos não tinham nenhum pudor em percorrer o corpo um do outro com o olhar, como se estivessem medindo, avaliando, absorvendo cada detalhe, sem pressa, sem vergonha.

Era um jogo silencioso.

E eles sabiam jogar.

Eles pareciam estar sozinhos naquele quintal. A conversa fiada com risadas cada vez mais soltas, mais leves, mais despreocupadas, como se nada mais existisse ao redor, como se não houvesse contexto, consequência, história.

Como se fosse só aquilo.

Tauane saiu da cozinha com alguma coisa na mão. Eu vi o movimento, vi ela cruzando o espaço, mas não registrei de verdade. Não lembro o que era, nem tentei focar nisso.

Minha atenção já estava presa em outro lugar.

Preso demais.

Ela colocou o que estava segurando sobre a mesa e chamou Hugo. A voz firme, direta, sem espaço para interpretação. Sem margem para dúvida.

Ele foi.

Sem hesitar.

Como se estivesse esperando por isso também.

Ela segurou a mão dele e puxou para dentro da casa.

O gesto foi rápido, mas claro.

E aquilo deveria ter quebrado aquele clima naquele momento. Era o esperado. Era o lógico.

Mas isso não aconteceu.

Pelo menos, para mim, nada mudou.

Porque o que já tinha sido visto… não voltava atrás.

E, no segundo seguinte, Tati sentou ao lado da Luana.

Simples assim.

Como se nada tivesse acontecido.

Continuaram a conversar normalmente. Risadas, cochichos, aproximações sutis demais para serem chamadas de qualquer coisa, mas evidentes demais para serem ignoradas.

Meu corpo ficou mais rígido sem que eu percebesse.

A respiração mais curta.

O olhar preso.

Tati desviou o olhar por um segundo em minha direção, falou algo para Luana, e apenas nesse momento que aconteceu…

Como se só então lembrasse que eu existia, Luana virou o rosto, me encontrou e, pela primeira vez desde que tudo começou, se levantou.

Veio até mim.

Sem pressa.

Como se não houvesse urgência nenhuma.

Como se aquilo não tivesse peso.

Respirei fundo sem perceber.

O ar entrou mais pesado do que deveria.

Ela parou na minha frente, com aquele mesmo olhar de sempre. Leve. Quase inocente.

Como se nada tivesse acontecido.

Como se nada estivesse acontecendo.

— Tá tudo bem?

A pergunta veio simples demais. Simples a ponto de parecer ensaiada. Automática.

Eu sustentei o olhar por um segundo a mais do que o normal.

Tempo suficiente para sentir o desconforto crescer.

— Tá.

Saiu fácil demais.

Ela inclinou levemente a cabeça, analisando.

— Você tá estranho.

Soltei um ar curto pelo nariz.

— Só cansado.

Ela assentiu, mas não pareceu convencida — ou talvez nem estivesse tentando convencer.

— Você ficou quieto…

A frase ficou no ar, incompleta, esperando que eu terminasse.

Não terminei.

Fiquei olhando.

Esperando.

Ela desviou o olhar por um instante, rápido demais para ser descuido.

E isso já foi suficiente.

— Não aconteceu nada, tá?

Falou de forma direta. Mas o vazio permaneceu.

Era como uma dquelas frases que dizem tudo… sem dizer nada.

Eu continuei em silêncio, deixando ela falar.

Se enrolar tentando se explicar.

— O Hugo é só… jeito dele. Ele é assim com todo mundo.

“Todo mundo.”

A palavra ficou ecoando mais do que deveria.

Interessante. O que será que ele quis dizer? O que será que sabe? Ou estava apenas tentando achar uma justificativa?

Assenti devagar, como se aquilo fizesse sentido.

Como se resolvesse.

Mas não resolvia.

— E a Tati…

Ela parou por um segundo, escolhendo as palavras.

Medindo, tentando achar o jeito e o momento certo.

— A gente tava só brincando.

Brincando. Claro.

Fazia todo sentido. Muito sentido.

Soltei uma pequena risada, sem humor.

— Tá.

Ela me olhou de novo, mais firme agora.

— Você tá pensando besteira.

Eu quase respondi.

Mas parei. Porque, pela primeira vez, não era sobre o que eu pensava.

Era sobre o que eu estava vendo.

E isso ela não podia negar. Não completamente.

Aproximei um pouco o corpo. Não o suficiente para intimidar.

Só o suficiente para diminuir a distância. Para sentir.

Ela não recuou, mas também não avançou.

Ficou ali no meio termo, como sempre fazia.

— Você confia em mim, né?

A pergunta veio baixa. Mais baixa do que as outras.

E, por um segundo… me pegou.

Não pela pergunta. Mas pelo momento.

Pelo jeito. Pelo timing.

Respirei fundo sentindo o ar pesar dentro do peito.

— Confio.

E, naquele momento…

Eu quis acreditar nisso.

De verdade.

Ela sorriu de leve, aliviada — ou fingindo estar.

Difícil saber o que se passava em sua cabeça naquele momento.

O resto do dia passou sem novidades.

Ou talvez com novidades demais para serem processadas de uma vez.

A noite caiu sem que eu percebesse direito quando. A luz mudou, o som da casa mudou, as vozes ficaram mais baixas, mais soltas, mas nada disso realmente me tirou daquele lugar.

As conversas ficaram mais leves, mais superficiais, como se todo mundo tivesse decidido, silenciosamente, não tocar em nada que realmente importava.

Ou machucava.

O casal foi pro quarto.

Dessa vez, mais cuidadosos. Mais silenciosos.

Mas não o suficiente, principalmente naquela casa tão pequena.

Eu ajudei a lavar a louça, organizei o que faltava, fiz o básico.

Meus movimentos eram automáticos, repetitivos. Sem vida. Fazia tudo sem pensar…apenas continuava…

A cabeça estava longe, com pensamentos que começavam mas sempre voltavam pro mesmo lugar. Puxados de volta para o início. Parecia um maldito imã gigante puxando esferas minúsculas sem dificuldade.

Quando terminei, fui pro sofá. Exausto. Não apenas pelo aspecto físico mas, principalmente, emocionalmente…

Já aceitando que aquele era meu lugar.

Sem discutir. Sem questionar.

Era o que tinha, o que tinha sobrado. Não me restavam forças ou vontade de reivindicar alguma outra coisa.

Sentei, passando a mão no rosto, tentando desligar.

Mas não consegui.

O corpo estava ali, mas a cabeça, não. Estava num lugar tão distante que não tinha como a encontrar naquele momento.

Ouvi um cochicho baixo de vozes que conhecia bem.

Olhei de lado.

Luana falando algo com a Tati.

Perto demais…Íntimo demais.

O tipo de proximidade que não precisava de explicação… mas pedia.

A Tati sorriu e foi pro quarto sozinha. Não olhou para mim e nem se despediu, como se não tivesse me visto.

Aquilo ficou no ar.

Pesado.

Sem explicação.

Luana caminhou até mim.

Sem pressa. Medindo cada passo, cada movimento.

Sentou ao meu lado e sem que tivesse esperando, me beijou.

O beijo foi como todos os outros desses últimos meses.

E foi exatamente isso que mais me incomodou.

Mesmo assim meu corpo respondeu na hora, sem resistência, como se nada tivesse mudado.

Como se tudo estivesse exatamente no mesmo lugar de antes.

Logicamente que nada estava igual. Eu sabia e com certeza ela também.

Mesmo assim… respondi. Uma leve esperança patética retornou invadindo minha mente.

Ela conduziu como sempre. Escolheu o ritmo, o tempo, a intensidade. O local de seu corpo que podia ser encostado pelas minhas mãos.

Ela fazia tudo sem esforço, sem dúvida. Como alguém com uma experiência bem maior do que dizia não ter.

Como se tivesse certeza de cada reação minha antes mesmo de acontecer.

E, quando eu comecei a me entregar…já estava duro, já estava imaginando que teria uma recompensa mínima pelo menos, por tudo que aconteceu…

Ela parou.

Novamente sem aviso, sem motivo aparentemente. Sem se dar ao trabalho de tentar explicar. De novo.

Só parou.

Deixando tudo no meio do caminho…

Suspenso. Incompleto.

Meu corpo ainda preso naquele momento que não terminou.

Naquela resposta que não teve continuidade.

Ela sorriu de leve, como se soubesse exatamente o que estava fazendo.

Porque sabia. A verdade é que sempre soube.

Nem tentou avançar mais. Nem quis. Como nunca queria.

Apenas se levantou e foi para o quarto.

Simples assim.

Rebolando de leve, sem olhar para trás, como se aquilo fosse só mais uma coisa qualquer.

Como se não tivesse deixado nada ali.

Eu fiquei no sofá, sozinho, com meu corpo ainda reagindo.

A respiração irregular.

O peito pesado.

A cabeça… muito mais.

Porque agora não era só desejo. Era outra coisa misturada.

Confusa.

Pesada.

Algo que não encaixava.

Que não voltava para o lugar.

E, pela primeira vez… não dava mais para separar o que eu sentia do que eu estava começando a entender.

Continua…

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Comentários

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Nesse capítulo ficou comprovado o lance da Luana com a Tati, Hugo é só um moleque de 30 anos, Tati tá pouco se fudendo pro Carlos e a Tau sente algo por ele, mas enfia os pés pelas mãos.

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Acabei de maratonar isso meu amigo e simplesmente adorei, 3 estrelas é pouco.

Bom, no lugar dele eu simplesmente iria embora sem avisar ninguém, quando acordassem pela manhã eu não estaria mais naquela casa e que se foda o mundo. Poderiam me ligar, mandar recado que simplesmente não iria atender e depois quando me encontrasse novamente com elas eu diria simplesmente uma coisa. Me recolhi a minha insignificância e também mandava a namorada para a puta que pariu de forma bem grotesca e que se foda o mundo. esse seria eu rsrsrss

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Pensei a mesma coisa, mas não esperaria o dia seguinte, sairia da churrasqueira pegaria minhas coisas e iria embora naquela hora mesmo.

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Manfi solta mais um por favor 😔

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Até sábado é ctz!!! Talvez hj, vou negociar aqui...kkk

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Manda hoje por favor 😃 tu ficou muito tempo sem mandar capítulo tá devendo para nós 😂😂😂

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Excelente conto meu irmão.

Eu já te peço perdão pelo que vou falar, não costumo fazer isso, mas eu gostaria que vc fosse mais direto em seus contos, eu acho cansativo, vc floreia de mais, cada capítulo é um parto para ler, não é objetivo, muitas vezes tem vários pleonasmos no texto.

Me desculpe de novo pela minha opinião, mas a proposta do conto é espetacular.

Abração.

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Opa cara, muito obrigado pelo feedback...sério!!!

Vc não foi o primeiro a falar isso.

Mas a história até aqui é bem direta...pelo menos nesse primeiro momento é muito mais o que os personagens sentem do que fazem...

Eu poderia escrever essa parte em 500 linhas se o foco fosse a ação.

O Carlos está mal na churrasqueira, pois além de ter sido obrigado a ouvir o que aconteceu com o casal...o cara ainda saiu humilhando ele.

A tau se sentiu mal, foi falar com ele. Percebeu que ele tava mal, a ponto de explodir...aí teria que mostrar como ele reagiu ou não??? Ela foi tirar satisfação com a irmã.

Conversaram...conversa que diz muita coisa sem dizer nada...

Ela viu a cena do Hugo e a Luana. Teria que fazer oq, apenas citar o que ela sentiu? Acabou a parte dela.

A parte do Carlos...ele fica na churrasqueira...vê o que viu em relação a Hugo e Luana...sem introspecção seria apenas repetição da cena...então pq fazer duas perspectivas??? Ele reagiu...o corpo dele reagiu...como sentiu com isso, não aparecia...apenas que reagiu...fim da parte dele...

Aí a parte dele com a Luana no sofá...e fim...

Se for ver o que aconteceu...teria 4 capítulos apenas...

Enfim... obrigado realmente pela crítica...vai ser realmente aproveitada de alguma maneira...muito obrigado...

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