*8:00 da manhã - 2h pra apresentação do projeto*
Lucas acordou com o coração batendo estranho. Esticou o braço pro lado da cama. Vazio. Frio.
Levantou devagar, a cabeça ainda pesada da noite anterior. Caminhou até a sala descalço, pisando macio no piso de madeira.
E parou.
Marina estava de costas, encostada na janela, de camisola. O celular no ouvido. A outra mão tapando a boca pra abafar o choro.
"Sim, pai... eu não aguento mais isso tudo." A voz dela saiu quebrada. "Está me corroendo por dentro. Sim, eu amo meu marido mais que tudo... eu não sei o que fazer."
Lucas sentiu o estômago despencar. Encostou no batente da porta, sem fazer barulho.
Marina ficou em silêncio, ouvindo. Passou a mão no rosto, secando as lágrimas. Mordeu o lábio com força.
"Sim... talvez seja o certo a fazer." Ela sussurrou. "Eu não sei. Tenho que pensar."
Desligou. Ficou ali, parada, olhando pra rua lá embaixo. Os ombros tremendo.
Lucas respirou fundo e deu um passo pra dentro da sala. O assoalho rangeu.
Marina virou num sobressalto, os olhos vermelhos, arregalados.
"Lucas! Você... há quanto tempo você está aí?"
Ele não respondeu. Só olhou pra ela. Direto.
"O que é o 'certo a fazer', Marina?"
Ela engoliu seco. Tentou sorrir, mas falhou.
"Amor, não é... não é nada. Meu pai só está preocupado. Por causa de ontem, do Ricardo, do projeto..."
Lucas deu mais um passo. Devagar.
"Você disse que me ama mais que tudo. Mas disse que não aguenta mais. E que talvez seja o certo a fazer." A voz dele saiu baixa, mas cada palavra pesava. "O certo a fazer o quê?"
Marina largou o celular no sofá e foi até ele, segurando o rosto dele com as duas mãos.
"Lucas, olha pra mim. Eu te amo. Eu nunca, jamais, ia fazer algo pra te machucar. Meu pai... ele está com medo. Ele acha que eu devia..." Ela parou, a voz falhando. "Ele acha que eu devia me afastar do projeto. Pedir demissão. Hoje. Antes da apresentação."
O silêncio caiu entre os dois.
"Ele disse que esse ambiente está me destruindo. Que o Ricardo, a Isabela... que não vale a pena. Que eu devia escolher você. Escolher a nossa paz." As lágrimas desceram de novo. "Mas esse projeto é a minha vida, Lucas. É tudo que eu construí. Se eu sair agora, eu perco tudo. Minha reputação, minha carreira...e além doais eu sendo promovida não estareias perto do Ricardo de nenhum deles ,estarei na filial da empresa no comando ,na barra da Tijuca .
O relógio na parede marcou 8:05.
*Faltam 1h55 pra apresentação.
Lucas soltou o ar.
"Se arruma. A gente vai nessa apresentação quero ver minha esposa vencer . E depois a gente decide junto o que é o 'certo a fazer'. Mas a gente decide junto. Não eu, não seu pai. Nós dois."
Marina assentiu, aliviada e com medo ao mesmo tempo.
"Tá bom. Nós dois."
Ele beijou a testa dela. Mas por dentro, uma frase do pai dela ecoava na cabeça dele: _talvez seja o certo a fazer._
_O certo pra quem?_
*10:00 - Auditório da empresa*
O lugar estava lotado. Diretores, investidores, esposas, amigos. Flash de câmeras, taça de champanhe, cochicho.
Marina entrou e o ar mudou. Vestido de gala preto, colado, decote nas costas. O tecido abraçava cada curva do corpo dela. A pele branca contrastava com o preto, o cabelo loiro solto em ondas, os olhos azuis brilhando de maquiagem e tensão. Uma deusa.
Lucas ao lado, blazer valentino preto, camisa por dentro, óculos escuros mesmo dentro do auditório. Postura fechada.
Isabela veio gingando, taça na mão, sorriso venenoso.
"Nossa, que casal lindo. Kkkkk. De cinema."
Marina forçou um sorriso. "Com licença." E sumiu em direção ao banheiro.
Isabela encostou em Lucas, soltando as velhas piadas.
"Doutorzinho tenso? Relaxa. Hoje é festa. Ou velório, depende do ponto de vista. Kkkk."
Lucas não respondeu. Inventou que ia pegar água e saiu.
No corredor do banheiro, deu de cara com Marina saindo. Rosto inchado, maquiagem borrada de tanto chorar. Ela travou quando viu ele.
"Amor!" Se assustou.
"Marina, o que houve? Por que você está chorando?" Lucas segurou o rosto dela.
"Nada..." Ela desviou o olhar. "É só nervosismo por causa da apresentação. Sério."
Lucas passou o dedão tirando o rímel borrado.
"Calma. Vai dar tudo certo."
Mas algo não batia. Marina não era de chorar por apresentação. Ela vivia pra isso.
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O evento corria. Música baixa, risadas, brindes. De longe, Lucas viu quem procurava: Sr. Estevão Maneguete, o Presidente. Terno cinza, cabelos grisalhos, o homem que mandava em tudo ali.
Lucas se aproximou e cumprimentou.
"Sr. Estevão, prazer. Lucas, marido da Marina."
"Ah, você!" Estevão apertou a mão dele com força. "O Lucas. Sua esposa tem muito talento. Ela tem tudo pra crescer muito na empresa."
"Obrigado, senhor. Inclusive..." Lucas baixou a voz. "Eu queria te passar algo. Por email ou WhatsApp. O senhor vai gostar de ver."
Estevão arqueou a sobrancelha. "O que seria, rapaz?"
"Me passa seu número, senhor. É algo que o senhor precisa ver. Por favor, só olhe quando receber."
"Ok." Estevão passou o contato, desconfiado. "Me adicione."
Nesse momento anunciaram no microfone: "Senhoras e senhores, daremos início à apresentação do Projeto Ônix."
Slides, fotos, números. Marina, Ricardo, Isabela e Henrique no palco, cada um falando sua parte. Profissionais. Como se nada tivesse acontecido ontem.
No meio da fala de Ricardo, Lucas tirou o celular do bolso. Anexou o arquivo. Áudio completo da casa da Isabela. Tudo. As confissões, o rastreador, a ameaça, o beijo. Enviou.
_Vibração._
Do outro lado do auditório, Sr. Estevão sentiu o celular no bolso. Olhou pra tela. Olhou pra Lucas. O rosto do homem ficou pálido. Travou a mandíbula. Guardou o celular e voltou a prestar atenção no palco, mas os olhos dele não saíram mais de Ricardo.
Fim da apresentação. Aplausos de pé. Sucesso absoluto.
Sr. Estevão subiu ao palco, pegou o microfone.
"Excelente trabalho, equipe. E antes de encerrarmos..." Chamou com a mão. "Marina, por favor, venha aqui."
Marina subiu, confusa, o coração na boca.
"É com orgulho que eu anuncio a nova Diretora Executiva da nossa filial da Barra." Estevão entregou o microfone pra ela. "Parabéns, Marina. Você mereceu."
O auditório explodiu em palmas. Marina olhou pra Lucas lá embaixo, os olhos brilhando, cheios de lágrimas. Ele assentiu, orgulhoso. Não podia deixar de ficar feliz pela esposa, mesmo com o nó na garganta.
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Enquanto Marina agradecia no palco, Sr. Estevão desceu e fez um sinal seco com a cabeça pra Ricardo.
"Na minha sala. Agora."
15 minutos depois a porta do escritório abriu com força. Ricardo saiu vermelho, suando, a veia do pescoço saltando. Viu Lucas no corredor e veio pra cima, apontando o dedo.
"Desgraçado! Você gravou toda a conversa na casa da Isabela no seu celular, seu maldito! Você me paga! Eu fui demitido! Você acha que é fodão, mas não sabe de nada, maldito!"
Lucas tirou os óculos escuros devagar. E sorriu. Pela primeira vez em dias, um sorriso de verdade.
"Uma vitória."
Ricardo rosnou e foi embora esbarrando nas pessoas.
Lucas foi até Marina, que tinha acabado de descer do palco. Abraçou ela forte.
"Você merece, meu amor. Você lutou e conseguiu. Estarei sempre do seu lado."
Marina chorou no peito dele. "Obrigada..." Depois se afastou. "Espera."
Ela foi direto até o Sr. Estevão, que conversava com dois diretores. Puxou ele pelo braço.
"Preciso falar com o senhor. Agora."
Os dois entraram no escritório e fecharam a porta.
5 minutos depois a porta abriu. Marina saiu na frente, passos duros. Sr. Estevão atrás, tentando segurar ela pelo braço.
"Espera, Marina! Você está louca? É uma ótima oportunidade! Não terá outra chance como essa!"
Lucas veio rápido, sem entender nada. "Marina? O que houve?"
Ela não olhou pra ele. Não olhou pra ninguém. Só caminhou reto, em direção à saída.
"Nada. Em casa a gente conversa."
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*11:45 - Dentro do carro, voltando pra casa*
Silêncio. Um silêncio que cortava o ar, mais pesado que ontem.
Lucas dirigindo, olhando pra frente. Marina de cabeça baixa, olhando pela janela, os dedos apertando a aliança.
Ele não aguentou.
"Marina. O que você fez lá dentro?"
Ela respirou fundo.
"Em casa, Lucas. Por favor. Em casa a gente conversa."
O resto do caminho foi só o barulho do motor e o peso daquela promoção recusada.
Chegaram em casa. Porta fechada.
Lucas encostou na parede e cruzou os braços.
"Agora fala. Por que você recusou a porra da diretoria na frente de todo mundo?"
Marina largou a bolsa no chão, tirou o salto. E finalmente olhou pra ele. Os olhos azuis cheios de dor e decisão.
"Eu não te mereço, Lucas."
Lucas descruzou os braços. "Que porra é essa que você tá falando?"
Ela deu um passo pra frente, a voz quebrando. E contou. Tudo.
"Há 2 meses atrás, quando a gente já estava frio, sem tempo. Você com plantões, eu com trabalhos. Eu me senti sozinha. A gente não saía, pouco conversava, pouco transava. Aquilo e o trabalho foi me abalando."
"Henrique chegou até mim. Foi meu amigo. Conversa boa até sem intenção. Isabela até chegou a dizer: 'acho que o Henrique é a fim de você'. Eu ria. Nunca te trairia. Até porque eu tenho nojo disso, porque meu pai passou por isso."
"Os dias foram passando. Então um dia estávamos todos num restaurante, bebendo, comemorando porque fomos escolhidos pro projeto. Isabela cheia de graça, Ricardo enchendo meu saco, me cantando. Henrique sempre educado."
"No fim todos foram embora. Eu estava meio bêbada. Henrique viu e disse: 'calma, eu te levo pra casa'. 'Não precisa, Henrique, eu pego um táxi e depois mando o Lucas vir pegar o meu carro'. 'Deixa de ser boba, eu te levo'. Ele insistiu e eu entrei no carro. Eu estava muito alta."
"Paramos perto de casa. Eu ainda conversei e ri, alegre com a vitória. Mas ele notou que algo em mim estava triste. Aí eu me abri. Disse como estava meu casamento. Ele era bom amigo."
"No fim eu abri a porta do carro pra descer e tropecei. Caí sentada no banco. Ele foi ajudar. Nossos olhos se encontraram e ele me beijou."
Lucas sentiu o chão sumir.
"Eu não sei o que aconteceu, mas eu correspondi. Carência, culpa, dor... tudo misturado. O beijo esquentou. Henrique me puxou pra cima dele. Algo rápido. Puxou meu vestido, agarrou minha calcinha e me penetrou."
Marina começou a chorar, a voz um fio de desespero.
"Nessa hora, em vez de prazer, eu senti dor. Dor na alma. Dor do que eu estava fazendo. Dor por estar traindo o amor da minha vida. Me senti suja. Imunda. Imoral."
"Henrique, antes de gozar, parou. Porque reparou que em vez de gemer de prazer, eu chorava de dor e culpa. Como uma menina violada. Ele me tirou de cima e disse: 'Marina, me desculpa. Se eu soubesse que você ia se sentir assim eu não teria. Que merda. Me perdoa. Eu juro que nunca vou falar pra ninguém'."
"Eu disse: 'por favor, deixa só eu sair do carro'. Nesse dia eu cheguei antes de você. Tomei banho tentando tirar a sujeira, a dor, a mulher imunda que eu era. Depois eu deitei e dormi. E antes de você chegar, eu prometi pra mim mesma que nunca você saberia. E que eu esconderia essa vergonha. Porque você não merecia isso. E eu te amo mais que minha vida."
Aí depois naquela noite o escritório eu ,chateada por quase perde o projeto e nossa vida conturbada entre eu vc ,eu estava na sala um pouco alterada pelo o whisky,quando Ricardo chegou todo amigo e acabou acontecendo aquilo que vc já sabe o beijo ,então naquela hora me senti mais lixo ainda o cara que eu achava asqueroso como pessoa me beijou,eu não aguento mais viver assim não era pra está na empresa paguei alto o preço .
Ela caiu de joelhos no chão, soluçando.
"Eu não te mereço. A verdade é que foi sobre isso que de manhã eu conversei com meu pai. Eu não aguento mais carregar a culpa de te trair. Mas eu juro, eu te amo tanto. Se eu pudesse, eu voltava no tempo."
"E é por isso, Lucas, que eu falei com o Sr. Estevão. Eu pedi demissão e disse que ia recusar a vaga. Eu não mereço a vaga. Eu não mereço nada. E é por isso que eu estou me separando de você. Eu vou embora hoje. Estou indo pra Itália, vou morar com meu pai. Você não merece uma mentirosa, adúltera com você. Lá eu vou tentar recomeçar. Por favor, espero que um dia me perdoe, pois eu nunca vou amar alguém como te amei."
Nessa hora Lucas simplesmente se calou. Olhou pra ela no chão, destruída. Não disse uma palavra. Virou as costas, abriu a porta e saiu da casa.
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*Rua - 12:30*
Ele precisava de ar. Andou sem rumo, duas, três quadras. E caiu.
Sentado no meio-fio, a cabeça entre as mãos, ele desabou em prantos. Muita dor. A dor da decepção, do amor, a dor de uma traição. Se sentiu traído. Estraçalhado. O peito aberto, sangrando ali no meio da rua, com gente passando e olhando.
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*Casa - 14:10*
Quando voltou pra casa pra confrontar Marina, o silêncio gritou.
Quarto: armário aberto, vazio. Cabides no chão. Malas sumiram. O perfume dela ainda no ar, mas ela não.
Mesa da sala: uma carta. A letra dela, tremida.
_Lucas,_
_Espero que um dia você seja feliz. Desculpe por decepcionar você. Eu me decepcionei. Fiz igual a minha mãe. Eu sou lixo e você merece algo melhor. Te desejo tudo de bom. Eu sempre vou te amar._
_- Marina_
Lucas leu. Amassou o papel na mão até os nós dos dedos ficarem brancos.
Continua...