Sérgio tinha 42 anos, uma esposa linda, dois filhos ingratos, uma rotina de escritório cinzenta e um pau que já não levantava com vontade desde a eleição do último presidente.
O mundo tinha mudado. A medicina havia cruzado todas as linhas éticas: agora era possível transplantar órgãos sexuais. Não apenas rins ou corações. Mas pênis, testículos, vulvas, clitóris — e junto com eles, seus registros hormonais, neurológicos e químicos. A promessa era tentadora: "Assuma o prazer de uma terceira pessoa. Viva o desejo de quem foi mortalmente intenso."
E Sérgio era impotente.
Era invisível.
Era medíocre.
Até conhecer a Glândula Negra.
A clínica era ilegal, escondida num prédio que já tinha visto dias melhores, com a fachada cheia de grafites obscenos. Dentro, tudo era branco, asséptico, com cheiro de lixívia e sêmen fresco. Uma médica com jaleco verde lhe apresentou a “lista de compatibilidade”.
— Esses são os disponíveis para o seu tipo de sangue e genética.
Nomes, números, sentenças. Um condenado por feminicídio. Um estuprador em série. Um ator pornô falido que morreu empalado com um rolo de massa durante uma gravação. Um ex-padre acusado de abuso infantil. E, no fim da lista, ele:
CAIM.
Sem sobrenome.
Sem rosto.
Apenas: “execução autorizada, material genético preservado”.
Sérgio apontou.
Pagou em Bitcoins.
Três dias depois, acordou com os testículos transplantados.
E o mundo nunca mais foi o mesmo.
As primeiras 24 horas foram... chocantes.
Seu saco pulsava. Quente. Inchado. Como se tivesse vida própria. Ele ejaculava sem toque. Uma, duas, cinco vezes por dia. O esperma era farto, grosso, espesso como leite condensado.
Seu pênis engrossou em dois centímetros. Alongou quatro.
Veias novas se ramificaram como se estivessem sedentas.
E o desejo…
O desejo era uma praga.
Começou com a esposa.
Cláudia, que mal o tocava há meses, acordou com o pau dele dentro da boca. Ele a segurava pelos cabelos, arfando, as bolas novas batendo contra o queixo dela como badalos de carne.
— O que…é…isso?, ela sussurrou, engasgada.
Sérgio não respondeu. Apenas virou-a de bruços, deu uma cusparada ruidosa na entrada da buceta dela e a penetrou com fúria, desritmado, com a urgência de um animal pré-histórico, babando nas costas dela como um cão raivoso. Ela gritou. Amassou os lençóis. Revirou os olhos urrando. Gozou como uma messalina. Chorou. Implorou em lágrimas para que ele lhe arrombasse o cu. Ele fez tudo o que ela pediu com a selvageria de um macho carnívoro.
Na manhã seguinte, ela sorria de orelha a orelha. Parecia que tinha visto o passarinho azul.
E pediu mais.
Sérgio não parava.
Arregaçava os buracos de Cláudia no banheiro, no carro, em motéis sujos, nas escadas do prédio. Começou a olhar para as vizinhas. Para a atendente da padaria. Para a babá dos filhos.
Arrombou a buceta rosa e o cu preto da babá. No sofá. No quarto das crianças.
Ela foi embora aos prantos, com o rabo todo assado, as pregas esfoladas de tanto levar rola. Mas deixou a calcinha com cheiro de buceta nova.
Na terceira semana, Cláudia engravidou.
— Meu Deus, a gente nem transava há uns dias atrás, ela disse, nervosa.
— Agora a gente fode, ele respondeu.
— Mas... e agora?
Ele não respondia mais perguntas. Só agia.
O que começou como virilidade virou obsessão.
Ele passava horas trancado no quarto, no banheiro batendo punheta diante do espelho.
Cuspia no próprio reflexo.
Falava com os testículos.
Eles respondiam.
“Volte à origem”, sussurravam.
“Você é meu descendente.”
“Você precisa matar para manter-nos.”
A vizinha do 304 desapareceu.
A atendente da padaria encerrou o turno e nunca mais voltou.
A polícia apareceu.
Sérgio ria. Cláudia, grávida de quatro meses, já não falava. Andava nua pela casa, gemendo em línguas alienígenas, lambendo o reboco das paredes, deixando rastros de leite materno precoce nos móveis.
— Você a transformou, disse a médica da Glândula Negra, em uma visita surpresa.
— Caim fecundou a própria irmã. A maldição é genética. Essa criança... vai nascer com dentes e ereção.
Sérgio apenas olhava, com o saco latejando.
Ouvia vozes.
Via sombras trepando entre as cortinas.
Na madrugada do parto, Cláudia o mordeu no pescoço.
Com força.
Arrancou um pedaço.
E fugiu para o quintal, parindo de cócoras, sob a lua cheia.
A criança nasceu.
Mas não chorou.
Olhou para o pai — ou para o doador? — e sorriu com a boca já cheia de dentes.
—
Epílogo:
A Glândula Negra desapareceu.
Sérgio foi encontrado nu, sem os testículos, amarrado em posição fetal.
Morto, com o rosto coberto de gala seca.
Nos meses seguintes, relatos surgiram nas redondezas:
Uma mulher vestida com um véu sujo e os seios à mostra, caminhando por estradas rurais, segurando uma criança que ninguém conseguia encarar por muito tempo.
Ela seduzia homens e mulheres com o olhar.
Fodia com uma calma hipnótica.
E depois os deixava vazios.
Literalmente: cadáveres secos, sugados por dentro, como frutas maduras chupadas até a casca.
Ela se fundiu à maldição de Caim, tornando-se a Mãe dos Herdeiros, uma espécie de entidade lasciva e nômade, espalhando a linhagem obscena do Antigo Irmão através de sexo, amamentação e parição contínua.
Ela não é mais humana.
É útero vivo em corpo de mulher.
E está grávida de novo.
Dizem que um novo banco de genitálias surgiu no mercado negro.
E na lista de espera, entre nomes e números, está você.
