*Continua...*
_Não até eu saber a verdade._
Lucas passou a mão no cabelo molhado dela. Por fora, carinho. Por dentro, navalha.
"Eu não vou te deixar. Não agora."
Marina largou a xícara e abraçou ele pela cintura, rosto no peito dele.
"Não me deixa, Lucas. Por favor. Eu não aguento te perder."
Lucas fechou os olhos. E o pensamento veio rasgando, cru, sem filtro:
_Eu amo essa mulher. Como eu amo, com todas as minhas forças. Eu não suportaria ficar sem ela. E não suportaria uma traição. Não falo como um machista, claro que não aceitaria ser traído. Mas falo pra minha mente como um homem apaixonado. Um homem que construiu a vida em cima delsse amor.Meu casamento de comercial de margarina está derretendo na minha frente e eu tô aqui, tentando juntar com a mão._
Ele engoliu seco e respondeu, a voz baixa:
"Eu não vou te deixar."
Marina suspirou aliviada contra ele. Não viu o gelo nos olhos dele.
Naquela noite os dois dormiram juntos.Marina deitada no peito dele, o braço dele em volta dela por instinto. Por fora, o casal perfeito. Por dentro, dois estranhos cheios de segredos.
De madrugada, Lucas sentiu Marina se mexer. Ela levantou devagar, pé ante pé, e foi pro banheiro.
Lucas esperou dois segundos. Levantou também, sem fazer barulho, e encostou a cabeça na porta do banheiro.
Silêncio. Não ouviu ela no telefone com ninguém. Não ouviu sussurro de conversa.
A única coisa que ele ouviu foi ela chorando. Chorando muito. Um choro engasgado, abafado com a mão na boca.
E depois, bem baixinho, ele ouviu ela sussurrar:
"Eu te amo tanto, Lucas... se você soubesse. Eu sou uma idiota. Me ajuda, Deus... eu não quero perder esse homem."
Lucas sentiu o peito apertar. A raiva, a dúvida, a mágoa... tudo misturado com uma dor que ele não sabia nomear.
Voltou pra cama em silêncio, ficou deitado olhando pro teto, pensando em quem acreditar.
Marina saiu do banheiro minutos depois. Os olhos inchados, mas secos. Deitou ao lado do marido, encolheu o corpo junto dele e dormiu.
Lucas ficou acordado até o sol nascer.
*Terça-feira. 24h antes da apresentação do projeto.*
Marina saiu cedo para o trabalho.
Lucas acordou com a mente em frangalhos. Se arrastou até a mesa de café.
Em cima dela, um bilhete dobrado. Coisa que ela fazia nos tempos de namoro, quando ainda eram só dois idiotas apaixonados sem conta pra pagar.
Ele abriu.
"Lucas, você é o melhor de mim. Nunca seria tão completa como sou com você. Me perdoe por erros. Eu quero ser melhor do que ontem, melhor do que hoje e perfeita pra você amanhã. Te amo."
Lucas leu aquilo e seus olhos se encheram de água na hora. Apertou o papel na mão.
Será que essa mulher seria capaz de me trair? Será que alguém que escreve isso chupa e da pro chefe na sala de reunião? Ou alguém tá montando um teatro muito bem feito pra acabar comigo?
Guardou o bilhete no bolso da calça. Junto do peito.
*Hospital, 10:17*
Lucas saiu pro plantão. A cabeça um lixo. Chegou no hospital e mal largou a mochila quando o celular tocou. Número desconhecido.
Atendeu seco.
"Alô."
"Olá, corno. Como você está?"
Lucas reconheceu a voz na hora. O sangue gelou e ferveu ao mesmo tempo.
"O que você quer, Ricardo?"
"Kkkk, corno, você não acredita que eu estou comendo sua mulher, né? Pois se liga nessa foto."
O celular apitou. Mensagem recebida. Lucas abriu.
Na foto aparecia Marina. Saia executiva azul, blusa branca. De joelhos na sala de reuniões, chupando Ricardo. O rosto dela, a boca dela. Nítido.
O chão de Lucas caiu. O estômago virou. A visão escureceu.
Ele digitou tremendo: Quando foi isso, desgraçado?_
A resposta veio na hora.
*Ricardo:* _Agora, corno. E me deixa em paz. Vou lá continuar pegando a deliciosa Marina, kkkk.
O sangue de Lucas ferveu. Ele ligou para Marina Tocou, tocou, tocou e caiu na caixa postal. Ligou três vezes. Nada.
Lucas já estava com o jaleco na mão, pronto pra sair e quebrar a cara do Ricardo na empresa, quando o telefone toca de novo.
Dessa vez é Isabela.
"Oi, Doutor gostoso."
"O que foi agora, Isabela? Eu não tenho tempo!"
"Ei, calma! Eu só estou aqui pra combinar. Encontrei uma forma de botar tudo em pratos limpos e saber a verdade."
Lucas riu, amargo, sem humor.
"Não preciso mais saber de nada, Isabela. Eu acabei de receber uma foto da safada traidora da minha esposa chupando o Ricardo. Foto tirada agora. A filha da puta ainda estava de vestido executivo azul que que a deixa mais linda com a boca no pau."
Isabela fez silêncio por dois segundos.
"Lucas... para. Para aí. O Ricardo disse que essa foto é de agora?"
"Ele disse sim, Isabela!"
"Impossível." A voz dela ficou séria. "Eu cheguei praticamente junto da Marina hoje. Tomamos café. Ela está agora em uma reunião com o diretor geral. E você disse saia executiva azul? Mas a Marina chegou de calça social branca e blazer. Você tem certeza? Algo está errado."
Lucas travou. _Calça branca?_
"Já falo com você." Desligou.
Pensou: _Que porra é essa? Esse cara vai pagar caro._ Voltou pras mensagem no celular estava bloqueado. As mensagens de Ricardo apagadas. _Isso se esse telefone era dele mesmo. Claro que não, deve ser um número descartável._ Mas ele conseguiu salvar a foto.
Teve uma ideia. Levou até a Alessandra. Que além de enfermeira-chefe, sacava muito de informática. Só não exercia a profissão porque medicina era sua paixão.
Foi até a sala dela.
"Alessandra, você tem um tempinho?"
Alessandra olhou pra ele e arregalou os olhos.
"Lucas, homem... que cara é essa?"
Lucas abraçou Alessandra sem pensar. Apertado. Desesperado.
"Eu não aguento mais isso. Parece que o universo está querendo acabar com meu casamento."
Alessandra olhou nos olhos dele e segurou o rosto dele.
"O que houve?"
Lucas estendeu o celular com a foto. Explicou tudo. A ligação, a roupa, a hora.
Alessandra pegou o celular, deu zoom, analisou a luz, a sombra, o contorno. Em 20 segundos devolveu.
"Lucas, seu idiota. Essa foto foi feita por IA. Inteligência artificial. E muito mal feita essa montagem. Olha a mão dela. Olha o reflexo na mesa. E com base no que você disse, óbvio que ele quer te desestabilizar."
Quando ouviu isso, Lucas inflamou o peito. A raiva virou combustível puro. Saiu da sala sem ouvir.
Alessandra gritou atrás: "Espera, Lucas!"
Lucas não deu ouvido. Estava disposto a arrebentar a cara do Ricardo. Iria até a empresa pegar ele lá.
Aí o telefone toca. Ele atende sem olhar.
"Isabela, diz."
"Chega de enrolação, é hoje." A voz dela era dura. "Eu combinei. Estaremos eu, Ricardo, Henrique e Marina pra finalizar os últimos detalhes da apresentação de amanhã lá em casa a tarde, Você vai chegar lá nesse horário. Estaremos todos lá e aí a gente vai colocar em pratos limpos o que realmente aconteceu. Olha, vou ter que desligar,vou te mandar meu endereço no seu telefone ,vou deixar avisado para o porteiro deixar vc passar só vc disse o seu nome . Até lá."
Lucas parou no meio do corredor. Pensou. É isso. A oportunidade perfeita pra descobrir a verdade. Todos na mesma sala. Sem fuga.
Nisso Marina liga.
"Amor, como você está?"
"Estou bem, Marina. O que houve?"
"Nada. Só saudade de você, rs. Amor, sério. Você combinou de me buscar no trabalho todos os dias, mas a Isabela combinou da equipe terminar os detalhes na casa dela. Algo mais tranquilo. Amor, se você quiser me levar lá eu aceito. Mas se você não quiser que eu vá, eu não vou. Eu falo pra equipe ficar aqui mesmo na empresa."
Lucas fechou os olhos. _Não. Eu tenho que saber a verdade._
"Tá, amor. Você pode ir na reunião. Priorize seu trabalho. Não esquenta. Eu vou dar um voto de confiança a você."
"Obrigada, amor. Eu não sei se mereço, mas pode confiar. Beijos."
Lucas segurou o celular com força.
"Eu confio... desconfiando. Estarei lá. E essa merda acaba hoje."
Desligou.
Olhou pro relógio. *13:00. Menos de 24 horas para a apresentação do projeto.*
O jogo estava na mesa. O nome era poker.
Hoje alguém ira cair.