No Sigilo

Um conto erótico de Mateus
Categoria: Gay
Contém 1982 palavras
Data: 24/04/2026 22:59:40

A volta começou antes da despedida. Talvez no último café da manhã, quando ninguém falou muito. Ou no jeito como o meu avô bateu no meu ombro, dizendo “aparece mais”, como se aquilo fosse simples. Ou ainda no silêncio de Rodrigo, mais quieto do que o habitual, mexendo no celular sem realmente ver nada.

A gente não comentou, nem sobre ir embora, nem sobre ficar. Entramos no carro, depois no ônibus e a estrada fez o resto, como sempre faz. Afasta o que parecia próximo, dilui o que parecia intenso demais.

A volta foi mais silenciosa do que a ida. Não por falta de assunto, mas por excesso de coisa que não cabia em palavra nenhuma. O ônibus descia o vale devagar, levantando poeira na estrada de terra, e eu fiquei olhando pela janela como se pudesse reter alguma coisa daquele cenário, o contorno dos morros, o brilho parado da lagoa, a curva exata onde o sítio desaparecia de vista.

Rodrigo se sentou na janela de novo. Eu já esperava. O vidro refletia o rosto dele em partes, o contorno do maxilar, o cabelo castanho claro caindo de leve, o olhar perdido em algum ponto que não era exatamente a paisagem.

— Você curtiu? — perguntei, depois de um tempo.

Ele não respondeu na hora.

— Curti.

Pausa.

— Foi… bom.

Bom. A palavra veio limpa. Sem exagero, sem aprofundamento, mas suficiente.

— Foi — concordei.

E ficou nisso. Porque qualquer coisa além talvez exigisse mais do que a gente estava disposto a dar naquele momento. A gente não falava abertamente do que tinha sido aquilo, não diretamente, e, de alguma forma, isso mantinha tudo… intacto. Como se nomear fosse estragar.

Nossa cidade apareceu de novo como se nunca tivesse ido embora. Mesmas ruas, mesmas pessoas, mesma lógica, mesmo ritmo. Tudo igual e, ainda assim, levemente deslocado. E, com a cidade, o ajuste automático.

Descemos do ônibus no fim da tarde. O calor mais pesado, o barulho mais constante, a sensação de que o mundo tinha continuado sem a gente. E talvez fosse exatamente isso. Rodrigo jogou a mochila no ombro.

— Falou.

Simples.

— Falou.

Nenhuma cerimônia. Nenhum “depois a gente se fala”. Porque a gente já sabia como iria ser dali pra frente.

Os dias voltaram a se organizar. Colégio, casa, rotina. Rodrigo voltou a ocupar o espaço dele com precisão. Amigos, quadra, conversas altas, o corpo sempre bem colocado no mundo, como se nada tivesse deslocado aquilo. E, de certa forma, não tinha. Eu observava de fora. Ou de dentro. Difícil dizer.

— Sumiu, hein — ele falou alguns dias depois, encostando ao meu lado num fim de tarde qualquer.

— Você também.

Ele sorriu de canto.

— Eu tô sempre por aí.

Sempre por aí. Era verdade. E também não era. Rodrigo aparecia, sempre aparecia. Não com frequência suficiente para criar expectativa, mas com precisão suficiente para não desaparecer. Ficamos em silêncio por um momento, olhando o movimento da rua. Gente passando, carros, vida acontecendo em linha reta.

— Aquilo lá… — comecei.

Mas parei. Ele virou o rosto.

— O quê?

Balancei a cabeça.

— Nada.

Ele não insistiu. Nunca insistia quando sabia exatamente o que era.

As coisas encontraram um ritmo novo. Ou talvez antigo. A gente se via, às vezes por acaso, às vezes nem tanto. Sem combinar demais, sem jamais explicar nada. Às vezes a gente saía, encontrava outras pessoas, ria, bebia, jogava conversa fora. Às vezes não. Às vezes era só a gente. E, quando era, o padrão se repetia. A gente ficava, transava, sem anúncio, sem acordo, sem promessa.

— Você tá sozinho? — ele perguntava, encostado no portão.

— Tô.

— Então beleza.

Simples. Sempre simples. Mas nunca vazio. Porque havia aquele silêncio entre as frases, aquele olhar que demorava um segundo a mais, aquele tipo de proximidade que não precisava ser construída de novo. Pois já estava ali, pronta. Como se o tempo não tivesse passado e, ao mesmo tempo, como se não pudesse avançar.

— Você tá livre hoje? — ele perguntava, como quem pergunta algo simples.

— Tô.

— Então cola lá em casa.

E pronto. Sem contexto, sem promessa, sem depois. Como se fosse natural, como se não tivesse intervalo. Os encontros vinham assim, espalhados, entre uma rotina e outra. Quando dava, quando coincidia, quando ninguém estava olhando. E sempre havia esse detalhe. Ninguém olhando.

Rodrigo nunca falava disso diretamente, mas tudo nele dizia. O cuidado com o horário. O jeito de fechar a porta. O silêncio depois.

— Você nunca pensou em… — comecei uma vez, já deitado ao lado dele, o quarto meio escuro.

— Não — ele cortou, antes mesmo de eu terminar.

Olhei para ele.

— Nem sabe o que eu ia falar.

Ele virou o rosto, me encarando.

— Sei.

E sabia mesmo.

— E?

Ele deu de ombros.

— Não é pra mim.

Simples. Como sempre.

— Ou você não deixa ser.

Ele sorriu de leve.

— Dá na mesma.

Talvez desse. Talvez não. Mas discutir aquilo era como tentar segurar água com a mão. Escapava. Sempre. Com o tempo, aprendi o ritmo dele. Ou me adaptei. Rodrigo vinha quando queria. Ficava o suficiente. Ia embora sem peso. E voltava. Sempre voltava.

— Você nunca some de verdade — falei uma vez.

— Nem você.

— Você nunca pensou em… sei lá… mudar isso?

Ele me olhou. Um segundo a mais. Parou.

— Mudar o quê?

— Isso.

Apontei entre nós com um gesto vago. Ele entendeu, claro que entendeu. Guardou o celular e ficou um segundo em silêncio.

— Pra quê?

— Não sei.

— Então.

Deu de ombros, como se fosse óbvio.

— Tá ruim assim?

A pergunta veio direta, mas não era simples.

— Não — respondi.

E não estava mesmo. Ele assentiu, satisfeito com a lógica.

— Então pronto.

Pronto. De novo essa palavra. Como se encerrasse qualquer possibilidade de continuação, mas não encerrava, só delimitava. Rodrigo sempre delimitava. Era o jeito dele de manter controle, de não deixar crescer, ou de não deixar transparecer.

— Você tem medo? — perguntei, depois de um tempo.

Ele riu.

— De quê?

— De deixar isso ser mais.

Ele me olhou. Longo. Sem brincadeira agora.

— Eu não deixo porque não é.

Simples. Limpo. Final. E, naquele momento, eu acreditei. Não porque fosse toda a verdade, mas porque era a verdade que ele escolhia viver. Mas não era o mesmo “viver”. Nunca foi. E, de algum jeito estranho, nosso estranho “relacionamento” funcionava, ao menos na prática. Porque tirava a expectativa. Ou deslocava. A gente não prometia, não cobrava, não nomeava. E, ainda assim, havia algo, constante, recorrente, quase inevitável.

Às vezes, eu lembrava da fazenda, do silêncio, da água parada da lagoa, do jeito como o tempo parecia mais lento lá, e pensava se aquilo tinha sido real ou só um recorte, um intervalo fora da lógica. Porque aqui, de volta à cidade, às regras, aos olhares, aquilo não existia do mesmo jeito. Não cabia. E Rodrigo sabia disso melhor do que eu. Talvez por isso nunca tentou trazer junto o que quer que tivéssemos vivido lá.

— Você viaja muito — ele disse certa vez, rindo baixo, quando comentei algo parecido.

— Alguém precisa.

— Eu prefiro viver.

— Isso é viver.

Ele negou com a cabeça.

— Isso é pensar sobre viver.

Fiquei em silêncio. Porque, de novo, ele simplificava. E, de novo, fazia sentido. Do jeito dele.

No fim, a gente virou isso: uma espécie de acordo não dito, um acordo tácito, quando não havia mais ninguém, quando as circunstâncias permitiam, quando o mundo ao redor dava brecha, a gente se encontrava. Sem marcar, sem planejar, sem nome. E funcionava. Funcionava justamente porque não exigia nada além do que já era. Era um lugar onde os dois cabiam, desde que não pedissem mais do que aquilo permitia.

Rodrigo seguia a vida dele. Namorou, terminou, recomeçou. Sempre dentro de uma lógica que o mantinha intacto para o mundo. Outras pessoas, outras histórias, outras tentativas de encontrar algo que talvez não tivesse nada a ver com ele.

Mas, de algum jeito, a gente sempre voltava para aquele ponto. Não como destino, mas como intervalo. E, nesses intervalos, havia uma intensidade que não cabia no resto.

— A gente é meio errado — falei uma vez, deitado ao lado dele, o ventilador girando lento no teto.

— A gente é prático — ele corrigiu.

— Isso não é a mesma coisa.

Ele virou o rosto na minha direção.

— Pra mim é.

E talvez fosse mesmo. Rodrigo não precisava de coerência emocional. Ele precisava de controle, de limites, de espaços bem definidos. Eu não. E era isso que tornava tudo tão… preciso. Porque, entre o que eu queria aprofundar e o que ele não deixava crescer, existia um ponto exato onde a gente se encontrava. Nem mais. Nem menos.

E, por mais que eu soubesse, desde o começo, que aquilo não ia virar outra coisa… havia algo ali que não se repetia em nenhum outro lugar. Um tipo de memória viva. Como aquelas semanas na fazenda. Isoladas. Intactas. Congeladas no tempo. Não porque tinham acabado, mas porque nunca tiveram a intenção de continuar.

E eu… eu aprendi a não esperar dele o que ele nunca prometeu. Mas também não deixei de reconhecer: havia algo entre a gente que não se repetia com mais ninguém. Nem melhor, nem pior, só diferente. E talvez fosse isso que mantinha tudo voltando. Mesmo sem futuro, mesmo sem nome, mesmo sem ficar. Um tipo de presença que não se sustenta no tempo, mas insiste em existir, sempre que encontra espaço.

__________

Foi mais fácil do que eu esperava e talvez esse tenha sido o ponto mais incômodo. Não houve ruptura, nem decisão dramática, nem aquele tipo de afastamento que exige esforço. Não por falta de intensidade, porque, com Rodrigo, nunca foi morno. Era sempre físico demais, imediato demais, como se o corpo soubesse exatamente o que fazer antes de qualquer pensamento interferir. Mas era só isso e, por mais estranho que pareça, o “só” ali bastava.

Com Rodrigo, as coisas simplesmente… encontraram um formato. Um encaixe imperfeito, mas funcional. Eu não pensava nele quando estava sozinho. Não daquele jeito. Não havia saudade que apertasse, nem vontade de dividir pensamento, nem curiosidade sobre o que ele estava sentindo. O que existia era outra coisa, mais direta, mais instantânea. O corpo lembrava. E isso bastava.

Não havia nele algo que me puxasse para além do instante. Nenhuma vontade de conhecer camadas, de entender silêncios, de dividir mais do que aquele espaço curto onde a gente se encontrava. Com Rodrigo, eu não precisava pensar. E talvez fosse isso que tornava tudo tão fácil de sustentar.

— Você nunca se apega— eu disse uma vez, encostado na parede do vestiário do clube, depois de um jogo qualquer.

Ele virou o rosto, aquele meio sorriso de sempre.

— Melhor assim.

E deu de ombros.

— Funciona.

Funcionava. Era quase um pacto silencioso: quando a gente se encontrava, era físico, irresistível, incrível, mas evitávamos qualquer passo além. Rodrigo nunca quis mais e, por muito tempo, eu também não. Ou achava que não.

Os anos passaram sem marcar muito e nossos encontros vieram como pequenos acontecimentos em nossas vidas, irregulares, sem aviso. A gente cresceu, mudou de rotina, conheceu outras pessoas. Rodrigo namorava, terminava, começava de novo. Sempre dentro de uma lógica que o mantinha seguro, intacto aos olhos dos outros. E, entre uma história e outra, ele voltava, sempre voltava.

— Sumido — ele dizia, como se fosse casual.

— Você também.

— Nem tanto.

E, de algum jeito, aquilo bastava para reabrir o espaço. Sem conversa, sem explicação, sem questionamento. Assim, tudo parecia mais fácil. Talvez pelo abismo emocional entre nós. Talvez pelo questionamento distante ressoando dentro da gente. Talvez porque era uma relação que já carregava outras versões da gente.

Rodrigo sempre chegava com o corpo antes de qualquer outra coisa. E saía do mesmo jeito.

— Você complica menos agora — ele comentou, certa vez, encostado na porta, já pronto para ir.

— Você que me treinou.

Ele riu.

— Não era esse o plano?

— Você nunca teve plano.

— Exato.

E era isso. Rodrigo não projetava, não construía. Só ocupava. E eu, por muito tempo, aceitei esse tipo de presença como suficiente.

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