Amor do passado, dor do presente. Parte 9

Um conto erótico de Guilherrme
Categoria: Heterossexual
Contém 2323 palavras
Data: 23/04/2026 12:10:00

No caminho de volta pro meu apartamento, minha cabeça não parava. Eu precisava de um plano, e precisava rápido. O objetivo era simples, mas o caminho tava todo embolado: eu tinha que descobrir quem era o sujeito que a Raquel tava vendo, entender onde a Fernanda se meteu e, principalmente, dar um chute no balde desse noivado de fachada. Eu ia pegar ela no pulo de novo, mas dessa vez ia ser o ponto final. Chega de palhaçada.

No dia seguinte, pulei da cama antes do despertador tocar. Nem passei no escritório. Fui direto pra frente daquela casa onde tinha visto o carro do tal rapaz estacionado. Era um condomínio de classe média, daquele tipo que todo mundo se acha mais do que é. Fiquei ali, num canto estratégico, torcendo pra ele ainda estar em casa. Dei sorte: o carro tava lá.

Não demorou muito e o cara apareceu. Ele saiu com uma cara de quem não dormiu nada, pálido, parecendo que o mundo tava desabando. Entrou no carro e arrancou com pressa. Eu, só na surdina, fui atrás.

O que eu não esperava era a coincidência. O cara dirigiu direto pro meu prédio. Ele parou o carro e eu vi a mesma mulher do dia anterior esperando na calçada. Encostei o meu carro um pouco mais atrás, devagar, e desci como quem não quer nada, só pra pescar o que tava rolando. A conversa tava feia.

— Seu puto, eu já falei que não quero olhar pra sua cara! — a menina gritava, com fogo nos olhos.

— Amor, calma, foi um mal-entendido... — o tal Lucas tentou pegar na mão dela, mas ela puxou o braço com um nojo que deu pra sentir de longe.

— Você jogou um ano de namoro no lixo pra me trair! Enganou a mim e a outra moça também!

— Mas o que tá acontecendo? — ele insistiu, segurando o pulso dela com força dessa vez.

— Me solta!

— Olha aqui, você não sabe do que e com quem tá falando — o cara rosnou, mudando o tom.

— O que eu sei é que eu vi essa foto aqui! Essa mulher praticamente sentada no seu colo! Vai negar agora? Eu não quero te ver nunca mais, Lucas!

Eu tava ali só observando. O plano era eu fazer ela descobrir tudo, mas parece que alguém se antecipou e entregou o serviço completo. Quando vi o Lucas apertando o braço dela de novo e ela pedindo pra soltar, o sangue subiu. Era a chance de eu descarregar um pouco da minha raiva naquele desgraçado.

— Solta ela, seu otário. Não tá vendo que ela quer distância de você?

O cara virou pra mim, bufando:

— Quem é você, seu trouxa?

— Vai mexer com alguém do seu tamanho, rapaz. Deixa a menina em paz — falei, já fechando o punho.

— Moço, não precisa se preocupar, eu me resolvo aqui — a guria disse, meio assustada com a minha chegada.

— Isso mesmo, seu corno, sai fora. Deixa a briga dos outros pra lá — o Lucas mandou, com aquela marra de quem não aguenta dois minutos de conversa.

Quando ele me chamou de corno, eu não vi mais nada. Peguei ele pelo ombro, virei e dei um soco direto na cara. Ele soltou a menina na hora e cambaleou pro lado.

— Qual é, mano? Tá maluco? Quem é você?

Ele veio pra cima, tentando revidar, mas eu tava possuído. Dei outro soco que pegou em cheio. A gente se engalfinhou ali mesmo no meio da rua, um agarrando o outro, e a menina gritando pra gente parar. Tomei uma no rosto, mas devolvi com vontade. O cara acabou no chão, ofegante.

— Vai se ferrar, seu covarde. Você não passa de um merdinha — eu disse, limpando o canto da boca.

— Isso não vai ficar assim não... — o Lucas resmungou enquanto levantava. Ele olhou pra nós dois, viu que não ia arrumar nada e resolveu picar a mula.

A menina chegou perto de mim, tocando no meu braço, toda sem jeito.

— Moço, por favor, me desculpa. Eu não queria causar confusão... e obrigada por me defender.

— Eu que peço desculpa por me meter onde não fui chamado, mas não aguentei ver aquele cara sendo machista desse jeito.

— Ele é meu namorado... ou ex, nem sei mais. Só não quero mais ver esse safado na minha frente.

Ela ia pedir um carro por aplicativo, mas eu me ofereci pra levar ela até o curso. Ela topou. No caminho, eu não aguentei a curiosidade e joguei o verde:

— Mas me diz, o que rolou exatamente? Por que a briga chegou naquele ponto?

— Porque hoje cedo eu acordei com uma mensagem. Alguém me dizendo pra abrir o olho, que eu tava sendo chifruda e que meu namorado não valia nada. Disse que ele tava enganando uma mulher, se passando por solteiro. E ainda mandou as fotos deles...

— Enganando, é? — perguntei, com um sorriso irônico.

Na hora eu saquei a jogada. A Raquel mandou as fotos pra ela se passando por vítima da história, a "enganada". Eu sabia que foi ela, pois os ângulos das imagens foram tiradas de uma forma que o rosto dela não aparecia, mas o dele sim. Só queria entender o que ela pretendia fazendo isso.

— Eu também descobri ontem que fui traído — mandei a real pra ela. — A sensação é uma droga, imagino como você tá.

— Sério? Que horror! — Ela comentou.

—Você está bem mesmo? Precisa de algo? — Perguntei, solícito.

— Eu vou ficar bem, moço. Tudo que eu quero é sumir com esse cara da minha vida.

Parei o carro na porta do cursinho dela. Ela agradeceu de novo, eu deixei meu número caso ela precisasse de qualquer coisa e segui viagem.

No caminho pro trabalho, me olhei no espelho, ajeitei o cabelo e dei uma risada sozinho. Eu ainda não entendi metade do nó que a Raquel tá dando, mas, olha... pelo menos eu consegui acertar uns bons socos naquele desgraçado. Já valeu o dia. Agora, hora de trabalhar, e depois, pensar no que eu faria á seguir. Poderia ter ajuda dessa moça para algo, não sei.

Eu ainda estava no carro, tentando ajeitar o cabelo no retrovisor e respirei fundo, depois daquela briga com o Lucas, quando virei a esquina. Naquele segundo, meu coração deu um solavanco tão forte que parecia que ia sair pela boca. Meu corpo gelou na hora e minhas mãos pesaram no volante, quase como se eu tivesse esquecido como dirigir.

Lá estava ela. Cruzando a rua bem na minha frente, aproveitando o farol aberto. A Fernanda.

— Fernanda! — gritei com todo o fôlego que eu tinha, mas ela nem olhou pra trás, atravessou a rua como se eu fosse invisível.

Eu não podia perder ela de vista. Joguei o carro de qualquer jeito no acostamento, quase subindo na calçada, e saí correndo. Chamei de novo, mais alto, e dessa vez ela parou. Quando ela se virou e me encarou, o tempo pareceu dar um nó. Ela continuava linda. A mesma Fernanda que não saía da minha cabeça, com aquele olhar que sempre me desarmou. Com o mesmo cabelo, o mesmo olhar, as mesmas feições no rosto. Por um momento, me peguei no passado.

— Fernanda... você não faz ideia do quanto eu...

Eu ia desabafar, mas ela me cortou com um olhar de pedra. A cara era de poucos amigos, uma expressão fechada que eu nunca tinha visto nela.

— Guilherme, eu nem te reconheço mais. Você teve a cara de pau de se juntar com aquela piranha safada pra boicotar o meu processo? Vocês acharam mesmo que ia ficar por isso? Só que você esqueceu de um detalhe: meu pai é juiz. O processo vai cair na mão dele e ele vai reabrir cada página dessa armação.

— De jeito nenhum, Fernanda! — respondi, tentando recuperar o ar. — Eu não tive nada a ver com isso, juro por tudo. Pelo contrário... eu vim aqui pra te pedir perdão.

Ela ficou me olhando um tempo, em silêncio. Acho que ela viu no meu rosto que eu tava falando a verdade, ou talvez tenha visto aquele mesmo Guilherme bobo e arrependido de sempre. Ela suspirou, relaxou um pouco os ombros e resolveu me dar um voto de confiança.

A gente foi até um parque ali perto e sentamos num banco de madeira, longe do barulho dos carros. Eu precisava entender as coisas.

— Obrigado por me dar uma chance de me ouvir, Fernanda.

— A chance que você não me deu, quando eu pedi por ela... Sim, Guilherme. Eu dou, pode falar. — Ela disse, acertando em cheio meu estômago.

— Sim, eu estou arrependido disso. Não posso voltar atrás, mas algo agora posso fazer, mas antes, preciso que seja sincera.

Ela disse que sim com a cabeça, então continuei:

— Fernanda, me explica uma coisa... por que você foi logo naquele escritório onde eu tava? Por que contratar um advogado justo lá?

— Porque eu queria que você soubesse que eu voltei, Guilherme. Esse tempo todo eu não sumi porque quis, eu tava tentando limpar o meu nome. Tentando provar que eu nunca fiz nada do que vocês me acusaram.

— Eu realmente fui um idiota com você. — eu murmurei, sentindo o peso da culpa.

— Guilherme, fui eu que te mandei aquelas mensagens anônimas. Fui eu que fiz você seguir a Raquel pra descobrir que ela tava te fazendo de palhaço. Eu nunca te traí, nunca. Sempre fui fiel a você. Eu mal falava com o Roger, a gente não tinha nada.

— Eu sei... — respondi, baixando a cabeça. O chão parecia o lugar mais interessante do mundo naquele momento.

— Doeu demais — ela continuou, e a voz dela deu uma tremida. — Eu achei que você me conhecia de verdade. Achei que você me daria o benefício da dúvida, mas você me julgou na hora. Tudo parecia estar contra mim, eu sei, mas você não estranhou nada? Você recebeu uma foto onde eu tava beijando seu melhor amigo e simplesmente jogou tudo pro alto. Nem me questionou, só me humilhou depois daquela armação da Raquel. Qualquer um via que aquela foto era montagem, Guilherme.

— Fernanda, você tem que entender... eu fiquei cego. Não consegui pensar. Eu só não quis sofrer mais. Além do mais, aquela foto era de um passado onde eu não te conhecia, não interferia em nossa relação.

— Mas interferiu! — Ela retrucou, e eu baixei a cabeça. — Você levou em consideração aquela foto para me julgar, e não acreditou em mim quando eu disse que a desconhecia. Você viu o pavor do meu olhar quando vi que tava com ele na cama, poderia ter se perguntado por que disso.

— Mas não perguntei. — Respondi, olhando diretamente para os olhos dela.

— Guilherme, eu amei muito você. De verdade. Fico feliz que tenha descoberto a verdade agora, mesmo que tarde. Eu vou te mandar tudo que eu consegui juntar por e-mail, mas quero que saiba de uma coisa: meu processo contra aquela mulher vai ser reaberto e eu não vou sossegar enquanto não ver ela atrás das grades. Ela passou de todos os limites!

Minha cabeça deu um giro, mas eu só consegui focar numa palavra que ela disse.

— "Amei"? Você não ama mais?

Ela não respondeu de imediato. Se levantou, ajeitou a roupa e me olhou pela última vez, com um olhar que parecia uma despedida definitiva.

— Vou te mandar as provas no e-mail. Considere um presente de despedida. Faz o que você quiser com isso, eu só espero que você tenha o mínimo de brio e não continue com ela.

— Você não vai me responder, Fernanda? — insisti, levantando também.

— Adeus, Guilherme.

Eu não fui atrás. Respeitei o espaço dela, mas aquela palavra ficou ecoando na minha mente. Ela não disse que não amava, mas o jeito que ela falou "adeus" disse tudo. Parecia que o que a gente tinha , com o tempo se esfriou, ou até morrido de vez por causa das mágoas. Pelo menos pra ela. Porque eu sabia que, mesmo com toda a raiva que eu senti, eu nunca tinha conseguido esquecer ela.

Fui trabalhar, morto por dentro e moído, e a primeira coisa que fiz foi ligar o computador. Tinha um e-mail novo. O remetente era ela, aquele endereço que eu conhecia de cor. Quando abri, parecia que eu tava abrindo a caixa de Pandora.

Tinha de tudo ali. O exame de sangue provando que ela tinha sido dopada no dia em que eu a peguei na cama com Roger. Tinha a mesma gravação de voz com o Roger, contando como tudo aconteceu. Tinha até um laudo de um perito explicando como a foto foi criada por inteligência artificial, pedaço por pedaço. E pra fechar, prints de depósitos gordos que a Raquel tinha feito pra conta do Roger. O desgraçado deve ter guardado os comprovantes pra chantagear ela depois e no aperto, quando confrontado, acabou mandando pra Fernanda.

Eu olhava pra tela sem acreditar. Como ela conseguiu tudo isso em dois anos? Tinha prova ali pra derrubar um castelo. Ela não deve ter conseguido sozinha.

Mas teve uma coisa que me travou o raciocínio. No meio dos arquivos, tinha uma certidão de adoção. Um documento oficial mostrando que a Raquel não era filha biológica dos pais dela. Ela tinha sido adotada.

Na hora, um estalo deu na minha mente. Eu lembrei do jantar de ontem, quando a mãe dela cortou o pai quando ele ia me dizer uma coisa importante. Lembrei dele dizendo que a gente se dava bem por alguma razão. Possivelmente ele ia revelar isso.

O fato de sermos órfãos e ela ter sido adotada, não deveria significar nada, mas pra quem vive cercada de mentiras como a Raquel, aquilo era a chave de alguma coisa muito maior. O nó no meu peito começou a apertar de novo, e eu comecei a entender que eu não era só um noivo traído... eu era parte de um jogo muito mais sujo do que eu imaginava.

Foi então que alguns fragmentos perdidos da memória começaram a aparecer, e eu finalmente tinha entendido qual era a da Raquel.

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Comentários

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Uma coisa que não entendi, é o que a "Menina", namorada do Lucas, estava fazendo em frente ao prédio do Gui, logo de manhã cedo, não foi citado que ela seria vizinha do Gui, inclusive o Gui seguiu o casal do curso até a casa dela, depois o Gui dirigiu para casa do Lucas, para finalmente dirigir até seu apartamento, mais um mistério ou não, é paranóia minha?

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Isso talvez seja uma coincidência. Ou não. hehehe

Lembrando que ela estava pedindo uber na calçada ali, as vezes passou a noite na casa de alguém ali próximo.

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Se ela estava pedindo um Uber, como o Lucas saberia o local e e hora de onde ela teria dormido e estaria na calçada esperando, já que não era a casa dela, tudo muito estranho, é muita coincidência sem propósito para o meu entendimento...

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Eu to achando engraçado que vocês estão encucados demais com a menina e deixando passar uma coisa que deveria ser o foco de discussão desse capitulo kkk

Mas de fato é bom prestar atenção nessa menina, pois ela é alguém importante

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Prestar atenção aos detalhes é minha principal qualidade, mas admito que é um defeito irritante ao mesmo tempo kkkkkkkk

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É... Esse ponto ficou esquisito... Por enquanto.

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Até agora eu não entendi por que ele não dá um pé na bunda da Raquel

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Acho que é instinto de advogado, querer conhecer todos os fatos para tomar a melhor estratégia e decisão, geralmente advogados e investigadores são assim, até porque a profissão exige, então acabam tranfererindo para a esfera pessoal.

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Spoiler: Porque ele quer fazer isso na festa de noivado pra mostrar pros pais e amigos o tipo de pessoa que ela é.

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Coisa de advogado, precisa de uma prova irrefutável diante de um júri, é o subconsciente profissional agindo nas atitudes conscientes kkkk(k

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