Epílogo: O Horizonte Depois da Tempestade
Seis Meses Depois
Por Alice
O som das ondas da Praia do Campeche era o meu novo despertador. Não havia mais o silêncio tenso da mansão Albuquerque, nem o cheiro de mofo da adega. Agora, o ar cheirava a café fresco e ao perfume de madeira das pranchas de surfe que Fernanda insistia em deixar na sala do nosso pequeno apartamento de frente para o mar.
O casamento da minha mãe com Roberto não aconteceu naquele dia. O escândalo foi grande demais, e o "sim" foi substituído por meses de terapia familiar e silêncios gelados. Stefano voltou para a Itália na mesma semana, enviando um e-mail longo e amargo que eu deletei sem terminar de ler.
Mas o tempo, como dizem, tem uma forma estranha de lapidar as arestas.
— Alice? Você viu meu esquadro? — Fernanda gritou do quarto, que agora servia de escritório para o seu novo estúdio independente de design.
Caminhei até ela e a encontrei cercada de papéis, com um lápis atrás da orelha e aquele olhar focado que ainda me fazia perder o fôlego. Eu me aproximei e deixei o objeto sobre a mesa, aproveitando para abraçá-la por trás.
— Você está trabalhando demais — sussurrei, beijando seu ombro.
— Tenho uma entrega para um cliente importante amanhã — ela sorriu, virando-se nos meus braços. — E por "cliente importante", quero dizer o seu novo chefe.
Eu ri. Eu tinha conseguido um emprego em uma galeria de arte no centro. Minha mãe, depois de três meses sem falar comigo, finalmente aceitou tomar um café na semana passada. Ela ainda não visitou nosso apartamento, e ainda dói ver a tristeza nos olhos dela quando menciono Fernanda, mas ela parou de desligar o telefone na minha cara. É um começo.
Por Fernanda
Ver Alice florescer longe da sombra do Stefano e das expectativas da mãe dela era a minha maior conquista. Ela não era mais a garota assustada que se escondia nos corredores; ela era uma mulher que ocupava o espaço com confiança.
Meu pai, Roberto, foi o mais difícil. Para um homem que vive de projetar estruturas sólidas, ver a própria família desmoronar foi um golpe duro. No mês passado, ele me ligou. Não pediu desculpas, nem disse que nos aceitava, mas perguntou se eu poderia revisar um projeto de interiores para ele. Foi a sua forma de dizer que o sangue ainda falava mais alto que o orgulho.
— O que você está pensando? — Alice perguntou, tirando o lápis da minha orelha e me puxando para um beijo calmo.
— Que o porão daquela casa era muito pequeno para nós duas — respondi, sorrindo contra os lábios dela.
Naquela noite, fomos caminhar na areia. O sol estava se pondo, tingindo o mar de um dourado que lembrava o vestido que Alice usava no dia em que tudo explodiu. Mas desta vez, não havia medo. Não havia namorado italiano, nem segredos sob a mesa.
— Você se arrepende? — Alice perguntou, olhando para o horizonte.
— De ter te beijado naquele banheiro? Nunca — puxei-a para perto, entrelaçando nossos dedos. — Aquele foi o "erro" mais certo da minha vida.
Nós não éramos mais as filhas de um casamento que nunca existiu. Éramos duas mulheres que escolheram a verdade, por mais cara que ela tenha custado. E enquanto o sol desaparecia no oceano, eu sabia que não importava o quão difícil fosse o caminho, desde que pudéssemos caminhar de mãos dadas, à luz do dia, em qualquer lugar que chamássemos de lar.
FIM DEFINITIVO
Espero que tenha gostado desta conclusão! Sam e Ana encontraram a paz, e Fernanda e Alice encontraram a liberdade.
