Os Primos Gêmeos de Rodrigo

Um conto erótico de Mateus
Categoria: Gay
Contém 3456 palavras
Data: 17/03/2026 23:07:38
Última revisão: 17/03/2026 23:27:06

Nos dias que se seguiram, a ausência deixou de ser um acontecimento e passou a ser uma paisagem. Percebi isso primeiro como quem nota uma mudança no clima. Nada dramático, apenas um deslocamento silencioso no ritmo das coisas. Rodrigo não me procurava. Também não me evitava abertamente. Nós ainda nos cruzávamos no bairro ou no clube, trocávamos um aceno curto, às vezes duas ou três palavras rápidas na calçada.

Os dias foram se reorganizando sem que ninguém precisasse declarar nada. Entendi isso no meu próprio corpo. A ausência de Rodrigo doía menos do que eu imaginara que doeria. O que permanecia não era exatamente saudade, era memória física. Às vezes, num momento banal, eu lembrava da textura da pele dele, do peso do corpo, da maneira como Rodrigo respirava quando perdia o controle.

Era um tipo específico de lembrança. Sensorial. Mas aquilo que antes parecia inevitável agora exigia esforço. E eu, aos poucos, comecei a notar algo desconfortável sobre mim mesmo. A falta que eu sentia de Rodrigo não era homogênea. Não era saudade no sentido pleno da palavra. Era outra coisa.

Às vezes surgia quando eu estava sozinho, lembrando da textura da pele quente de Rodrigo, do jeito quase infantil como o rosto dele ficava ruborizado quando o desejo o pegava desprevenido. Às vezes voltava em flashes físicos, uma memória tátil, um impulso involuntário. O corpo lembrava.

Mas quando eu tentava puxar algo mais profundo, conversas longas, admiração intelectual, aquela vontade de ouvir o outro falar sobre o mundo, eu não encontrava muito. E isso me desconcertou um pouco. Nós não tínhamos afinidade, nem profundidade. Quando eu tentava imaginar um futuro com Rodrigo, algo falhava.

Comecei a admitir para mim mesmo, com certo incômodo, algo que parecia quase desleal: a paixão que eu sentira por Rodrigo tinha sido sobretudo física. Intensa, irresistível, elétrica, quase inevitável, mas também ilógica, como certos impulsos que o corpo reconhece antes da cabeça. Mas, quando afastava a camada do desejo, o que restava entre nós era mais ralo do que eu gostaria de admitir.

Rodrigo era bonito, intensamente presente, carregava um magnetismo corporal difícil de ignorar. Mas eu não o admirava. Não da forma como admirara outros homens antes, aquela admiração que misturava inteligência, curiosidade, inquietação.

Rodrigo era direto demais para isso. Prático demais. O mundo dele parecia terminar no videogame, no campo de futebol, nos mesmos amigos do bairro, nas mesmas histórias repetidas que já tinham sido contadas dez vezes.

Me lembrava de observar Rodrigo entre os amigos do futebol, rindo alto de piadas simples, a voz esganiçada, discutindo resultados de campeonatos. Eu participava, às vezes. Mas, por dentro, mantinha uma distância difícil de explicar. Não era desprezo. Era apenas incompatibilidade.

Percebia agora que nunca admirara Rodrigo da mesma forma que admirara, por exemplo, a inteligência afiada de Heitor ou a presença instigante de Rafael. Rodrigo era outra coisa. Rodrigo era corpo. Era impulso. Era tensão elétrica nascida durante a puberdade e acumulada durante anos de convivência ambígua. E talvez por isso tivesse sido tão difícil resistir.

Comecei a compreender que, enquanto estivera envolvido naquele turbilhão de tensão física, confundira, mais uma vez, desejo com profundidade. E, uma vez nomeado isso, algo dentro de mim começou a se soltar. Não de forma dramática. Apenas… afrouxou.

Me perguntei se aquilo que chamara de sentimento não era, na verdade, somente atração. Atração pela proximidade proibida, pelo desejo, pela tensão deliciosa do quase acontecer. Quando constatei isso, não houve alívio imediato, mas uma espécie de sobriedade. Como acordar depois de uma noite longa.

Voltei a ocupar os meus próprios dias comigo mesmo. As aulas. As leituras. Conversas com amigos novos que começavam a aparecer na escola. Pequenos interesses que tinham ficado suspensos enquanto a minha vida emocional orbitava sempre alguém.

Às vezes ainda pensava em Rodrigo. Mas já não com urgência.

__________

Rodrigo, por outro lado, não tinha essa facilidade de análise, não tinha esse vocabulário interno tão organizado. Mas ele sentia, à sua própria maneira. A minha ausência chegou a ele de outro jeito.

Primeiro no campo de futebol do clube. Os amigos gritavam, riam, discutiam o jogo como sempre. Rodrigo corria, disputava bola, empurrava alguém, ria alto depois de um carrinho mais duro, xingava. Mas, em alguns momentos, percebia que estava olhando para o lado errado do campo. Esperando alguém que não estava mais ali.

Às vezes eu aparecia para assistir aos jogos, ficava encostado no alambrado, comentando alguma coisa com um conhecido, observando com aquele olhar atento que parecia analisar tudo. Mas agora o alambrado estava vazio. Rodrigo tentou não pensar nisso. Eu tinha sido presença constante durante meses. Agora era apenas lacuna.

No vestiário do clube, enquanto os outros trocavam de camiseta e discutiam lances do jogo, Rodrigo às vezes se pegava lembrando de detalhes absurdamente específicos. O jeito como eu levantava levemente as sobrancelhas quando estava concentrado em alguma coisa. A forma como eu ficava imóvel por um segundo antes de reagir a um toque, aquele instante de hesitação que Rodrigo aprendera a reconhecer como parte de mim. Rodrigo balançava a cabeça, como quem tenta expulsar uma ideia.

— Você tá viajando, cara — disse um dos amigos, dando um tapa leve nas costas dele.

Rodrigo riu.

— Nada não.

Mas havia algo.

Depois o sentimento veio em casa. A casa funcionava normalmente, mas o silêncio pesava de um jeito diferente. A irmã comentou casualmente, uma noite:

— Você quase não vê mais o Mateus, né?

Rodrigo deu de ombros.

— Ele anda ocupado.

Ela aceitou a resposta. Mas Rodrigo percebeu que não sabia exatamente com o que eu estava ocupado. Antes, as coisas simplesmente aconteciam: uma mensagem, uma visita, uma tarde que se estendia sem planejamento. Agora havia distância.

Na escola, com os amigos, ele não falava sobre isso. Ali o mundo era simples demais para certas perguntas. Mas, sozinho no quarto, às vezes a memória voltava com uma precisão incômoda. Não era só o sexo. Era o modo como eu olhava para ele, como se enxergasse algo além da imagem que Rodrigo exibia para o resto do mundo.

Rodrigo começava a perceber algo que nunca tinha pensado muito antes: com os amigos, ele era sempre o mesmo personagem. O cara confiante, brincalhão, barulhento, meio provocador. Comigo, às vezes, surgia outra versão dele. Mais hesitante. Mais… verdadeiro, talvez. E isso o assustava um pouco. Porque agora, sem a mim por perto, aquela versão também desaparecia.

Rodrigo sentia uma inquietação difícil de explicar. Ele pegava o celular algumas vezes, quase mandava mensagem, depois desistia. Não sabia exatamente o que dizer.

“Oi”?

“Você tá bem”?

“Vamos conversar”?

Parecia pouco. E parecia demais.

Ele também sabia que fora ele quem criara a distância. E, ainda assim, havia algo que o incomodava profundamente: o fato de eu aparentemente aceitar isso com tanta facilidade. Nenhuma insistência, nenhuma cobrança, nenhuma tentativa de retomar o que tínhamos.

Rodrigo começou a se perguntar se aquilo significava algo que eu não queria. Talvez, para mim, tivesse sido apenas uma fase. Um episódio intenso, mas passageiro. A ideia incomodava mais do que Rodrigo gostaria de admitir.

Porque, apesar de todo o medo que sentira, medo dos olhares, dos comentários, do pai, dos amigos, havia também outra coisa que ele não conseguia ignorar. Quando estávamos juntos, havia algo raro. Algo que não acontecia com as meninas com quem ele ficava nas festas da escola. Com elas era simples. Comigo era… vivo. Essa palavra lhe ocorria às vezes, mesmo que ele não tivesse certeza do que exatamente significava.

Numa tarde de domingo, Rodrigo estava sentado no degrau da varanda de casa, olhando a rua quase vazia. O sol caía devagar atrás das casas. Ele pensou em mim. Pensou também no que viria depois. Talvez aquela história já tivesse chegado ao ponto máximo que podia alcançar dentro das fronteiras daquela cidade, daquela idade, daquela vida ainda dependente.

Do outro lado do bairro, sem saber, eu também pensava algo parecido. Não com tristeza exagerada. Mas com a lucidez que vem quando o desejo começa a esfriar. Algumas relações são feitas para incendiar uma fase da vida. Outras para durar.

E eu começava a suspeitar que o que tivera com Rodrigo talvez pertencesse à primeira categoria. Ainda assim, havia uma última pergunta que nenhum dos dois conseguia responder completamente: se era apenas desejo… por que a ausência ainda incomodava tanto?

__________

Numa tarde qualquer, encontrei Rodrigo por acaso na rua. Eu vinha saindo de um mercado pequeno perto da praça. Rodrigo estava com dois amigos do futebol. Os três diminuíram o passo. Levantei os olhos e vi o grupo. Por um segundo, o tempo hesitou. Rodrigo fez o que sempre fazia: sorriu, deu um aceno rápido.

— E aí.

— E aí.

Simples. Nenhum dos amigos percebeu nada de estranho. Continuaram andando, falando de um jogo no fim de semana. Mas Rodrigo sentiu uma coisa estranha no peito. Eu não parecia mais preso àquela história. Estava calmo. Quase… livre.

Rodrigo, por outro lado, percebeu que ainda carregava algo que não sabia bem como nomear. Não era exatamente paixão. Mas também não era só desejo. Era a sensação incômoda de que, ao se afastar por medo, talvez tivesse deixado escapar algo que ainda estava tentando entender. E, diferente de mim, Rodrigo não tinha muitas ferramentas internas para organizar esse tipo de pensamento.

Então fez o que sempre fazia quando algo o incomodava demais: correu mais rápido no treino.

Riu mais alto com os amigos. Fingiu que certas perguntas não existiam. Mas, de vez em quando, quando a casa ficava silenciosa e ele se deitava no escuro do quarto, a lembrança voltava.

Não só do que tínhamos feito. Mas de como tínhamos nos olhado depois. E isso, curiosamente, era o que mais o desestabilizava.

__________

Aceitei o convite três dias depois de recebê-lo. Não foi uma decisão impulsiva. Eu pensei mais do que gostaria de admitir.

Primeiro veio a reação automática: não. A ideia de passar um fim de semana inteiro no mesmo espaço que Rodrigo parecia desnecessariamente complicada. Havia meses que nós dois orbitávamos o mesmo círculo social com uma cordialidade distante, uma convivência civilizada que funcionava justamente porque nenhum dos dois forçava proximidade.

Um sítio, porém, era outra coisa. Distâncias ali se comprimiam. Mas a mãe de Rodrigo insistiu com uma naturalidade que desarmava qualquer recusa.

— Você precisa ir, Mateus. Vai fazer bem pro Rodrigo sair um pouco dessa cidade.

Ela dizia isso com a convicção tranquila de quem acreditava sinceramente que eu era uma boa influência. Eu às vezes me perguntava o que ela pensaria se soubesse a verdade.

Acabei aceitando. Talvez por curiosidade. Talvez porque uma parte de mim quisesse testar se o passado realmente tinha perdido a força que parecia ter perdido. Ou talvez porque, no fundo, a história com Rodrigo ainda tivesse bordas mal resolvidas.

A estrada de terra começou depois de quase uma hora de viagem. O carro sacudia em solavancos irregulares, levantando pequenas nuvens de poeira que ficavam suspensas no ar quente da tarde. O cheiro de mato seco entrava pelas janelas abertas. A paisagem ia se abrindo em tons de verde e marrom, sem pressa, como se o tempo ali obedecesse a outra lógica.

A mãe de Rodrigo dirigia, falando sem parar, animada com o fim de semana. Ele, sentado no banco do passageiro, falava pouco, e não olhava para trás. Nem uma vez. Desde que eu entrara no carro naquela manhã, ele estava ligeiramente diferente, mais tenso, mais curto nas respostas. Em determinado momento, enquanto a mãe desviava de um buraco na estrada, ele resmungou baixo. Ela sorriu de lado.

— Você podia ter dito não.

Rodrigo lançou um olhar rápido para ela.

— E ouvir sermão por uma semana?

A mãe deu de ombros. A irmã dele riu ao meu lado, no banco de trás, mexendo no celular, distraída.

— Para de reclamar, Rodrigo. Vai ser divertido.

Rodrigo não respondeu, mas o silêncio dele tinha camadas. Eu conhecia algumas delas. Apoiado na janela, eu conseguia observar o perfil dele pelo reflexo no vidro. Havia algo mais duro no seu jeito, o corpo firme demais, o maxilar contraído de leve, arredio.

O sítio apareceu depois de uma curva larga da estrada. Era maior do que eu imaginara. Pastos se estendiam até onde o olho alcançava, interrompidos aqui e ali por cercas de madeira, pequenas construções e manchas de mata mais densa. Ao fundo, uma cadeia de morros verdejantes recortava o horizonte.

A casa principal era exatamente como haviam descrito, antiga, com paredes grossas e caiadas. Grande, mas simples. Madeira escura nas janelas pintadas de um azul já desbotado, varanda larga correndo pela frente inteira, telhado alto já um pouco irregular, algumas telhas mais escuras que outras.

Havia algo pitoresco ali, não exatamente bonito no sentido urbano da palavra, mas cheio de personalidade. Um certo charme involuntário, sustentado mais pela paisagem ao redor do que pela construção em si. E a paisagem era, de fato, bonita, aberta. Quase silenciosa.

Quando o carro parou, uma mulher apareceu na varanda. Era a tia de Rodrigo. Diferente da irmã, ela tinha um jeito direto, quase brusco, mas com um sorriso fácil.

— Chegaram, uai!

Desceu os degraus da varanda sem cerimônia, limpando as mãos num pano de prato. Abraçou a irmã, depois a sobrinha, deu um tapa leve no ombro de Rodrigo e depois olhou para mim. Ela me mediu com os olhos por um segundo, não de forma desconfiada, mas avaliativa, prática, e abriu um sorriso mais curto.

— Então você é o Mateus.

Não era pergunta.

— Sou, sim.

— Bom, minha irmã falou de você como se fosse um santo.

O comentário arrancou uma gargalhada da mãe de Rodrigo.

— Para com isso.

— Verdade, uai.

A tia apertou a minha mão com firmeza, como quem aprova sem fazer alarde.

— Seja bem-vindo. Aqui a gente só tem duas regras: comer bem e não reclamar.

— Acho que consigo – assenti.

O marido dela apareceu logo depois, vindo de trás da casa, com um chapéu gasto e passos lentos. Cumprimentou todos com um aceno de cabeça e um aperto de mão mais firme ainda.

Enquanto conversávamos, duas figuras apareceram atrás da casa. Primeiro vieram apenas silhuetas contra o sol da tarde. Depois os rostos ficaram visíveis. Eu levei um segundo a mais do que o normal para processar o que estava vendo.

Os primos gêmeos de Rodrigo: Tiago e Marcelo. Idênticos à primeira vista. Mesma altura, ligeiramente maiores que eu, mas bem menores que Rodrigo. Mesma pele clara marcada pelo sol, mesmo cabelo preto curto e liso, mesmo corpo magro com músculos definidos de quem trabalha ao ar livre.

Mas havia diferenças sutis. Tiago tinha um rosto mais aberto, quase tranquilo. Os olhos escuros pareciam repousar nas coisas com calma, quase curiosidade, o sorriso surgia fácil, sem cálculo. Marcelo, por outro lado, tinha algo mais atento no olhar. Como se estivesse sempre avaliando a situação antes de reagir.

Os dois pararam a alguns passos do grupo. Rodrigo fez um gesto vago.

— Esses são os primos.

Tiago sorriu primeiro.

— E você é o Mateus.

A voz dele era tranquila. Marcelo não sorriu imediatamente. Me observou de cima a baixo com uma franqueza quase desconcertante, uma atenção que não era exatamente cordial.

— Então é você.

Arqueei uma sobrancelha.

— Sou eu… o quê exatamente?

Marcelo finalmente sorriu. Um sorriso curto.

— O amigo da cidade.

O jeito como ele disse “amigo” tinha uma leve ambiguidade que ficou suspensa no ar por um instante. Rodrigo percebeu.

— Marcelo…

— O quê? — respondeu o primo, inocente demais.

Tiago deu um pequeno empurrão no irmão.

— Para de encher.

— Ficam quanto tempo? — Marcelo perguntou, direto.

— O fim de semana – Rodrigo respondeu.

Marcelo assentiu devagar, como se registrasse a informação.

— Tá bom.

A forma como disse não era acolhedora nem hostil. Era… curiosa. Rodrigo, ao lado, soltou um suspiro curto.

— Vamos entrar logo — disse, passando por eles.

O tom carregava impaciência. Mas eu percebi: não era com a casa. Nem com os parentes. Era com a situação. Eu não disse nada, mas registrei cada impressão.

A casa tinha apenas três quartos, por causa disso, Rodrigo e eu ficaríamos no mesmo quarto que os primos (um deles, não me lembro mais qual, havia cedido o quarto para a mãe e a irmã de Rodrigo). O quarto era simples. Duas camas de madeira, um colchão de casal firme demais no chão, uma janela que dava para um pasto aberto.

Larguei a mochila no chão e fiquei alguns segundos parado, absorvendo o lugar. Quando voltei para a área externa, o clima já estava mais solto. A mãe de Rodrigo conversava com a irmã, rindo alto. O tio cuidava de alguma coisa perto de um galpão.

Algumas horas depois, o sol já começava a baixar quando fiquei sozinho na varanda por alguns minutos. O cheiro de terra úmida vinha do quintal, misturado ao aroma distante de lenha queimando na cozinha externa.

Apoiei os cotovelos no corrimão de madeira e olhei a paisagem. O sítio tinha um silêncio diferente do da cidade, mais cheio, mais vivo. Passos soaram atrás de mim. Rodrigo. Ele parou ao meu lado, olhando para o mesmo horizonte.

— Bonito aqui – comentei.

Rodrigo deu de ombros, sem olhar diretamente para mim.

— Sempre foi.

Silêncio. O vento passava leve, movimentando o mato baixo.

— Você não precisava ter vindo – disse Rodrigo, de repente.

A frase saiu sem agressividade, com cuidado.

— Eu sei – respondi sem virar o rosto.

Rodrigo passou a mão pelo cabelo e finalmente olhou para mim. O olhar demorou um segundo a mais do que o necessário. Havia ali um reconhecimento físico imediato, quase involuntário, como se o corpo lembrasse antes da cabeça. Mas ele desviou o olhar primeiro.

— Minha mãe te chamou porque ela acha que você… — ele parou, procurando a palavra — Melhora as coisas.

Soltei um meio sorriso.

— E eu não melhoro?

Rodrigo bufou baixo.

— Você complica.

A frase veio rápida, verdadeira, e, estranhamente, sem peso demais. Não respondi, porque sabia que havia algo de correto ali. Soltei apenas uma pequena risada.

— Rodrigo, sua mãe acha que eu sou quase um crente.

— Pois é.

Silêncio. Então outra voz surgiu atrás de nós.

— Vocês dois são sempre tão animados assim?

Marcelo. Ele estava encostado na porta da varanda. Tiago apareceu logo depois, trazendo duas garrafas de cerveja.

— Achei que vocês iam querer.

Ele entregou uma para mim. Quando nossas mãos se tocaram brevemente, o contato foi rápido demais para ter significado, mas não rápido o suficiente para passar despercebido. Marcelo observou. Rodrigo também. O ar da varanda pareceu ficar alguns graus mais quente. Marcelo se aproximou um pouco mais. O espaço ficou mais apertado de repente.

— A cidade deve ser bem diferente daqui.

Dei um gole na cerveja.

— É.

— Mais coisa pra fazer.

— Mais gente também.

Marcelo inclinou a cabeça, curioso.

— Mais… opções.

A palavra ficou no ar. Rodrigo soltou um suspiro impaciente.

— Cidade cansa — disse ele, olhando para mim.

Não era exatamente uma conversa. Era uma provocação leve. Eu inclinei a cabeça.

— Depende do que você faz nela.

Marcelo sorriu de canto.

— E você faz o quê?

Rodrigo soltou uma risada curta, quase seca.

— Ele faz bastante coisa.

— Que tipo de coisa?

— Melhor parar de bancar o investigador.

Marcelo abriu um sorriso tranquilo.

— Eu só tô conversando.

Tiago apoiou o cotovelo no corrimão da varanda, olhando para o horizonte.

— Ele sempre faz isso — disse para mim — Fica cutucando até alguém reagir.

Olhei de um irmão para o outro. Havia algo ali, um subtexto, algo difícil de definir, mas impossível de ignorar. Tiago olhou também, percebendo que existia uma camada que ele não estava captando completamente. Marcelo, não. Marcelo parecia captar. O olhar dele demorou em mim um pouco mais do que o comum. Depois deslizou para Rodrigo. Depois voltou. Como se estivesse montando um quebra-cabeça silencioso. Rodrigo também parecia sentir. Ele deu um passo para trás, como se precisasse de espaço.

Marcelo então olhou diretamente para mim, os olhos escuros avaliando com calma.

— Vai ser um fim de semana interessante.

Não foi exatamente uma pergunta. Sustentei o olhar por um segundo. O suficiente.

— Acho que vai.

O ar ficou mais denso. Não era explícito, mas era inegável. Senti meu próprio corpo reagir de forma quase automática àquela combinação estranha: o incômodo de Rodrigo, a curiosidade afiada de Marcelo, a presença mais suave de Tiago. Era diferente. Mas familiar, em outro nível. A mesma tensão. Outro cenário.

Quando o sol começou a desaparecer de vez, tingindo o céu de laranja queimado, ninguém parecia com pressa de sair dali. E eu tive uma percepção clara, quase incômoda na minha própria lucidez: aquilo não tinha terminado. Só tinha mudado de forma. E, talvez, ficado mais perigoso justamente por isso.

E, pela primeira vez desde que chegara ao sítio, tive a sensação clara de que aquela viagem talvez não seria apenas uma visita inocente de família. Havia tensão no ar. E não era só entre Rodrigo e eu.

Siga a Casa dos Contos no Instagram!

Este conto recebeu 0 estrelas.
Incentive Mateus Azevedo a escrever mais dando estrelas.
Cadastre-se gratuitamente ou faça login para prestigiar e incentivar o autor dando estrelas.

Comentários