Sabrine chegou com Rafael e Thais, e já veio procurando Iury. Quando o encontrou com os olhos, abriu um sorrisão que fez a gente se entreolhar e rir. O casal cumprimentou a todos, Thais também, mas logo ela saiu com meu cunhado, e eu confesso que só percebi porque precisei entregar a chave do carro — eles disfarçaram muito bem.
— Minha filha com o seu irmão — Sabrine falou para Júlia.
— Eu sabia, mas não podia contar. Desculpa! — Juh pediu, em um lamento.
— Pelo que ela me falou, ele vem sendo… agradável… Mas, se esse menino fizer alguma coisa… — Sabrine disse, visivelmente buscando paciência.
— Ele está todo bobão por ela, relaxa — falei.
— Bom, isso é verdade mesmo — Juh concordou.
— E o bebê, como está? — Rafael perguntou, mudando de assunto.
— Beeem, escolhemos o nome — Júlia respondeu.
— Dom! — anunciei.
— Aaaah, que lindo! Eu te falei que Dom era mais bonito — Sabrine falou, alisando a barriguinha dela e dando um beijo.
Vi quando as amigas de Milena começaram a se despedir perto da árvore. Elas falavam todas ao mesmo tempo, mantendo o mesmo entusiasmo de quando chegaram. Depois, Milena veio andando em nossa direção, e Kaique estava logo atrás. Eles falaram com Rafael e Sabrine, que se despediram explicando que iam embora porque virariam o ano em outro estado.
Eu estava caçando, com o olhar, Iury e Thais, até que ouvi meu irmão gritar:
— Se despede da sua sogra, Iury!
— Deixa ele… — Sabrine disse, bem-humorada, deixando meu cunhado vermelho de vergonha.
Só então ele se aproximou, trocou cumprimentos com o casal e deu um último abraço em Thais.
Quando olhei para frente, reparei melhor em Kaique. No meio do cabelo dele havia um pedaço preso com uma xuxinha colorida, formando um mini rabinho que contrastava com o resto do cabelo solto. Aquela cena me pegou de surpresa.
— Judiaram de você, foi, meu filho? — perguntei, rindo.
— Foi a amiga de Mih que colocou — ele respondeu, também rindo, enquanto puxava a xuxinha e a tirava.
— Elas disseram que Kaká é o único menino com quem dá pra conversar — Mih falou.
— Ué, por quê? — Juh quis saber.
— Não fica louco atrás de bola — Mih falou, porém em um tom de quem não concordava.
— Nem tinha ninguém jogando bola — Kaique complementou.
— E, se tivesse… provavelmente nós dois estaríamos loucos atrás da bola — Mih concluiu, um pouco desanimada, e Kaique riu, concordando.
Isso fez ela sorrir também.
— Mãe, Mih ficou me tratando que nem um bebê na frente delas — ele reclamou, fazendo um biquinho.
— Foi? — perguntei, rindo.
— Foi… — Kaique confirmou.
— Eu te tratei normal — Milena disse, rindo também.
— É porque você é um pouco o bebezinho dela mesmo, filho — falei.
— Não sou, não — ele respondeu, todo bravinho.
— É, e os dois são nossos bebezões — Juh completou.
— Agora nós trêêês! — Milena vibrou, inclinando-se um pouco para falar com o neném na barriga.
Nesse momento, o relógio de Kaique despertou, avisando que era o horário da outra dose do remédio.
— Eu vou pegar pra você, tá bom?! — Milena falou, já se levantando e saindo.
Fiquei olhando para o rosto tranquilo de Kaique por alguns segundos e achei a situação engraçada. Ele estava reclamando de ser tratado como um bebê, mas, na prática, parecia confortável demais com o cuidado da irmã.
— Bebezinho mimado — brinquei, puxando-o para os meus braços.
Foi só então que ele percebeu o que tinha acabado de acontecer. Os olhos dele se arregalaram, e ele se soltou de mim em um pulo.
— Eu peeeego! — Kaká gritou, rindo, antes de sair correndo atrás dela.
Ficamos rindo, vendo Kaique entrar em casa correndo atrás de Milena. Ainda deu para ouvir ele gritando alguma coisa lá dentro antes da porta fechar. Júlia pegou uma das florzinhas que estavam na mesa e colocou atrás da minha orelha com toda a naturalidade do mundo.
— Combina com você — ela disse, com aquele sorrisinho doce que acaba comigo.
Eu a puxei pela cintura e dei um selinho demorado. Juh riu baixinho e então fomos andando até onde o pessoal estava sentado. Assim que cheguei mais perto, reparei em Iury. Ele estava quieto demais para quem normalmente era um dos mais falantes da roda.
— Oxe, que foi? — perguntei, desmanchando o bico dele com o dedo.
Ele só balançou a cabeça negativamente e se jogou, dramaticamente, para o lado. Olhei para o pessoal ao redor, tentando entender, mas ninguém parecia saber de nada.
— O bichinho esvaziou o saco e bateu aquele vazio existencial — Lorenzo chutou.
— Não é isso, para — Iury disse, mas riu.
— Isso é saudade — Lana disse e saiu rindo.
— Que foi, Iury? — Juh perguntou, preocupada, sentando ao lado dele.
— Brigaram? — quis saber.
Ele não respondeu. Só deitou a cabeça no colo de Juh, e ela começou a fazer carinho no cabelo dele. Como ele claramente não queria falar nada naquele momento, acabamos deixando quieto e mudando de assunto.
Quando começou a escurecer, Léo apareceu com os pais, os pais de Victor e mais um casal de tios. A mesa foi se enchendo, e acabamos jantando todos juntos, conversando e circulando entre as cadeiras. Mesmo assim, Iury continuava caladão, e aquilo começou a chamar a atenção de mais gente.
Júlia se inclinou um pouco na minha direção e falou no meu ouvido:
— Amor, vai lá conversar com ele — minha gatinha pediu.
— Ele não quer conversar, amor, bora dar um tempo — tentei.
— Ele não quer conversar com todo mundo olhando… por favor… — Juh pediu novamente, fazendo aquele olhar irresistível.
— Tá bem… — concordei, revirando os olhos, e ela sorriu, me dando um beijinho.
Chamei Iury para me ajudar a colocar mais bebidas no freezer, e ele veio comigo. Realmente era algo que precisava ser feito, então comecei a separar as garrafas e ir entregando para ele organizar lá dentro.
— Quer conversar sobre isso? — questionei.
Meu cunhado suspirou fundo, e eu já estava pronta para dizer que tudo bem, porém ele rompeu o silêncio.
— Eu queria muito encontrar com ela, e foi rápido demais. Não teve nada de errado, só que não durou muito… não o quanto eu gostaria — ele disse.
— Vocês terão outras oportunidades, podem marcar um novo encontro — comentei.
Ele balançou a cabeça devagar.
— Eu não queria que ela fosse embora, sabe? — Iury falou, tentando me fazer entender.
— Compreendo… eu também ficava assim com Juh aos finais de semana — contei.
— E o que você fez? — ele perguntou, interessado.
— Bom… eu casei… — respondi, rindo, e ele riu também.
— Tá, foi uma pergunta besta — meu cunhado afirmou.
— Você está gostando muito dela, não é? — perguntei.
— Uhum, mas não sei se é a vibe dela… — ele disse, meio triste.
— Vocês só se beijam quando estão juntos, é? Por que não conversam sobre essas coisas? — questionei.
— A gente não se vê muito, e pelo WhatsApp eu não curto conversar isso. Certeza que vou virar print no grupo das amigas — Iury afirmou, rindo.
— Vocês são jovens, vivam… Por que não manda uma mensagem dizendo que está com saudade e já marca algo para fazer quando ela voltar? — sugeri.
Ele não se animou muito, mas pegou o celular e começou a digitar. Antes que terminasse, o telefone vibrou com uma mensagem dela dizendo que estava com saudade, e aquele jovem sofredor mudou de humor da água para o vinho na mesma hora.
Quando voltamos, percebi que algumas pessoas já não estavam mais ali. Dentre elas, a principal: minha esposa.
Algo comum, não é? Uma casa enorme, cheia de gente, pessoas transitando de um lado para o outro o tempo todo. O fato de Júlia estar grávida também fazia com que muita gente puxasse assunto com ela, querendo saber como estava, dar alguma dica, algum conselho, alguma forma de ajudar. Nossa família é muito prestativa, então sempre tinha alguém chamando Juh para um canto ou para outro.
De início, sentei de volta à mesa. Contudo, não sei dizer exatamente o que me inquietou — só senti vontade de ir atrás dela. Perguntei por Júlia, e me disseram que ela havia entrado na pousada com minha sogra e alguns tios. Levantei e fui até lá.
À medida que me afastava, o som da música foi ficando cada vez mais distante. Quando cheguei perto da porta, encontrei uma cena que me fez parar por um segundo: minha sogra estava segurando Júlia pelo tronco, tentando impedir que ela avançasse mais contra o tio.
— O que está acontecendo? — perguntei, indo até Juh e a puxando para os meus braços.
Ela não é uma pessoa que gosta de confusão — muito pelo contrário. Júlia evita qualquer tipo de confronto sempre que pode. Então aquilo era, sim, uma situação estranha para mim. Fazia muito tempo que eu não a via naquele estado. Pensando bem, eu podia contar nos dedos as poucas vezes em que a vi gritar daquela maneira.
Olhei diretamente para o tio dela.
— É melhor o senhor sair — sugeri.
Ele estava com os olhos arregalados, completamente surpreso. A tia parecia do mesmo jeito. Seja lá o que tivesse acontecido ali dentro, eles claramente não esperavam que minha mulher reagisse daquela forma.
Ela nem tentou se segurar. Assim que me puxou para perto, desabou em choro, enterrando o rosto no meu pescoço. Eu a abracei firme e a conduzi até uma das poltronas da sala da pousada. Sentei e a trouxe para o meu colo, segurando seu rosto entre as mãos por um instante.
— Calma… calma… vai ficar tudo bem — falei baixo, passando a mão nas costas dela.
Minha sogra voltou logo depois com um copo de água. Entregou para Júlia e ficou ali por perto, observando com um olhar preocupado. Juh foi bebendo devagar, respirando fundo entre um gole e outro, até o choro ir diminuindo. Quando percebi que ela estava mais tranquila, fui ajeitando o cabelinho dela, que estava fora do lugar.
— Agora você consegue me dizer o que fizeram, gatinha? — perguntei.
Ela confirmou com a cabeça.
— Eu já tinha dado uma cortada nele na frente de todo mundo, porque pode parecer bobeira, mas eu não aguento mais ouvir que o meu corpo não mudou, sendo que sou eu que estou enfrentando todas as mudanças dele. Depois, ele deu a entender que Kaique está precisando de uma figura masculina em casa… Não foi direto, Kaká nem entendeu. Ele só está molinho porque está com febre novamente e queria dormir, só isso… você sabe como ele fica com sono.
— Totalmente errado. A mãe dele criou todos os filhos sozinha. Isso que ele disse também não afetaria a ela? — minha sogra falou.
— Eu não gostei da brincadeira e me retirei com Mih e Kaká para que eles deitassem — era o que os dois queriam também. Eu ia ficar por lá, mas minha mãe percebeu que eu tinha me chateado e foi atrás de mim. Me convenceu a voltar para te esperar, e, quando estávamos voltando, ele disse que conversou com a esposa e percebeu que havia feito um comentário infeliz e pediu desculpa. A gente foi entrando para conversar direito, eu explicando o porquê de ter me machucado… e nós nos resolvemos, ele parecia ter entendido. Mas aí, ao mudar de assunto, falando da inseminação, ele ficou insistindo em perguntas do tipo: “Quem é o pai?” “E se, quando ele crescer, quiser saber quem é o pai de verdade?” “Uma criança precisa saber desse tipo de informação…”
A voz dela embargou outra vez.
— Eu não aguentei… revidei todas as ofensas. Falei que meu filho não vai crescer faltando nada, que ele vai ter duas mães que o amam, que a única coisa que uma criança realmente precisa é de amor e respeito… e que ninguém ali tinha o direito de questionar a nossa família. Eu gritei… falei alto demais… eu odeio… — Júlia não conseguiu concluir; começou a chorar novamente.
Apertei-a um pouco mais contra mim.
— Ei… você estava defendendo a sua família — disse, beijando a testa dela.
— Mesmo assim… eu não gosto de perder o controle desse jeito… — Juh falou.
— Ou ele podia ter parado de fazer perguntas invasivas — respondi.
Ela soltou um suspiro longo, finalmente relaxando um pouco nos meus braços.
— Ele percebeu que errou, filha. Quando saiu daqui, falou isso — minha sogra disse.
— Mas, por hoje, chega. Olha o estresse desnecessário que Júlia acabou de passar estando grávida — falei, cortando qualquer possibilidade de um novo diálogo naquele momento.
— Eu precisava dizer as verdades na cara dele, não me arrependo — Juh disse.
— Você está sentindo alguma coisa? Qualquer coisa, fala pra gente, tá bom? Por favor — pedi, alisando a barriga dela.
— Está tudo bem, amor… qualquer coisa eu te digo — Juh respondeu, e eu dei vários beijinhos na bochecha dela.
— Eu vou pedir para eles irem embora. Não vão acabar com a sua noite. Todo mundo de quem você gosta está aqui, e você vai ficar à vontade com eles — minha sogra disse, decidida, e partiu rapidamente em direção à porta.
Juh ficou, como ela anda dizendo atualmente, “gag de la gag”, que quer dizer: chocada, passada. Na verdade, nós ficamos. Percebi que Dona Jacira havia entendido a gravidade do que machucou Juh, mas não imaginei que ela tomaria essa atitude — ainda mais verbalizaria isso para a gente. Ela é uma mulher que preza pela união de todos e que, muitas vezes, age em silêncio.
— Achei que minha mãe estava triste comigo — Júlia disse, chorando, mas de emoção.
— Ela ficou triste com a atitude escrota do seu tio — disse, dando um selinho nela.
Ela ainda estava no meu colo quando passou a mão devagar pela própria barriga, como se estivesse tentando sentir alguma resposta dali de dentro. O choro já tinha ido embora; restava só aquele olhar sensível de quem ainda estava processando tudo. Então comecei a falar, em voz baixa:
— Que confusão, viu, Ninho? Mas deixa eu te contar uma coisa…
Ela inclinou a cabeça de leve, pensativa, prestando atenção no que eu faria.
— Sua família está muito ansiosa para a sua chegada e está querendo saber de tudo em relação a você… Acho injusto, porque até agora você não nos perguntou nada sobre ninguém, então vou te apresentar os personagens principais — falei, e rimos quando Dom mexeu.
— O tio Lorenzo provavelmente vai te propor umas brincadeiras arriscadas quando você crescer e vai fazer as piores piadas do mundo… mas não se engane: ele é um babão apaixonado por você, capaz de se meter em uma briga pra te proteger, mesmo sabendo que vai apanhar pra caramba. A tia Sarah é a dentista mais amorosa do país, e tenho certeza de que vai cuidar para você ter o sorriso mais lindo do mundo. A tia Loren vai tentar te encher de doce escondido… mesmo sendo a primeira a reclamar quando eu faço a mesma coisa com seus priminhos. E o tio Victor vai querer te ensinar a andar a cavalo… mas toma cuidado, porque uma vez eu me ferrei e a sua mamãe não quis cuidar de mim — continuei e levei um tapinha.
— Amooor, essa última parte não é verdade — ela disse, rindo.
— Tive que fazer uma consulta em festa de condomínio — brinquei com o perigo.
— É, né? — Júlia respondeu, irônica.
— Brincadeira, foi pra você dar uma risadinha — falei, aproximando o rosto para cheirar o pescoço dela.
Ela soltou um risinho e apertou meu abraço nela.
— Prosseguindo… — disse, entrando na brincadeira de novo — a tia Lana é um pouco mais calada, mas ela é da zoeira também… você vai descobrir isso rapidinho… E o tio Iury… tenho um segredo sobre o tio Iury, mas não conta pra ninguém, tá, Dom? O tio Iury está perdidamente apaixonado pelo primeiro amor dele… — sussurrei.
— Sério? — Júlia perguntou na hora, virando-se de frente para mim.
— O humor dele voltou rapidinho depois que ela disse que estava com saudade… ele só queria ter mais tempo com ela aqui hoje — confirmei.
— Aiii… espero que dê certo — Juh disse, já animadinha.
— Agora deixa eu terminar a conversa com meu filho, por favor? — brinquei.
— Nosso! — ela me corrigiu.
— O tio Léo anda um pouco estranho ultimamente… mas acho que, quando você nascer, isso vai mudar. Ele gosta de bebês. A vovó Jacira já está toda preocupada com a sua alimentação… mesmo você ainda estando aí dentro. Quando você sair, pode ter certeza de que ela vai te fazer os melhores pães, bolos e suquinhos do mundo. O vovô José montou seu berço com as próprias mãos e está mega animado… aposto que ele mal pode esperar para escolher o seu cavalo.
Quando falei isso, Júlia, que estava toda derretida, soltou uma gargalhada.
— A vovó Vera me manda todo dia uma receita de chá diferente para evitar que você tenha cólicas e mandou eu comprar um colar de âmbar para quando seus dentinhos estiverem nascendo… Eu brinquei que não trabalho com essas bruxarias, mas quer saber a verdade? É a cara da sua mamãe te fazer usar isso… A vovó Vera também disse que vai colar na gente no primeiro mês inteiro, e isso vai ser o maior pesadelo dos seus titios, porque ela pega no pé deles. Já o vovô Paulo trabalha sem parar… outro dia estávamos em ligação e eu falei para ele descansar. Sabe o que ele respondeu? Que agora ia ter mais um neto e precisava conquistar a parte dele. Então você já sabe, né? Quando nascer, já pode cobrar a sua parte — brinquei, e nós rimos.
— Seus irmãos, Kaká e Mih, que passam o dia inteiro alugando seus ouvidos aí dentro… são duas das melhores pessoas que eu e sua mamãe conhecemos. Milena é doce, mas também muito decidida. Ela não vai deixar ninguém ser injusto com você e vai te proteger sempre que puder. Você vai ser muito bem cuidado nos braços dela… e tenho certeza de que vai amar tê-la como irmã mais velha. Já Kaique é pura animação: um menino solar que, onde chega, contagia o ambiente com alegria. Ele também é engraçado sem nem perceber… você vai rir muito com ele!
— E tem suas mamães aqui também, né… — disse, para concluir.
— Eu descobri a minha melhor versão quando comecei a viver ao lado da sua mamãe, Juh. Meu sorriso ficou mais fácil, faço gracinha com tudo, falo pelos cotovelos… e acho que você já percebeu isso, porque o maior podcast que você escuta aí dentro sou eu falando o dia inteiro. Nas horas vagas, sou psiquiatra, trabalho em um monte de lugar e vivo fazendo mil coisas ao mesmo tempo. Dizem que sou importante… Eu amo exercer a minha profissão, porém nunca me sinto tão importante quanto quando estou com a nossa família. E a minha melhor característica é que sou completamente rendida, apaixonada pela sua mamãe. Não passo um dia sem falar dela para alguém.
A mamãe Juh é incrível em tudo. É muito fácil se apaixonar por ela, porque ela consegue fazer qualquer coisa parecer fascinante. Ela é linda, dedicada, esforçada… Você percebeu como ela mudou a alimentação, como ganhou peso, como está fazendo todo esse esforço só para que você fique bem? Ela quer que tudo saia da melhor forma possível porque te ama muito, meu filho. Sua mãe é uma leoa. Ninguém mexe comigo, com seus irmãos ou com você sem ouvir alguma coisa depois… acho que você percebeu isso hoje, não foi?
Mas ela também é a mulher mais cuidadosa e amorosa que existe. Vai lembrar das pequenas coisas que te fazem feliz, dos detalhes, de tudo que te faz sorrir. A mulher da minha vida é a sua mamãe. E eu sinto um orgulho enorme de quem ela é e de quem continua se tornando todos os dias — finalizei, encostando minha testa na dela.
Júlia se preparou para dizer alguma coisa e eu dei um selinho nela.
— Xiu — disse, dando um cheirinho no pescoço dela.
— Eu te amo tanto — Juh falou, com a voz fraquinha.
— E eu te amo mais — respondi, dando mais um beijinho.
— Não, eu que amo mais — ela revidou.
Eu pretendia continuar, mas fui impedida.
— Xiiiiu — Juh me imitou e colocou o dedo na minha boca.
Fingi que ia morder, e demos uma sequência de beijos. Segurei no pescoço dela, e Júlia foi virando o corpo dentro dos meus braços até ficar de frente para mim. Ela passou os braços pelo meu pescoço, e eu inclinei um pouco a cabeça para aprofundar o beijo. Senti quando ela fez o mesmo para acompanhar o movimento.
— Cara, mas vocês se pegam o tempo todo? — ouvi a voz de Iury.
Quando virei para frente, ele tinha dado meia-volta, porém Lorenzo vinha logo atrás rindo, e Iury acabou se batendo bem no meio do peito do meu irmão.
— Elas são assim, sem modo — Lorenzo falou e sentou no sofá.
— A gente fica em casa, vocês reclamam. A gente sai e vocês atrapalham — disse, rindo.
— Foi só um beijo — Juh fez questão de esclarecer.
— Quase se devorando... Se fosse minha mãe entrando agora, Júlia ia morrer de vergonha — meu cunhado alfinetou.
— E você? Doidinho pra estar do mesmo jeito com Thais — Júlia debochou.
— Se eu dou um beijo desse sou obrigado a correr com minha muié pra cama — Lorenzo falou.
E nisso o pessoal foi entrando, mas eu nem percebi.
— Beijo demorado não pode aparecer somente como um convite ao sexo, porque o interesse sexual pode e deve ser cultivado antes da cama — respondi, reflexiva.
— BOA! — Loren gritou, sacudindo Victor pelo cabelo.
— Que isso, cunhadinho? Só é doce quando quer levar mel? Tá no erro — falei para ele.
— Não é assim também, Loren exagerou — ele disse, rindo.
— Lorenzo está precisando conversar contigo, Lore — Sarah brincou.
— Nem venha — meu irmão falou, levantando e negando com o dedo.
— Oxe, esses machos estão de brincadeira com vocês, porque minha muié mete logo um desses de manhã pra eu ficar pensando o dia inteiro nela — também brinquei.
— Amor, faz um curso pra eles — Juh seguiu zoando.
— Eu vou ministrar uma aula para Sarah agora, com licença — Lorenzo falou e agarrou minha cunhada pela cintura.
— Se você não fizer a mesma coisa, complica pra você — brinquei com Victor.
— Temos crianças dormindo — Loren lembrou.
— Ué, tomem banho juntos — Juh falou despretensiosamente.
— JÚLIA! — Iury chamou a atenção.
Foi impossível não rir. Até Sarah e Lorenzo, que já estavam no topo da escada, ouviram.
— É melhor irmos para casa — sugeri.
Quando a gente estava saindo, meu pai me serviu uma dose de licor de siriguela e eu fui brincando no caminho até a casa dos meus sogros que aquela dose era para animar a nossa noite... Mas eu morri pela língua, porque logo após o banho, eu desmaiei nos braços da minha gatinha.
