Formações e Transformações - Primeiro Capítulo

Um conto erótico de Astrogildo Kabeça
Categoria: Heterossexual
Contém 2049 palavras
Data: 17/03/2026 16:51:38

Helena e seu filho Lucas observavam o caminhão de mudanças descarregando os móveis. O sonho dela estava se realizando. Após adquirir aquela casa, deixava para trás as angustias dos anos passados. Estava com apenas 33 anos e um longo futuro pela frente. Enquanto orientava os carregadores, Lucas se prestou a colaborar, carregando coisas menores. Ao tentar segurar uma poltrona, começou a perder o equilíbrio, mas foi ajudado por alguém que se aproximava.

- Deixe eu te ajudar aqui, brother.

O rapaz ajudante se apresentou como Zeca, morador daquela rua, que passava na hora.

- Eu trabalho numa casa de material de construção virando a próxima esquina. Qualquer coisa, apareçam por lá.

Após ele se afastar, Helena até brincou com Lucas.

- Olha, já arrumou um amiguinho!

Depois de tudo arrumado, mãe e filho foram comer e depois descansar no novo lar.

- Lucas, seremos felizes aqui. Você vai estudar num novo colégio, iniciando o ensino médio, e tudo vai se ajeitar. Prometo!

Helena era uma moça do interior que veio justamente cursar o ensino médio anos atrás. Morando numa república com outras pessoas de sua cidade, conheceu Jonilson, um jovem das redondezas que estava num curso de cadetes. O namoro prosperou e quando estava estudando para o vestibular, engravidou de Lucas, poucos meses depois de seu namorado se tornar PM. Foram morar numa casa no subúrbio onde Lucas nasceu, estando Helena com apenas 19 anos. Com algumas dificuldades, tudo se encaminhava, mas eis que Jonilson se envolveu em um monte de maracutaias e acabou sendo preso e expulso da corporação. Assoberbada por dívidas, Helena retornou pro seu interior com o filho ainda pequeno, e lá foi trabalhar num pequeno supermercado. Com a mudança de planos, passou a estudar com afinco para concursos, enquanto sua mãe cuidava de Lucas. Seus esforços renderam e ela passou num concurso para trabalhar na prefeitura. Com estabilidade, mas salário de fome, continuou seus estudos por mais alguns anos e aí veio a premiação: passou no concurso da Receita Federal, retornando à capital. Após período probatório e com um bom salário, comprou uma bela casa, próximo à orla marítima, e também de um grande colégio particular onde Lucas estudaria.

Apesar de ter uma infância e início da adolescência meio solitárias, Lucas era sociável, bom de bola, e adorava nadar e pedalar. Nunca foi aquele cara de destaque grupal, mais também não era um garoto tímido. Com a nova escola e a vida dando uma guinada, tudo prometia ser mais proveitoso.

Iniciado o ano letivo, verificou que a instituição estava repleta de playboys e patricinhas, turma com a qual ele não se identificava. Porém, no decorrer dos dias, aproximou-se de dois colegas com perfil mais “rejeitado”: Karina, uma morena de cabelos curtinhos, olhos grandes, pele clara, baixinha, rosto arredondado, diferente das demais garotas de rosto mais afilado e corpo esguio; e Luan, um gordinho quase obeso de olhos claros, cabelos aloirados, e meio caladão, sujeito apropriado pra receber bullyng - o que aconteceu com o tempo. Era alvo de algumas piadinhas, embora o tratassem como alguém invisível.

E assim correu aquele ano letivo, os três sempre juntos realizando trabalhos em grupo nas dependências da escola ou uma vez ou outra na casa de Karina. Somente no fim daquele ano Luan chamou atenção de Lucas.

- Velho, você não tá reparando que Karina tá falando mais melosa com você não? Tá mais risonha... ela tá lhe dando mole, irmão.

- É, parece que está mesmo. Também tô observando ela com mais atenção.

- Ei, rapaz, não perde tempo! Fisga logo a moça! Se fosse eu, já estaria dando em cima.

Mas aquele ano terminou apenas na amizade. Somente no segundo ano letivo, ao completarem 16 anos, é que as coisas evoluíram e tiveram uma ficada, um namorico, até que se estabeleceu um namoro mais oficial, digamos assim. Nos primeiros meses, se conhecendo melhor. Depois, um frequentando a casa do outro. Helena se afeiçoou muito a Karina, primeira namorada do filho. No entanto, havia uma curiosidade quanto à familia de Karina: ela morava sozinha!

- Então, Lucas... quando nos conhecemos ano passado, minha mãe tinha ido morar na França com o namorado, que conheci alguns anos atrás. Ela é pianista e ele musicista, ambos também pintam quadros, vivem da arte. Minha mãe sempre foi muito despojada e acabei não acompanhando esse ritmo, embora eu também tenha pretensões artísticas. Quando eles decidiram partir, pediram pra eu ficar aqui me virando. E assim tô aqui nessa casona, vindo algumas diaristas me auxiliar.

- E seu pai?

- Bem, mal lembro dele. Eles se separaram e ele foi morar com outro homem. Ele era regente numa orquestra, só que tinha crises depressivas graves e... bem, vou utilizar um eufemismo. Ele não queria mais viver e atentou contra si mesmo.

- Nossa, que pesado!

- Ele nem me procurava, não tinhamos contato. Pra você ter uma ideia, minha mãe soube através de uma nota de rodapé de um site de notícias. O namorado dela atual conheci já grandinha, então nunca tive olhares paternais a ele.

- E como você encara o fato de viver sozinha? Se sentiu abandonada?

- Na verdade, gosto de estar só, estou amando essa privacidade. Cresci com muitas visitas, saraus, e minha mãe achou que eu poderia me virar, vivendo sozinha por um tempo e aproveitando a solitude, já que quase sempre a casa tinha gente. Mesmo quando ela estava tocando em outra cidade, sempre tinha um familiar meu por aqui e até mesmo amigos dela utilizando a casa como estúdio.

Lucas estranhava uma mãe que deixa a filha ao léo assim, mas Karina era bem madura, não fazia festas, nem convidava a galera pra curtir a piscina, até mesmo porque não tinha grandes proximidades com a vizinhança e até mesmo com os colegas de classe. Isso fez com que passassem tempo juntos, comendo porcaria, assistindo séries, e namorando muito. Foi nesse ambiente que ambos perderam a virgindade, após a primeira transa.

Já Lucas, voltou aos poucos a conviver com o pai distante, que casou novamente após a liberdade. Tornou-se mecânico de carros em uma cidade vizinha. Levou Karina pra conhecer seu genitor e acabou encontrando também uma irmã postiça, enteada de Jonilson, uma pré-adolescente que se chamava Michele. Mas os encontros entre pai e filho eram bem esporádicos. Notou também que Jonulson vivia numa casa bastante humilde, com poucos cômodos, telha de eternit, e paredes rachadas. O pai trabalhava muito e assim falavam mais ao telefone que presencialmente. Ainda assim, eram parcas as ligações. Lucas nunca chegou a nutrir uma afeto parental com ele.

No final daquele ano, Luan acabou mudando de colégio e com o tempo foi perdendo contato com seus colegas mais chegados. O namoro entre Lucas e Karina foi ficando mais sério. No ano seguinte, o último do ensino médio, estavam bastante apaixonados. Passavam a semana namorando nos arredores da escola, sábado na casa dela, e domingo na praia, almoçando na casa de Lucas. Era quase um ritual. Nas proximidades do fim do ano, quando ambos discutiam o ENEM, veio a virada na relação dos dois.

- Lucas... Minha mãe me ligou, conversamos muito, e ela quer que eu vá pra França, ficar com ela, agora que estou finalizando o ensino médio. No início não queria, mas ela me convenceu que é hora de estarmos juntas, criar vínculos, já que nunca fomos lá muito unidas. Fiquei balançada e... estou indo para lá após o réveillon.

Foi um choque. Não havia nenhum plano de terminarem assim, muito pelo contrário, queriam fazer faculdade e seguirem firme na relação. Porém, Lucas reconheceu que a vida dela podia dar um salto em outro país e que também conviveria mais com a mãe. Assim, passaram as festas de fim de ano lamentando a separação até que Karina partiu rumo à Europa pra ficar não se sabia até quando, encerrando assim quase dois anos de namoro.

Lucas passou no ENEM e foi cursar contabilidade. Ele e Karina continuaram a manter contato, matando a saudade nos primeiros meses. Com o passar do tempo, Karina foi fazendo cursos e viajando pra outros locais, se entrosando mais com a mãe e o padrasto, enquanto Lucas começava a curtir festinhas universitárias e conhecer gente nova. E os papos foram ficando espaçados e mais raros. Normal.

Quase um ano depois, acostumado com o afastamento do primeiro amor, Lucas foi dar uma conferida no Instagram de Karina e veio a surpresa. Ela aparecia com um homem negro, em uma estação de esqui, fitando-o com olhares de ternura, e a frase abaixo: “enquanto cai a temperatura lá fora, aqui dentro cresce minha paixão por ele”. Após tanto tempo separados, Lucas não deixou de sentir um nó na garganta ao ver a cena. Ele não chegou a fincar nenhuma relação àquele ponto. Eram só ficadas. Já Karina, parecia bem envolvida. Notou que os cabelos dela haviam crescido e o rosto, com feições bem juvenis enquanto namoravam, estava mais adulto. Dias depois, aparecia novas postagens com o novo romance, um jogador de basquete senegalês que foi cursar educação física numa universidade francesa.

Lucas então desencanou e parou de vasculhar a vida de Karina. As outrora conversas saudosas se tornaram apenas envio de memes e mensagens encorajadoras. Passou a ter um pouco mais de contato com a “irmã” Michele, que iniciava a primeira metade da adolescência, dando dicas de músicas, séries, e livros. No ano seguinte, já marcavam uma praia, passeios de bike, até Helena conhecê-la. Michele tinha olhos claros, pele branca, cabelos castanhos, rosto expressivo, maças do rosto bem marcantes, sorriso radiante. A moça chamava atenção. Era falante, gostava de contar piadas, e era desbocada. Num passeio de bicicleta, se interessou por Zeca, vizinho de rua de Lucas, com quem pedalava, jogava vôlei, e trocava uma resenha. Ele era um ano mais velho que Lucas, notou o interesse da “irmã” emprestada do amigo, mas a achou muito nova ainda.

- Sua “irmãzinha” é gata, Lucas, mas dá pra mim não. Deixa quieto.

Essas atividades com Zeca eram bem raras, pois ele trabalhava com o pai na casa de material de construção quase todos os dias. Não era raro ele estar com Lucas e se mandar de repente. “Vou nessa, tem um caminhão de brita que vai descarregar daqui a pouco”, “vou dormir, amanhã acordo cedo pra receber entrega de material”, “pô, Lucão, vai dar não, vou fechar a loja hoje”. Helena comentava direto, “vão denunciar o pai dele por exploração, esse rapaz só faz trabalhar!”

Quase três anos se passaram até que Lucas recebeu uma ligação de Karina, que estava retornando para o Brasil.

- E aí, Lucas, beleza? Olha, estou voltando praí, eu minha mãe e meu padrasto e vamos fazer uma grande festa de Natal pra reunir os amigos e gostaria que tivesse presente! Sei que sumi, mas queria lhe ver novamente nessa nova etapa e conversarmos sobre os últimos anos. Ah, chame sua mãe também! Quero apresenta-la à minha. As duas só conversaram por telefone.

Apesar do tempo sem se falarem, Lucas ficou radiante. Não esperava que ela retornasse tão logo - após três anos fora - e fosse convidá-lo para um regabofe natalino. Ficou ansioso em reencontrá-la e pensou várias coisas: qual seria a intenção dela? Ela havia terminado com o senegalês? Ele viria só depois? Ela vinha de vez ou ia voltar pra casar com ele? Chegou até a cogitar uma possível reaproximação afetiva. Será??? Pediu até pra que chamasse Helena. Ela queria que as duas famílias se aproximassem?

Helena ficou feliz de ver que Karina estava retornando, mas alertou Lucas de que a principio era uma formalidade, e não uma tentativa de rever o passado.

- Lucas, não sei o que você está pensando sobre esse reencontro, mas não vá muito de peito aberto, ela passou muito tempo lá fora, não sabemos se ela ainda é aquela menina meiga que passou dois anos com você quando ambos estavam em idade escolar. Muito provavelmente não!

Lucas sabia que não. Só não sabia o quanto ela poderia estar diferente, no sentido comportamental. E deu razão à mãe. No entanto, era impossível não criar expectativas. Na ultima postagem que tinha visto, ela estava com longos cabelos e ainda mais bonita, com expressão “Femme Fatale”.

A véspera do Natal chegou e mãe e filho se preparavam pro evento, que parecia uma série de reencontros com pessoas que ficaram por aqui. O que esse Natal reservaria pro futuro?

(continua...)

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