Boa Noite! Mais uma parte saindo, logo posto a continuação.
Passaram-se três semanas desde o feriado. Eu e Renan nos víamos aos finais de semanas e as vezes ele ia me buscar no serviço. Sempre que a loja estava vazia eu passava o tempo com ele no telefone, as vezes até corria para o estoque apenas para falar com ele durante o dia. Quando ele estava trabalhando, algo que acontecia dia sim dia não, ele raramente respondia. Ele mandou deixar o visto por último no telefone para que soubesse quando eu entrei. Geralmente quando ele estava trabalhando ficava horas sem mexer no telefone. Era comum ele mandar fotos da rola dele dura falando “vai no banheiro bater uma pra mim”, o que fazia assim que possível. Ele mandava foto da rola dura babando, mostrando o abdômen definido e a virilha muito peluda. As vezes mandava fotos com o cinto dobrado para me fazer lembrar da última surra que me deu. Sempre que mandava foto assim na imagem via o peito peludo e o abdômen definido.
- Precisa aproveitar, pois logo vou trancar essa rolinha com um cinto de castidade – dizia ele quase sempre que mandava eu gozar. Aquilo me deixava com tesão, mas não aceitava o fato de ter de usar. Usar o cinto no quarto com ele ou em casa é aceitável, agora ficar com aquilo o tempo todo, inclusive no trabalho não é algo possível. Ainda mais que a ideia dele era usar o cinto o tempo todo, tirando apenas uma vez na semana.
Ele me disse que alguns submissos que ele teve aceitou a tarefa, inclusive me mostrou diversas fotos de um submisso que ele teve há alguns anos. O rapaz precisou se mudar para outro estado devido uma excelente proposta de emprego, então eles romperam a relação. No caso desse submisso rolava somente dominação e submissão, com seções bem definidas. Era diferente da relação que eu estava tendo com ele. Esse submisso usava o cinto por períodos específicos também e não constantemente, como Renan queria comigo.
Para além do sexo conversamos todo tipo de assunto, que ia desde filmes, games, animes e mangás, música, saúde, fofocas (esse assunto ele não era muito fã, mas eu falava e ele ouvia e se mostrava interessado as vezes) e raramente política. Consegui fazer ele ler o livro que estava lendo sobre dragões, magia e sexo, que citei recentemente. Ele disse que pegou o livro sem muita expectativa e leu ele em três dias…
- Achei a ideia deles compartilharem a mente com os dragões muito genial… - disse ele por uma mensagem sem mesmo me dar bom dia e isso veio seguido de áudios de cinco minutos com teorias sobre a história. Ele não acertou nada.
Mesmo com essa casualidade ele ainda me tratava como dominador. Ele levou a sério o lance de chamá-lo de senhor mesmo em conversas do dia a dia. Quando estávamos juntos e eu não chamava ele inicialmente chamava atenção. Um dia quando não o chamei de senhor dentro do carro ele me deu um tapa na cara. O tapa mais forte do que de costume. Ele não precisou dizer nada, dali para frente não deixei de chamá-lo de senhor.
No sexo ele continuou sendo bruto, mas nesse meio tempo não voltou a bater de cinto. Uma vez precisei cheirar o pau dele com sebo depois do trabalho e limpar com a língua e noutro cheirar o pé dele com chulé bem forte. Ele ficou sentado no sofá com o pé no meu rosto enquanto eu ficava ajoelhado. Ele tinha esse lado pig e sentia tesão nisso. E ele queria que eu aos poucos também fosse pig.
Houve outras coisas como algemas, consolos e outros tipo de castigos, que vou citar em momento oportuno. No geral a relação com ele era bem intensa, com ele de cima o tempo todo. Essa dualidade entre a dominação e namorar um dominador era novidade para mim. No geral ele sabia conduzir bem.
[…]
Havia chegado irritado para um encontro com meus amigos numa sexta feira a noite. Havia desentendido com o Renan e levado um esporro. Ele havia deixado eu ir, mas havia estipulado o horário de dez horas para voltar para casa, disse que trabalharia até mais tarde e passaria para me buscar. Eu não aceitei e ele acabou reduzindo para nove horas, disse que se reclamasse de novo ficaria em casa.
Estava usando uma calça jeans azul escura, uma camisa de botão preta, com bolso e um sapato mocassim preto. A camisa era literalmente uma camisa social de manga curta. Ele havia me dado duas camisas nessa semana e disse que começaria a mudar meu jeito de vestir. Disse que queria que eu vestisse algo mais formal dali para frente.
- Uma pessoa não pode simplesmente mudar seu jeito de vestir do nada – disse para ele irritado no início da semana. Ele havia me buscado no curso de carro e me levava para casa.
- Pode sim – disse Renan calmo olhando o trânsito. - E ameniza esse tom de voz para falar comigo.
- Desculpe, senhor – disse me acalmando para não levar um tapa na cara. Com o tempo isso estava ficando cada vez mais natural. - O pessoal vai estranhar, nunca se quer me viram vestido assim – disse para ele.
- É exatamente o que eu quero – disse ele. - Quero que vejam que você mudou. Quero que entendam o antes e o depois que eu apareci na sua vida.
- Eu não sei…
- Vai vestir o que eu mando e não vamos mais falar disso – disse ele em tom definitivo. - Na sexta já vai sair com seu amigos se vestindo como eu mando. Nada de roupas indiscretas como as que está acostumado a usar. Sair de short então, pode esquecer. E vai cortar esse cabelo também, apesar de gostar de puxar seu cabelo enquanto te fodo de quatro, não gosto de cabelo grande. Vou deixar ele curto igual o meu.
- Eu…
- Entendido? - questionou ele por cima de mim.
- Sim, senhor – respondi baixo.
- No sábado vou cortar o seu cabelo – disse ele.
- O senhor vai cortar? - perguntei ele.
- Claro – respondeu. - Por qual motivo pagar alguém para passar máquina no cabelo. Eu mesmo corto. Vou passar máquina cinco ou seis, ainda vai ficar grande, vai ficar do tamanho do meu.
Atualmente o cabelo dele estava mais baixo, no estilo corte militar. Ele estava de férias recentemente e havia deixado tanto a barba quanto o cabelo crescer. Agora que voltou ao trabalho estava sempre de barba feita e cabelo curto.
- Não vai ficar ruim, você é bonito – disse ele depois de um tempo. - Bom que vai dar uma mudada geral no estilo.
- Mudanças de mais eu acho – disse para ele.
- Viver como submisso foi uma escolha sua – disse Renan, a voz sempre firme.
- Não escolhi ser submisso – disse para ele desanimado.
- Não, mas como eu disse, escolheu viver como submisso, e se é realmente o que quer precisa se acostumar e abrir mão desse tipo de coisa – disse Renan autoritário. - Não estou com você para ficar realizando fantasias eróticas sua. Eu sou o dominador aqui, é você quem tem que obedecer e não o contrário.
- Sim senhor.
- E outra coisa – disse ele. - Notei que você depila o peito, as axilas e a virilha. Não tem pelo nenhum nessa rolinha sua. Está proibido de raspar seus pelos a partir de agora.
- O quê?
- Tudo liso, que porra é essa? - pestanejou ele. - Achei que seus pelos cresceriam, mas notei que raspa sempre. Esse rolinha sua já é pequena, sem pelo então fica menor ainda.
Respirei fundo e olhei para a rua, calado.
- E não adianta ficar nervosinho não – disse ele olhando o trânsito. - Hoje eu não estou com paciência.
- Anda nervoso de mais comigo – disse para ele.
- Só aguenta – disse ele olhando o trânsito.
Ficamos calado um tempo.
- Outra coisa – disse ele. - Dez horas quero você indo embora na sexta. Não quero você tarde na rua sem eu.
- Pelo amor de Deus! - reclamei alto e olhou na mesma hora. Fiquei calado na mesma hora.
- Chega de ficar até tarde na rua, a partir de agora, quando eu deixar você sair vai voltar cedo para casa – disse ele.
- Dez horas é cedo de mais…
- Isso não é uma discussão – disse ele alterando o tom de voz.
- Mas Renan…
- Porra, tá ouvindo não? - disse ele irritado.
- Desculpe, senhor.
- Agora vai ser as nove – disse ele. - As nove, em ponto, vou te ligar e se você ainda estiver no bar eu vou ir la te buscar. Pode ter certeza que não vai gostar – encerrou ele em tom definitivo. - E se eu ouvir mais alguma palavra sobre horário pode esquecer sair na sexta feira.
Agora chegava, na sexta feira, ao bar para encontrar meus amigos. Havia furado com eles no sítio por conta das marcas que o Renan me deixou. Depois acabei não tendo oportunidade de sair com eles novamente. Todos notaram meu novo jeito de vestir, que não posso negar, era bem diferente. Num sábado a noite dificilmente sairia de calça por exemplo e jamais usuária uma camisa social de manga curta. Estava destoante de mais do que estavam acostumados.
Sentei para conversar com eles, ouvindo algumas reclamações por ter furado no sítio de última hora e alguns comentários sobre o novo estilo. Mas no geral nada além do esperado. Cheguei por volta das sete horas e tinha somente duas horas com ele, já que o Renan havia reduzido o horário da saída para as nove. Depois de um tempo conversando com eles disse que não poderia ficar muito, inventei que tinha de sair com o Renan para um aniversário.
- E quando vamos conhecer esse misterioso Renan? – perguntou Jorge. Ele trabalhava comigo e havia visto o Renan me buscando algumas vezes no serviço. Eles não chegaram a conversar.
- Precisamos marcar – disse para ele pensando em como seria.
- Você precisa ver o boy, Fran – disse Jorge. Ele era um homem muito alto, com algo entre um e noventa de altura. Tinha cerca de quarenta anos, a pele dele tinha um tom marrom escuro. Ele era muito bonito, com um porte natural parrudo. Há muitos anos havíamos ficado mas acabou que não deu certo e viramos amigos. Ele havia arrumado emprego para mim onde eu trabalhava hoje. - O homem é lindo – continuou Jorge. - Só não é muito alto, mas é lindo. Literalmente padrão.
- E o que você fez para segurar um desses hein amigo – perguntou uma amiga que estava ao meu lado. Franciele. Ela era gordinha e mais baixo que eu, com um cabelo preso em tranças. - Ele é ativo?
- Lógico – disse Jorge rindo. - Essa bicha vai comer alguém?
Olhei com desdém para ele.
- Padrão ativo? - perguntou Franciele rindo. - Sei não hein! Geralmente é tudo passivo.
- E esse ainda é militar – disse Jorge dando um gole na cerveja. - Cara de bravo que o cara tem.
- Militar? - perguntou Franciele.
- Sim – disse para eles não querendo falar do Renan.
- E deve tá dando um trato nele, pois até o jeito de vestir dele mudou – disse Jorge me olhando. - Ta vestindo igual ele.
- Ai amigo pelo amor de Deus – disse Franciele. - Não me diga que são aquele tipo de casal emocionado que veste igual.
- Você veste igual a Lindsey – retruquei ela.
- Nós estamos juntas há três anos – disse ela rindo. - Você não tem nem um mês com ele.
Jorge riu.
- Eu falei com ele esses dias – disse Jorge me lembrando de uma conversa que tivemos. - Esses padrões ai nunca dão certo com ninguém, ainda mais quando a pessoa é muito diferente deles.
- Está me chamando de feio? - perguntei para Jorge irritado.
- Você não é tão bonito quanto ele, amigo – disse Jorge.
Encarei ele.
- Amigo! Você é gordinho e afeminado, o cara é a versão loira dos atores que fazem o super hora – disse Jorge.
- Você como amigo dispensa a necessidade de inimigos – disse para ele. - E eu não estou mais gordo.
- Emagreceu bastante, mas ainda tem uma barriguinha, o que é normal – disse Jorge bebendo a cerveja, logo ascendeu um cigarro. - Amigo você é lindo e ainda tem uma carinha de inocente… na verdade você é muito inocente. Mas o ponto é que esse tipo de cara geralmente não se interessa por pessoas como a gente. O cara é todo perfeito, só falta você me dizer que é dotado.
- Ele é pirocudo – disse para eles.
- Deixa eu ver a foto dele – disse Franciele.
- Deixa eu ver a rola dele – pediu Jorge.
Mostrei para ambos as fotos. Mantive o celular a espreita para não passarem as fotos e verem nudes minhas ou fotos do Renan segurando o cinto ou mostrando cintos de castidade, algemas e outras coisas.
- Caralho – disse Jorge. - Você tá dando pra esse rolão?
- Amigo ele é lindo – disse Franciele. - Parece mesmo a versão loira dos atores que fazem o super man. Só podia aparar a virilha as vezes. Que moita.
- O cabelo dele é castanho claro – disse para eles. - E ele não gosta de aparar. É todo peludo.
- E tem algum defeito? - perguntou Franciele.
Pensei por um tempo.
- Ele ronca muito – disse para ela. Queria dizer que era mandão, bruto, autoritário. Mas guardei para mim. E essa parte, sinceramente, eu adorava.
- Eita, sério? - perguntou Jorge.
- Nem tudo é perfeito – disse Franciele. - Te atrapalha dormir?
- Um pouco – disse dando um gole na cerveja. Estava ótima. - Mas depois de um tempo durmo. As vezes ele vira e para de roncar.
- Meu ex roncava bastante também – disse Jorge.
- Com essa lindeza deve vale a pena – disse Franciele rindo.
- Mas voltando ao assunto amigo – disse Jorge sério. - Esses padrão ai são todos são infelizes. Nunca arrumam ninguém, tudo trai, tudo safado. Ficam no aplicativo pulando de um para o outro, sempre esperando o mais bonito. Me admira muito você se envolvendo com um cara padrão.
- Me admira muito um padrão desses querer ele – disse Franciele rindo. - Lindeza! - disse ela me olhando quando olhei irritado para ela. - Lindeza da minha vida!
Virei os olhos após as provocações dela.
- O Renan não é assim – disse para Jorge.
- É o que todos dizem – respondeu Jorge enchendo nossos copos. - Mas pensa bem viu amigo, cuidado com as expectativas elevadas com esse Renan. Homem por natureza é safado e padrão então, eu ficaria de olhos bem abertos.
- Relaxa amigo, ele não é assim – insisti para Jorge tranquilo. - Ele é bem bonzinho, todo cuidador. Só é um pouco ciumento.
- Olhos abertos, amigo – disse Jorge.
Queria dizer que o fato do Renan estar comigo era o fato de ser submisso. É obvio que se não fosse ele jamais ficaria com alguém como eu. Havia pensado nisso algumas vezes, mas sendo honesto, isso não me incomodava. Mas o fato dele me trair, bem, isso era uma coisa que ficava guardado na minha mente dentro de uma caixinha. Dominadores via de regra não eram fiéis, o submisso que era. Quando me relacionava com um dominador a dinâmica era diferente, mas confesso que uma relação como a que estava tendo com o Renan era nova para mim. Não sabia ao certo o que esperar.
O fato que não podia negar é que estava gostando muito dele. Estava realizando um sonho de ter alguém como ele e sentia que ele estava também. O jeito dele me olhar dizia tudo. Sendo como fosse a questão da aparência entre nós dois as vezes vinha na minha mente. Me sentia um pouco feio perto dele. Nunca fui uma pessoa insegura, mas confesso que com ele acaba sendo.
Será que ele sentia vergonha de sair comigo? Eu me peguei questionando isso. Nesse um mês juntos não conheci nenhum amigo dele e ele sequer fez menção disso. Será que ele achava que eu era afeminado? Por isso mudou meu estilo de vestir, para ser menos gay? Poderia fazer algum sentido isso. Conheci vários dominadores, era a primeira vez que algum insistia nisso. E lembro bem quando conheci ele, ele era discreto, nem o nome queria me dizer. Será…
CHEGA DE PENSAR BESTEIRA – gritei mentalmente para mim mesmo. Esse tipo de pensamento só alimenta a ansiedade e não leva a lugar nenhum.
Saí as nove, tal como ele havia mandado. O celular tocou as nove em ponto com ele na linha querendo saber se tinha ido embora. Disse que sim pelo telefone e fui para o ponto onde ele iria me buscar. Agora pensando melhor me questionei o motivo dele não me buscar direto no bar. Respirei fundo enquanto esperava ele.
Ele se atrasou trinta minutos, quando abriu a porta do cara estava sério olhando o volante, estava de farda (primeira vez que via ele fardado). Geralmente ele sorria quando me via, dessa vez apenas fechei a porta e ele seguiu o caminho.
- Boa noite estressadinho – disse ele depois que de um tempo.
- Está tudo bem com o senhor? - perguntei a ele.
- Estou cansado – disse ele com semblante desanimado.
- Eu imagino – disse para ele. Logo virei para o lado e olhei a rua. Ainda estava irritado por vir cedo para casa e Jorge havia colocado coisas de mais na minha cabeça.
- Está chateado com algo? – perguntou ele depois de outro momento de silêncio.
- Não.
- Geralmente você fala o tempo todo – disse ele. - Está com fome? Podemos parar para comer algo.
- Não – disse para ele.
- Hm...
- Por que não foi la no bar me buscar? - perguntei a ele abruptamente.
Ele me olhou um pouco surpreso com a pergunta.
- Queria que eu fosse? - perguntou.
- Não foi isso que perguntei – disse para ele.
- Não estou vestido para ir em um bar – disse ele. - E não quero que seus amigos me vejam de farda – disse ele com um tom de voz irritadiço.
- Entendo – disse para ele. E fazia sentido.
Ficamos um tempo calado.
- O que se passa nessa cabecinha hein? – perguntou ele.
- Nada – disse para ele.
Ele ficou calado por um tempo olhando a rua enquanto dirigia. Depois disse somente:
- Ok.
Ficamos o resto do caminho em silêncio. Não falamos nada e esse silêncio foi incômodo. Quando estávamos na porta da casa dele ele disse.
- Foi porque mandei vir embora mais cedo, por isso está emburrado? - perguntou ele.
- Não! - me apressei em dizer.
- Então o que é? - perguntou ele.
- Não tem nada – disse para ele.
- Tem sim – disse ele. - Você é péssimo para mentir.
- Eu sou ótimo para mentir – disse para ele.
- Não é não – disse ele. - Não olha nos olhos quando mente, gagueja, fica dando respostas curtas…
Aquilo me irritou.
- Eu disse…
- Tem que confiar em mim – disse ele sério, a voz saiu um pouco ressentida também. - Sem confiança esse tipo de relação não dar certo.
Respirei fundo e não disse nada. O carro entrou na garagem. O quintal estava escuro, salvo pelo farol do carro que iluminava aquele matagal que não via uma enxada há muito tempo. Ao lado da casa dele havia um galpão enorme e do outro um prédio residencial cujo primeiro andar estava vários pavimentos da rua. Então a casa dele era um lugar extremamente reservado, longe de olhos curiosos.
Nessa noite estava ventando bastante, passava das dez da noite. Quando desci do carro me abracei para fugir do frio. Aquele quintal precisava ser capinado urgentemente, pois o mato estava altura do joelho. O mato balançava de um lado para o outro com o vento, folhas secas eram erguidas de um lado para o outro e as folhas das árvores da rua rumorejavam. Alguma janela aberta trazia o assoviar baixo e irritante. Um cachorro latia distante em algum lugar.
Ele desceu do carro e passou por mim indo em direção a porta da sala em silêncio.
- Eu estou inseguro – disse para ele.
Ele parou antes de colocar a chave.
- Com o quê? - perguntou ele de costas para mim.
- Eu não sei – disse para ele.
Ele veio até mim.
- Está inseguro com o quê? - perguntou ele, os olhos dele me olhando intensamente. Mesmo no escuro consegui notar.
- Você tem vergonha de mim? – perguntei ele.
- O quê!? - perguntou ele estarrecido.
- Por eu ser assumido, ter jeito de gay, por eu sair com meus amigos que também são gays, por…
- De onde você tirou isso? – perguntou ele incrédulo. - Não, não, não – disse ele. - Nunca! Você não tem “jeito” de gay, e mesmo se tivesse.
Ele me abraçou forte.
- Eu nunca teria vergonha de você estressadinho. Você ultimamente tem sido a única alegria que eu tenho na minha vida – disse ele me apertando forte. - Eu não fui lá hoje porque estava de farda. Eu juro. Seus amigos… eles devem ter colocado coisa na sua cabeça.
- Não, ele não falaram nada – menti desviando olhar.
- Sempre essa merda! – disse ele irritado. - Não é a primeira vez que acontece. Sempre esperam o pior de mim sem me conhecer.
- Não! - disse para ele. - Eles são meus amigos, não fique com raiva deles. Só ficaram preocupados.
Ele respirou fundo.
- Não vou ficar com raiva – disse ele. - Mas porra, isso é injusto!
- Eu não devia ter te falado – disse arrependido.
- Não, você fez certo em me falar – disse ele. - Tem que me falar tudo. Mas quero conhecer eles para tirar essa impressão ruim que ficou ok?
- Sim, quando você quiser eu marco com eles. Mas não ficou impressão ruim. Digamos que não tem uma impressão ainda – disse para ele.
- Então já esperam logo o pior das pessoas – perguntou ele irritado.
- Sim, as vezes é assim que são as coisas. Sabe como andam as coisas no nosso meio ultimamente – disse para ele apressado.
- Eles estão la ainda? – perguntou ele.
- Estão…
- Então vamos lá agora – disse Renan pegando a chave do carro..
- Vamos depois – disse para ele.
- Vamos agora! - disse naquele tom autoritário de sempre.
- Eu não quero ir lá agora – disse para ele. - Você está muito nervoso.
Ele me olhou sério pensando no faria a seguir. Parecia irritado enquanto olhava para o portão como se conseguisse ver através dele. Ele ficou um tempo calado enquanto o vento frio soprava. Eu abracei ele mais forte e encostei o queixo no ombro dele. Havia criado uma situação totalmente desnecessária, aquilo me deixou chateado.
- Não fique assim – disse ele pousando o queixo no meu ombro. - Passou. Eu só fiquei um pouco… surpreso com isso.
- Criei uma situação desnecessária – disse chateado. - As vezes eu falo de mais.
- Você disse o que queria dizer – disse ele. - A gente deve falar o que sente. Pode falar tudo comigo.
Fechei os olhos e suspirei. Estava frio, ventava forte.
Ele me olhou nos olhos.
- Não fica triste – disse ele.
- Eu não estou – menti para ele tentando não desviar o olhar, mas desviei. Agora que ele disse percebi que fazia isso.
Ele me beijou. Aquele mesmo beijo envolvente de sempre, dominante. Abracei ele mais forte enquanto ele me envolveu em seus braços.
- Vamos entrar? - perguntou ele.
- Vamos…
Uma pessoa bateu no portão chamando nossa atenção. Renan olhou surpreso por alguém chamar naquele horário. Pelo que entendi não tinha muito contato com os vizinhos. Ele foi atender e eu o segui. A pessoa bateu novamente apressada e ele disse um sonoro e irritado “já vai!”. Quando chegou ele abriu o portão, eu estava ao lado dele.
Um homem estava parado no portão. Ele era muito alto, algo que talvez passasse de um metro e noventa. Ele era forte, tinha pele marrom escura, estava usando uma camiseta regata e uma calça de moletom. Renan ficou petrificado quando o viu. Eu não entendi quem poderia ser o motivo daquele silêncio.
- Então é ele? - perguntou o homem apontando para mim.
Eu estranhei.
- Quem é ele Renan? - perguntei.
- Então com ele que está me traindo Renan? – disse o homem explodindo de raiva.
- João… - sussurrei olhando o homem.
O homem entrou empurrando o Renan para o lado e veio na minha direção. Foi tudo muito rápido. Eu me assustei e tentei recuar, mas ele foi mais rápido. Ele me pegou pelo braços e me sacudiu gritando comigo.
- É com essa bicha que você está me traindo Renan? Essa bicha horrorosa – disse ele me levantando do chão em jogando para frente. Parecia que eu era um papel, eu voei para o outro lado caindo de bunda no chão. Eu tentei aparar a queda com os antebraços eles rasparam no chão de cimento, ralando ligeiramente. Meu cotovelo direito bateu com força no degrau que dava acesso a cozinha. Eu olhei para em pânico enquanto ele ameaçava vir para cima de mim.
- Você ficou louco João! - gritou Renan puxando ele pelo braço.
Assustado eu me levantei, e fui na direção do portão, queria ir embora o mais rápido ali..
- Você ainda namora com ele? - perguntei desnorteado.
- É claro que ele namora – gritou João fora de si, Renan segurando ele pelo braço. - Acha mesmo que ele iria me trocar por você?!
Eu olhei para o Renan esperando que ele dissesse algo mas ele não disse. Apenas olhava para o João assustado, segurando ele com força pelo braço. João parecia transtornado, tomado pela fúria. Eu me virei passei por eles saindo da casa. Achei que o Renan viria atrás de mim, mas não veio, apenas ouvi os dois gritando um com o outro enquanto ia embora descendo a rua.