Yohanna acordou com o celular vibrando contra o criado-mudo de compensado. Eram 6:47 da manhã, o sol ainda tímido batendo na janela gradeada do quartinho nos fundos da casa da mãe, em Jardim Uchôa, Recife. Ela esticou o braço, viu o nome na tela e o estômago virou: Seu Zé – Cobrança.
“Bom dia, filhinha de Deus. Hoje vence os juros da semana: R$ 800 + R$ 200 de multa. Total R$Ou você aparece aqui às 14h ou eu apareço na igreja no culto da noite. Escolhe.”
Ela apagou a mensagem como quem apaga um pecado. Mas o peso não sumia.
Há quatro meses, quando a mãe caiu doente — pressão alta descontrolada, remédios caros —, Yohanna pegou R$ 3.200 com Seu Zé, o agiota que todo mundo conhecia mas ninguém assumia conhecer. Já devolveu quase R$ 2.800 em parcelas suadas: cantava em casamentos evangélicos aos sábados, dava aula particular de violão na igreja, vendia brigadeiro gourmet no grupo de irmãs do WhatsApp. Restavam R$ 1.800 da dívida principal, mas os juros compostos devoravam qualquer progresso. Toda semana era a mesma cobrança: juros + multa. Se pagasse só o principal, os juros continuavam crescendo. Era um ciclo sem fim.
Ela tinha R$ 187 na conta e R$ 40 na carteira. Impossível.
Yohanna se levantou, abriu a cortina fina e olhou o quintal pequeno: galinha ciscando, varal com calcinhas de algodão branco e blusas de manga comprida que usava até no calor para não “dar ocasião ao pecado”. Vestiu o vestido longo florido, prendeu o cabelo num coque frouxo, passou batom rosa discreto (o magenta forte guardava para selfies pós-culto, longe dos olhos da igreja) e saiu para o ponto de ônibus.
No culto da manhã, subiu ao púlpito com o microfone na mão trêmula. Cantou “Rendido Estou”, voz doce e afinada, olhos fechados como se estivesse falando diretamente com Jesus. A igreja aplaudiu, o pastor elogiou: “Que unção, Yohanna! Deus te usa poderosamente.” Ela sorriu, mas por dentro repetia a frase que virara mantra: Ninguém te observa mais do que aquele que perdeu acesso a você. Legenda de Instagram que agora soava como profecia sobre Seu Zé.
Às 13:40 desceu do coletivo na Bomba do Hemetério. O sobrado velho de Seu Zé ficava numa rua estreita atrás do mercadinho, fachada descascada, portão de ferro enferrujado. Tocou a campainha. Ele abriu pessoalmente, camisa polo aberta no peito peludo, corrente de ouro grossa, sorriso torto.
— Entra, minha santa. Trouxe o dinheiro?
— Ainda não, Seu Zé… mas eu vim conversar. Posso pagar mais um pouco na semana que vem. Eu juro por Deus.
Ele riu baixo, fechou a porta.
— Deus não paga boleto, Yohanna. E eu já esperei demais. Senta aí.
Ela sentou na ponta do sofá de courvin marrom, pernas juntas, mãos no colo. O ar condicionado antigo zumbia, mas o cheiro era de cigarro velho e café requentado.
— Eu sei que você canta bonito na igreja — ele disse, servindo cachaça num copo sujo. — Mas aqui fora a vida é outra. Você deve. Paga ou eu começo a cobrar de outro jeito.
— Que jeito? — a voz saiu fina.
Ele se aproximou, sentou ao lado dela, coxa grossa encostando na dela.
— Tem moça que resolve assim. Você é bonita, tem boca de anjo. Imagina se eu conto pros seus irmãos de igreja que a solista principal andou pedindo emprestado com agiota? Ou pior: se eu mostro as mensagens pedindo prazo, chorando que a mãe tá doente… Eles vão te olhar diferente no culto, Yohanna. Vão cochichar. Vão te observar. E você sabe: ninguém observa mais do que quem perdeu o acesso.
Ela sentiu o estômago revirar. Pensou na mãe na cama, no irmão adolescente que ainda acreditava que ela era exemplo, no pastor que dizia “Yohanna é vaso escolhido”. Pensou no silêncio que cairia se tudo viesse à tona.
— O que… o que o senhor quer? — perguntou quase sussurrando.
Ele passou o dedo indicador no batom dela, manchando a pele.
— Só a boca, por enquanto. Você me chupa direitinho, engole tudo, e eu desconto os juros e a multa dessa semana. R$ 1.000 amortizado. A dívida principal continua, mas pelo menos para de crescer por sete dias. Se fizer bem feito, quem sabe na próxima semana a gente conversa de novo.
Yohanna fechou os olhos. Uma lágrima escorreu, mas ela não enxugou. Rezou mentalmente: Senhor, me perdoa. Eu não sei mais o que fazer. Depois abriu os olhos e sussurrou:
— Tá bom. Mas só isso. Só a boca. E depois os juros param por essa semana.
Seu Zé sorriu largo, levantou e trancou a porta da sala.
Levou-a para o quarto dos fundos: cama king com lençol azul-marinho amarrotado, cortina blecaute quase fechada. O ventilador de teto girava devagar, jogando sombra circular no chão.
— De joelhos — ele mandou, já abrindo o zíper da calça jeans.
Yohanna obedeceu, joelhos afundando no carpete gasto. Quando ele baixou a cueca boxer, ela prendeu a respiração.
O pau de Seu Zé era descomunal. Grosso como o pulso dela, comprido demais — uns 24 cm fácil, veias saltadas, cabeça inchada e avermelhada. As bolas pendiam pesadas, enormes, quase do tamanho de ovos de galinha, cobertas de pelos escuros, cheias e inchadas. O cheiro subiu forte: suor do dia misturado com sabonete barato.
— Abre a boca, santa — ele disse, segurando a base com uma mão.
Yohanna abriu. A glande mal cabia entre os lábios. Ela tentou acomodar, língua pressionando a parte de baixo, mas era grande demais. As bochechas afundaram imediatamente. Ele gemeu baixo, segurou o cabelo dela com a outra mão.
— Isso… devagar no começo… vai se acostumando.
Ela lambeu devagar, contornando a cabeça, sentindo o gosto salgado e um leve amargor. Tentou descer mais, mas só conseguia uns 8–9 cm antes de sentir a garganta resistir. Lágrimas começaram a escorrer — reflexo da pressão nos olhos. Ele não forçou de imediato; deixou ela trabalhar com a boca e as mãos.
Yohanna usou as duas mãos na base — ainda sobrava pau para fora. Movia a cabeça ritmadamente, sucção firme, língua rodando. O som molhado enchia o quarto, misturado ao ronco do ventilador. As bolas enormes batiam de leve no queixo dela a cada descida mais funda.
— Assim, garota… chupa essas bolas também — ele murmurou.
Ela obedeceu. Abaixou a cabeça, lambeu uma das bolas pesadas, depois a outra. Eram quentes, pele fina e enrugada, cheiro mais forte ali. Sugou uma para dentro da boca com cuidado, sentindo o peso na língua. Seu Zé gemeu mais alto, quadril tremendo levemente.
Voltou ao pau. Agora ele começou a mexer devagar, fodendo a boca dela. Não entrava tudo — era impossível —, mas chegava fundo o suficiente para encostar na garganta. Yohanna relaxou o máximo que pôde, respirando pelo nariz, tentando não engasgar. Saliva escorria pelos cantos da boca, pingando no colo, molhando o decote do vestido.
Depois de uns quinze minutos, ele acelerou. Segurou a cabeça dela com as duas mãos, metendo mais rápido, mas controlado. O pau pulsava na boca, engrossando ainda mais.
— Vou gozar… engole tudo, hein… não deixa cair…
Yohanna sentiu os primeiros jatos quentes batendo no céu da boca. Eram muitos, grossos, volume absurdo — as bolas enormes não mentiam. Ela engoliu rápido, garganta trabalhando, tentando acompanhar. Parte escorreu pelos cantos, mas ela sugou mais forte, limpando com a língua. O gosto era forte, salgado, viscoso, demorou para sumir.
Ele saiu da boca dela com um estalo úmido, ainda semi-duro, brilhando de saliva. Limpou a cabeça na bochecha dela, deixando uma mancha pegajosa.
— Boa menina. Os juros e a multa dessa semana tão pagos. Semana que vem você volta. A dívida principal ainda tá aí, mas pelo menos não cresceu.
Yohanna ficou de joelhos por mais alguns segundos, boca inchada, lábios vermelhos, queixo molhado. Levantou devagar, pernas tremendo. Ele jogou uma toalha pequena para ela se limpar.
— Pode ir. E não esquece: boca fechada fora daqui também.
Ela se recompôs no banheiro minúsculo: lavou o rosto, passou batom por cima do borrado, ajeitou o cabelo. O gosto ainda estava na língua, persistente.
No ônibus de volta, encostou a testa no vidro sujo. Olhou a cidade passando: outdoors de igreja, camelôs, motos cortando o trânsito. Sentiu a garganta dolorida, o maxilar tenso, o estômago revirado — não de nojo, mas de humilhação misturada com alívio temporário. Os juros parariam por sete dias. A mãe continuaria com os remédios. A igreja não saberia.
Chegou em casa às 18h20. Tomou banho demorado, esfregou a boca com pasta de dente até a gengiva arder. Vestiu pijama de flanela, sentou na cama e abriu a Bíblia no celular. Leu Salmos 51: “Cria em mim, ó Deus, um coração puro…”
Não sentiu alívio imediato. Só um vazio pesado.
Naquela noite, no culto, subiu ao palco de novo. Cantou “Nada Além de Ti”. A voz saiu mais rouca, mais grave — o esforço na garganta ainda ecoava. Alguns irmãos comentaram: “Hoje a unção tá diferente, mais profunda.” O pastor chamou para o altar. Ela foi, ajoelhou, chorou. Pediu perdão. Pediu força.
Ninguém soube o porquê das lágrimas.
Uma semana depois, o celular vibrou de novo. Mesma mensagem. Mesmos R$ 1.000 de juros + multa.
Yohanna olhou para a tela por longos minutos. Fechou os olhos. Rezou. Depois respondeu:
“14h. Mesma coisa.”
E seguiu para o ponto de ônibus.
Porque a dívida continuava. E o preço do silêncio, agora, era medido em goles.
Nas noites quentes de Recife, quando o ventilador zumbia e o sono não vinha, ela ainda sentia o peso na boca, o volume nas bolas enormes, o gosto que não saía fácil. E se perguntava quanto tempo aguentaria amortizar só os juros.
Às vezes achava que para sempre.
Às vezes achava que não.
Mas seguia em frente. Porque a vida, afinal, cobra de todo mundo — e alguns pagam com a boca.