Capítulo Três
Antônio
— Bom dia Juliano.
— Bom dia, Doutor — Juliano levanta os olhos da tela do computador para me encarar — o senhor está bem?
— Não, eu dormi muito mal essa noite.
Não consigo mais dormir sem o Rubens. Foi péssimo acordar no meio da noite e não ver meu mozão na cama comigo. Nunca fui o tipo de cara grudento, mas meu noivo é tão incrível, que eu simplesmente não consigo ficar longe dele — trabalho pensando em quando vou para casa para encontrar com ele.
— Hoje tem três castrações e um retorno.
— Vou preparar a sala para cirurgia — digo sem um pingo de ânimo pela noite mal dormida.
— O senhor quer ajudar?
— Não, pode ficar tranquilo — digo indo para sala de cirurgia.
A ONG mesmo com meus atendimentos particulares, tenho passado mais tempo aqui. Me ocupo com o trabalho para tentar não pensar no quanto estou puto com a Gessika e com o Ben, tipo Zé Filho é um cara muito massa, ele é trabalhador, inteligente, bonito — não mais que o meu amor — o moleque sangue bom e eles vacilaram com ele e pior vacilaram comigo também, tirando meu mozão de casa.
Rubens me garantiu que volta amanhã. Lembro de que quando ele foi para Fortaleza os sábados foram os dias mais difíceis, a noite em particular, é nosso único momento em que não temos que acordar cedo no domingo. Amo passar horas vendo tv com ele — claro que o sexo no meio do filme é minha parte favorita — está com ele é perfeito, ele é divertido, carinhoso e quer saber estou com saudades do meu amor e só tem um dia que ele está fora. Foda-se, pego o celular no bolso e ligo para ele.
— Oi amor — ele diz, atendendo no primeiro toque.
— Volta para casa amor — peço com a voz manhosa.
— A gente acabou de ter essa conversa amor — ele está falando de quando liguei para ele no café da manhã para perguntar onde estava o pó de café, que óbvio eu sabia, só queria fazer de manhã para ele saber que não fico bem sem ele em casa.
— Que menino manhoso esse meu — ele brinca.
— Tô com saudades amor — digo.
— Também estou morrendo de saudades do meu príncipe, mas o clima aqui não tá legal.
— O Ben já falou?
— Vamos almoçar todo mundo junto, só que os planos mudaram um pouco.
— Como assim? — Pela voz já sei que o Rubens está desconfortável com alguma coisa.
— Julia ficou puta porque eu não avisei que estava vindo e agora vamos almoçar com ela também.
— Ela é irmã de vocês e tenho certeza que a cunha pode ajudar.
— Sim, mas é que o almoço agora vai ser lá em casa — não gosto quando ele se refere a casa da mãe dele como se fosse a casa dele — quer dizer a casa da minha mãe.
— Amor sua casa é aqui comigo — estou me sentindo um “tantinho” mais ciumento por ele está longe.
— Eu te amo, amor, não precisa se preocupar, vou voltar para casa.
— Nem se eu tiver que ir te buscar.
— Rubens o Mariano já está lá embaixo — ouço a voz do Ben no fundo, mas o que me ferve o sangue é o nome Mariano.
— O que ele está fazendo aí?
— O Mariano agora é super amigo do Andrey e do Zé Filho.
— Ata, claro que é — digo contrariado.
— Amor, foi eles que convidaram.
— E porque ele está aí? — Nem me preocupo em disfarçar meu ciúmes.
— Eu não sabia — ele se adianta.
— Não sabia de que?
— Ele alugou um apartamento aqui no prédio.
— O que! — Sinto meu sangue ferver — vocês são vizinhos agora?
— Não, né amor, eu moro aí esqueceu? — Rubens se defende.
— Não estou acreditando nisso, eu não pude ir porque era um assunto de família e agora o Mariano está aí e eu não estou? — Rubens não tem culpa eu sei, mas é que eu tenho uma raiva irracional desse cara.
— Amor, o Mariano é só um amigo agora, você é o cara com quem quero passar o resto da vida.
— Eu não gosto de você perto dele e agora ele fazendo parte de um almoço de família e eu aqui — estou indignado.
— Amor, o Zé Filho não sabia que esse almoço era um DR de família quando convidou o Mariano.
— E ele vai entrar na casa da sua mãe?
— Amor.
— Responde Rubens, ele vai poder almoçar com a minha sogra, quando eu nem posso entrar na casa dela?
Mariano tem uma história com Rubens, eu tenho um passado também, mas nada que chegue nem perto do que eles tiveram. Sete anos, isso bate feito um martelo na minha mente toda vez que penso nisso, eu confio no Rubens, até vendado, sei que ele jamais me trairia, mas meu medo é que sei lá de repente ele veja que sente falta do ex e que termine comigo para ter o que eles sempre sonharam em ter.
— Amor — Rubens diz escolhendo as palavras com cuidado — eu te amo e isso é tudo que importa, estou aqui pelo Zé Filho e pelo Ben.
— Eu tenho que ir — preciso encerrar essa chamada ou vou dizer coisas que depois sei que vou me arrepender.
— Amor.
Não quero deixar o meu amor mau e nem preocupado, mas é que não consigo, Mariano me tira do sério só de ouvir o nome e por mais que o Rubens diga que não percebe eu já notei que esse sonso tenta se chegar perto dele de toda forma, ele ser amigo dos meus cunhados é só uma forma de se manter por perto, eu sei que esse cara quer tomar meu amor de mim e isso só me irrita ainda mais.
— Preciso mesmo ir, tenho uma castração agora.
— Eu te amo.
— Também te amo — ele responde — amor não fica chateado, por favor.
— Não tô — minto, mas ele sabe que é mentira.
Estou puto na real, dele poder almoçar com todos e eu não, porque esse cara não some da nossa vida de uma vez? Que ódio velho! Meu humor que já não está bom, agora só ficou pior. Deixo tudo pronto para o primeiro procedimento do dia. Quando estou trabalhando não fico no celular e na real é até melhor.
Três da tarde estou assinando o último prontuário, não almocei — não tive fome — não me lembro da última vez em que estive tão irritado, juro que posso mandar um para puta que pariu por nada hoje. Liberei até o Juliano mais cedo hoje porque estou com medo de descontar algo nele. Antes de sair pego o celular e vejo que tem mensagens do Rubens.
Amor: “Vou para a Kitnet da Júlia depois do almoço tá certo.”
Sua mensagem vem seguida de uma foto dele no fuscão com a mala dele no banco de trás.
Amor: “Amor quando puder me ligar, a coisa aqui foi feia.”
Me sinto mal por não ter visto essa mensagem mais cedo, tem quase uma hora, ele sabe que estava trabalhando, mesmo assim fico me sentindo chateado por não ter visto antes. Só de pensar que o insuportável sonso do caralho do ex dele pode ter usado isso para se aproximar dele para consolá-lo. Não vou ficar pensando nisso só vai me irritar, pego o celular e ligo para ele.
— Amor, já está em casa — sua voz está fraca e estranha.
— É o meu cunho? Te amo cunho, xero! — Escuto a voz da Julia no fundo.
— Manda um abraço para ela — Júlia é a única parente que não suporta o Mariano assim como eu — o que rolou amor.
— O Ben e o Zé Filho brigaram feio.
— Eles saíram no soco?
— Não, graças ao Andrey que segurou o Zé Filho, mas foi por pouco — nossa para o Rubens ver os irmãos brigando deve ter sido péssimo, me sinto um inútil de não poder abraçar ele agora.
— Amor, queria está ai com você.
— Também queria amor, foi bem pesado, Zé Filho e Gessika foram para casa e eu estou preocupado com eles, não consigo falar nem com ela e nem com ele, o Ben ficou inconsolável, mas disse que queria ficar sozinho.
— E o Andrey?
— Andrey ficou chocado que nem eu, afinal ninguém esperava que o Ben fosse fazer algo assim, minha mãe encontrou uma forma de isso ser sobre mim e minha “rebeldia”, Julia me defendeu e elas brigaram de novo, enfim amor só quero esquecer o que rolou.
— Dá um tempo para eles que eles vão se entender amor, pelo menos agora está tudo às claras, ninguém está mentindo — ele respira fundo — amor, desculpa por mais cedo, mas obrigado também por ter saído de lá.
— Amor, vamos casar no Sítio do Bosco, só nós dois e mais ninguém — ele diz com a voz triste, porém decidido.
— O que você quiser meu amor, desde que eu passe o resto da vida com você — digo.
— O que você vai fazer hoje? — Ele pergunta tentando aliviar o clima da conversa.
— Vou já para casa, vou ver o jogo e só ficar de boas.
— O Guto não te chamou para cantar lá hoje? — Eu tinha esquecido completamente.
— Acho que vou desmarcar.
— Que isso amor, você tem que ir, você se comprometeu com ele e outra vai te fazer bem cantar um pouco.
— Mais você não vai está lá para me ouvir.
— Começou as manhãs, meu Deus como é carente esse meu homem — o sorriso dele vale mais que tudo para mim.
— Eu sou só um homem apaixonado.
— Você é meu homem apaixonado e eu sou perdidamente apaixonado por você também.
— Tá bom eu vou, mas mudando de assunto que horas você chega.
— Ele vai ficar aqui essa semana — diz Julia me fazendo repensar o meu “gostar” dela.
— Eu corto laços com sua família e vou te buscar.
— Ela tá brincando, eu vou amanhã assim que eu acordar, só não vou logo hoje porque tenho umas horas de trabalho para fechar de ontem.
— Tá bom meu amor, só volta logo para mim tá bom.
— Sim senhor — eu amo o fato de ser a única pessoa que consegue fazê-lo rir mesmo preocupado com os irmãos.
Estou fechando a ONG para ir para casa quando vejo Ângela puxando o Tigela pela coleira, mas a coleira do cão não é a única coisa que ela traz nas mãos, em seus braços tem uma criança. Ela estava grávida, mas não imaginava que ela estava para ter o filho.
Ângela tem os cabelos bagunçados e os olhos fundos, ela está cansada, isso é meio óbvio, mas não é para menos, carregando um recém nascido e um pitbull pela rua — no calor das duas da tarde — essa mulher precisa de ajuda. Rubens não está em casa mesmo então não faz diferença se eu ficar mais um pouco. Abro a ONG e a recebo.
— Doutor, desculpa a hora é que o Tigela está estranho e eu não sabia o que fazer — diz a pobre mãe esbaforida.
— Tá tudo bem, e esse rapaz no seu colo? — Deduzo ser um garoto por conta da manta azul.
— Ah é meu filho, doutor.
— Parabéns, mas você deveria está em repouso, podia ter me ligado não precisar vir até aqui — ela está perdida, vejo isso em seus olhos — faz assim toma uma água e senta aqui no sofá, eu vou ver o Tigela e já volto com ele tá bom?
— Obrigado doutor.
Tigela, está com muita sede, ele tem sinais de desidratação, ele deve ter ficado sozinho enquanto ela estava no hospital, agora estou começando a achar que o filho dela não era para ter vindo agora. Ângela já tinha dito que vivia sozinha só com Tigela. Ele é um parceiro e tanto, nunca vi um Pitbull tão cuidadoso como ele, o tempo todo olhando para a porta, e mesmo sob estresse ele não demonstra hostilidade comigo em momento algum.
— Você é um ótimo amigo Tigela, Ângela tem sorte por ter você.
Término de cuidar dele, na recepção o recém nascido chora, começo a levar o Tigela de volta para sua dona, pensando em como posso ajudar essa pobre mulher, viver sozinha com uma criança e um cachorro do porte de um Pitbull demanda muitas responsabilidades, ela até me parece ser bem nova para passar por isso sozinha.
— Ângela, ele tá bem, mas — minha frase morre no meio quando não a vejo na recepção, porém entre as almofadas o pequeno chora tanto que suas bochechas estão vermelhas — Ângela?
Procuro ela em toda parte, mas não a encontro. Meu coração começar a ficar apertado. Porra, porra e porra! Ângela não está em lugar algum, estou começando a surtar, mas então o silêncio me faz arrepiar a espinha. Tigela está com a cabeça em cima da manta do pequeno e isso o fez se acalmar.
— Tá tudo bem — o cachorro mesmo protetor confiar em mim quando pego o bebe no colo, porra que moleque lindo, bochechas rosadas e os olhos tão azuis e grandes. Onde diabos a mãe de vocês foi? Me pergunto.
O Bebe não parece nem um pouco bem, Rubens não está aqui, então medidas desesperadas pedem ações desesperadas. Saco o telefone do bolso.
— Antônio? — Luana está tão incrédula quanto eu.
— Luana, tenho uma coisa que eu não posso pedir para mais ninguém, preciso de ajuda.
— O que aconteceu? — Ela pergunta preocupada.
— Você está sentada?
