A vitória de Samuel - Cap.7

Um conto erótico de ThiThe
Categoria: Heterossexual
Contém 1868 palavras
Data: 14/03/2026 14:57:53

Os dias que se seguiram não foram preenchidos pela dor esperada. Em vez disso, uma estranha e silenciosa clareza se abateu sobre o luxuoso apartamento de Natália. Ela se movia pelos cômodos minimalistas como um fantasma, mas um fantasma finalmente em paz com sua assombração. O pânico, a raiva, a autoaversão — tudo se consumiu nos lençóis baratos do quarto de motel, deixando para trás um leito de brasas fumegantes e resignadas.

Ela se sentia atraída por Samuel. Obcecada pelo pênis dele. Essa era a base, e ela não lutava mais contra isso, aceitando sua maldição.

Seu celular, antes uma fonte de pavor, agora era um talismã. Ela havia salvo o número dele como “Sammy ❤️”. O coração infantil era um segredo emocionante, uma bandeira fincada no solo de sua vida arruinada. Ela não ignorava mais as mensagens dele. Respondia prontamente, os polegares deslizando sobre a tela. “Como você está?”, “Você comeu?”, “Sua avó está bem?” A banalidade das perguntas a chocou. Ela estava… cuidando dele. Imaginando a vida dele.

E então, o monstro de olhos verdes.

Certa tarde, encarando um contrato no qual não conseguia se concentrar, um pensamento invadiu sua mente: 'Será que ele voltou para o bordel?' A imagem foi instantânea e brutal — Samuel, suas costas peludas se flexionando, enfiando aquele pênis grosso e cheio de veias em alguma prostituta gorda e paga. Uma dor aguda e possessiva se acumulou atrás de suas costelas. Ciúme. Ciúme real, ardente. 'Ele merece coisa melhor', pensou ela, a arrogância do pensamento quase a fazendo rir. 'Ele me merece'.

O medo tornou a ressurgir então. Afeição? É isso que era? Além da fome primal por seu corpo, ela estava começando a gostar dele? O homem que a perseguira na infância, que a drogara, que representava tudo o que seu mundo desprezava?

Ela repassou mentalmente a confissão dele no motel. Os anos de stalking. O monitoramento obsessivo de sua vida. Era criminoso. Era monstruoso. Deveria tê-la repugnado para sempre. Mas agora… agora ela se pegava remoendo a lembrança como se fosse uma joia escura. A pura e aterradora escala da fixação dele. Alguém havia quebrado todas as regras, arriscado tudo, só para tê-la. A certeza daquela devoção, daquela loucura direcionada exclusivamente a ela, não a assustava. A fascinava. Um arrepio, delicioso e quente, percorria sua espinha ao pensar nisso, seguido imediatamente por uma pulsação reveladora de umidade entre as coxas. Era a vaidade suprema, e era dela.

Mas por quê? A pergunta ecoava em seu apartamento silencioso. Por que o feio, o proibido, o errado a atraía com tanta força?

Uma lembrança surgiu, sem ser convidada. Universidade. Uma partida de verdade ou desafio no apartamento de uma amiga, o ar denso com o cheiro de vinho barato e risadas. Sara, uma loira estonteante de olhos esmeralda, se inclinou para frente, a voz num sussurro conspiratório. "Eu tenho um segredo", sussurrou. Ela contou a eles sobre Sérgio. O irmão da madrinha dela. Um ex-presidiário com o dobro da sua idade. Ela mostrou uma foto no celular: um homem com rosto de cavalo, uma vasta calvície no topo da cabeça e longos cabelos brancos e oleosos. Uma tatuagem de caveira em um braço enrugado. Horripilante. E Sara havia descrito, em detalhes gráficos e vorazes, como esperava a madrinha dormir antes de se esgueirar até o quarto dos fundos dele para ser, em suas palavras, “devorada”.

Natália se lembrou do suspiro coletivo de nojo do grupo de amigas. Seu próprio julgamento fora rápido e frio. 'Como ela foi capaz?'

Agora, sentada sozinha em sua confortável cadeira de design caro, Natália finalmente entendeu aquela confissão. Um sorriso lento e cúmplice surgiu em seus lábios. Não era apenas o sexo. Era o tabu. O choque elétrico e avassalador dos opostos colidindo. O belo com o grotesco. O refinado com o bruto. Era uma piada suja cósmica, e ela finalmente entendia o desfecho. Sara tinha sido uma pioneira, e Natália, em seu apartamento impecável, estava apenas seguindo os passos que ela havia trilhado.

Natália inclinou-se um pouco na cadeira, o sorriso ainda preso ao canto da boca, mas agora atravessado por uma inquietação nova. Não, aquilo não explicava tudo. O tabu, o choque dos opostos — aquilo era apenas a superfície, a espuma visível de algo muito mais profundo. Havia uma corrente subterrânea puxando-a naquela direção, algo mais antigo e mais íntimo do que simples curiosidade ou perversão. Era como se uma parte dela, silenciosa e paciente, já conhecesse aquele caminho muito antes de sua mente aceitá-lo. A ideia fez seu estômago se apertar levemente. Se aquilo era apenas a ponta do iceberg, então havia um corpo enorme, oculto e frio sob a água — e, pela primeira vez, Natália percebeu que não queria se afastar dele. Queria mergulhar e descobrir o que, exatamente, dentro dela mesma, respondia àquele chamado.

Então… o confronto com Marco fora inevitável.

Seu rosto bonito, marcado por preocupação e, em seguida, por uma mágoa lancinante. "Você está distante”. “Você está fria”. “Você mudou”. “Não me deixa mais tocá-la”. Ele arrumou as malas, o silêncio entre eles mais ensurdecedor do que qualquer discussão.

— Então é isso? — Marco perguntou, parado perto da porta, a mão ainda apoiada na alça da mala. — Nem vai tentar me dizer o que aconteceu?

Natália demorou alguns segundos antes de responder. Estava sentada no sofá, as mãos entrelaçadas no colo, o olhar perdido em algum ponto da parede.

— Eu… não sei explicar — disse por fim, a voz baixa.

Marco soltou uma risada curta, sem humor.

— Claro que sabe. As pessoas não simplesmente… mudam assim.

Ela levantou os olhos para ele. Por um instante, quase sentiu culpa. Quase.

— Talvez eu sempre tenha sido assim — respondeu.

Ele ficou imóvel por um momento, como se aquela frase tivesse tirado o chão sob seus pés. Depois balançou a cabeça lentamente.

— Eu não reconheço mais você, Natália.

— Eu sei.

O clique seco da porta ao se fechar ecoou pelo apartamento impecável. Natália permaneceu sentada, escutando o som do elevador distante no corredor. Então soltou um longo suspiro e recostou a cabeça no encosto do sofá.

O silêncio que ficou não era vazio. Era leve. Quase libertador. E, no fundo, uma parte dela estava aliviada porque sabia que aquilo era apenas mais um passo em direção a algo que ainda não compreendia completamente.

Ele era um bom homem. Eles eram compatíveis. O sexo tinha sido bom — antes. Mas era um banquete gourmet comparado ao banquete de fome de Samuel. Um era apropriado. O outro, necessário.

A partida dele foi o último fio cortado. O último obstáculo. Agora, ela poderia finalmente ser quem realmente era, sem amarras, sem a necessidade de fingir qualquer versão mais aceitável de si mesma.

Naquela noite, o vazio do apartamento se transformou em uma dor física. Uma necessidade profunda e latejante que nada tinha a ver com solidão e tudo a ver com um homem específico e feio a duas cidades de distância. Ela estava parada em seu closet, os dedos roçando sedas e cashmeres, mas sua mente estava em um quarto de motel mofado.

Ela precisava sentir aquilo de novo. Para entender.

Ela não foi para seu quarto impecável. Deitou-se no tapete macio cor creme no centro do closet, cercada pelas evidências de sua vida perfeita. O tecido frio foi um choque para suas costas. Ela fechou os olhos e suas mãos começaram a se mover.

Uma mão deslizou por baixo do cós da calça. por baixo da calcinha de renda. Seus dedos encontraram seu clitóris, já inchado e úmido. Um suspiro suave escapou de seus lábios. Ela estava tão pronta. Mas não se concentrou em si mesma. Construiu a fantasia, detalhe por detalhe.

Primeiro pensou em Bruno. Seu ex da universidade. Alto, atlético, sorridente. Sua pele limpa e macia contra a dela. Seus toques educados e inquisitivos. "Você gosta disso?" Ela se lembrou do calor agradável, da construção gradual. Era como assistir a um filme tecnicamente perfeito, mas completamente entediante.

Então, ela forçou a memória a se distorcer. O rosto bonito de Bruno ficou borrado, suas feições se derretendo e se rearranjando. O queixo forte suavizou, os olhos claros escureceram e se tornaram pequenos e intensos. A bochecha lisa ficou áspera com uma barba por fazer irregular. A altura diminuiu. As mãos delicadas se tornaram calejadas e com dedos grossos.

Samuel.

O efeito foi instantâneo e violento. Seus quadris se ergueram do tapete. Seus dedos se moviam mais rápido, circulando seu clitóris com uma pressão implacável. Ela o imaginou não no motel, mas ali. Em seu closet sagrado. Seus sapatos sujos sobre seu tapete creme. Suas mãos imundas sobre suas roupas de alfaiataria. A pura profanação daquilo a fez gemer alto.

Ela pensou no cheiro dele — cabelo sem lavar e sabonete barato cortando o ar perfumado. Pensou na voz dele, gutural e possessiva em seu ouvido. "Minha puta". Sua outra mão deslizou por baixo da blusa, beliscando e puxando o mamilo, imaginando que era a boca dele, os dentes amarelados roçando a ponta sensível.

A fantasia se intensificou. Ela estava de joelhos ali, entre seus sapatos, e ele a estava penetrando por trás. Não o sexo cuidadoso e respeitoso do passado. Aquilo era uma reivindicação. Cada estocada era um ponto final em uma frase de posse. Ela quase podia sentir o alongamento, a plenitude deliciosa e brutal dele, muito mais real do que qualquer amante refinado.

“Você é minha, sua vadia perfeita”, sua mente completou com a voz dele. E na fantasia, ela gritou em concordância, a voz embargada por um soluço de puro êxtase.

Seu orgasmo a atingiu sem aviso, uma tempestade silenciosa e convulsiva que arqueou sua espinha e fez seus dedos dos pés se contraírem violentamente contra o tapete. Ondas de prazer, escuras, vergonhosas e absolutamente magníficas, irradiaram de seu âmago, deixando-a trêmula e ofegante, uma mancha úmida se espalhando sob ela no tecido caro.

Nos tremores subsequentes, algo começou a tomar forma em sua mente. Não era apenas o tabu. Era a verdade que se insinuava por baixo dele. A feiura de Samuel não era uma barreira; era a chave. Ela despojou toda pretensão, toda camada de civilidade, até que restasse apenas a necessidade crua. Ele viu a criatura faminta e depravada que ela realmente era, e a venerou.

Contudo, isto não era ainda uma resposta, mas uma teoria em gestação, um fio de entendimento que lentamente se entrelaçava dentro dela. As peças que antes pareciam desconexas começavam a se alinhar, como se um caminho oculto estivesse finalmente se revelando diante de seus pensamentos.

Ofegante, ela puxou a mão, encarando os dedos brilhantes na penumbra do armário. Chega de hipóteses, de teorias girando em círculos dentro da própria cabeça. Se a conclusão que se formava em sua mente era verdadeira, havia apenas uma maneira de saber. Era hora de colocá-la à prova. Ela pegou o celular, seus movimentos agora decisivos. Primeiro, abriu o aplicativo do banco, transferindo uma grande quantia com alguns toques rápidos. Depois, abriu as mensagens para “Sammy ❤️”.

Seus polegares digitaram as palavras que pareciam tanto uma rendição quanto uma vitória. Um sorriso, genuíno e descontrolado, surgiu em seus lábios enquanto enviava a mensagem.

“Estou te mandando dinheiro, compre uma passagem. Quero que você venha passar a próxima semana comigo, no meu apartamento.”

Continua...

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Comentários

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Já vi muito rabo fazer o homem perder a cabeça, mas aqui tá muito diferente.

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Conto magistral. Muito bem escrito. É muito boa a construção dos personagens e do enredo. Coisa de profissional. Parabéns!

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