O Barman e o Confeiteiro (Capitulo 4)

Um conto erótico de R. Valentim
Categoria: Gay
Contém 2062 palavras
Data: 13/03/2026 12:34:46
Assuntos: Gay, Sexo oral

Capítulo 4

Ykaro

Fazia exatamente uma semana desde que o pub inteiro parou para assistir à cena.

Eu estava atrás do balcão, secando o mesmo copo de vidro pela terceira vez, quando Luan entrou. Ele parecia um armário de terno, segurando um buquê de flores desajeitado, uma caixa de chocolates caros e uma caixinha de veludo. A declaração de amor dele para a Stella foi o tipo de coisa que a gente só vê em filme ruim: gaguejada, nervosa, mas tão genuína que até os universitários bêbados do Benfica aplaudiram. Ela aceitou, radiante. O anel de compromisso foi parar no dedo dela, e os dois sumiram na noite.

Eu tinha dado o empurrão. Eu tinha dito para o cara ir lá e ser homem. E, no fim, eu fiquei exatamente onde merecia: sozinho no bar, limpando a sujeira dos outros.

Naquela semana que se seguiu, minha vida se resumiu a um silêncio insuportável. Stella e Luan passaram todas as noites juntos. No trabalho, eu fiz o que a minha intuição de sobrevivência mandou: recuei. Parei de encostar nela perto dos barris de chope, parei de fazer piadas com duplo sentido, parei de ser a sombra dela. Eu sentia uma falta absurda da minha amiga, do sorriso largo e daquele sotaque arrastado, mas a nossa dinâmica tinha mudado. E, para o meu próprio desespero, eu não fazia ideia de como ser apenas "o amigo" depois de ter conhecido cada centímetro do corpo dela.

Mas havia uma regra gravada a ferro e fogo na minha mente: eu não seria amante de ninguém. Nunca mais. Eu preferia arrancar meus próprios dentes a voltar a ser o segredo sujo de alguém, a peça que sobra na cama.

Foi na sexta-feira, durante o nosso intervalo de quinze minutos, que o meu castelo de gelo ameaçou desabar.

Eu estava escorado na parede dos fundos do pub, fumando um cigarro e olhando para o trânsito da avenida, quando a porta de metal rangeu. Stella apareceu. O cabelo ruivo estava preso num coque bagunçado, o rosto brilhava de suor e ela tinha aquele sorriso que me desmontava.

— Você tá me evitando, Ykaro — ela disparou, cruzando os braços sob os seios fartos, o que só fez o decote do uniforme ficar mais evidente.

— Tô trabalhando, ruiva — respondi, tragando o cigarro e soltando a fumaça devagar, desviando os olhos para a rua. — O movimento tá pesado.

Ela não engoliu a desculpa. Deu dois passos na minha direção e parou perto demais. O cheiro de morango do perfume dela misturado com o cheiro de álcool do bar invadiu meu espaço.

— Quando o turno acabar, a gente vai comer alguma coisa. Eu e você — ela decretou, o tom de voz não deixando margem para discussão. — Tô com saudade de você, seu idiota.

Eu sabia que devia dizer não. Meu plano de distanciamento dependia de não ficar sozinho com ela de madrugada, com a adrenalina do expediente baixando. Mas o peso da última semana de repente pareceu esmagador. Eu estava tão sozinho. A casa do Adriano era um refúgio, mas eu ainda me sentia um fantasma lá. A única pessoa real na minha vida, nos últimos meses, era a mulher na minha frente.

— Tá — resmunguei, apagando o cigarro na sola do coturno. — Mas sem enrolação. Quero dormir.

Eu estava mentindo para mim mesmo. Eu queria passar um tempo com ela, mas repeti o meu mantra mentalmente: não vai acabar em sexo. Você não é amante.

Eram quase três da manhã quando encostei a moto no estacionamento do Habib's, na Avenida 13 de Maio. Aquele lugar era o paraíso pós-expediente da Stella. As luzes amarelas e vermelhas do letreiro iluminavam o rosto cansado, mas feliz, dela.

Sentamos em uma das mesas de plástico encostadas na vidraça. O garçom, que já conhecia a gente de vista, veio anotar o pedido.

— Dez de carne, cinco de queijo, três de frango com catupiry e uma jarra de suco de laranja — Stella pediu, sem nem olhar o cardápio.

Ergui uma sobrancelha, cruzando os braços sobre a mesa.

— Vai alimentar um batalhão, ruiva? Você mal aguenta comer quatro dessas.

Ela deu um sorriso amarelo, brincando com o guardanapo de papel.

— Ah... é que o Luan tá vindo encontrar a gente. Ele acabou de sair do plantão de um projeto lá do banco e tá vindo pra cá.

Meu estômago afundou. Foi como se alguém tivesse jogado um balde de água gelada na minha nuca. A armadilha estava armada. Se eu levantasse e fosse embora agora, ficaria óbvio que eu estava morrendo de ciúmes. Eu seria o ex-ficante amargurado. E a última coisa que eu queria era dar esse gostinho pro destino.

Engoli a vontade de sumir dali, forcei a postura a relaxar e dei um meio sorriso.

— Saquei. Fome de gigante.

Stella não percebeu (ou fingiu não perceber) o meu desconforto. E pior: ela começou a falar. E quando a Stella estava feliz, ela não parava. Durante os quinze minutos seguintes, eu fui obrigado a ouvir um monólogo apaixonado sobre Luan.

— Ele tá tão diferente, Ykaro. Lembra daquele cara travado? Sumiu. Ele é super carinhoso, sabe? Meio desajeitado, mas de um jeito fofo. — Ela suspirou, apoiando o queixo nas mãos. — Outro dia, a gente jantou e, quando eu vi, ele já tinha lavado e secado toda a louça. Sem eu pedir. Ele cuida de mim. A gente até... bem, a gente conversou por alto sobre morar junto.

Minha mandíbula travou. Morar junto? Com uma semana de namoro oficial?

— Meio cedo pra isso, não acha? — murmurei, mantendo a voz neutra, focando nos meus dedos batucando na mesa.

— Talvez. Mas quando é o certo, a gente sente, né?

Antes que eu pudesse formular uma resposta que não soasse ácida, o sino da porta tocou. Luan entrou.

Mesmo sob as luzes fluorescentes impiedosas do fast-food, o desgraçado era imponente. Ele vestia uma calça jeans escura e uma camiseta polo preta que esticava nos ombros largos. A pele retinta contrastava com o sorriso branco que se abriu assim que os olhos dele encontraram a Stella. Era irritante o quanto ele era bonito e chamativo.

Ele se aproximou da mesa, deu um beijo demorado na testa da Stella — um beijo cheio de posse, mas ao mesmo tempo cuidadoso — e depois olhou para mim.

— E aí, Ykaro — ele cumprimentou, estendendo a mão. A hostilidade de antes tinha evaporado. Havia respeito ali.

— E aí, gigante — respondi, apertando a mão dele. O aperto era firme, forte.

Luan sentou ao lado dela. A dinâmica dos dois era insuportável de assistir de perto, não porque fosse nojenta, mas porque era real. Luan era tímido, às vezes não sabia onde colocar aquelas mãos imensas, mas a forma como ele ajeitava o cabelo da Stella, ou como encostava o ombro no dela de forma protetora, me fez perceber algo. Não havia maldade no Luan. Ele não era um manipulador. Ele era só um cara bom, que tinha demorado tempo demais para se encontrar, e que agora estava perdidamente apaixonado.

Por um instante, olhando para eles, eu me senti sujo. Senti o peso das camas de motel, dos lofts de luxo, do dinheiro da Helena e da manipulação da Alexandra. O que eles tinham ali na mesa de plástico do Habib's era o tipo de coisa que eu nunca saberia como ter.

As esfirras chegaram, e o clima melhorou. A conversa fluiu fácil sobre o movimento do pub, o trânsito da 13 de Maio e coisas banais que serviram para anestesiar o meu desconforto. Eles não se engoliram na minha frente, mantiveram o respeito, o que só me fez admirar o cara um pouco mais.

Quando o garçom trouxe a conta, o instinto bateu. Enfiei a mão no bolso de trás da calça para pegar a carteira. Do outro lado da mesa, Luan fez o mesmo.

— Pode deixar, eu pago a parte dela — falamos os dois, exatamente ao mesmo tempo.

Nós nos olhamos. Houve um segundo de tensão no ar. Aquele clássico embate silencioso de machos querendo demarcar território. Mas não era raiva; era orgulho.

Suspirei, largando a nota de cinquenta sobre a mesa.

— Seguinte: racha a conta no meio. Metade pra mim, metade pra você. Fechou?

Luan avaliou a proposta, olhou pra nota, e depois tirou a dele da carteira, colocando por cima da minha.

— Fechou.

Stella riu, balançando a cabeça como se fôssemos duas crianças idiotas. Levantamos e fomos para a rua. O vento da madrugada batia um pouco mais frio agora. Fui em direção à minha moto, pegando o capacete.

— Bom, a noite foi boa. Vejo vocês por aí — falei, subindo na moto e destravando o descanso.

— Ykaro, espera! — Stella correu na minha direção. — Dá uma carona pra gente? Até o meu apartamento?

Eu parei, com a chave na ignição. Olhei da Stella para o Luan, depois para a minha moto, que definitivamente não foi feita para um transporte coletivo.

— Os três? Na moto? Ruiva, tá maluca?

Olhei para o Luan, esperando que a prudência do "homem da família" falasse mais alto e ele recusasse a loucura. Ir em três numa moto era infração de trânsito e suicídio em algumas curvas.

Mas Stella tinha um poder bizarro sobre as pessoas. Ela despertava um lado aventureiro que ninguém sabia que tinha. Ela olhou para o Luan com aqueles olhos pidões e um sorriso ladino.

Luan coçou a nuca, olhou para os lados da avenida vazia e deu de ombros.

— O apartamento dela é aqui na Avenida da Universidade, é perto. Acho que dá — ele murmurou, a voz grave denunciando que ele estava nervoso com a ideia.

Eu quis rir. Stella fodia com o juízo de qualquer um. Eu sentia tanta falta disso.

— Vocês são loucos — resmunguei, entregando meu capacete extra para a Stella. — Sobe logo antes que uma viatura passe.

O que se seguiu foi o caos logístico.

Stella subiu primeiro, colando o corpo nas minhas costas. Imediatamente, o calor dela me atingiu. Senti a pressão dos seios fartos contra as minhas omoplatas, e o cheiro dela inundou minhas narinas, me transportando direto para a cama dela dias atrás. Respirei fundo, tentando ignorar a reação do meu corpo.

Então, o Luan subiu.

A suspensão da moto gemeu sob o peso dele. O espaço que já era pequeno desapareceu completamente. Luan era largo demais. Para conseguir se segurar e não cair para trás quando eu acelerasse, ele teve que passar os braços ao redor da Stella... e me alcançar.

Senti quando as mãos imensas dele pousaram na minha cintura.

Meu corpo inteiro travou.

Eu tinha certeza de que era a primeira vez do Luan na garupa de uma moto, porque o aperto dele não foi um toque leve; ele se agarrou a mim como se a vida dele dependesse disso. Os dedos grossos e quentes dele pressionaram a parte inferior do meu abdômen, os polegares roçando perigosamente perto do cós da minha calça jeans.

Liguei a moto, o motor roncando alto entre as minhas pernas, mas o som parecia distante. A minha mente, fodida e traumatizada por anos lendo os mínimos toques físicos, entrou em curto-circuito.

Eu tinha as curvas da mulher que eu desejava coladas nas minhas costas, e as mãos fortes do homem que a namorava me segurando com firmeza, o calor dos dois me envolvendo num sanduíche absurdo de tensão. O corpo do Luan vibrava contra o da Stella, que vibrava contra o meu.

Engatei a primeira marcha e arranquei pela avenida. O vento bateu no meu rosto, mas não esfriou nada. A cada solavanco do asfalto irregular do Benfica, Luan apertava minha cintura mais forte, o toque rústico e desesperado me causando arrepios que não tinham porra nenhuma a ver com o frio. Minha respiração ficou pesada. Eu devia estar com raiva do toque invasivo, mas, no fundo, eu não estava.

Enquanto a Avenida da Universidade passava como um borrão iluminado pelos postes antigos, pensamentos totalmente impróprios invadiram a minha mente. Imaginei aquelas mãos escuras e imensas me segurando com a mesma força em outro lugar. Imaginei a respiração pesada do Luan misturada aos gemidos da Stella.

Apertei o guidão até os nós dos meus dedos ficarem brancos.

Quando vi o prédio da Stella se aproximando, eu sabia de uma coisa: eu tinha aceitado aquele lanche achando que a noite terminaria em uma despedida pacífica, mas um pressentimento sombrio e quente formigava na minha pele. Aquela noite... aquela noite não ia acabar do jeito que eu planejei.

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