Quarta-feira. O relógio na parede da cozinha marcava seis e meia da manhã quando eu terminei de coar o café. O cheiro forte e torrado preencheu o ambiente, misturando-se ao frescor matinal que entrava pela janela basculante.
Eu não precisava acordar tão cedo — meu turno no call center só começava ao meio-dia —, mas eu sabia que não estava sozinho na casa. Sempre que o Luan brigava com a mãe, ele aparecia de madrugada e desabava no meu sofá. Era um padrão. O peso da criação rígida que ele teve entrava em choque com o homem que ele estava tentando ser, e a corda sempre arrebentava. Meu sofá velho era o porto seguro dele.
Peguei duas canecas e caminhei até a sala. Luan já estava sentado, os cotovelos apoiados nos joelhos, encarando o chão escuro. Ele usava a calça social do trabalho e uma camiseta amassada. Mas, diferente das outras vezes em que ele aparecia exausto e consumido pela culpa cristã, havia uma luz diferente nos olhos dele hoje. Ele parecia... decidido.
— Bom dia, gigante — murmurei, estendendo a caneca esfumaçante para ele.
— Bom dia, Dri. Valeu — ele pegou a caneca, as mãos imensas fazendo a louça parecer de brinquedo. Ele deu um gole longo e suspirou. — Eu vou resolver as coisas com a Stella. De vez.
Parei com a minha caneca a caminho da boca. Pisquei, surpreso.
— Sério?
— Sério. — A voz grave dele não vacilou. — Eu cansei de fugir. Cansei de magoar ela por causa das minhas paranoias. Eu a amo, Adriano. Não posso perder a mulher da minha vida porque não consigo lidar com a minha própria cabeça.
Um sorriso genuíno se formou no meu rosto. Eu estava feliz por ele, de verdade. Mas, lá no fundo, uma pontada minúscula e antiga de ciúmes se misturou com a preocupação. A história clássica do gay que se apaixona pelo melhor amigo hétero. Luan tinha sido meu primeiro amor na adolescência. Ele nunca percebeu, e eu enterrei esse sentimento sob camadas grossas de amizade e lealdade. Hoje, eu só o via como um irmão, mas a preocupação era a mesma de sempre: a Stella já tinha se machucado muito com as idas e vindas dele, mas o Luan também sofria. Eu tinha pavor de vê-lo quebrado se as coisas dessem errado de novo.
— Eu tô torcendo muito por vocês, Luanzão. De verdade — falei, sentando na poltrona ao lado.
Mais tarde, nossa rotina de sempre se cumpriu. Luan trabalhava no setor administrativo de um banco no centro da cidade, a poucas quadras do meu calvário particular no call center. De segunda a sexta, o horário de almoço dele batia perfeitamente com o meu horário de entrada. Nosso ponto de encontro era um restaurante self-service barulhento na esquina da avenida principal.
(Nossa rotina era sagrada: sábados, ele fazia inglês no Benfica e íamos almoçar no centro; domingos, eu entrava às duas da tarde, então comia em casa mesmo. E nas quintas, minha folga, eu nem pisava no centro).
Enquanto ele montava uma montanha de arroz e feijão no prato, me atualizou dos planos.
— Eu liguei pra ela. Vou pro pub hoje à noite — Luan disse, os olhos brilhando de expectativa. — Se tudo der certo, Dri, eu não durmo no seu sofá hoje. Vou dormir na casa dela. Como namorado.
— Amém, igreja! — brinquei, erguendo meu copo de suco. — Já passou da hora de vocês pararem de cu doce.
Eu realmente torcia por ele. Mas o pub era o último lugar que eu queria estar à noite. Queria deixar o Luan brilhar sozinho, sem o Caio lá para jogar praga ou soltar veneno.
Despedimo-nos na porta do restaurante e eu segui para o meu turno. O inferno, como sempre, me recebeu de braços abertos. E o diabo tinha nome: Henrique.
Meu supervisor era um babaca de marca maior. Quando eu entrei na empresa, ele tentou dar em cima de mim de um jeito nojento e invasivo. Quando eu dei um fora nele na frente de outros operadores, ele declarou guerra. Desde então, minha vida era um inferno de planilhas extras e pausas vigiadas.
— Adriano — a voz anasalada do Henrique soou assim que loguei no sistema. — Você vai treinar o novato hoje. Sem reclamar.
Eu ia revirar os olhos, mas então o novato parou ao lado da mesa do Henrique. Meu coração deu um tropeço.
O nome dele era Nathan. Ele era pequeno, delicado e tinha traços que pareciam esculpidos à mão. Os cabelos escuros eram perfeitamente penteados, a boca era naturalmente rosada, e ele me deu um sorriso tímido que me desarmou na hora. Ele era a porra de um principezinho. E, pelo jeito que ele cruzou as pernas ao sentar do meu lado, claramente gay.
Não era a primeira vez que eu treinava alguém, mas era a primeira vez que eu tinha que me esforçar para lembrar como se falava o meu próprio nome.
Passamos a tarde inteira dividindo o mesmo fone de ouvido para espelhar as ligações. A cada vez que os nossos ombros se esbarravam, uma eletricidade gostosa subia pelo meu braço. Ele era inteligente, engraçado e tinha um humor ácido que me fez rir o turno todo. Durante a nossa pausa para o lanche, no elevador vazio, o clima esquentou. Ele encostou na parede espelhada, me olhando de baixo para cima com aqueles olhos curiosos, e elogiou a armação dos meus óculos, a voz macia quase num sussurro. Eu flertei de volta, sentindo meu rosto esquentar.
Quando deu sete da noite e nosso turno acabou, paramos na porta do prédio.
— Obrigado pela paciência hoje, Dri — Nathan disse, usando o apelido que tinha ganhado o direito de usar em menos de cinco horas.
Ele me deu um abraço de despedida. Não foi um abraço rápido. Ele apertou os braços ao redor dos meus ombros, e eu senti o cheiro do perfume doce dele, o peito dele pressionado contra o meu. Quando nos separamos, os olhos dele demoraram nos meus lábios antes de ele se afastar com um aceno.
Saí dali flutuando.
À noite, peguei um ônibus direto para o Benfica, mas passei longe do pub. Fui para o Astro, um bar gay neon e barulhento que o Caio adorava. Eu precisava espairecer.
Chegando lá, a visão quase me cegou. Caio estava montado. Carmen SanFortal estava deslumbrante em um vestido de paetês vermelhos que refletia as luzes do bar, a peruca loira impecável. E, sentado ao lado dela, estava Breno.
Meu Deus, o Breno.
Toda vez que eu via o Breno fora do terno de advogado, eu tinha que lembrar o meu corpo de como se respirava. Ele vestia um cropped preto justo que abraçava os ombros largos e deixava à mostra a barriga trincada. Era quase um metro e oitenta de pura perfeição, com aquele sorriso humilde e olhos claros que me seguiam assim que eu passei pela porta. Senti minhas pernas fraquejarem por um segundo. Era impossível não sentir tesão por aquele homem.
Mas eu sabia o meu lugar. Breno não saía de perto do Caio. Para mim, a matemática era óbvia: ele era louco pela minha melhor amiga, e o Caio (que nunca assumia ninguém) estava só se fazendo de difícil.
— Chegou a viúva — Carmen disparou assim que me aproximei, bebericando um drink colorido.
Breno se levantou num pulo, o sorriso abrindo. — Oi, Dri. Que bom que você veio. Quer que eu busque uma bebida pra você?
— Oi, Breno. Aceito, sim. Uma cerveja, por favor — respondi, tentando não encarar os músculos do peito dele quando ele se virou em direção ao balcão.
Assim que o Breno sumiu na multidão, Caio estreitou os olhos com aqueles cílios postiços gigantes.
— Que carinha de idiota é essa, Adriano? Voltou a falar com aquele médico de meia-tigela?
— Credo, Caio. Deus me livre do Leandro — revirei os olhos, sentando no banco alto. Não aguentei guardar o segredo. — É o novato do call center. Nathan. Ele é... perfeito. A gente flertou o dia inteiro, e o abraço de tchau dele quase me fez derreter no asfalto.
Caio deu uma risada seca e balançou a cabeça, as joias balançando.
— Adriano, você é a pessoa mais emocionada que eu conheço. O garoto te deu um abraço e você já tá escolhendo a cor das cortinas da sala de vocês. Para com isso. É cedo demais. Você acabou de sair de um pé na bunda humilhante, foca em se divertir.
— Eu não tô emocionado! — protestei, sentindo o rosto corar porque ele tinha um pouco de razão. — A gente só teve química, ok?
— Química? Amor, química é o que o Breno tem pra te dar se você estalar os dedos. — Caio apontou com o queixo na direção do balcão, onde Breno esperava nossas bebidas, sendo secado por metade do bar. — Dizem por aí que na cama ele é uma máquina. Por que você não pega ele? Resolve sua carência e prova pra mim que você não tá obcecado pelo novato.
Minha mente viajou por meio segundo. Imaginar as mãos grandes do Breno me puxando, aquele corpo malhado suado por cima do meu... Senti um calor subir pelo baixo ventre. Mas balancei a cabeça freneticamente.
— Ficou louca, Carmen? Ele é seu! Eu nunca furaria seu olho desse jeito. Além do mais, eu não preciso pegar o seu homem pra provar que eu sou desapegado.
Caio abriu a boca para falar algo, parecendo genuinamente confuso com a minha lógica, mas Breno voltou com as bebidas, cortando o assunto.
O desafio do Caio, no entanto, ficou martelando na minha cabeça. Eu precisava provar que eu não era o romântico bobo que sofria por um abraço no elevador.
Perto da meia-noite, a quantidade de cerveja já tinha anestesiado meus filtros. Foi quando meus olhos cruzaram com os de um cara no outro lado do bar. Ele era negro, tinha um sorriso de canto malicioso, tranças curtas e vestia uma regata que deixava os braços fortes à mostra. Ele sustentou o olhar. Eu sorri.
Minutos depois, fiz o caminho estratégico em direção aos banheiros, sabendo que ele estava me seguindo.
A música eletrônica ficava abafada pelas portas duplas. Eu entrei na cabine mais espaçosa do fundo e, antes que eu pudesse trancar, ele deslizou para dentro comigo, fechando o trinco em seguida.
Não teve conversa. Ele me prensou contra a porta de metal, as mãos rudes apertando minha cintura, e atacou minha boca. O beijo tinha gosto de vodca e urgência. Senti o volume pesado roçando contra a minha coxa através do tecido da calça dele, e a adrenalina de estar fazendo uma loucura pulsou nas minhas veias.
Eu quebrei o beijo, ofegante. Deslizei as mãos pelo peito dele, descendo até o zíper da calça jeans. Ele jogou a cabeça para trás com um suspiro pesado quando eu me ajoelhei no chão sujo e apertado do box.
Abri o zíper e puxei o tecido, libertando-o da cueca. Ele era espesso, escuro e já estava completamente duro, pulsando de excitação. Não perdi tempo. Envolvi a base com a mão e levei os lábios até a glande, engolindo-o devagar.
O cara soltou um gemido grave, os dedos dele se embrenhando nos meus cachos. Eu suguei com força, focando apenas no atrito, no sabor salgado da pele e na sensação de controle. Eu ditava o ritmo. Descia até a base, sentindo ele raspar no fundo da minha garganta, e subia usando a língua ao redor da cabeça. As mãos dele na minha nuca ficaram mais firmes, ditando um compasso mais rápido e violento enquanto o prazer dele aumentava.
O som molhado das minhas sugadas e a respiração errática dele preenchiam a cabine. Eu acelerei, usando as duas mãos e a boca em uma sincronia que eu sabia que o enlouqueceria. Quando senti os músculos das pernas dele tremerem, apertei a base. Ele grunhiu, o corpo retesando, e jorrou quente e espesso dentro da minha boca. Engoli tudo, limpando-o com os lábios antes de me levantar.
Ele estava ofegante, os olhos vidrados de prazer. Sorri, um sorriso puramente egoísta, limpei o canto da boca com o polegar e saí da cabine, deixando-o lá para se arrumar. Missão cumprida, Caio. Eu não estava emocionado.
A euforia da bebida e do sexo rápido passou no trajeto de ônibus para casa. Quando coloquei a chave na fechadura, o relógio passava da uma da manhã.
A porta se abriu no exato momento em que Ykaro chegava do corredor. Nós nos esbarramos.
Ele estava com a mochila jogada em um dos ombros, a camisa preta levemente amassada. O cheiro de perfume amadeirado dele misturado ao cigarro me atingiu em cheio. Mas o que me chamou a atenção foi o rosto dele. Ykaro sempre tinha aquela postura de "tô pouco me fodendo" pra tudo, mas hoje... os ombros dele estavam caídos. Havia uma sombra pesada e decepcionada no fundo daqueles olhos castanhos. Ele parecia exausto de um jeito que dormir não resolveria.
— Opa. Desculpa, confeiteiro — ele murmurou, a voz mais rouca que o normal, dando um passo para trás.
— Tudo bem... — Eu o avaliei por um segundo. Nós ainda não tínhamos intimidade para perguntar o que havia de errado, mas a vulnerabilidade dele quebrou algo em mim. — Dia ruim?
Ele forçou um meio sorriso que não chegou nem perto de ser convincente.
— Apenas longo. Boa noite, Adriano.
Ele se enfiou no quarto e a porta se fechou com um clique suave.
Fiquei parado na sala escura. Eu não sabia o que tinha acontecido no pub ou na vida dele, mas eu conhecia aquele olhar de quem sentia que o mundo estava escorrendo pelos dedos.
Fui para o meu quarto, tomei um banho rápido para tirar o cheiro de bar e suor do corpo, e vesti um pijama solto. Eu estava cansado, mas a imagem do rosto do Ykaro não saía da minha cabeça.
Fui até a cozinha. Liguei a luz amarela fraca sobre a bancada. Abri o armário e peguei a farinha, o açúcar, o cacau em pó 100% e a manteiga. Eu não sabia confortar pessoas com palavras, eu era péssimo nisso. Mas eu sabia fazer magia com as mãos.
Bati a massa no silêncio da madrugada, o som rítmico do batedor de arame sendo a única coisa que me acompanhava. Coloquei o bolo de chocolate no forno. O cheiro de cacau e açúcar derretido começou a tomar conta da casa aos poucos, quente e acolhedor. Preparei uma cobertura de brigadeiro mole, brilhante e espessa, e cobri a massa assim que a desenformei no balcão.
Deixei o bolo no centro da mesa da cozinha, com um guardanapo e um garfo ao lado. Quando ele acordasse, de manhã ou à tarde, a casa não ia cheirar a solidão. Ia cheirar a chocolate.
Apaguei a luz e voltei para o quarto. Amanhã seria um novo dia.
