O Despertar de Andrea: Capítulo 17 - A Casa das Bonecas Quebradas

Da série Slave andrea
Um conto erótico de Andrea
Categoria: Trans
Contém 1279 palavras
Data: 12/03/2026 18:39:07

A viagem para a zona portuária foi o funeral prolongado da minha dignidade. O carro velho de Madalena, um veículo que cheirava a ferrugem e fumo de tabaco entranhado nos estofos, sacudia-me as entranhas a cada buraco na estrada de alcatrão gasto. A cada solavanco, os restos do meu vestido de seda branca — outrora uma obra-prima de alta-costura, agora uma ruína de manchas de vinho, suor e rasgões — recordavam-me da queda vertiginosa. Eu ainda usava os meus saltos rosa de verniz, mas o brilho estava lascado, e o salto agulha parecia prestes a ceder sob o peso do meu desespero. Madalena não falava; ela apenas fumava um cigarro barato, mantendo o olhar fixo na estrada, enquanto o fumo cinzento e denso parecia sufocar o último resto de perfume de rosas que ainda emanava da minha pele. Eu era uma flor arrancada de um jardim imperial e atirada para o banco de trás de um camião de lixo.

Quando finalmente parámos em frente a um edifício de betão encardido, o meu coração falhou uma batida. O letreiro de néon rosa intermitente, que zumbia com um som elétrico irritante, dizia apenas "Hospedagem". Não havia tapetes vermelhos aqui, não havia criados de luvas brancas, nem a aura de exclusividade da mansão de Valquíria. O ar era espesso, uma mistura nauseabunda de maresia podre vinda das docas, lixívia barata e o odor metálico e pesado de corpos cansados e sem esperança.

— Desce, Boneca — rosnou Madalena, a voz áspera como lixa. Ela agarrou-me pelo braço com uma força bruta, os dedos enterrando-se na minha carne macia, deixando marcas roxas imediatas que contrastavam com a palidez da minha pele. — Aqui dentro, a Valquíria é apenas um nome num contrato de transferência. Daqui em diante, eu sou a tua lei, a tua voz e a tua única hipótese de sobrevivência.

Fui arrastada para uma sala nos fundos, onde a iluminação era feita por uma lâmpada nua que balançava no teto. O chão era de azulejo branco encardido, com poças de água estagnada que refletiam a minha figura decadente. Madalena empurrou-me para uma cadeira de plástico barata. Antes que eu pudesse processar o terror que me invadia, ela puxou de uma máquina de cortar cabelo elétrica, ligando-a com um clique seco. O som do motor era um zumbido predatório, uma vibração que parecia antecipar a destruição do que eu mais amava em mim.

— Não! Por favor! A Dona Valquíria adora os meus caracóis! — Gritei, a voz rouca de tanto chorar, as lágrimas inundando o meu rosto onde a maquilhagem rosa já era apenas um borrão grotesco. — Ela disse que eram o meu troféu, que eu demorei meses de tratamentos caros a cultivá-los!

— A Dona Valquíria mandou limpar-te a vaidade, sua idiota — respondeu Madalena, sem um pingo de emoção ou hesitação. — Aqui, cabelos longos são apenas esconderijos para piolhos e levam demasiado tempo a lavar entre clientes. O tempo aqui é medido em fichas, Andrea, e o tempo gasto a pentear-te é dinheiro deitado fora. E tu já deves demasiado a esta casa.

Senti o metal frio e vibrante contra o meu couro cabeludo. Mecha após mecha, os meus caracóis negros e sedosos, que eu cuidava com óleos de diamante e escovagens minuciosas, caíam no chão sujo como pétalas mortas, misturando-se com a lama, a cinza e as beatas de cigarro. Eu via o meu "orgulho de sissy", o símbolo máximo da minha transição de luxo, transformar-se num lixo sem valor aos meus pés.

Quando ela terminou, a minha cabeça estava rapada quase até à pele, restando apenas uma penugem escura e áspera. Eu sentia um frio que nunca conhecera, uma exposição total que me fazia querer desaparecer dentro da minha própria pele. A minha identidade fora ceifada.

— Agora, despe isso. Veste isto e vê se paras de tremer.

Ela atirou-me o vestido de plástico rosa transparente que mencionara. Era uma peça vulgar, grosseira, desenhada com o único propósito de exibir cada centímetro do meu corpo de forma crua e direta, sem o mistério da renda ou a elegância protetora da seda. Não havia suporte para os meus pesados seios de silicone, que agora pendiam dolorosamente sob o plástico fino e frio. No centro do meu peito, onde antes brilhavam pérolas, um número "42" estava gravado a preto, como uma etiqueta de inventário.

— O teu quarto é o 4. É um quarto de alta rotatividade, percebes? O teu público agora não são senadores ou magnatas; são os estivadores, os mecânicos e os marinheiros que descem dos cargueiros com pressa. Eles não querem saber de poesia, de nomes bonitos ou de delicadeza, Andrea. Eles querem carne, e tu tens muita carne para lhes dar.

O meu quarto era uma cela de isolamento sensorial e emocional. Um colchão de espuma barato, coberto por uma capa de plástico rosa — para facilitar a limpeza rápida entre serviços, percebi com um horror gélido —, uma lâmpada fluorescente que piscava ritmicamente no teto e um balde de metal num canto. Não havia espelhos; Madalena explicou que bonecas de serviço não precisam de se ver ou de se admirar, apenas de ser vistas e usadas por quem paga.

A primeira noite foi um borrão traumático de dor e despersonalização absoluta. A fila de homens parecia um comboio interminável de sombras e mãos ásperas. Eles não me chamavam Andrea; para eles, eu era apenas a "42", "o rabo rosa" ou simplesmente "Boneca". O contraste entre a minha pele, que ainda guardava a suavidade dos cremes caros da mansão, e as mãos calejadas, cheias de graxa e sujidade daqueles homens, era uma agressão constante a cada poro do meu ser. Eles não tinham qualquer cuidado com os meus implantes, com a minha sensibilidade ou com os meus limites. Eu era usada como uma ferramenta pneumática, uma máquina orgânica de alívio.

O plástico do meu vestido colava-se à minha pele com o suor alheio, criando uma película pegajosa que me fazia sentir permanentemente impura. Entre um cliente e outro, eu sentia uma falta física, quase uma abstinência, do meu quartinho perfumado na mansão, da comida gourmet de Valquíria e até mesmo das suas humilhações refinadas, que agora pareciam carícias comparadas com esta brutalidade industrial. Ali, a humilhação era puramente física, mecânica e funcional. Eu deixara de ser uma cortesã de elite para me tornar um terminal de descarga humana.

Durante as poucas e curtas horas de intervalo, eu ficava sentada no chão de cimento, abraçada aos meus joelhos, balançando o corpo para frente e para trás. Tentava fechar os olhos e encontrar o André original ou a Andrea de elite dentro dos recônditos da minha mente, mas a luz intermitente da lâmpada fluorescente parecia apagar as minhas memórias, fragmentando a minha história. Eu começava a tornar-se, gradualmente, apenas o número gravado no meu peito. A única coisa que me restava, o último elo com a realidade, era o rosa — o rosa do plástico barato, o rosa do letreiro de néon que tingia as paredes, o rosa da minha própria carne macerada e exposta ao mundo.

No final do terceiro dia, quando eu pensava que já tinha atingido o limite da degradação, Madalena entrou no quarto enquanto eu estava deitada de lado, exausta e em carne viva. Ela não trazia comida ou água; trazia um ferro de marcar, daqueles usados para marcar o gado nas quintas, mas com o logótipo estilizado da Casa das Sombras. O metal estava rubro, emanando um calor sinistro. "A Valquíria quer garantir que, mesmo que fujas ou te percas nesta zona, todos saibam a quem pertences. És um investimento dela, Andrea. E como já não tens cabelo para esconder a nuca, vamos colocar a marca de propriedade exatamente onde todos possam ver enquanto te usam."

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Foto de perfil de Sayuri MendesSayuri MendesContos: 88Seguidores: 68Seguindo: 4Mensagem uma pessoa hoje sem genero, estou terminando medicina e resolvi contar a minha vida e como cheguei aqui, me tornei que sou depois de minhas experiencias, um ser simplismente inrrotulavel

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