Corpos, Desejos e Silêncio... Historias que Nunca Ousamos Dizer. Capítulo 34 — Olhares que Diziam Tudo

Um conto erótico de Bernardo
Categoria: Gay
Contém 6871 palavras
Data: 12/03/2026 17:38:26

O ar na sala parecia ter sido sugado por um vácuo invisível no instante em que ele cruzou o batente da cozinha. Minhas mãos, que ainda guardavam o frescor da água de coco e o calor áspero da areia da praia, ficaram subitamente gélidas, presas ao lado do meu corpo. Diante de mim, emergindo da penumbra como uma aparição esculpida pelos meus desejos mais remotos e proibidos, estava ele: Miguel.

​Não era apenas o Miguel que eu guardava nas fotografias mentais do meu primeiro namoro. O homem à minha frente era uma versão jovem, porém aprimorada, de tudo o que ele um dia representou. Se o tempo passa para todos, para Miguel ele pareceu ter trabalhado como um escultor meticuloso. Ele era uma cópia vibrante do próprio irmão, mas com uma vitalidade que transbordava. O impacto visual foi devastador, um soco no estômago que me deixou sem fôlego.

​Miguel ostentava um porte volumoso, mas era um volume distribuído com uma precisão sublime: os ombros largos dominavam o espaço, o peitoral estufava a camisa de forma imponente e os braços, densos, revelavam veias que traçavam caminhos sinuosos sob a pele morena. E aqueles olhos... aqueles olhos pretos, profundos como abismos, que pareciam ler cada pecado que cometi desde que ele partiu, fixaram-se em mim com uma intensidade que fez meu sangue latejar nas têmporas.

​Eu estava paralisado, num transe que misturava a surpresa do susto com uma saudade visceral. O sorriso dele, aquele meio sorriso de quem conhece todos os meus pontos fracos. Era o convite para um abismo que eu já tinha percorrido antes. Eu ia dar um passo, o instinto de me lançar naquele peito largo era quase incontrolável, mas fui bruscamente ultrapassado pela energia do Arthuro.

Tio! — Arthuro exclamou, a voz preenchendo a sala com uma mistura de choque e euforia genuína. Ele se lançou em direção ao Miguel, quebrando o silêncio denso que nos envolvia.

​Miguel soltou uma risada grave, uma vibração que eu senti ressoar no meu próprio peito, despertando memórias de noites em que aquela mesma risada era abafada pelo meu travesseiro.

— Tio não, Arthuro! A gente tem quase a mesma idade, esqueceu? — Miguel brincou, desviando do abraço protocolar para um aperto de mão firme que logo virou um abraço de urso.

​Arthuro coçou a nuca, visivelmente sem graça, mas com um brilho de admiração que beirava a reverência. Enquanto eles se cumprimentavam, eu permanecia em uma órbita neutra, sentindo o peso do olhar de Miguel deslizar por cima do ombro do sobrinho e estacionar em mim. Era um olhar de reconhecimento, de quem sabia que a nossa história não tinha um ponto final, apenas reticências escritas com o suor de anos atrás.

​— Bêr... você não vai me abraçar? — Miguel perguntou. A voz dele desceu um oitava, tornando-se aquela carícia auditiva que sempre me desarmou.

​— Claro que eu vou... — respondi, meus pés finalmente obedecendo.

​Aproximar-me dele foi como caminhar em direção a um incêndio. Quando nossos corpos finalmente se tocaram, o abraço foi uma colisão de eras. Miguel me apertou com uma força descomunal, as mãos grandes espalmadas nas minhas costas, pressionando meu peito contra o volume sólido do dele. Senti o calor da pele dele através do tecido, o cheiro amadeirado e másculo que ele exalava, e por um segundo, o mundo lá fora: o Yan, o Lucas, até o próprio Arthuro, desapareceu. Foi um abraço de conforto, de lembranças, de tudo o que passou e do que, pelo visto, nunca morreu.

​— Desculpa eu não avisar você e nem você, Arthuro, que eu ia chegar — ele disse, afastando-se apenas o suficiente para segurar meu rosto com uma das mãos, o polegar roçando minha bochecha com uma intimidade que fez meu coração disparar.

— Eu pedi ajuda à tia Madalena para fazer essa surpresa. Eu não queria que vocês soubessem. Mas que bom ver você aqui, Arthur.

— Ver você assim... tão bem Bêr...

​Ele percebeu minha neutralidade, aquele estado de choque que me deixava com o olhar vago. Miguel fez questão de não soltar minha mão. Ele a apertou, seus dedos grandes envolvendo os meus com uma firmeza que dizia: "Eu voltei".

​— Tá tudo bem, Bêr? — ele perguntou, buscando meus olhos com uma insistência que me deixava nu.

​— Tá sim... eu só estou surpreso. E muito feliz que você está aqui — respondi, tentando recuperar a compostura enquanto sentia o olhar do Arthuro queimar em nós dois.

— Mas como assim? Por que você não disse nada?

​— É uma longa história, meu querido. Mas eu conto para vocês já já — ele respondeu, lançando um olhar cúmplice para a minha mãe, que observava tudo da porta da cozinha com um sorriso radiante.

​— Eu tenho que agradecer à minha sogrinha, né, tia Madalena? — Miguel brincou, soltando minha mão para abraçá-la.

​Minha mãe riu, uma risada de pura felicidade, e o chamou de filho, como sempre fez. Ali, no centro daquela sala, eu me senti em um redemoinho. O Arthuro me olhava de canto, processando a eletricidade óbvia entre Miguel e eu... ele não desviava o olhar por muito tempo. Cada movimento dele era um lembrete do poder que ele ainda exercia sobre o meu corpo. O almoço de domingo acabava de se tornar o cenário de uma tensão erótica e emocional que eu não sabia se conseguiria suportar sem me entregar.

O ar na sala parecia ter ganhado uma densidade elétrica, daquelas que fazem os pelos do braço se arrepiarem antes de uma tempestade. Eu estava ali, sentado entre o passado e o presente, sentindo os olhares de Miguel e Arthuro convergindo sobre mim como se eu fosse o centro de um alvo. A minha vida, que eu tentava desesperadamente organizar, transformara-se em um caos absoluto. Cada fio que eu puxava para tentar desenredar: O Yan, o Jonas, o Lucas, parecia trazer um nó ainda mais apertado.

​Miguel não era mais apenas o rapaz que eu amei. O tempo e a farda haviam moldado um homem de presença avassaladora. Ele contou, com aquela voz grave que parecia vibrar no meu estômago, sobre a sua transferência. Ele, que agora era policial, deixara o Espírito Santo para se fixar de vez aqui no Rio de Janeiro. A notícia caiu como uma sentença: ele não era mais uma lembrança distante; ele era uma realidade de carne, osso e desejo que estava de volta para ocupar espaço.

​Quando minha mãe nos chamou para o almoço, pedindo ajuda para arrumar a mesa, meu pai agiu com uma rapidez suspeita.

— Não, filho! Fique aí tranquilo com os garotos. Eu ajudo sua mãe — disse ele, lançando um olhar que dizia tudo, menos que estava me ajudando.

Ele estava, na verdade, nos deixando sozinhos naquele campo minado.

​Miguel aproveitou a brecha e se aproximou. Ele sentou-se mais perto, o corpo volumoso quase roçando no meu, enquanto o Arthuro se inclinava do outro lado.

— Podem ficar tranquilos — Miguel disse, com um sorriso enigmático que me fez gelar.

​— Como assim? — perguntei, sentindo o suor frio brotar na nuca.

​— Bêr... o Arthuro já me contou — Miguel disparou, a voz baixa, quase um sussurro para que meus pais não ouvissem da cozinha.

​— Contou o quê? — Senti meu coração martelar contra as costelas.

​— Vocês dois, né? — Miguel completou, olhando fixamente para mim.

​Arthuro deu uma risadinha nervosa, mas carregada de uma possessividade nova.

— Bêr, eu precisava falar com alguém. Mandei mensagem para o Miguel faz um tempo, contando tudo antes mesmo de acontecer. Perguntei como ele se sentiria se a gente... se envolvesse.

​O choque me deixou mudo. Enquanto eu tentava ser discreto, eles já estavam trocando figurinhas sobre o meu corpo e os meus sentimentos por trás das cortinas.

E eu disse que tudo bem, que eu entendia Miguel continuou, inclinando-se para frente, de modo que eu conseguia sentir o calor que emanava do seu peito largo.

— Mas não quer dizer que...

​— Não quer dizer o quê, Miguel? — desafiei, a voz trêmula.

​— Que eu desisti de você, tá? — Miguel sibilou, a vulgaridade do desejo misturada com a autoridade de quem sabe o que quer.

— Só porque eu disse que estava tudo bem, Arthuro, não significa que eu não sinta nada. Pelo contrário. Ver você aqui, agora, só me dá mais certeza do que eu vim buscar.

​Fechei os olhos por um segundo, sentindo o impacto brutal daquelas palavras. Era uma disputa aberta. Dois homens, tio e sobrinho, com corpos vigorosos e cheios de testosterona, declarando guerra pelo mesmo território.

​— O que foi, Bêr? Você não gosta de ser disputado? — Arthuro provocou, os olhos brilhando com um desafio juvenil.

​— Não, nem um pouco — respondi, tentando manter a sanidade. — Eu prefiro não ser disputado, principalmente quando se trata de vocês dois.

Sentamos à mesa. A tensão era tão palpável que quase dava para cortá-la com a faca da carne. Estrategicamente, sentei-me ao lado da minha mãe, deixando Miguel e Arthuro lado a lado, de frente para mim.

​Observar os dois juntos era um exercício de tortura. O Miguel, com aquele corpo de policial, os braços grossos que preenchiam a manga da camisa, as mãos grandes que manuseavam os talheres com uma precisão que me fazia imaginar aquelas mesmas mãos percorrendo minhas coxas. Ao lado dele, o Arthuro, mais jovem, mas com a mesma linhagem de beleza bruta, o vigor de quem estava pronto para me levar na moto e me possuir em qualquer hotel de beira de estrada.

​Eu estava enrascado. Amava o Arthuro, mas o Miguel era o meu alicerce, o homem que me abriu as portas do prazer. E ainda havia o Arthur, irmão do Arthuro, que habitava meus pensamentos com a mesma força. Era um emaranhado de DNA e desejo.

​Durante o almoço, o silêncio era o meu único refúgio. Eu sorria forçado para as piadas do meu pai, mas meus olhos não conseguiam evitar os de Miguel. Ele me olhava com uma fome que não era de comida. De vez em quando, o joelho dele roçava no do Arthuro por baixo da mesa, e eu sabia que ali, naquela disputa de espaço, eles estavam medindo forças.

​Terminamos a refeição. Minha mãe levantou-se para buscar a sobremesa e meu pai, como um fiel escudeiro, foi atrás. Ficamos nós três. O silêncio voltou a ser pesado, carregado pelo cheiro da comida e pelo calor do dia que entrava pela janela.

​Arthuro inclinou-se sobre a mesa, os olhos fixos nos meus, ignorando completamente a presença do Miguel.

— Bêr... vai estar de pé? A gente sai hoje à tarde, né? — perguntou ele, lembrando do convite para o hotel, para a massagem, para a entrega total que tínhamos pactuado na praia.

​Olhei para o Miguel. Ele arqueou uma sobrancelha, o olhar captando cada nuance daquela pergunta. Ele cruzou os braços sobre o peito volumoso, fazendo os músculos saltarem. Ele não disse nada, mas o seu silêncio era um desafio.

​Será que eu vou conseguir?, pensei, sentindo meu pau latejar debaixo da mesa. Eu tinha o convite de um hotel com o sobrinho e o retorno de um grande amor com o tio. A tarde de domingo, que deveria ser de descanso, estava prestes a se transformar em uma maratona de desejos onde eu teria que escolher entre o fogo novo ou a brasa que nunca se apagou.

​— Eu... eu vou tentar dar um jeito — respondi, mas minha voz entregava que o meu controle estava por um fio.

​A resposta de Miguel, carregada de um deboche viril e autoritário, pairou sobre a mesa como uma fumaça densa. Eu posso participar também?, ele perguntou, e o som daquelas palavras fez meu baixo ventre se contrair em um misto de pânico e excitação proibida. Imaginei, por um segundo fugaz, o peso do corpo de Miguel somado ao vigor juvenil de Arthuro sobre mim, uma prensa de músculos, suor e DNA compartilhado.

​— Óbvio que não. É uma coisa só nós dois — Arthuro rebateu prontamente, a voz firme, marcando território como um lobo jovem diante do alfa da alcateia.

​— É... é bem isso — completei, sentindo o suor pinicar na nuca, totalmente desconcertado pela audácia dos dois.

​Miguel apenas sorriu, um sorriso de canto que não chegava aos olhos pretos e intensos. Entendi... mas, durante o dia?, ele soltou, com aquele tom de quem sabe que o jogo está apenas começando. Fomos salvos ou interrompidos, pela chegada triunfal da minha mãe com o petit gâteau. O cheiro do chocolate derretido e o contraste gelado do sorvete de flocos pareciam ironizar o incêndio que acontecia naquela sala.

​Miguel devorava a sobremesa com uma volúpia que me fazia desviar o olhar. A forma como ele passava a língua nos lábios, saboreando o doce, era um gatilho para memórias de como ele me saboreava anos atrás. Eu precisava de ar. Pedi licença e me refugiei no banheiro. Tranquei a porta e encostei as costas na madeira fria, tentando normalizar a respiração. Peguei o celular com as mãos levemente trêmulas. Eu precisava de espaço na agenda para o que quer que esse domingo se tornasse.

Abri a conversa com o Lucas.

​— Eu: Oi, Lucas. Boa tarde, tudo bem? Cara, preciso te pedir um favor imenso. Será que amanhã você consegue lecionar todas as aulas no período da manhã para mim?

Houve uma emergência pessoal aqui e eu só vou conseguir chegar na escola no período da tarde. Se você puder assumir esse turno, eu te agradeço muito mesmo.

​Não demorou nem trinta segundos para o celular vibrar.

​— Lucas E aí, Bernardo! Aconteceu alguma coisa séria? Você parece preocupado.

​— Eu: Nada muito grave, Lucas, mas é algo que preciso resolver e vou precisar chegar tarde. Coisas de família que voltaram à tona, sabe?

​Lucas: Entendi. Fica tranquilo, cara. Eu dou conta de tudo por lá, sem problema algum. A gente se ajuda, né? Só me diz uma coisa: o que eu passo para as turmas? Preciso do conteúdo.

​— Eu: Está tudo organizado na pasta azul, lá na sala dos professores. Tem o cronograma e os exercícios. Você assume a manhã e eu chego no horário do almoço para a gente continuar o turno. Pode ser?

​— Lucas: Combinado então. Conteúdo na pasta azul. Resolve seus problemas aí com calma. Bom domingo para você!

​— Eu: Obrigado, Lucas. Você quebra um galhão. Até amanhã!

Bloqueei a tela. Lavei o rosto com água gelada, observando as gotas escorrerem pela minha pele. O Lucas era sempre tão solícito... e pensar que, na noite anterior, eu estava observando o peso daquela pica gigante dele. Sorri involuntariamente para o reflexo no espelho, mas o sorriso morreu quando ouvi batidas na porta.

Abri a porta e dei de cara com o Arthuro. Ele parecia um leão enjaulado naquele corredor estreito.

​— Vamos? — ele sussurrou, a urgência pulsando em sua voz.

​— Arthuro, então... — comecei, sentindo a culpa pesar. — O Miguel chegou agora. Ele não tem onde ficar, e eu não me sinto bem saindo assim, deixando ele aqui com meus pais.

​— Ah, não, Bêr! Você vai desistir de hoje? Por causa dele? — A frustração dele era quase tátil.

— Ele pode ficar lá em casa, eu já disse.

​— Você sabe que o Miguel e seu pai não se dão bem, Arthuro. E eu não estou me sentindo tão bem assim agora, minha cabeça está um turbilhão.

​— Quer dizer que você vai desistir de mim por causa do meu tio? — ele perguntou, e havia uma mágoa sensual naquele olhar, como se ele já estivesse sentindo a falta do meu corpo.

​— Não, você está maluco. Eu só preciso adiar. Você me entende, né? — Toquei o braço dele, sentindo a pele quente e a musculatura rígida.

​— Eu entendo... — ele suspirou, derrotado.

— Mas não pense que eu vou esquecer o que a gente combinou hoje.

Voltamos para a sala. Meus pais já faziam planos para o Miguel ocupar a kitnet nos fundos. Arthuro, visivelmente incomodado com a presença dominante do tio, decidiu ir embora.

​— Vamos lá fora, tio. Pelo menos para você ver a minha moto — desafiou Arthuro.

​— O quê? Você tem uma moto? Vamos ver essa máquina — Miguel levantou-se. O porte dele era absurdo. A calça jeans marcava as coxas grossas, o caminhar era decidido, exalando a autoridade de quem carrega um distintivo, mesmo de folga.

​Eles saíram. Fiquei sete minutos ajudando com a louça, mas meus pés me levaram para o quintal. O sol de domingo iluminava a cena: Miguel agachado, analisando a moto com um olhar técnico, e Arthuro de pé, com as pernas afastadas, vigiando cada movimento do tio.

​Aproximei-me. Miguel levantou-se e limpou as mãos, o olhar subindo pelas minhas pernas até encontrar meus olhos.

— Bela máquina, Arthuro. Mas acho que o Bernardo prefere algo com mais... torque — Miguel provocou, dando um passo em minha direção.

​Arthuro montou na moto e o ronco do motor ecoou pelo quintal, agressivo e possessivo.

— O Bêr gosta de adrenalina, tio. Ele sabe quem sabe pilotar — Arthuro rebateu.

​O ronco da moto do Arthuro novamente vibrava no ar, mas o silêncio que se instalou entre nós três no quintal era muito mais ruidoso. Arthuro, percebendo que o território estava sendo invadido por uma força que ele ainda não sabia como combater, deu um passo em minha direção. Ele ignorou a presença imponente de Miguel por um segundo, seus olhos fixos nos meus, buscando uma garantia que eu mal conseguia dar.

​Ele se certificou de olhar ao redor, verificando se meus pais ainda estavam na cozinha, e se aproximou o suficiente para que eu sentisse o calor que emanava do seu corpo após o almoço.

— Eu já vou indo, Bêr — ele sussurrou. Antes que eu pudesse reagir, ele inclinou o rosto e me deu um beijo no rosto, mas deslizou propositalmente até o canto da boca, um toque úmido e possessivo que fez meu coração errar a batida.

Miguel, que observava tudo com os braços cruzados sobre o peito volumoso, soltou uma risada carregada de ironia.

— Ah, já chega, né? Mas por que já vai, Arthuro? A conversa estava boa — provocou o tio, com aquele tom de que sabe que está ganhando o interrogatório.

​— É como eu disse, quero aproveitar o restante do final de semana com meu pai e com o Arthur — respondeu o sobrinho, mantendo a postura.

​— Eu entendo... — murmurei, ainda sentindo o formigamento do beijo dele. — Arthuro, se você quiser, à noite...

​— Ok? — ele interrompeu, com uma ponta de esperança.

​— Depois eu te mando mensagem, tá bom? — Segurei a mão dele por um breve instante, devolvendo o beijo no rosto. Senti a firmeza dos seus dedos antes de soltar.

​— Tá bom, só não esquece — ele avisou, lançando um último olhar de desafio para Miguel.

​Miguel deu um abraço forte no sobrinho, um gesto que parecia tanto um carinho quanto uma medição de forças.

— Até, viu? Se cuidem. A moto é muito bonita mesmo. Em breve trago a minha de volta, você lembra, né?

​— Porra, a sua é ótima também! — Arthuro riu, lembrando da máquina do tio. Ele montou na moto, deu um ronco seco e potente no motor e partiu, deixando o quintal subitamente vazio e silencioso.

Miguel virou-se para mim lentamente. O sol batia de lado em seu rosto, destacando a mandíbula bem desenhada e o brilho intenso daqueles olhos pretos.

— Bernardo... agora somos só nós dois — ele disse, e a voz dele pareceu vibrar no chão sob meus pés.

​— Não seja bobo, Miguel. Somos eu, você, meu pai e minha mãe — retruquei, tentando usar o humor para disfarçar o tremor nas mãos.

​— Aqui fora, né. Mas a gente precisa conversar de verdade, não acha? — Ele deu um passo à frente, invadindo meu espaço pessoal. O cheiro dele, uma mistura de sabonete e o suor leve do calor, inundou meus sentidos.

​— Sim... mas vamos entrar. Vamos lá para o meu quarto, a gente conversa com mais calma lá em cima.

​Entramos na casa. Meus pais ainda estavam na sala, e Miguel, com sua lábia impecável, parou para trocar mais algumas palavras com eles, sentando-se no sofá por um instante. Aproveitei essa brecha. Peguei meu celular e, com os dedos voando, mandei a mensagem para o Arthuro:

— Eu: Arthur, amanhã vou trabalhar mais tarde. O que acha de hoje à noite nos encontrarmos na praça? Eu, você, o Miguel e o Arthur. Acho que vai ser legal nos reunirmos novamente, mas não conta pro Arthur que o Miguel já voltou! Vamos fazer essa surpresa para os dois.

​A resposta veio quase instantaneamente: uma curtida com um coração. O tabuleiro estava montado. Guardei o celular e olhei para Miguel.

​— Vamos lá em cima? — chamei.

​Ele se levantou com uma agilidade que contrastava com seu tamanho.

— Vamos. Com licença, tia Madalena, daqui a pouco a gente desce.

Subimos a escada em silêncio. Eu conseguia ouvir o som dos passos pesados dele logo atrás de mim. Cada degrau parecia aumentar a pressão no meu peito. Entramos no meu quarto e eu fechei a porta, o clique da fechadura soando como o início de um novo capítulo.

​Miguel não esperou. Ele não se sentou na cadeira ou na beirada da cama. Ele simplesmente parou no meio do quarto, olhando ao redor, absorvendo o meu cheiro, o meu espaço. Depois, seus olhos voltaram-se para mim.

​— Seu quarto mudou, mas o clima aqui continua o mesmo — ele sussurrou, dando um passo lento em minha direção.

​Ele estava ali, a poucos centímetros. O volume do peitoral dele era quase intimidante sob a camisa. Eu conseguia ver a pulsação na base do seu pescoço. O erotismo daquela situação era sufocante; era o homem que me ensinou o que era o prazer, de volta ao lugar onde tudo começou.

​— Miguel... — comecei, mas ele colocou um dedo sobre meus lábios. A pele dele estava quente e áspera.

​— Shh... Não fala nada agora, Bêr. Eu passei meses imaginando esse momento. Imaginando se você ainda tinha esse brilho nos olhos quando ficava nervoso perto de mim.

​Ele deslizou a mão da minha boca para o meu pescoço, os dedos grandes envolvendo minha nuca, puxando-me levemente para mais perto até que nossas respirações se misturassem. O brilho nos olhos dele era de uma fome antiga, uma sensualidade crua que o tempo no Espírito Santo só fez aumentar. Eu sentia o calor que emanava dele, uma promessa silenciosa de que as conversas seriam deixadas para depois, e que o corpo dele tinha muito mais a dizer do que as palavras.

​A porta fechada atrás de nós parecia isolar o resto do mundo, mas o silêncio era habitado por fantasmas. Miguel estava ali, a poucos centímetros, a presença dele ocupando cada fresta de oxigênio do meu quarto. A volúpia que emanava dele era quase sólida, uma pressão invisível que me empurrava contra a parede das minhas próprias escolhas.

​— Miguel, para — eu sussurrei, mas minha voz não tinha a firmeza que eu pretendia.

​— O que foi? — ele perguntou, a voz rouca, vibrando num registro que eu conhecia bem.

— Você sabe que eu não vim aqui só para ver sua mãe. O Arthuro me disse que vocês não têm nada sério. Pelo menos foi o que ele me passou. Vocês têm?

​A pergunta era uma armadilha. Olhei para aqueles olhos pretos, que pareciam querer devorar minha hesitação.

— Miguel, não é só sobre o Arthuro. É sobre mim. Você realmente acha que depois de todo esse tempo, de você ter partido, tudo continua igual?

Ele não recuou. Pelo contrário, deu um passo que eliminou qualquer espaço de segurança, segurando minha cintura com aquelas mãos fortes e firmes, autoritárias, mas que carregavam um calor que me fazia derreter.

— Eu não acho que nada está igual, Bernardo. Pelo contrário... o desejo está maior. Muito maior.

​Nesse instante, senti o corpo dele. Uma pulsada nítida, rígida, pressionando contra o meu abdômen através das roupas. Foi um choque elétrico. Eu ri, uma risada nervosa e carregada de desejo, e desci minha mão, segurando o volume por cima da bermuda dele.

— Tá bem maior mesmo — murmurei, sentindo o latejar sob a palma da minha mão.

​Ele soltou uma risada curta, mas logo a seriedade tomou conta do seu rosto. Ele segurou meu queixo, forçando-me a encará-lo.

— Deixa de bobeira... e me deixa fazer uma coisa que eu estou com muita vontade.

​Antes que eu pudesse protestar, os lábios de Miguel encontraram os meus. Não foi o beijo bruto de um estranho, mas o beijo de quem conhece o caminho. Foi calmo no início, uma exploração tátil onde nossas línguas se encontraram e se enroscaram como se estivessem recuperando o tempo perdido. O toque físico era eletrizante; a textura da pele dele, o cheiro de homem maduro, o gosto da saudade. Quando nos afastamos, ambos estávamos com a respiração errática.

​— Beijo com gosto de saudade, né? — ele sussurrou contra meus lábios.

​— É... mas vamos conversar antes de qualquer coisa — respondi, tentando retomar o controle.

Sentamos na beira da cama, onde tantos segredos já haviam sido guardados. Miguel me observava com uma intensidade que me deixava nu. Decidi abrir o jogo. Falei sobre a liberdade com que vivia agora, sobre o Yan, que eu tinha acabado de deixar para trás, e sobre a imensidão do que eu sentia pelo Arthuro.

​— Isso é um perigo para você — Miguel me repreendeu, o tom protetor de antigamente voltando à tona. — Junto com o Arthuro vêm outras coisas. Você sabe o peso das responsabilidades que a gente já dividiu para você ficar bem.

​— Miguel, por favor, não me lembra disso. Águas passadas. Eu assumo as minhas responsabilidades agora — retruquei, sentindo um nó na garganta.

— Mas deixa eu continuar. Eu não estou só com o Arthuro. Existe outra pessoa...

​— Você gosta dessa outra pessoa? — ele me cortou, os olhos faiscando.

— Se você estiver apaixonado, se quiser algo real, eu vou respeitar. Mas se for só o Arthuro... me desculpa, Bernardo, eu vou lutar pelo seu amor.

​As palavras dele caíram como bombas. O silêncio que se seguiu foi pesado.

— A questão não é você lutar, Miguel. A questão é que hoje o que eu sinto pelo Arthuro é muito grande. Eu quero respeitá-lo, assim como sempre respeitei você.

​— Você sempre me respeitou — ele admitiu, a voz amolecendo.

— Tivemos algo lindo.

​— Mas não tem mais, Miguel. Somos ex-namorados. Estamos em momentos diferentes. Não pense que você vai resgatar tudo o que deixamos para trás — eu disse, embora meu corpo gritasse o contrário.

— Talvez você consiga me reconquistar, porque se eu disser que não sinto nada, é mentira.

​Ele pegou meu rosto com as duas mãos, os polegares traçando círculos nas minhas maçãs do rosto.

— Você sente? — ele perguntou, a voz carregada de uma esperança dolorosa.

​Olhei bem no fundo daqueles olhos pretos e deixei a armadura cair.

— Eu sinto. Desde a hora que te vi na cozinha, minha vontade era de te abraçar e não soltar mais. De te beijar até perder o fôlego. Só de estar aqui do seu lado, meu corpo parece que não me pertence mais. Mas preciso ser firme... por mim, por você e pelo Arthuro. Não quero ser um objeto de disputa entre tio e sobrinho.

Miguel se aproximou mais, seu hálito quente batendo no meu rosto.

— Eu entendo... mas enquanto vocês não têm nada sério, eu ainda posso desfrutar de você comigo?

​Eu ri, uma risada triste.

— Eu não sou prato de comida, Miguel.

​— Não foi isso que eu quis dizer — ele corrigiu, a voz urgente.

— Quis dizer que enquanto não há um compromisso, eu ainda quero você. Eu nunca deixei de te amar, Bernardo. Você sabe disso.

​— E nem eu deixei de te amar — confessei, e a verdade daquelas palavras pareceu rasgar meu peito.

— Mas existem outras pessoas, outros obstáculos...

​Miguel me envolveu em um abraço protetor, encostando a boca no meu ouvido. O calor do peito dele contra o meu era um convite ao pecado.

— Esquece todo mundo. Me olha... eu estou aqui na sua frente, de novo.

​— Mas a qualquer momento você pode ir de novo e me deixar — a voz me falhou e uma lágrima solitária desceu pelo meu rosto, queimando a pele.

— Você pode me deixar sozinho de novo, Miguel.

​— Não chora, Bêr... por favor — ele implorou, limpando a lágrima com o lábio, um toque tão terno e sensual que me fez estremecer da cabeça aos pés.

​Ele me puxou para mais perto, suas mãos descendo para a base da minha coluna, apertando-me contra sua ereção pulsante. O erotismo daquele momento era uma mistura de dor e prazer absoluto. O olhar dele estava fixo no meu, um brilho de determinação e conquista que dizia que, naquela tarde, o passado não aceitaria ser ignorado.

​A respiração pesada de Miguel era o único som que preenchia o quarto, além do meu próprio pulso martelando nos ouvidos. Quando ele me puxou, não houve resistência. Eu me entreguei àquela força familiar, àquela gravidade que Miguel exercia sobre mim. Seus lábios abandonaram os meus para traçar um caminho de fogo pela minha mandíbula, descendo pelo pescoço com beijos úmidos e sucções leves que me faziam arfar.

​— Miguel... — meu gemido foi um sussurro de rendição.

​— Não me para, Bêr. Deixa eu continuar — ele murmurou contra a minha pele, a voz rouca de uma necessidade antiga.

— Você não faz ideia de como eu senti saudade da sua pele, do seu cheiro.

​Eu não conseguia formular frases completas; apenas repetia eu também, enquanto minhas mãos exploravam a largura das costas dele, sentindo a musculatura tesa sob o tecido. Num movimento ágil e potente, Miguel me puxou para o seu colo. Instintivamente, cruzei minhas pernas ao redor da cintura dele, sentindo o volume rígido da sua masculinidade pressionar diretamente contra mim. Estávamos colados, coração contra coração, e o calor que emanava de nossos corpos parecia fundir as roupas que ainda nos separavam.

​Eu estava completamente entregue. Levei meu rosto até a orelha dele, mordendo o lóbulo levemente, sentindo-o estremecer sob mim.

— Como eu senti sua falta, Bêr... como eu quero você agora — ele confessou, as mãos grandes apertando minhas coxas com uma possessividade que me fez despertar.

​Aquelas palavras, como eu quero você, agiram como um balde de água fria na minha consciência. O rosto do Arthuro lampejou na minha mente.

— Miguel, para — eu disse, desta vez com uma nota de lucidez que o fez estancar.

​Ele me olhou com os olhos nublados de espanto, uma expressão de pura incompreensão.

— Como parar? Você já está aqui, no meu corpo, sentada sobre mim... — Ele soltou uma risada curta, incrédulo, sentindo meu peso sobre sua ereção pulsante.

​— Tá... mas eu... — Fui me ajeitando, deslizando para fora do colo dele, sentindo o atrito que ainda me fazia vibrar. Quando me afastei, olhei para a janela.

​O sol de minutos atrás havia desaparecido. O céu estava de um cinza carregado e a chuva batia com violência contra o vidro da janela.

— Como assim está chovendo? — perguntei, mais para mim mesmo do que para ele.

​— Isso deve ser uma chuva de verão, Bêr. Depois do sol, vem a água — ele disse, levantando-se e parando logo atrás de mim.

​Miguel colou o peito nas minhas costas. Senti o calor dele me envolver como um manto. Ele repousou o rosto ao lado do meu, sua barba rala roçando minha bochecha, enquanto as duas mãos grandes espalmavam-se na minha cintura, prendendo-me contra o parapeito.

— Que foi? Você tem algum problema com a chuva? — ele soprou no meu ouvido.

​— Não é nada, mas... já são quase cinco horas. Eu queria sair ainda hoje e você ia comigo.

​Virei-me no espaço apertado entre ele e a janela. O rosto dele estava a milímetros do meu, a pele morena destacada pela luz difusa da tempestade.

— Eu queria reunir a gente, Miguel. Eu, você, o Arthur e o Arturo. Achei que seria legal — expliquei, sentindo o magnetismo dele me puxar de volta.

​— Ah, a gente vai fazer isso, mas na praça com essa chuva não vai rolar — ele ponderou, mas logo o brilho de ciúme voltou.

— Mas me diz... o que você e o Arthuro iam fazer? Só vocês dois?

​— Ai, Miguel, isso não é da sua conta — ri, tentando aliviar a tensão.

​— Ainda bem que não vão fazer nada hoje — ele rebateu com um sorriso vitorioso, voltando a se sentar na cama, observando cada movimento meu.

​Peguei o celular. Havia uma mensagem do Arthuro comentando sobre a chuva e reforçando que queria estar comigo, "só nós dois". Respondi de forma curta, adiando nosso encontro para a semana. Quando bloqueei a tela, vi o olhar de Miguel fixo em mim, uma mistura de paciência e predador à espreita.

​— De onde a gente parou? — perguntei, tentando quebrar o gelo.

— Do beijo? — ele sugeriu, com os dentes brancos brilhando num sorriso malicioso.

​— Não, não é isso. Você consegue entender o que eu sinto?

​Miguel ficou sério. Ele se levantou e segurou minhas mãos, os dedos entrelaçados nos meus. O toque era firme, seguro.

— Bêr, eu entendo tudo o que você quiser me dizer. Vou te respeitar em tudo, mas quero que saiba de uma coisa: enquanto você não tiver um anel no dedo ou disser que está casado, eu não vou desistir. Eu amo o Arthuro, ele é meu sobrinho favorito, mas ele sabe que eu sempre gostei de você. Antes mesmo dele pensar em você... antes mesmo do pai dele...

​— Miguel, não me lembra do Juan, por favor — interrompi, sentindo um calafrio ao ouvir o nome do pai do Arthuro. A relação com aquela parte da família sempre foi um campo minado.

​— Tá bom, não falo. Mas ele ainda anda te perturbando? Porque da última vez...

​— Ele tentou, mas eu ignorei. Pode ficar tranquilo — respondi, buscando segurança no olhar de Miguel.

​Ele se aproximou novamente, mas desta vez não havia apenas urgência sexual; havia uma proteção silenciosa. Ele passou a mão pelo meu cabelo, descendo o toque pela lateral do meu rosto até o pescoço, onde seu polegar acariciou meu pulso acelerado. O contraste entre a tempestade lá fora e o calor sufocante do quarto criava uma atmosfera de intimidade perigosa.

​Miguel inclinou a cabeça, os lábios quase tocando os meus, mas parou para me olhar nos olhos. O sorriso dele era terno agora, mas os olhos guardavam a mesma promessa erótica de antes.

— Se o Juan ou qualquer um tentar algo, você me avisa. Mas agora... esquece eles. Foca aqui — ele sussurrou, e o toque de sua mão desceu lentamente pelas minhas costas, parando na base da coluna, puxando-me para um abraço que não era apenas de saudade, mas de uma posse que eu já não sabia se queria evitar.

No quarto, o ar ainda vibrava com a confissão do Miguel, mas eu sentia que precisava de um momento de respiro. Meus pensamentos eram um emaranhado de desejos e responsabilidades.

​— Miguel, vamos sair desse quarto — eu disse, tentando recuperar uma sobriedade que meu corpo relutava em aceitar. — Minha mãe e meu pai estão aqui embaixo, tem gente em casa, não é o momento.

​Ele arqueou uma sobrancelha, aquele sorriso ladino brincando nos lábios.

— E o que é que tem? A gente já fez tanta coisa com eles em casa no passado, Bernardo. Esqueceu das vezes que a gente se escondia?

​Eu ri, balançando a cabeça. O peso daquelas lembranças era doce, mas perigoso.

— Mas nós éramos mais jovens e inconsequentes, Miguel. Vamos logo.

​Ele se jogou na minha cama por um segundo, espreguiçando-se com uma volúpia que fazia os músculos da regata esticarem.

— Tá... mas só porque essa cama está tão gostosa hoje.

​— Você deve estar cansado, né? A viagem, a mudança... — comentei, observando-o.

​— Só um pouco, nada que eu não consiga lidar. Vamos — ele se levantou, a energia masculina dele preenchendo o corredor enquanto descíamos.

​Ao sair do quarto, senti uma paz momentânea. Por agora, a tempestade emocional entre nós parecia ter encontrado um ponto de equilíbrio, uma trégua silenciosa. Mas lá fora, a chuva de verão havia decidido ficar. As gotas batiam pesadas contra o telhado, selando a casa.

​Na sala, tudo estava em ordem. Meus pais descansavam no sofá, imersos naquele clima preguiçoso de fim de domingo diante da TV. Miguel, com seu jeito sempre solícito, avisou que ia até a kitnet nos fundos.

— Vou lá dar uma olhada nas minhas malas e tomar um banho rápido. Qualquer coisa, você vai lá ver, né Bêr? — ele piscou.

​Minha mãe, sempre atenta, interveio prontamente:

— Miguel, como eu te falei, você pode ficar aqui esses dias. Você é da família. Suas coisas ainda estão nas malas, não é?

​— É, tia, só tenho o que trouxe nas bolsas por enquanto. Vou aceitar sim, facilita muito.

​— Pois então, trás suas coisas eu arrumo um colchão para você aqui na sala agora mesmo — ela sugeriu.

​Eu intervi imediatamente. A ideia de ter o Miguel ali no meio da sala, onde qualquer um passava, não parecia certa — ou talvez eu só o quisesse mais perto.

— Mãe, melhor não. Ele pode ficar lá no quarto, a gente arruma a cama dele no meu quarto. Amanhã a gente levanta cedo, e se ele quiser descansar um pouco mais, lá ele fica mais tranquilo, sem barulho.

​— Tá bom então, filho. Vocês se organizam — ela sorriu, voltando para a TV.

​Miguel saiu pela porta da cozinha, que dava acesso direto ao quintal e à kitnet. Fiquei um momento conversando com meus pais, comentando como a surpresa tinha sido boa e o quanto o Miguel era um bom garoto, como minha mãe dizia. Mas o cansaço começou a pesar.

Subi para o meu quarto com uma missão. Fui até o quarto dos meus pais, peguei o colchão extra e o arrastei para o meu refúgio. Coloquei-o no chão, exatamente ao lado da minha cama. Enquanto esticava os lençóis e ajeitava o travesseiro, um pensamento atrevido cruzou minha mente: Se bem que nem precisava desse colchão. A gente já dividiu tanto espaço, já dormimos tantas vezes enrolados um no outro...

​Ri sozinho da minha própria audácia. Entrei no banheiro e tomei um banho rápido, deixando a água morna relaxar meus ombros. Vesti minha bermuda de dormir leve, meu pijama ritual. Pensei no Lucas, na aula de amanhã, no Arthuro e na chuva que cancelou nosso encontro. O destino parecia querer me prender ali, naquele quarto, com aquele homem.

​Deitei-me na cama e esperei. Pouco tempo depois, ouvi a batida firme na porta.

— Pode entrar — anunciei.

​Miguel entrou, exalando cheiro de banho tomado. Ele estava apenas de bermuda e uma regata que deixava seus braços morenos e volumosos totalmente à mostra. A pele dele parecia brilhar sob a luz suave.

— Sua mãe me falou que eu já podia vir para cá — ele disse, com a voz baixa.

​— Tá, sem problemas. Só que você vai dormir aqui, tá? — apontei para o colchão no chão, tentando manter uma distância que minha pele implorava para quebrar.

​Ele se aproximou, parou ao lado da cama e me olhou de cima para baixo.

— Sério que você vai fazer isso comigo, Bernardo? Me jogar no chão? — ele riu, uma risada alta, e se ajoelhou sobre o colchão.

​Ele ensaiou um movimento para subir na cama, mas eu permaneci firme. Miguel então se levantou, foi até a porta e girou o trinco. O som do metal se encaixando pareceu ressoar em todo o quarto.

— Para a gente ter mais privacidade... — ele justificou, os olhos pretos fixos nos meus enquanto ele voltava para o seu lugar no chão.

​— Deixa de ser bobo, Miguel — eu brinquei, mas meu coração estava acelerado.

​— Eu realmente estou um pouco cansado — ele admitiu, sentando-se no colchão e apoiando as costas na lateral da minha cama. — Mas queria assistir alguma coisa.

​— Já sei, você não dorme sem uma tela ligada. Pode usar minha conta da Netflix.

​— Posso desligar a luz? — ele perguntou, já esticando o braço para o interruptor.

​— Pode.

O quarto mergulhou na escuridão, iluminado apenas pelo brilho azulado e frio da televisão. Miguel navegou pelos títulos até encontrar uma série que estava acompanhando. O som da chuva lá fora era o acompanhamento perfeito para aquele momento.

​Eu estava deitado na minha cama, olhando para o teto, enquanto ele estava lá embaixo, no chão. A diferença de altura criava uma dinâmica de poder silenciosa. Eu conseguia sentir o calor dele subindo, uma presença sólida e masculina bem ao lado da minha mão.

​— Bernardo... — ele chamou, a voz saindo mais profunda na penumbra.

​— Hum?

​— Está muito ruim para ver a televisão daqui — ele reclamou, e eu senti o movimento dele se ajeitando no colchão lá embaixo.

— Meu pescoço fica muito torto aqui no chão. Não dá para acompanhar a legenda desse jeito.

​Eu ri, sabendo exatamente onde ele queria chegar.

— Você está criando história, Miguel. É só se ajeitar melhor aí.

​— Não é história, Bêr. É que o ângulo está péssimo — ele disse, e eu percebi que ele não estava olhando para a TV.

​Ele virou o rosto para cima, e a luz da tela refletiu em seus olhos pretos, que me fitavam com uma intensidade devoradora. Ele esticou a mão e apoiou os dedos na borda do meu colchão, bem perto do meu braço. O toque era leve, mas carregado de uma intenção que as palavras não diziam.

​— Meu pescoço fica muito aqui embaixo... e você aí em cima, tão longe — ele sussurrou, e eu senti um arrepio percorrer minha espinha.

​A distância entre a cama e o chão parecia diminuir a cada segundo que passávamos naquele silêncio compartilhado, onde o único movimento era o brilho da TV e o ritmo compassado da nossa respiração, enquanto a chuva continuava selando o nosso encontro.

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