O Uber a deixou a dois quarteirões de distância. Natália puxou a aba do boné para baixo, seus óculos de sol enormes parecendo uma armadura patética. Caminhou rapidamente pelas ruas negligenciadas, as fachadas em ruínas dos prédios refletindo a decadência de sua alma. 'Ninguém do meu mundo jamais estaria aqui', pensou, mas a paranoia de ser reconhecida era um fio desencapado sob sua pele.
O motel se chamava “Paraíso”. A ironia era cruel. Era uma estrutura térrea em forma de L, com a pintura amarela descascando e aparelhos de ar-condicionado enferrujados pingando água no pavimento rachado. A “área de lazer” era uma laje de concreto com uma mesa de plástico e duas cadeiras quebradas, sombreada por uma lona caída. E lá estava ele.
Samuel sentou-se em uma das cadeiras, observando a entrada com a paciência predatória de uma aranha. Quando a viu, seu rosto se transformou completamente. Um sorriso largo e alegre se abriu, revelando seus dentes amarelados e tortos. Ele começou a se levantar, ansioso.
— Para! — ordenou Natália, com a voz mais áspera do que se sentia. Ela ergueu a mão. — Fique aí.
Ele congelou, depois afundou lentamente na cadeira, o sorriso se desfazendo apenas um pouco. Ela escolheu a outra cadeira, colocando a mesa de plástico frágil entre eles como uma barricada. Ela podia sentir o cheiro do motel — mofo, cigarros velhos e o leve e adocicado odor de lixo em decomposição. Ela podia sentir o cheiro dele: cabelo sem lavar e sabonete barato.
— Você veio, amor — disse ele, a voz um murmúrio baixo de satisfação.
— Não me chame assim — ela retrucou, o termo carinhoso soando como um tapa. — Eu vim em busca de respostas. O que… o que foi isso? O que você fez comigo?
Ele se inclinou para a frente, os cotovelos sobre a mesa, os olhos pequenos e intensos a devorando. A confissão jorrou, um fluxo tóxico que ela não conseguiu conter.
— Sempre foi você, Naty. Desde que éramos crianças. Eu te observava. Eu te conhecia. Cada namorado que você teve, cada beijo… aquilo me consumia por dentro. — Suas palavras eram fervorosas, fanáticas. — Eu me tocava todas as noites, pensando em você. Nisso. Eu sabia que éramos feitos um para o outro. E então… você ficou noiva.
A admissão casual de anos de voyeurismo e masturbação deveria tê-la horrorizado. Horrorizou. Mas também lhe causou um arrepio traiçoeiro e quente na espinha. Ela cruzou as pernas com força.
— Você é louco — sussurrou ela.
— Talvez — ele deu de ombros, um gesto grotesco de aceitação. — Mas quando soube que você ia se casar, eu sabia que ia te perder para sempre. Eu não podia deixar isso acontecer. Então fiz o que tinha que fazer.
Ele contou a ela sobre o fórum do Reddit, os ingredientes, as semanas economizando. Sobre a poção. O ingrediente final e crucial. Natália escutou, sua descrença se transformando em uma certeza fria e doentia.
— Uma poção? — ela sibilou, sua compostura se estilhaçando. Ela se levantou num pulo, a cadeira arrastando ruidosamente. — Você me drogou? Você me deu alguma… alguma bruxaria para poder me usar?
A constatação pairou no ar úmido, feia e verdadeira.
— Você poderia ter me dado uma doença! — ela vociferou, a voz se elevando. — Eu sei que você frequenta aquele bordel imundo! E as mensagens? A foto? O assédio? E eu… eu… fiquei lembrando daquela tarde… me odiando… e mesmo assim… me tocando, tentando entender que diabos você tinha feito comigo! — Ela engasgou com a confissão de sua própria masturbação secreta e vergonhosa. — Vou mandar te prender! Vou te arruinar!
Durante todo o seu discurso, Samuel apenas a observou. E então ele sorriu novamente. Não um sorriso alegre agora, mas um sorriso lento e depravado de pura superioridade.
— Por que você está sorrindo? — ela perguntou, o peito arfando.
— A poção, Naty — ele disse, em um tom quase casual. — Tinha efeito passageiro. Só o suficiente para aquela primeira vez. Para… abrir a porta. — Ele recostou-se, abrindo as mãos. — Tudo depois? A ansiedade? Os pensamentos? Você me querendo? Isso é tudo você, amor. Essa é a verdadeira você.
O mundo girou. A respiração de Natália escapou de seus pulmões num sopro. A energia furiosa que a impulsionara evaporou, deixando uma compreensão vazia e aterradora. Ele tinha razão. O calor da poção havia se dissipado horas depois de ela fugir. Os desejos que se seguiram, as fantasias degradantes, a atração implacável pela imagem dele em seu celular… aquilo era a sua própria mente. Sua própria carne corrompida.
Ela sentou-se pesadamente, a cadeira de plástico rangendo. Estava estática, derrotada.
Samuel viu sua oportunidade. Levantou-se e caminhou lentamente ao redor da mesa. Ela não se moveu. Parou ao lado da cadeira dela, seu corpo irradiando um calor fétido e familiar. Sua mão, calejada e áspera, repousou em sua coxa, logo acima do joelho. O toque queimou através de suas calças de linho.
Ela estremeceu, mas não o afastou.
Os dedos dele deslizaram por seu braço, até o ombro, apertando o músculo tenso. Ele se inclinou, aproximando o rosto do dela. O cheiro de seu hálito — café velho e negligência — a envolveu. Era repulsivo. Fez seu clitóris pulsar.
— Você veio por mim — murmurou ele, os lábios a centímetros dos dela. — Você gozou por mim. Somos iguais. Feitos um para o outro.
A outra mão dele envolveu seu queixo, o polegar acariciando sua bochecha. Seu toque era possessivo, reivindicatório. Os olhos de Natália se fecharam. Uma guerra se travava dentro dela — uma vida inteira de orgulho e decoro gritando em protesto, sufocada pela verdade escura e úmida que ele acabara de confirmar. Esse era o seu desejo. Feio, vil e inegável.
— Eu quero você de novo, Naty — ele respirou fundo. — Minha linda e perfeita puta.
Ele fechou o último centímetro.
O beijo não tinha nada a ver com o de Marco. Era exigente, molhado, seus lábios rachados se movendo com força contra os dela. Sua língua invadiu a boca dela, com gosto de menta barata e algo fundamentalmente dele. Um gemido, suave e desesperado, vibrou na garganta de Natália. Então, suas mãos, que estavam cerradas em seu colo, subiram. Não empurraram. Acomodaram-se em seu peito, sentindo a parede sólida e peluda sob sua camisa fina.
E então ela retribuiu o beijo.
Seus lábios se entreabriram, aceitando a invasão. Sua própria língua encontrou a dele timidamente, e o gosto, antes repugnante, agora acendeu um fogo em seu estômago. Ela o beijou com uma fome que destruiu sua última pretensão, seus dedos se enroscando no tecido da camisa dele, puxando-o para mais perto.
Continua...